62% querem eleição. E daí?

A partir de hoje, cai no esquecimento a história da já famosa pesquisa que a Folha havia escondido sob o tapete.
Ninguém mais fala nisso, apenas os blogs sujos. O dado apurado pelo Datafolha, indicando que 62% dos eleitores pesquisados querem nova eleição, já está a caminho do ralo das notícias esquecidas.
E o jornalismo continuará fazendo o que sempre fez. Seguirá em frente, autônomo, independente, transparente, defendendo as instituições e a democracia.

Caixa sete

Scanner_20160721

Monica Moura, mulher do marqueteiro João Santana, finalmente admitiu que ela e o marido receberam dinheiro de caixa 2 do PT em 2010.
Deu no Jornal Nacional, com a reprodução do diálogo de Monica com o juiz Sergio Moro.
É um esclarecimento e tanto. O Brasil ficou sabendo, estarrecido, que as campanhas políticas (só do PT, claro) são pagas com dinheiro de caixa 2.
E também foi esclarecido que Monica não fez a delação antes (dando o nome de um engenheiro que teria feito o pagamento) para não interferir na votação do impeachment pela Câmara.
O bom desses depoimentos é que fica evidente que só um partido recebia caixa 2. Os tesoureiros dos outros partidos recebiam de caixa 3, caixa 4, até de caixa 8, mas não de caixa 2.
O caixa 2 foi uma invenção patenteada por Delúbio Soares no mensalão. E o PT, por egoísmo, usou todo esse tempo o caixa 2 com exclusividade.
O golpismo, além de cínico, subestima a capacidade de discernimento de todos nós.
Até quando? Até quando eles acharem que nossa resignação aguenta.

 

 

O neto de Covas

Leio que o deputado Bruno Covas, escolhido agora como candidato a vice-prefeito de São Paulo na chapa de João Doria, é da direita dos tucanos no Estado. Bruno é neto do grande Mario Covas.
Quem diria que um herdeiro de Covas seria um reacionário. Alguém pode dizer: mas precisa rotular o neto de Covas?
Precisar não precisa, mas é incoerente com a história e a memória do próprio avô, cassado pela ditadura, perseguido pelo reacionarismo e finalmente reabilitado para a vida pública como um dos senhores das Diretas.
Políticos não podem renegar seus lastros ideológicos, sob pena de se transformarem em embusteiros que tentam esconder o que são.
Mario Covas (meu candidato no primeiro turno de 1989) era um político de centro-esquerda. E ninguém se ofendia, muito menos ele, quando o definiam assim.
Não sei se o neto se ofende ao ser definido como um político de direita. É triste.

Marcela, a mulher do interino, pediu e foi atendida. Fecharam o estacionamento público do Palácio do Jaburu.
O estacionamento sempre foi aberto a visitantes em geral e era usado principalmente pela imprensa. Mas a primeira dama interina acha que pode ser incomodada.
Enquanto isso, Dilma anda de bicicleta por aí.

A arte de beber água

copo

Geralmente tomo um copo de água de manhã cedo. Como o Dmae disse que a água de Porto Alegre está ficando gostosa e cheirosa, hoje abusei e tomei três de gut-gut.
Senti um gosto de avelã. À tarde vou tomar mais três. Nem imagino que gosto-surpresa está à minha espera.
Só tenho medo de me viciar em água.

A manipulação

A melhor análise sobre a manipulação de informações pela imprensa, no esforço pela manutenção do interino, está no texto dos jornalistas Glenn Greenwald e Erik Dau, do site intercept.

Eles jogam luzes nas sombras da já famosa pesquisa escondida pela Folha.

O americano Glenn Greenwald tem ajudado a divulgar no Exterior a farsa do golpe no Brasil e por isso é visto com desconfiança pelo jornalismo embarcado.

O texto mostra que a prioridade do projeto conservador agora é tentar salvar Michel Temer de qualquer jeito, com boas notícias nos jornais e na TV, considerando-se que a opção tucana (a preferida), em eventual eleição, foi para o ralo.

Leia aqui:

https://theintercept.com/2016/07/20/folha-comete-fraude-jornalistica-com-pesquisa-manipulada-visando-alavancar-temer/

Isso é muito feio

banksy2

A notícia sobre a pesquisa que a Folha escondeu (62% dos eleitores querem novas eleições) está em todos os sites hoje, inclusive de O Globo.

Mas não há uma linha, uma só, sobre o fato na versão impressa da própria Folha. Nem no online.

Vasculhei a Folha agora e não achei nada. Posso não ter visto algum registro sobre o “erro”, perdido em algum canto, mas admito que não achei nada. Quem tiver alguma informação, que me passe.

O que está claro sobre a pesquisa é que a Folha fez uma opção desrespeitosa (para usar um eufemismo) não só com seus leitores. Não se trata aqui de debater critérios jornalísticos. O erro cometido está acima de normas de redação ou de bom senso para quem lida com informação.

Não é um erro como muitos dos cometidos todos os dias nas redações e que são da natureza do jornalismo. É um “erro” deliberado, que não poderia ficar impune.

É óbvio demais que, se uma pesquisa diz que 62% da população deseja eleições, essa informação é mais relevante do que outro dado que diz que, entre Temer e Dilma, os eleitores (50%) preferem Temer (mesmo que também esse dado esteja sob suspeita).

Dois terços da população querem novas eleições, não querem Temer.

O que a Folha fez compromete o jornalismo dito independente e subestima o contingente da população que o sustenta, a classe média crítica, bem informada, que hoje se abastece de outros meios para pelo menos diversificar pontos de vista.

Foi o que os blogs fizeram a respeito da controversa pesquisa. Sem o esforço dos blogueiros para entender o levantamento do Datafolha e suas interpretações, o dado escondido continuaria sob o tapete.

A transparência que o jornalismo sempre defende deve valer também para o próprio jornalismo, ou veículos como a Folha estarão, a partir de agora, sempre sob suspeita.

O relatório do próprio Datafolha, que denuncia a fraude jornalística cometida pelo jornal, está no linck abaixo:

http://media.folha.uol.com.br/datafolha/2016/07/20/av-presidente-michel-temer-completa.pdf

O que a Folha escondeu

É delicada a situação da Folha de S. Paulo, depois da controversa pesquisa do Datafolha, publicada na edição de domingo, sobre as eleições de 2018.

Este blog levantou, no mesmo domingo, suspeitas sobre os 50% que apoiariam a permanência de Temer, segundo a pesquisa.

Outros blogs (todos “sujos”, claro, segundo a imprensa dita “independente”) levaram outras suspeitas adiante. E agora ficamos sabendo que a Folha omitiu um dado devastador: o eleitor não quer saber de Michel Temer, os eleitores (62%) querem novas eleições.

Leia este trecho de reportagem do jornal El país, que anuncia a publicação do mea culpa pela Folha, corrigindo os “erros” da pesquisa de domingo.

Este é o texto do El Pais:

“Para 62% dos brasileiros, uma saída para a crise política seria a renúncia de Michel Temer e Dilma Rousseff para que fossem realizadas novas eleições.

O dado consta da pesquisa feita pelo instituto Datafolha em 14 e 15 de julho, mas não apareceu nas reportagens publicadas sobre o assunto e nem no relatório da pesquisa disponibilizado pelo instituto em seu site nesta terça-feira.

A existência desta e de uma outra pergunta, a respeito da percepção popular sobre os procedimentos do impeachment, foram reveladas pelo site Tijolaço e confirmado em reportagem publicada pela própria Folha, que traz link para a nova versão do documento.

O episódio aprofunda a controvérsia em torno do mais respeitado instituto do país, que vinha sendo questionado por ter apresentado dados de maneira imprecisa em um gráfico do jornal sobre os favoráveis a uma nova votação e por supostamente não ter repetido a pergunta sobre o hipotético pleito, como no levantamento de abril”.

Agora, a pergunta: por que a Folha escondeu o dado sobre a eleição e deu manchete para o falso apoio a Temer, a partir de uma pergunta formulada de forma enviesada? (Se o melhor seria Temer ou Dilma.). O melhor estava em outra resposta: para 62%, o melhor é que se realizem eleições já.

E agora?

Está aqui o relatório da pesquisa. É constrangedor:

http://media.folha.uol.com.br/datafolha/2016/07/20/av-presidente-michel-temer-completa.pdf

O caminho de Abrão

O psicanalista e escritor Abrão Slavutzky é o autor do depoimento de hoje do Porta na Cara. Ele conta como lidou com uma advertência que ouviu, quando voltou a Porto Alegre para exercer aqui a profissão que aprendera em Buenos Aires.

porta

“Tens que entrar nos trilhos”

ABRÃO SLAVUTZKY

O amigo, um bom amigo, me disse com toda sinceridade: “Ou tu entras nos trilhos, ingressando na IPA – Associação Psicanalítica Internacional- ou tu vais te dar mal”.

Outro amigo não foi tão contundente, mas me alertou que voltar para Porto Alegre em 1979, sem fazer a IPA, seria muito problemático. Fui avisado que seria ignorado, mas assim mesmo decidi voltar com a identidade de psicanalista que tinha em Buenos Aires, onde vivi por sete anos.

Fiz minha formação através de análise, supervisão e grupos de estudo, como centenas de psicanalistas fizeram e fazem. Por isso, não me incomodaram as advertências dos amigos, além do que  sabia que eram verdadeiras. Entretanto, os obstáculos têm a vantagem de nos estimular a superá-los. E assim também nos obrigamos a ser criativos.

Os primeiros anos aqui na cidade foram difíceis, anos de aprendizado, de tombos, até de fracassos na escolha dos caminhos. Aos poucos, sempre encontrando apoios indispensáveis, fui me estabelecendo, e a escrita foi uma descoberta essencial.

Tive a sorte de contar o tempo todo com muito amor da família e dos pacientes. Ter vindo morar aqui me fez perder amigos, como o que me advertiu da necessidade de entrar nos trilhos.

Lamentei as perdas, mas felizmente ganhei novos amigos. Há dois anos estive autografando  o livro Humor é coisa séria e tive a alegria de ver e abraçar vários colegas e amigos do mundo psicanalítico.

Entrar nos trilhos pode ser conveniente às vezes, mas também podemos criar novos caminhos e criar novos trilhos. Nesse processo, é preciso pagar o preço da ousadia, pagar bufando ou sem bufar, mas a rebeldia tem seu preço.

O poeta já escreveu que criar é não se adaptar à vida como ela é. Não se adaptar é conviver com o desafio da solidão e, mesmo sem ser artista, poder ter neles um estímulo. Por fim, é preciso lembrar que a arte, o humor e até a psicanálise não cabem em templos rígidos.

Lembro por fim um breve artigo de J.B. Pontalis – “ Fora do templo” – onde estimula os psicanalistas a terem experiências e vivências fora de seus templos, isso é, suas instituições. O mesmo, acredito, vale para todos seres pensantes, rebeldes e que buscam não se adaptar à vida como ela é.