O homem que anda

Falei com um marciano que passava agora sobre Porto Alegre e viu o debate dos candidatos.
Ele disse que é preciso tomar cuidado com o homem que anda sem parar e fala sem parar que é amigo do seu João e da dona Maria, porque ele é na verdade representante da direita golpista.
Esse não engana nem marciano, me disse, claro, o marciano.

A quem interessar possa

Não sei quem pode ter algum interesse em saber em quem vou votar domingo. Mas informo que votarei em Raul Pont. Não preciso fazer uma lista das minhas motivações e das virtudes dele.

Digo apenas que Raul Pont fez um gesto que a política, antes de ser esfolada por justiceiros, sabia reconhecer. Voltou a apresentar-se como uma alternativa de esquerda em meio aos esforços da direita, em todas as frentes, para destruir as instituições e a democracia.

Por essa sua grandeza, pela capacidade de oferecer sua reputação como resposta aos cúmplices do golpe, pela sua história reta, por tudo que já fez e pode vir a fazer por esta Porto Alegre agora tão maltratada, eu voto em Raul Pont.

 

O deboche

O pior mesmo para o ministro Lewandowski (depois de dizer que o impeachment foi “um tropeço da democracia”).é suportar a partir de agora a ironia de gente como Janaína Paschoal
Recebi o link do meu amigo jornalista Adriano Barcelos. Não tem como não compartilhar o deboche que a consultora do golpe postou no Twitter nesse recado dirigido aos seus “Amados”…

janaina

O tormento de Lewandowski

Guardo bem as intervenções de amigos e colegas que esperavam pelo grande fato capaz de interromper o golpe. Um gesto grandioso que determinasse: parem, em nome da democracia.
Esse gesto, para mim, poderia partir do ministro Ricardo Lewandowski. Imaginei que no dia final, o da votação, o ministro diria para a mulher durante o café da manhã, enquanto passava a manteiga no pão: não vou participar de um tropeço da democracia.
Lewandowski chegaria ao Senado com a cabeça erguida e, ainda em pé, anunciara: sigam vocês com esse processo, porque não posso ofender o Supremo e os que elegeram quem vocês desejam cassar.
Mas Lewandowski fez apenas uma última concessão, o encaminhamento da votação que permitiu a Dilma a preservação dos direitos políticos. Foi como acalmou parte do seu drama pessoal.
Desde então, Lewandowski deve ser um homem atormentado. Por isso declarou agora que o impeachment foi “um tropeço da democracia”.
É provável que, com o tempo, daqui a alguns anos ele fale mais e trate o golpe pelo nome.

Andante

O candidato que anda sem rumo continua frequentando as vilas de Porto Alegre.
Apresenta-se como grande amigo da periferia, enquanto seu partido, no governo do golpe, prepara rasteiras no povo.
É a direita testando seu poder de hipnose com um político andante e medíocre, que de repente descobriu os moradores dos bairros.
O homem promete postos de saúde e creches, mas o governo do qual é cúmplice desmonta programas sociais e já expressou até o desejo de encolher o SUS.
Porto Alegre caiu em muitas armadilhas em outras eleições. Não pode embarcar na conversa do golpista que se apresenta como carinhoso, porque não tem nada de relevante para apresentar como deputado.

Carandirus

Para quem se surpreendeu com absolvição dos autores do massacre do Carandiru, um aviso: preparem-se para mais anistias e para o desfecho de investigações e processos de corrupção contra tucanos.
São casos envolvendo a elite do tucanato: Fernando Henrique Cardoso, Pedro Malan, José Serra, Pedro Parente, Aécio Neves e Alckmin, fora outros mais e os tucanos miúdos.
Não se sabe de um vazamento de informação sobre os inquéritos e processos contra eles. E muita gente nem sabe nem que eles são personagens de casos judiciais. Tudo corre no mais absoluto silêncio.
Quero ser cobrado mais adiante. Um a um, todos serão inocentados. Todos. E a Justiça pegará um tucano pequeno para “mostrar serviço”.
E as instituições continuarão funcionando…

O golpe é mais forte do que se pensava

O manifesto contra o “autoritarismo jurídico”, assinado por intelectuais de várias áreas, não vai sair nem em canto de página dos jornais impressos. Nem na versão online. Jornais não querem saber de manifestos.

O que o próprio manifesto revela é que mais uma denúncia dos exageros das instituições, que têm atuado politicamente sempre contra os mesmos alvos, talvez não resulte em nada.

Porque só seus autores e outros poucos se rebelam, mesmo que em manifestos, contra a ação seletiva da Polícia Federal, do Ministério Público e do Judiciário. O país vai sendo anestesiado pelo golpe.

Paulo Sergio Pinheiro, Wanderley Guilherme dos Santos, José Miguel Wisnik, Saturnino Braga, Alfredo Bosi, Frei Beto, Jurandir Freire Costa, Bresser Pereira e outros serão ouvidos nas redes sociais por nós, por quem agora me lê e pelos que pensam como eles.

Os que apoiam o golpe, o show do Ministério Público, as regras da masmorra de Curitiba e o “legalismo” do juiz Sergio Moro não querem saber de manifestos. Eles querem levar o golpe adiante. E os indiferentes são indiferentes.

A sensação geral é de que até manifestos perderam força e sentido no ambiente do fascismo institucionalizado versão século 21. Fazer o quê?

Talvez agir nas nossas rotinas, além do retórico, e criar impasses que quebrem silêncios e mesmices no espaço de trabalho, na atividade de cada um. Imagino o dia em que tivermos gestos fortes, além de palavras.

O dia em que um grupo puxará uma universidade inteira para uma tarde de reflexão sobre o golpe. Parar as universidades por uma tarde. Será que param?

Imagino também a tarde em que alguns terão o peito de pedir que uma redação de jornal pare. Por uma ou duas horas. E que a redação discuta o golpe, os exageros cometidos em nome das instituições e a contaminação das próprias redações pelo golpismo.. Será que param?

Ah, o tempo em que uma redação parava. Se uma redação não para, o que pode ser parado? Se intelectuais largam notas, mas a maioria dos colegas está resignada com o golpe, fazer o quê?

Param por salários, por melhores condições de trabalho, mas não param por ideias?

Talvez o país já esteja aceitando a República de Curitiba e a República do Jaburu, com Padilha, Moreira Franco, Serra, Geddel e esse estranho ministro da Justiça como parte da nossa normalidade.

Falta algo mais do que manifestos. O golpe é mais forte do que se pensava, ou todos nós somos mais fracos até do que eles pensavam que fôssemos.