O sábio e o juiz

O cientista Rogério Cerqueira Leite escreveu na Folha no ano passado que o juiz Sergio Moro deveria saber da história de Savonarola, que morreu queimado pela Igreja. O juiz leu ao pé da letra: achou que Cerqueira estava desejando sua morte numa fogueira. Eu conto esse caso no Extra Classe porque o cientista está lançando suas memórias.

Leia aqui:

http://www.extraclasse.org.br/exclusivoweb/2017/03/o-sabio-que-sergio-moro-pretendia-censurar/

A imagem do Moinhos e do Parcão

Pessoas viajadas podem dizer se existe no mundo algum bairro em que o glamour natural do lugar – as ruas, suas galerias de arte e lojas de vanguarda, parques, cafés, brechós, essas coisas que podem estar num Soho, em Nova York, ou na Vila Madalena, em São Paulo –, tem ao mesmo tempo alguma conexão com atitudes e sentimentos reacionários.

Espaços urbanos interessantes, numa definição genérica, são invariavelmente arejados e progressistas, mas não necessariamente. O Moinhos de Vento, em Porto Alegre, sempre foi um lugar interessante. Mesmo que não tenha tudo isso.

É um reduto clássico da alta classe média, de sobrenomes tradicionais, de algum charme percebível na paisagem e na arquitetura. Mas não se pode dizer que seja um bairro progressista ou inovador.

Talvez exatamente por isso, por ser um lugar de gente que combina poder aquisitivo com boa formação, conhecimento, estética, rodagem internacional e outras virtudes, o Moinhos sempre tenha sido visto como um lugar pelo menos interessante.

Pois esse pessoal do velho Moinhos, por mais conservador que possa ser, não tem muito a ver com o que vem se passando no bairro em alguns fins de semana.

Sei que há um desconforto com a tentativa de transformar o Moinhos no reduto do reacionarismo gaúcho, da defesa do armamento, do ajuntamento que reúne de golpistas a racistas e homofóbicos, sob os mais variados pretextos explícitos ou encobertos. O principal deles é o antipetismo.

O Moinhos talvez acabe aceitando a festa de Saint Patrick, mas não merece isso.  O bairro, o Parcão e seu entorno não podem ser confundidos com os bolsonaristas. Se parte dos moradores atraiu esse pessoal para seu reduto, outra parte, talvez a maioria, não concorda com o esforço de alguns de transformar o Parcão na praça em que a extrema direita se pinta para a guerra.

Eu, por algumas vezes, escrevi aqui, ao falar das manifestações da direita extremada no bairro, que essa é a turma do Parcão. Alguns discordaram, me alertaram, pediram que eu reavaliasse a definição.

É o que faço agora. O Moinhos e o Parcão poderiam ser dispensados da presença incômoda dos que só aparecem eventualmente com a intenção de marcá-los como espaço do que há de mais retrógrado na política e na convivência humana.

Não tenho procuração para defender o bairro, até porque sou morador do sul profundo. Escrevo apenas para dizer que não tratarei mais o Parcão como o lugar da direita bolsonarista. Só espero que essa gente que invadiu o Moinhos não transfira seus espetáculos para a Aberta dos Morros.

Um deputado inconsolável

Circula pelos corredores da Assembleia a seguinte história. O deputado gaúcho que declarou guerra à sua colega Manuela D’Ávila, por causa da entrega da medalha do Mérito Farroupilha a Jean Wyllys, está com a autoestima em baixa.

Este deputado tentou homenagear o juiz Sergio Moro com a mesma honraria, apesar de dizer que o deputado carioca não fez nada pelo Rio Grande e que por isso não merece a medalha. Moro teria feito, não se sabe o quê.

O juiz de Curitiba, que já frequentou eventos variados com a participação de tucanos, rejeitou a homenagem. Dizem que o deputado proponente ficou inconsolável.

O próximo alvo dele é Deltan Dallagnol, o procurador da Lava-Jato que fez a famosa rosácea das bolinhas azuis no power point. Ele quer dar a medalha a Dallagnol.

E se o procurador também refugar? Talvez tente então seu grande ídolo, Jair Bolsonaro.

 

Esculhambadores

Começa daqui a pouco, às 19h, a sessão especial da Assembleia gaúcha que vai conceder a medalha do Mérito Farroupilha ao deputado Jean Wyllys.

Tem gente que espera manifestações de grupos de uma certa direita, no entorno ou até dentro da Assembleia.

Eles andam inquietos desde o retumbante fracasso das manifestações de domingo no Parcão, quando nem o filho do Bolsonaro apareceu.

Sobra para essa direita bolsonarista tentar esculhambar com os eventos dos outros. Eles andam pedindo um colo.

 

Os Juízes para a Democracia e a destruição da Previdência

Compartilho a nota da Associação Juízes para a Democracia (AJD) sobre a tal ‘reforma da Previdência’. Gostei muito da referência ao governo interino.

Antes, informo que assumo aqui o compromisso público de contribuir para que as posições e as atitudes da AJD sejam divulgadas, por se apresentarem como um contraponto ao pensamento mais conservador da magistratura brasileira e, principalmente, por defenderem um Judiciário que corresponda às expectativas e demandas da maioria, e não de uns poucos.

Eis a nota, que mostra com clareza essas posições:

“A Associação Juízes para a Democracia (AJD), entidade não governamental e sem fins corporativos, que tem dentre seus objetivos estatutários o respeito aos valores próprios do Estado Democrático de Direito, vem, diante da PEC (Projeto de Emenda Constitucional) da Reforma da Previdência, que propõe profundas alterações nas regras para a concessão de aposentadoria, tanto na esfera privada quanto na pública, manifestar-se nos seguintes termos:

1 – A tramitação da chamada Reforma da Previdência tem ocorrido sob inúmeros questionamentos quanto ao déficit de arrecadação alegado pelo Governo Federal Interino, assim como quanto à ausência de dados concretos que indiquem um suposto colapso do INSS. Não se revela razoável a realização de alterações tão contundentes, como as oficialmente propostas, sem que, antes, seja efetuada uma minuciosa investigação em todo o sistema previdenciário e de assistência social da União.

2 – A alteração das regras para a concessão da aposentadoria traz reflexos imediatos e significativos no mercado de trabalho e afeta a grande massa de trabalhadores, além de interferir na própria economia do País. Por isso, é temerário realizar a alteração proposta sem que haja, antes, um amplo diálogo com a sociedade, para apurar quais seriam as reais falhas do sistema. Menciona-se, como exemplo, o critério atual de “tempo de contribuição” que acaba por privilegiar categorias melhor posicionadas econômica e socialmente, em detrimento dos trabalhadores braçais, informais e terceirizados, que embora trabalhem mais anos e mais horas, dificilmente têm o recolhimento previdenciário regular por parte dos tomadores de serviços e patrões.

3 – O modelo proposto, na realidade, privilegia tão-somente o sistema financeiro que opera os fundos de aposentadoria privada, em detrimento daqueles que só contam com a própria força de trabalho para sustentar a si e a sua família e que só se socorrem da Previdência Social pública nos momentos de doença, incapacidade, ausência ou idade avançada.

4 – Se existisse, de fato, preocupação com a saúde financeira da Previdência Social, a reforma não teria sido proposta de modo a desestimular os mais jovens a ingressar no sistema (qual o incentivo, por exemplo, de um jovem de 16 anos pagar previdência se terá de trabalhar até os 65 anos de idade?). Da mesma forma, não haveria o apoio governamental à recentemente aprovada terceirização ampla, que fomenta a informalidade e a contratação por tempo determinado, gerando uma arrecadação, para o sistema, consideravelmente inferior àquela gerada pelo tradicional trabalhador com carteira assinada.

5- Por sua vez, a emenda do deputado Lincoln Portela (PRB-MG), que prevê a exclusão de magistrados e integrantes do Ministério Público do novo regime proposto pelo Governo Federal Interino, não concede legitimidade à Reforma da Previdência. A retirada de tais agentes da regra geral a que poderá se submeter a população, longe de ser uma solução para uma categoria, configuraria um privilégio injustificável, capaz de acarretar uma indesejável deslegitimação do Poder Judiciário e do Ministério Público, ampliando o distanciamento de tais instituições da realidade social.

6- A exclusão de servidores públicos estaduais e municipais da Reforma da Previdência também não legitima a reforma em questão. Trata-se de verdadeira armadilha que objetiva, de início, dividir a democrática resistência da sociedade civil ao projeto em debate e, em um segundo momento, submeter a categoria à pressão do governo federal sobre Estados e Municípios, normalmente dependentes de verbas oriundas da União.

7 – Qualquer alteração das regras previdenciárias, em geral, e da concessão da aposentadoria, em particular, deve ater-se à função principal do sistema previdenciário, que é manter os laços de solidariedade entre diferentes gerações e constituir esforços de poupança das gerações ativas. Considerando que tais objetivos não são levados em conta na Reforma da Previdência ora em discussão, a AJD clama pela sua não aprovação pelo Congresso Nacional.

São Paulo, 27 de março de 2017.

Associação Juízes para a Democracia”

A direita também está pedindo ajuda

É notícia velha, muito antiga, que a esquerda está ressentida, abalada, encaramujada. Mas agora podemos falar de uma notícia nova. A esquerda ganhou a companhia da direita na crise existencial que abate a militância, as convicções e a democracia brasileira.

A esquerda (e não só o PT) recolheu-se ao desencanto desde muito antes dos preparativos do golpe. Desiludiu-se com as alianças petistas, sofreu os abalos do mensalão, viu o lulismo perder vigor e identidade e foi arrasada pelos estragos do golpe contra Dilma.

A esquerda boicotou a eleição para as prefeituras, passou a desconfiar do poder do voto, resignou-se diante do crescimento avassalador da direita protegida por parte do Ministério Público e do Judiciário e ainda se submete ao imponderável de novos sustos da caçada interminável a Lula e Dilma.

A esquerda repete o Fora Temer no automático, mas já não sabe nem se quer mesmo que o homem do Jaburu caia. E se cair? Vem o Nelson Jobim? Fernando Henrique Cardoso de novo? Cármen Lúcia? Agora, já falam até em Gilmar Mendes. Brigar para botar quem no lugar do homem do Jaburu?

A esquerda quer ficar quieta, quer poder acordar num domingo, lá pelo- meio-dia, e comer o resto da pizza do sábado esquentada no micro-ondas. A esquerda das pequenas e grandes utopias agora quer um dia após o outro e se contenta com muito pouco.

E a direita, que vinha bem até o golpe, enfrenta a ressaca da ilusão que a hipnotizou. A direita mais antiga, a mais racional, essa que ainda foge da tentação do Bolsonaro, está desorientada. Caem também as folhas da direita no implacável outono do golpe.

Essa direita de classe média menos ingênua, que não foi para a rua no domingo (ir para apoiar o Sergio Moro?), está tão perdida quanto a esquerda.

Alguns jornalistas de direita tentam entender o que aconteceu com o fracasso das manifestações nas capitais, frustrados com as próprias expectativas, e evitam o óbvio: a direita clássica, que foi às ruas para derrubar Dilma, perdeu o discurso e o sonho que imaginava ter.

Não há escora capaz de sustentar o esgotamento do antipetismo. A direita de classe média, branca, com diploma, de boa família, sabe que foi enganada pelo próprio golpe e por Aécio, Caiado, Alckmin, Jucá, Serra, Fernando Henrique, Geddel, Padilha.

A direita em algum momento foi liderada por esta turma. Mas os chefes do golpe não têm o que oferecer aos seus liderados. A direita parece não acreditar que o que sobrou para a resistência (resistência pra quê?) foi a Regina Duarte dizendo que agora não se sente só. Imagine tentar sair da solidão na companhia da Regina Duarte e do Marcelo Madureira.

A direita das caçarolas e das passeatas como programa de domingo, que cortejou o pato amarelo da Fiesp, que achou que derrubaria Dilma e ficaria em paz, sem inimigos e sem dúvidas, essa direita também está por aí, sem rumo, pedindo ajuda.

Esquerda e direita poderiam se encontrar um dia, ao acaso, e falar de mágoas, tristezas e desesperanças. Uma poderia até chorar no ombro da outra.

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O inocente

O ministro da Agricultura, Blairo Maggi, que aparece todos os dias no Jornal Nacional pregando a moralização do setor da carne, também é um sujeito sob suspeita.
O rei da soja, grande devastador de florestas para produzir grãos e criar gado, teve os bens bloqueados no Mato Grosso num processo por corrupção e é citado como integrante da lista de propineiros do Janot.
Entre as figuras do agronegócio, que se envolveram agora com o caso da carne podre, o único inocente por enquanto é o boi.

O parafuso que o mundo esqueceu

Vi inúmeras fotos da ponte do Guaíba, no aniversário de Porto Alegre, e me lembrei do seguinte.

Foi um parafuso que apressou o projeto da nova ponte do Guaíba, há uns seis anos. A todo momento quebrava o tal parafuso do mecanismo de içamento da ponte.

E a ponte móvel empacava no caminho e parava tudo, veículos e barcos.

Pressionaram e fizeram o projeto da ponte. Nunca mais falaram no tal parafuso que quebrava porque o velho sistema de içamento estaria condenado.

E nunca mais se ouviu falar que a ponte tenha empacado, depois da liberação da obra. Esses parafusos…