Esnobado

O juiz Sergio Moro foi defendido dos ataques do PT, ontem na Câmara, pelo deputado Eduardo Bolsonaro, filho de Jair Bolsonaro. Mas no aeroporto de Brasília, quando retornava a Curitiba e o Bolsonaro pai tentou pararicá-lo, foi extremamente frio e distante diante da cordialidade do homem que o apoia com devoção. O vídeo foi feito ontem na praça de alimentação. Moro prefere tirar fotos com os tucanos.

 

Vazadores caçados e vazadores impunes

 

A grande caçada da Justiça Federal hoje tem foco na Suíça. Mas não para repatriar os R$ 23 milhões que a Odebrecht diz ter depositado lá em nome de José Serra.

A Justiça caça o ex-delegado da Polícia Federal Protógenes Queiroz (foto), aquele que em 2008 tentou pegar o banqueiro Daniel Dantas por crimes financeiros diversos e espionagem de concorrentes (a lista é grande), na famosa Operação Satiagraha.

A Justiça quer Protógenes na cadeia. Ele foi condenado em 2014 a dois anos e seis meses de prisão por vazamento de informações da Satiagraha para a imprensa. Um ano depois, foi demitido da Polícia Federal. O ex-delegado, que se refugiou na Suíça, faltou a uma audiência.

Por acaso, no último dia 26 o ex-ministro Nelson Jobim publicou um artigo na Folha sobre os vazamentos sistemáticos da Lava-Jato e deixou no ar esta pergunta: o que acontecerá com quem passa informações sigilosas à imprensa e comete delito funcional previsto em lei?

Jobim escreveu, a respeito da suspeita de que os próprios procuradores da Lava-Jato vazam as informações: “O Estatuto do Ministério Público da União veda essa conduta. O artigo 246 impõe aos membros da instituição, ‘em respeito à dignidade de suas funções e à da Justiça’, ‘guardar segredo sobre assunto de caráter sigiloso que conheçam em razão do cargo’ e ‘desempenhar com zelo e probidade as suas funções’. A demissão é a penalidade imposta pelo estatuto em tais casos de revelação de assuntos sigilosos”.

Quem adverte é alguém com a autoridade de quem foi ministro da Justiça e presidente do Supremo: os vazadores devem ser identificados, punidos e perder o emprego.

O próprio Jobim relembra ao final do artigo o caso de Protógenes, o delegado demitido da Polícia Federal por delito funcional, quando tentava enquadrar um banqueiro que ninguém consegue pegar.

Agora, Protógenes é caçado. Não perguntem onde está o banqueiro, porque eu não vou responder. E também não perguntem o que foi feito da denúncia de vazamento, publicada pela ombudsman da Folha, Paula Cesarino Costa, na edição do dia 19 deste mês, e reafirmada pela mesma jornalista na edição do dia 22.

Paula diz ter mais de três fontes que asseguram que os vazamentos foram cometidos por procuradores federais. Ninguém se mexeu.

Enquanto isso, Protógenes é caçado e Dantas ri da minha, da sua, da nossa cara.

 

Compromisso

Não sei quem ainda comemora o golpe de 64. Mas sei quem continua comemorando, e muito, o de agosto do ano passado.

Se naquele, de 53 anos atrás, os civis recorreram aos militares para derrubar Jango, neste eles não precisaram de ninguém de farda para golpear Dilma.

O golpe das pedaladas avança, cambaleando, com a ajuda decisiva da imprensa e de parte do Ministério Público e do Judiciário.

Concordo com os que dizem (sem que isso subestime em nada as crueldades do golpe de 64) que este foi, no momento da sua aplicação, mais cínico e mais farsante.

Os golpistas de 64 ficaram impunes. Os líderes corruptos do golpe de agosto acreditam que irão desfrutar do mesmo benefício. Assumo o compromisso de estar ao lado dos que se esforçam para que isso não se repita.

 

Vem aí o grande show da direita

Esqueçam o trio tucano que pretendia disputar a eleição de 2018, se é que teremos eleição. Dois deles, Serra e Aécio, foram definitivamente avariados pela Lava-Jato. Mesmo que continuem impunes, só conseguirão voar em trajetos curtos, nos espaço aéreo deles em São Paulo e Minas.

Aécio é delatado todas as semanas. Serra retirou-se do governo do Jaburu, logo depois da denúncia dos delatores de Odebrecht de que recebeu R$ 23 milhões de propina, a maior parte na Suíça.

O terceiro, Alckmin, é um tucano cansado, desgastado pelos escândalos do metrô e da merenda, que iria para sua segunda tentativa de eleição no pior momento. A hora é dos tucanos com bicos (ou dentes) reluzentes.

Saem os tucanos de arrabalde, entram os tucanos sorridentes e cheirosos da elite paulistana, que vestem camisa polo de grife e mocassim de camurça sem meia.

É a hora de João Dória Júnior ou Luciano Huck ou Roberto Justus. O primeiro, uma invenção de Alckmin, tem a antipatia dos tucanos mais antigos, como Fernando Henrique. Mas estes não mandam mais nada no ninho.

Os outros, Huck e Justus, podem até tentar concorrer por outros partidos, se perderem a disputa interna pela preferência, mas são tucanos de origem. A direita quer renovação. E o novo é representado por esses sorrisos de chapa de porcelana.

E dizer que alguns anos atrás chegou-se a temer que Sílvio Santos se elegesse presidente. Sílvio Santos seria um Kennedy perto desses três pretendentes saídos da TV.

O pesadelo do golpe não tem fim. As celebridades que pretendem governar o Brasil fazem ou fizeram o que há de pior na TV, a exploração comercial das demandas e dos sonhos da pobreza, a caridade patrocinada, a solidariedade que busca audiência, a competição que imbeciliza, o marketing do bom mocismo.

O Brasil resignado com o golpe pode estar pronto para a sua versão fajuta de um Trump. O verdadeiro é autêntico no seu reacionarismo. Os nossos são esses bons moços que todos conhecem… Vem aí a direita fofa e com berço.

Nossos legalistas

Há gritaria geral dos ‘liberais’ brasileiros porque o governo da Venezuela aliou-se ao Supremo deles para calar o Congresso.

No Brasil, o presidente do Supremo aliou-se ao Congresso para golpear o governo eleito.

Podem dizer (e os golpistas dizem) que o presidente do Supremo presidiu a sessão do golpe no Senado porque assim manda a lei. Na Venezuela, podem dizer o mesmo.

Nossos liberais golpistas são legalistas apenas quando as leis favorecem suas manobras.

Depois de morto…

Concordo com o Carpinejar. João Gilberto Noll foi morto pela indiferença de todos nós. Inclusive dos cínicos que, depois da morte, como sempre fazem, decidiram reconhecê-lo como grande autor.

Mas não tenhamos pena dos mortos. Tenhamos pena dos que se acham vivos.

http://zh.clicrbs.com.br/rs/entretenimento/livros/noticia/2017/03/fabricio-carpinejar-joao-gilberto-noll-foi-assassinado-9760397.html#showNoticia=LiFNVTMtdWwyMzA3Nzk0NDUxNzYzODIyNTkyd0J+MTE3MjQ2MTE2NDY5MTk1MDc3MiRoZDE2MDM5MjcwMzM2Nzc2MTEwMDhGJVJbSnteb2VsMy9wPG8pTmE=

(Foto de Daniel Ramalho)

 

Pegaram o Cunha. E daí?

A torcida organizada do juiz Sergio Moro na imprensa tenta vender a condenação de Eduardo Cunha como prova de que a Lava-Jato também pega a direita golpista.
É uma bobagem. Cunha já estava condenado muito antes do golpe de agosto. Depois do serviço sujo, não valeria mais nada.
O que a Lava-Jato pegou é apenas uma galinha morta. Ainda falta provar que pega tucano vivo.

A ameaça

Sim, pode ficar pior. Luciano Huck diz em entrevista à Folha, em tom de ameaça, que a ‘geração’ dele (geração?) está pronta pra chegar ao poder.
O que falta é isso mesmo, um governo-programa de auditório que ofereça a Amazônia num sorteio mundial. O Brasil pode resolver todos os seus problemas se for transformado em um grande show.

Tempos difíceis

É discursivo, estudantil, quase raso, o artigo que três procuradores da Lava-Jato publicaram hoje na Folha. Foi meu assunto hoje pela manhã numa conversa com seu Mércio numa fruteira de Ipanema.

– Meu neto poderia ter escrito aquele artigo. E foi assinado por três autoridades – disse seu Mércio.

Os procuradores dizem que a causa das desigualdades no Brasil é a corrupção.

Mas se conclui que talvez só a corrupção do PT, porque outras corrupções, principalmente a tucana, estão livres da caçada moralista.

O artigo é um supermercado de chavões, clichês e frases feitas sobre a cruzada contra as imoralidades da política.

Eu disse ao seu Mércio:

– Parece um discurso do Jânio Quadros.

Seu Mércio me respondeu:

– Ah, se eles tivessem a imaginação do Jânio…

E foi embora com três chuchus.

Fiquei pensando num trecho do artigo que diz: são tempos difíceis.

Com essas procuradores e suas ideias, ficam mais difíceis.

O futuro do pretérito

É comovente o debate sobre o futuro do jornalismo, que mobiliza redações, conversas de bar, professores e curiosos. É como lidar com presságios e adivinhações, no mundo cada vez mais gasoso dos jornais.
Ao invés de debaterem o futuro, deveriam discutir o presente do jornalismo, principalmente do jornalismo dedicado à cobertura política. Suas adesões suspeitas, suas omissões, sua preguiça e seus silêncios.
O presente do jornalismo é algo muito mais tentador do que o futuro vago e incerto. O debate do presente deveria começar pela pluralidade apenas retórica.
Mas quem vai querer saber do presente do jornalismo?