A Escolinha do Professor Meirelles

Hoje ouvi A Voz do Brasil no rádio do carro. O locutor anunciou que era a nova Voz e que por isso iriam entrevistar ao vivo o ministro da Fazenda. Passei a prestar atenção.

E lá se veio o ministro da Fazenda com sua voz de locutor a comparar de novo os gastos do governo com os gastos de uma família. Meirelles disse o que se repete como mantra entre gente do governo e jornalistas amigos dos homens do Palácio do Jaburu: que, assim como as pessoas, os governos devem cortar despesas e adequar o que gastam ao que recebem.

Sabe-se que não é assim. Que não há como comparar despesas domésticas com despesas e investimentos do setor público. Qualquer aluno de economia sabe que essa comparação é emburrecedora.

O setor público não é uma família, é a estrutura complexa que assegura serviços e investimentos e cumpre também a tarefa de orientar a economia em geral e ajudar a corrigir desequilíbrios sociais.

Déficits (claro que sem grandes descontroles, como o caso gaúcho) são da natureza dos governos em todo o mundo, ou as demandas básicas e as prioridades não seriam atendidas.

Poucos, e a Alemanha é o melhor exemplo hoje, não têm déficits. Então, essa conversa de governo-família só ajuda a confundir ainda mais os desinformados.

O tal ajuste da PEC 241, o garrote nos recursos da saúde e da educação, é uma opção de governo para assegurar o pagamento de juros aos rentistas que vivem da renda paga pelo governo. Não tem nada que possa ser comparável à racionalidade doméstica de uma família.

Se tivesse, seria como se pai e mãe cortassem educação e saúde dos filhos para assegurar o pagamento de ganhos às aplicações financeiras.

Perdi meu tempo como aluno involuntário da Escolinha do Professor Meirelles.

Alguns consolos

– A Veja e a Globo também perderam no Rio e terão de engolir o Crivella, que é muito parecido com eles mas contraria seus interésses, como diria Brizola.
– Aécio Neves perdeu de novo em Minas (seu candidato foi derrotado em BH) e talvez tenha de fazer o que o Sarney já fez e disputar eleições no Amapá.
– Em Porto Alegre e em muitas outras cidades o eleito foi rejeitado pela maioria que não foi votar ou votou em branco ou anulou o voto.
– Foi a eleição mais cruel com a esquerda. E a mais enganosa da história para a direita.
– A direita que assumirá em janeiro sabe que foi eleita por uma minoria.
– Por se achar fortalecido pelas eleições, o PSDB pode começar a acelerar o golpe dentro do golpe, o que promete novas emoções no Palácio do Jaburu.
– Acrescente seus consolos e pense o seguinte: a democracia está abatida e maltratada, depois do golpe e de eleições extremamente estranhas, mas em algum momento apresentará a conta.

O novo Brasil

Esta é a cara do novo Brasil. A direita pisoteou a democracia, golpeou um governo eleito e demonizou a política.
Dois meses depois, usou a eleição para aclamar seus golpistas, entre os quais o herdeiro do espólio de um dos líderes do partido da ditadura.
A direita que desqualifica a democracia usa cinicamente a própria democracia para apropriar-se do país, na política formal e nas instituições.
A direita brutalizou, emburreceu e infantilizou o Brasil. Só os estudantes poderão nos salvar.

Ideias medianas

O artigo do procurador Deltan Dallagnol hoje na Folha (em que parece se desculpar por não ter pego nenhum corrupto do PSDB) só reafirma o que já se sabe dele e do juiz Sergio Moro.
A capacidade de reflexão de ambos fica aquém da missão que assumiram. Falta um mínimo de brilho no pensamento opaco do procurador e do juiz da Lava-Jato. A retórica colegial não acompanha a performance pretendida.
Dallagnol e Moro são medianos, o que facilita a aceitação como ídolos da direita. Mas, se as suas ideais fossem um pouco mais complexas, se não repetissem à exaustão clichês de frases de filme de mocinho e bandido, talvez não estivessem ao alcance dos seus adoradores.

Votar é preciso

O debate sobre o voto nulo nos empurrou um pouco mais pra frente em relação aos confrontos da política em 2016. Constata-se que pelo menos as coisas deixaram de ser óbvias e categóricas como vinham sendo.

Temos nuances, subjetividades, sombras, claros e escuros até entre pessoas com alguma afinidade em questões essenciais. Gente que admiro, e admiro muito, defendeu com valentia o voto nulo em Porto Alegre.

E conhecidos dos quais eu não esperava tal posição se entrincheiraram ao lado dos que pregam o voto em Sebastião Melo como forma de evitar o homem que anda e o tipo de direita que ele representa. Eu estou com eles, com os que votarão em Melo.

Mas o que importa é que o debate abre caminho para outras discussões francas mais adiante. Depois da tragédia do primeiro turno, a controvérsia do voto nulo começa a derrubar o biombo dos grandes dilemas das esquerdas. O voto no segundo turno é o primeiro de todos eles. Os outros temas estão por aí nos ventos da primavera.

Alguns já começam a dizer que as esquerdas terão pelo menos duas décadas para decidir o que fazer, enquanto a direita toma conta de tudo, inclusive da prefeitura de Porto Alegre.

E daqui a duas décadas é provável até que as esquerdas estejam no mesmo lugar, fracionadas, dispersas em agrupamentos quase tribais, até chegarem de novo ao poder e serem de novo golpeadas.

Para muitos, a prioridade hoje talvez nem seja a reconstrução de um projeto de esquerda, mas o fortalecimento de forças capazes de neutralizar novos golpes. Um conjunto de defesas para a democracia, para muito além dos partidos, que consiga enfrentar o que aconteceu este ano, quando as instituições foram tomadas com assombrosa naturalidade pelos líderes golpistas civis, seus prepostos e seus cúmplices.

Podemos ter o direito de imaginar que construiremos resistências (incluindo os liberais autênticos, não os falsos ‘liberais’ reacionários) aos avanços do grande fascismo explicitado e também do fascismo miúdo, dissimulado, oportunista, que passou a frequentar bairros onde nunca esteve, que promete dar aqui o que subtrai em Brasília e que pisoteia a todo momento a democracia, enquanto a exalta com ironia e cinismo.

Imagino um dique de cidadania que nos coloque no mesmo patamar de países nos quais ninguém precisa dizer: daqui vocês não passam. Porque não passam mesmo.

Por enquanto, o que posso fazer é votar.

Jornalismo ambiental

O ambientalismo como pauta do jornalismo de combate foi um dos assuntos da reunião da Associação Riograndense de Imprensa hoje pela manhã. Tive a honra de sentar ao lado do promotor Eduardo Viegas, reconhecido por sua bravura como defensor do ambiente.
Abro agora o site do Extra Classe e encontro essa grande reportagem. Isso é, sim, jornalismo de militância. O jornalismo dito ‘neutro’ que se acomode no colo dos que destroem o que os índios ainda tentam preservar.

Este é o link da reportagem:

http://www.extraclasse.org.br/exclusivoweb/2014/08/desmatamento-e-maior-onde-nao-ha-indios/

Uma convicção pelo menos

Os tesoureiros do PT já foram processados e presos várias vezes por envolvimento com o mensalão ou com a Lava-Jato. Prende-se tesoureiro do PT com facilidade (Vaccari continua preso). Mas não há um tesoureiro do PSDB na cadeia.

Pela delação que aponta o depósito de R$ 23 milhões para José Serra na Suíça, as instituições poderão renovar o cadastro de tesoureiros corruptos, se quiserem, é claro.

São três tesoureiros à disposição da Polícia Federal, do Ministério Público e do Judiciário. Nenhum deles é novidade, todos já foram citados em algum momento por algum rolo no PSDB. São os ex-deputados Ronaldo Cezar Coelho e Márcio Fortes e o engenheiro Paulo Vieira de Souza, o Paulo Preto.

Todos são citados pelos delatores da empreiteira como operadores de Serra. O argumento do nosso chanceler já está pronto: eles agiam informalmente, sem sua autorização. Seriam tesoureiros à margem dos controles dele e do partido.

O que se sabe é que todos atuavam há muito tempo (inclusive em campanhas para Fernando Henrique Cardoso) para captar dinheiro de todo tipo de caixa.

O que pode aparecer de novo (e já apareceu no caso de Paulo Preto) é que parte do dinheiro não iria para as campanhas. Para onde teria ido? Os próprios tucanos dizem, há anos, que Paulo Preto apropriou-se de um pedaço para ele e amigos. Quem são os amigos?

O Ministério Público tem agora a chance de produzir a rosácea com bolinhas azuis, em powerpoint, e nos explicar direitinho a estrutura do esquema das propinas de Serra. Quem eram os ladrões que roubavam caixa dois de outros ladrões, conforme suspeitas dos próprios tucanos?

Se não tiver provas, alguma convicção o Ministério Público deve ter para finalmente produzir o esquema da dinheirama tucana.