Queremos mais

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Seu Mércio, guarda de rua da Aberta dos Morros, está em abstinência. Agora pela manhã, ele foi comprar carga para o celular no bar do Ananias e se queixou:

– Estamos há quase 24 horas sem um novo grampo.

Os grampos do mafioso Sérgio Machado são o que temos de melhor do governo Temer até agora. Mas seu Mércio tem uma pergunta que o Brasil todo faz todos os dias:

– Por que nunca aparece um grampo com fala de tucano?

Talvez porque o tucano seja uma ave que não pia, ou pia e ninguém grava, ou grava e depois desgrava. Fiquemos então com os grampos velhos. Seu Mércio acha que o melhor é o do Sarney, porque passa mais respeito.

Eles riem do quê?


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A frase é do mafioso Sérgio Machado, na conversa que grampeou com o então senador Romero Jucá, no momento em que discutiam, antes do golpe, como escapar da masmorra do juiz Sérgio Moro:

– Amigo, eu preciso da sua inteligência.

Um bandido inteligente grampeia um amigo que ele espera ser ainda mais inteligente. Mas já grampeia, na dúvida, porque pode estar diante de alguém que, no sufoco, pode se transformar em um imbecil.

Machado recorreu à inteligência de tucanos e peemedebistas na tentativa de evitar o pau-de-arara de Curitiba. Mas sempre com o gravador do celular acionado, porque as inteligências dos golpistas podem falhar.

É de se perguntar então por que os golpistas riem tanto, se a inteligência não evita que comecem a cair, um a um, enredados nas armadilhas dos que andavam exatamente em busca de amigos inteligentes. O Curinga, condenado a rir sempre, tinha uma explicação:

– Como diria meu cirurgião, se tiver que morrer, morra sorrindo.

Brasília é uma terra de golpistas sorridentes. E esta outra também é do Curinga, mas não tem muita serventia por lá:

– Você pode se vingar do mal sem fazer parte dele.

Grandes bandidos e grandes golpistas estão sempre rindo e se vingando de um mal que nunca é deles.

 

Não deixem os golpistas em paz

maio68Luiza Erundina sentou-se por duas vezes na cadeira de Eduardo Cunha, cercada de mulheres, antes e depois da consumação do golpe. Produziu a imagem que se contrapôs, por antecipação, à assustadora foto da República dos Coronéis de Michel Temer. A valente Erundina instalou, por alguns minutos, o comando feminino informal na Câmara, dias antes do anúncio do governo interino sem mulheres. Os estudantes que estiverem em dúvida sobre o que fazer depois do golpe têm em quem se inspirar. A deputada é uma transgressora de 81 anos. Em São Paulo, onde foi prefeita, jovens continuam ocupando escolas públicas e pedindo de volta a merenda saqueada pela máfia que agia em conluio com políticos tucanos, todos empanturrados de superfaturamentos e propinas, mas livres e soltos.

Estudantes também começam a ocupar colégios públicos em Porto Alegre contra o sucateamento de salas de aula, do ensino e dos salários dos professores. E outros ainda farão a ocupação de escolas de Bagé a Vicente Dutra, porque faltam professores ou faltam cadeiras e até janelas, ou sobram goteiras.

No Congresso, os instrumentos da política formal estão agora a serviço da maioria que sustenta o golpe. Então, façam o que os estudantes de Paris fizeram em 68, quando os governantes esperavam controlar as rebeliões manejando líderes identificados como velhos comunistas e anarquistas. Os jovens conduziram o levante porque eram politicamente incontroláveis.

Não desperdicem a chance da rebeldia. No próximo golpe, vocês poderão ter a metade da idade de Luiza Erundina (mais golpes virão). Assumam com os professores a vanguarda da resistência. Provoquem seus mestres para saber mais.

Pesquisem, estudem e percebam que em momento algum, em nenhum lugar, jovens reacionários ofereceram qualquer contribuição aos avanços civilizatórios. Jovens ultraconservadores envelhecem na puberdade. Não sejam depois adultos atormentados pelo que deixaram de fazer.

Não repitam a retórica dos Bolsonaros e dos Caiados. Divirtam-se, pelo menos, com as entrevistas que os Zés Agripinos concedem aos sábados ao Jornal Nacional, tendo ao fundo um vaso suspenso com samambaias éticas.

Não percam tempo decorando os nomes dos Odoricos Paraguaçus do governo de Michel Temer. Desistam de entender por que o Mendonça Filho (vaiado pelos funcionários do Ministério) vai orientar a educação nacional e indicar os descaminhos para a cultura. Derrubem a tese de Fernando Henrique Cardoso segundo a qual o Brasil resignou-se ao golpe sem contestações. Não ocupem somente as redes, ocupem também as ruas.

Sejam estudantes na integralidade. Conversem com os que poderão orientá-los sobre a convergência de lutas de jovens e trabalhadores. Inspire-se nas primeiras manifestações do inverno de 2013.

Interroguem-se sobre os poderes do pato amarelo da Fiesp, que agrega grandes empresários e hipnotiza o pessoal liderado pelo Paulinho da Força Sindical. Perguntem por que o novo ministro da Justiça é o sujeito que reprimia os estudantes paulistas. Mas não se esforcem para entender por que Padilha, Geddel, Jucá, Moreira Franco e Roberto Jefferson são personagens da mesma foto.

Instiguem seus professores a falarem sem receio desse tempo de sombras. Conversem, ouçam, respeitem, não deixem de querer aprender com o golpe. E, se quiserem, compartilhem com os colegas o desejo de chegar aos 81 anos com alma de quem tem 17.

Sejam estudantes com intensidade, porque esse tempo vai embora de repente, quase sem avisar, e muitas vezes leva junto a democracia. Não deixem os golpistas em paz.

(Este texto foi publicado no jornal Extra Classe, versão online. www.extraclasse.org.br)

A arte que ilustra este texto é de um grafite de Banksy.

 

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                         VIDA DE TUKANO 

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