Golpe proibido

Um juiz eleitoral de Salvador determinou que seja retirada do Facebook uma postagem em que o nome do prefeito ACM Neto, do PFL, é associado ao golpe.

A postagem tem uma foto de ACM ao lado do interino e a seguinte legenda: “Se você não vota em quem apoia o golpe, compartilhe”.

Eu e a torcida do Flamengo escrevemos a palavra golpe a todo momento, associando a definição a alguém que apoia o golpe, mesmo que esse alguém prefira dizer que não há golpe.

Agora imagine se esse juiz for mandar tirar todos as postagens que falam de alguém que está apoiando o golpe? O juiz vai travar o Facebook.

Os parentes e a flor

Anuncia-se que a estrutura institucional do golpe irá fortalecer, em sua próxima etapa, ações inspiradas no nazismo de muito antes da Guerra.
O foco se dirige cada vez mais a parentes de investigados ou contrariados com as atitudes seletivas e abusivas da Lava-Jato. Vai sobrar pra todo mundo, inclusive, como aconteceu lá longe, entre os anos 20 e 40, para o jornalismo que não aderiu ao colaboracionismo.
Além do muito do que já se divulgou a respeito, há mais duas informações nesta linha na Folha de S. Paulo de hoje, em textos de Mônica Bergamo e de Jânio de Freitas. É clara a percepção de que as instituições brasileiras podem estar a caminho de escancarar a opção pelo desmando.
Ao mesmo tempo, amplia-se a guerra de grupos na Polícia Federal, no Ministério Público e no Judiciário, para saber quem pode mais. E degradam-se as relações entre quem investiga, quem acusa e quem julga.
As ações que já expuseram mulher, filhos, netos, noras, cunhadas e amigos de investigados inauguraram uma prática que se aperfeiçoa e se dissemina.
Se este fosse um texto de auto-ajuda, eu diria: protejam-se.
Como não é, eu digo apenas que espero, da parte ainda sadia das instituições, que reajam com valentia. Não com notinhas chorosas e formais que saem em cantos de página dos jornais e circulam pela internet, mas com ações enérgicas e decididas.
O golpe só está começando e, por enquanto, para muita gente, é apenas um problema dos outros.
Não tem outro jeito. É hora de apelar de novo para o poema de Eduardo Alves da Costa (e não de Brecht ou de Maiakóvski, como muitos pensam): Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor…

Juízes e capangas

Aguardemos a declaração de hoje de Gilmar Mendes. Nos últimos dias, ele atacou os bêbados que fizeram a Lei da Ficha Limpa, os procuradores que teriam vazado delações da Lava-Jato e as ideias do super juiz Sergio Moro.

Ninguém tem tanto poder quanto Gilmar Mendes no Brasil hoje. Nem Eliseu Padilha, o ministro que consegue dar duas entrevistas, em blocos diferentes, do Jornal Nacional.

O ex-colega Joaquim Barbosa disse há muito tempo, em sessão do Supremo, para que todo mundo ouvisse, que Mendes tem capangas no Mato Grosso.

Mendes riu amarelo mas nunca esclareceu a denúncia de Barbosa. Será por isso, por causa dos capangas, que temem tanto Gilmar Mendes?

Quem enfrenta Gilmar Mendes?

Gilmar Mendes decidiu enfrentar o Ministério Público e agora, além do MP, também a Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) decidiu enfrentar Gilmar Mendes em nota oficial.

O presidente da AMB, o juiz gaúcho João Ricardo Costa, acredita que Mendes vem criando obstáculos à Lava-Jato e às medidas de combate à corrupção.

Mendes, se sabe, disse essa semana que são procuradores os vazadores de informações de uma delação contra seu amigo Dias Toffoli. Mendes acha que há falsos heróis no MP.

Mendes também atacou antes os altos salários da magistratura de primeira instância (como se os ministros do STF ganhassem pouco).

O interessante é que o juiz Costa é um dos poucos da própria magistratura a tocar nas controversas posições de Mendes, como a defesa categórica do financiamento privado de campanha, ou seja, da manutenção do esquema de financiou a corrupção até agora (assunto que ele engavetou, com a maior naturalidade, por mais de ano no STF).

Mas qual será a consequência dessa crítica do presidente da AMB ao comportamento de um juiz da mais alta Corte? Expor Mendes ainda mais? Denunciar suas estranhas posições, que todo mundo conhece? E daí?

Quem mais é capaz de questionar a postura enviesada de um ministro que desafia e descontenta a todos, menos a direita golpista brasileira? Quem teme Gilmar Mendes?

O que Mendes fará amanhã, que provocará nova reação de procuradores, juízes e jornalistas que não aderiram ao golpe? Mendes pode fazer o que bem entende, com o apoio da maioria da imprensa?

O poder de Mendes é ilimitado? O próprio Supremo e o Conselho Nacional de Justiça poderiam nos dar uma resposta.

Afrêni

Pegaram um tucano, é o Afrêni, de Goiás. Alguém sabe quem é o Afrêni? É o presidente do PSDB goiano. O nome completo é Afrêni Gonçalves Leite.

Afrêni é acusado de ter participado do desvio de R$ 4,5 milhões que seriam destinados a saneamento básico. Foi preso pela Polícia Federal e deve ser solto logo.

Com tanto nome conhecido entre tucanos corruptos, pegam logo o Afrêni.  Eu trocaria mil Afrênis por um tucano grandão, desses que escapam sempre. Eu não me emociono com a prisão do Afrêni.

 

 

Imitadores

Diogo Mainardi, Lucas Mendes e Caio Blinder fizeram um debate (debate?) ontem, na abertura do Congresso da Associação dos Supermercados, em Porto Alegre. Que trio!!! Só faltou o Reinaldo Azevedo.
Um debate ao vivo com três dos mais reacionários jornalistas brasileiros deve ser interessante (eles já “debatem” assuntos variados na TV). Agora, imagine que debate terá sido esse com sujeitos que têm as mesmas opiniões, geralmente para desqualificar os próprios brasileiros.
Todo jornalista com tendência para a direita, e que vai morar no Exterior, passa a se comportar, já na primeira semana, como se tivesse nascido em Nova York. É o caso de todos eles. É a Síndrome do Paulo Francis.
E todos eles queriam ter nascido fora, com o nome e o jeito de falar do Francis. Só que Paulo Francis era um reacionário muito talentoso e não merece ter imitadores tão precários. Esses três deveriam imitar o Augusto Nunes.

O amigo de Gilmar Mendes

mendes

Gilmar Mendes acha que seu amigo Dias Toffoli está na mira dos procuradores que, diz ele, vazaram informações para a Veja. Toffoli teria recebido favores da OAS, conforme conteúdo de delação de Léo Pinheiro, ex-presidente da empreiteira, que chegou ao conhecimento da revista.

Os vazadores, acredita Mendes, são procuradores que perseguem Toffoli porque tiveram decisões contrariadas pelo amigo na Lava-Jato.

Nunca antes Mendes se levantou contra vazamentos seletivos sistemáticos contra Lula, Dilma e muitos outros investigados ou já condenados. Mas Toffoli é próximo do ministro e merece ser defendido.

O estranho é ouvir de um membro do Supremo que certos procuradores escolhem quem desejam investigar, como Toffoli, se muito do que tem sido feito na Lava-Jato é exatamente a preferência por alvos bem específicos pela Polícia Federal, pelo MP e pelo Judiciário de Curitiba. E pela Veja, claro, há muito tempo.

A força-tarefa da Lava-Jato faz e acontece e não há reação do STF. Um juiz de primeira instância mantém gente na cadeia (em prisão preventiva!) por mais de um ano, sem qualquer manifestação dos ministros do Supremo de que isso não é razoável (é legal, repetem). Manter alguém preso indefinidamente, até que se degrade moralmente e delate seus cúmplices, está dentro da lei.

Agora, vem Mendes defender Toffoli e registrar que determinadas pessoas estão na mira do MP. Nem é o caso de se identificar quem estaria na mira de outras autoridades, porque isso seria redundante.

Mendes fala do excesso de poderes do Ministério Público. Há outros excessos de poderes nas mãos de poderosos de outras instituições, que visam sempre os mesmos alvos.

Gilmar Mendes, o homem que definiu a Lei da Ficha Limpa como obra de bêbados, sabe do que fala quando trata dos que exercem o poder a seu modo para pregações e ações seletivas.

 

 

Buscapé

cidadededeus

Cidade de Deus, que aparece agora em uma lista de críticos de todo o mundo entre os 100 maiores filmes do século 21, é também, no seu desfecho grandioso, um filme sobre o jornalismo.
Nunca se fala dessa virtude de Cidade de Deus, de mostrar a conduta de um adolescente candidato a repórter fotográfico, em meio a crueldades, vinganças, traições e inverdades.
O atormentado Buscapé (Alexandre Rodrigues, na foto) tem muito a ensinar a jornalistas em geral em tempos de negaceios, dissimulações e vergonhosas adesões a golpes.