Os óculos

O jornalista Mário Marcos de Souza, comentarista do SporTV, é quem narra a história de hoje do Porta na Cara. É uma clássica lembrança de infância, com a clássica guria dos cabelos longos.

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OS ÓCULOS

Mário Marcos de Souza

Quando vi aqueles óculos debaixo do banco da frente do ônibus que me levaria ao ginásio, logo imaginei lá na ingenuidade dos meus 11 anos que tinha descoberto a chave (na época, estávamos muito distantes do tempo das senhas) para um novo mundo.

Sabia a quem pertenciam.

Eles estavam sempre no rosto daquela moreninha de cabelos lisos e compridos, que andava com o balançar seguro e superior de quem era admirada.

Encontrar os óculos, portanto, e ter o privilégio de entregar em mãos daquela primeira paixão de criança, receber um olhar agradecido em troca e, quem sabe?, romper com a barreira da indiferença, me fez sonhar o tempo todo, na curta viagem entre o centro da Criciúma dos anos 50 e o morro onde ficava o prédio antigo do colégio Madre Teresa Michel.

Quando desci, corri logo para o corredor onde os alunos aguardavam a sineta da chamada e passei a procurar a menina dos cabelos compridos.

Ela estava lá, conversando com algumas amigas, segura como habitualmente era.

Aproximei-me, balbuciei (ou tremi) alguma palavra e estendi a mão com os óculos. Me achava o herói do momento.

Foi tudo muito rápido. Ela se virou, pegou os óculos sem me encarar e, imediatamente, virou-se e seguiu na conversa com as amigas.

Rápido e frio assim.

Eu esperava ao menos um prosaico obrigado.

Recebi indiferença. Minha primeira paixão terminou em rejeição.

 

No tempo da Gazapina

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Até os cães viviam sob suspeita na fronteira Livramento-Rivera em 1974. Brasil e Uruguai estavam sob ditaduras. Mas o mundo de sombras não era apenas dos assustados, mas também dos atrevidos.

Eu tinha 21 anos, era repórter da lendária A Plateia.Durante muitos meses, todas as noites, aí pelas 23h, fechávamos a edição e íamos beber em Livramento ou Rivera, eu e meu chefe, o Nelson Basile.

Basile era o que se chamava de secretário de redação, o chefe geral do jornal. O cara que datilografava, em no máximo três tentativas, um título de duas linhas com exatos 26 toques em cada linha.

Quando acertava na primeira tentativa, sem nenhuma palavra inútil no título, ele gritava da mesa, na entrada da redação, no mezanino de um prédio histórico da Rivadávia Correa:

– Mais um de primeira!!! E semmm subterfúgios!!!

No inverno de 1974, em crise de asma, não fui trabalhar por dois dias. Numa noite, Basile saiu do jornal sozinho, com um pacote sob o braço, e foi para um dos bares da cidade.

Bebeu Gazapina (a cerveja de Livramento, bem brabinha) até por volta da meia-noite, pegou um táxi e saiu pelas ruas a distribuir o que havia no pacote.

Eram panfletos que diziam: fulano, fulano, o povo todo arde, por que tu só vais hoje, por que tu te vais tão tarde?

Basile jogava os papeis pela janela do Fusca, no centro, nas periferias, na divisa com Rivera, e assim comemorava a transferência de um delegado da Polícia Federal para outra cidade.

Foi dormir alegre como um adolescente que fizera uma arte. De madrugada, os homens do delegado foram buscá-lo em casa.

Suspeito que ele tenha esperado a chance de sair sozinho aquela noite para não me comprometer ao espalhar os panfletos contra o delegado.

Ficou dois dias preso em um quartel. Era alegre, falante, com um humor fronteiriço permanente. Reapareceu na redação calado e ficou mudo por dias. Foi triste ver o Basile abatido.

Mas era do jogo. Ele desafiara a ditadura e perdera, aquele episódio pelo menos. Sei apenas que o inquérito não resultou em nada além do susto. O jornalista não tinha nenhuma ligação com qualquer militância de esquerda. Era apenas um atrevido.

Por que conto isso agora? Porque dia desses falei do meu chefe Nelson Basile, quando da morte do jornalista Danilo Ucha, e lembrei dessa história.

Convivi com Basile por um ano e meio. Aprendi naquela redação como se tivesse trabalhado em A Plateia por uma década.

Se Basile ainda estivesse vivo, com ele eu tomaria até Gazapina de novo, na Cueva ou no Palacinho. Com o Basile na mesa, a Gazapina virava a melhor cerveja do mundo.

Esses seis delegados da Polícia Federal de Curitiba, da equipe da Lava-Jato, que faziam militância descarada pelo Facebook para Aécio, na eleição de 2014, enquanto destratavam Lula e Dilma, precisavam mesmo é de um Nelson Basile.

Salvem os jornais

A Folha de S. Paulo, na contramão de outros movimentos dos jornais, decidiu guardar a edição de domingo para o domingo.
A maioria dos jornais sempre distribuiu a edição de domingo logo depois do meio-dia de sábado, ou até antes.
A Folha decidiu que a edição de domingo, que em parte era tradicionalmente distribuída no sábado, agora só vai para as bancas no domingo pela manhã.
A nota do jornal não esclarece, mas dá a entender que os assinantes continuarão recebendo o jornal do domingo no sábado à tarde.
Parece, mas não é uma notícia que interesse apenas aos jornalistas.
É uma tentativa de prolongar a vida do jornal impresso no seu dia nobre.

Os amigos dos homens

Além dos “comunistas”, outras figuram famosas dos anos 70 eram os amigos dos “homi”.

Os amigos dos homens eram figuras que espalhavam carteiraços pela cidade como informantes do “pessoal do regime”.

Havia amigo dos homi por toda parte. Eram temidos. Conheci muitos deles no Alegrete. Como conheço hoje muita gente, inclusive jornalistas, que deixam claro no que escrevem que são amigos dos homens.

Não dos homens daquele tempo da ditadura, mas do atual golpe.

O Brasil dos golpes sempre vai ter, em algum momento, os amigos dos homens.

 

Milton Simas Junior foi reeleito presidente do Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Sul. O outro candidato era Luiz Armando Vaz, meu amigo e colega do meu tempo de Zero Hora.
Eu agradeço a confiança dos que me elegeram para a Comissão de Ética.
Na hora de votar, quase votei nos dois, no Simas e no Vaz.
E pensei em algo que vou escrever mais adiante: por que a direita se organiza cada vez mais com institutos, associações, federações e patos golpistas, e nós não fortalecemos nossas organizações sindicais? E estamos à beira do penhasco das reformas do interino.
Os estudantes estão nos dando, de novo, uma lição de capacidade de organização.
E ainda tem gente em dúvida sobre o que leva a direita a ter o poder que tem.

O espião

jouse

Acompanhei durante a semana a história de que Josué Guimarães teria sido um agente da KGB, quando se exilou em Portugal, nos anos 70.
A suspeita foi levantada por um jornalista português, que pesquisou o famoso arquivo Mitrokin, onde estão guardados segredos soviéticos do tempo da Guerra Fria.
Amigos de Josué já falaram sobre a notícia, duvidando da história, inclusive o Sergio Faraco. Nos anos 60, o Faraco foi enviado a Moscou para ser um comunista de verdade e passou por sofrimentos contados no magistral Lágrimas na Chuva, editado pela L&PM..
Pois no Alegrete sempre se dizia que, além do Faraco, existiam muitos outros perigosos comunistas. Os perigosos mesmos eram os que caçavam os comunistas (naquela época e ainda hoje).
Contavam que um dos suspeitos do Alegrete se chamava Instalen. O seu Instalen era um contador da cidade.
Me lembrei da história do seu Instalen e, curioso, fui pesquisar no telelistas quantos Stalins e Lenins há no Rio Grande do Sul.
Temos (pelo menos com telefone fixo) nove Lenins e apenas dois Stalins.
O que isso significa? Talvez, como diz o Tadeu Schmidt, hoje não signifique mais nada.

Realidade diminuída

tamagotchis

O Brasil não debate mais se houve ou não um golpe. Houve, pronto.
O que se debate hoje, nos meios científicos e acadêmicos, é se o jogo Pokémon Go é ou não realidade aumentada.

Seu Mércio, guarda de rua na Aberta dos Morros, acha que é regressão ampliada. Os pokémons que adultos caçam nas ruas pelo celular são a aceleração de um processo regressivo que atinge todas as áreas e pode ter se tornado irreversível.

Um jogo virtual em que barbados abandonam a realidade (como fez um repórter esta semana numa entrevista coletiva na Casa Branca) para caçar bichinhos em salas, praças e calçadas é sintoma de que algo grave está acontecendo ou vai acontecer.

Seu Mércio acha que O Pokémon Go, que Michel Temer, que Padilha, que os sertanejos universitários, que Donald Trump, o axé, que a arte dita contemporânea e outros fenômenos nos farão regredir à Idade Média e dali para tudo o que veio antes.

Em pouco tempo estaremos procurando pokémons nas cavernas.

O guarda sabe do que fala, porque também ele já caçou pokémons à noite, no morro da caixa d’água, na Aberta dos Morros.

Seu Mércio ainda não tem certeza, mas desconfia que a nossa realidade aumentada chegou à política. E que o golpe foi apenas um truque dos fabricantes do jogo Pokémon Go para favorecer Michel Temer.

O interino do Planalto também seria, portanto, um pokémon.

Serra, Geddel, Moreira Franco e outros não teriam chegado ao estágio dos pokemóns e ainda seriam tamagotchis.

 

Meio mundo

O depoimento do marqueteiro João Santana à Justiça poderá levar a Polícia Federal, o Ministério Público e o Judiciário a pegarem meio mundo.
Se é que esse pessoal (incluindo o juiz Sergio Moro) está mesmo disposto a pegar meio mundo, ou apenas o mundo que foi pego até agora…
O que disse João Santana:
“Com generosidade, e com conhecimento de causa, eu digo que 98% das campanhas no Brasil utilizam caixa dois. Que isso envolve das pequenas às grandes campanhas. Que centenas de milhares de pessoas – quase certo que milhões – de todas as classes sociais e de dezenas de profissões são remuneradas com dinheiro de caixa dois. Mais que isso: o caixa dois é um dos principais – senão o principal – centros de gravidade da política brasileira.
“Se todos que já foram remunerados com caixa dois no Brasil fossem tratados com o mesmo rigor que eu, era para estar aqui, atrás de mim, uma fila de pessoas que chegaria a Brasília. Uma muralha humana capaz de concorrer com a muralha da China. Capaz de ser fotografada por qualquer satélite que orbita em torno da terra”.
E agora? Pegam o João Santana, o Vaccari e quem mais?