Teremos um dia um tucano delator?

O juiz Sergio Moro pode estar perto da chance de prender tucanos e, quem sabe, ouvir as primeiras delações desse pessoal que é muito delatado, mas nada delata, porque nunca pega cadeia.

Aécio Neves e José Serra poderiam ser hóspedes de Moro em Curitiba, informa a Mônica Bergamo na Folha de hoje. É só o Supremo decidir, como pretende o ministro Luís Roberto Barroso, reduzir o alcance do foro privilegiado de deputados, senadores e ministros.

Barroso entende que o foro deve ser apenas para crimes cometidos durante e em razão do exercício do cargo. Quem cometeu crime antes de assumir como senador, por exemplo, que é o caso de Serra e Aécio, seria julgado pela primeira instância.

Os dois foram denunciados na lista Janot-Fachin pelo recebimento de propina, que o PSDB chama apenas de caixa 2.

Os outros ministros do Supremo ainda devem se manifestar sobre a tese de Barroso. Se a ideia prosperar, Aécio e Serra (hoje com o foro do Supremo) cairiam nas mãos de Moro.

Já dá para imaginar Serra e Aécio delatando os parceiros, se é que um dia eles serão presos. Moro costuma justificar prisões preventivas sempre com o argumento da preservação das provas. Tem gente presa há mais de ano, até que uma hora sai delatando.

Como os atuais delatores se repetem, sempre apontando na direção de Lula, Dilma e outros do PT, seria bom diversificar um pouco.

Eu imagino um tucano dizendo o que sabe sobre as falcatruas que cometeram e cometem (metrô, merenda, Furnas etc), sem que nunca sejam punidos.

Seria coisa de circo. Mas sei que às vezes fico imaginando situações sem fundamento.

O gerente

A ascensão do candidato Emmanuel Macron na França é mais um exemplo do avassalador sucesso dos gerentes. Se estivesse numa firma, Macron poderia seguir em frente, até a aposentadoria, como um gerente mediano.

Na política, um gerente ou alguém que se diz gestor está por ali, ninguém dá nada por ele e de repente o sujeito com cara de cunhado pode virar prefeito, governador ou até presidente da República.

Pelo que contam desse Macron, se quisesse ele poderia até virar imperador montado em um cavalo branco.

Eu, se fosse dirigente de partido, sairia a arregimentar gerentes para as próximas eleições. O século 21 é o século dos gerentes. Mas tem que ser de direita.

Moro recua. Será?

Não se ouviu uma única voz de jurista, uma só, em defesa da decisão de Sergio Moro de que Lula deveria estar presente em todas as audiências com suas testemunhas em um dos processos da Lava-Jato.

Hoje, Moro recuou. Não porque tenha decidido ser cordial, mas porque foi bombardeado por nomes de peso do Direito. O juiz não tinha tinha sido apenas autoritário, como muitos observaram. Havia cometido uma barbeiragem grosseira ao tentar criar lei.

Lula poderia, em resposta, não comparecer às audiências e deixar Moro numa situação ridícula.

Hoje, o juiz avisou que recua da sua decisão, se os advogados de Lula também reduzirem o número de testemunhas (eram 87, o que ele considera muito). É uma tentativa de saída honrosa. Eu vou ceder um pouco e vocês também recuam.

Até eu sei que não cabe a um juiz partir para a revanche diante de atitudes que considera protelatórias.

Os defensores de Moro desejam que Lula jogue o jogo limpo num cenário já enlameado pelas mais variadas imundícies.

Lula deveria ser um Gandhi diante de um juiz que submete seus réus a deliberações estranhas e a crueldades (como as prisões preventivas intermináveis, à espera das delações).

Não sou eu quem diz, mas juristas que comentam, aos montes, os métodos medievais do magistrado de Curitiba. Eu sou apenas um papagaio deles.

Não sou eu quem diz, mas juristas que comentam, aos montes, os métodos medievais do magistrado de Curitiba. Eu sou apenas um papagaio de democratas.

Alguns preferem grasnar tucanamente como o pato da Fiesp. Eu prefiro ser papagaio.

Mas não precisa ser jurista para saber que Moro pode estar cometendo um erro fatal em qualquer área: o de achar, por ouvir apenas a sua torcida, que está ganhando sempre.

O colunista abandonado

Li agora há pouco a sequência de ataques, em artigos e cartas, entre o advogado Cristiano Zanin Martins, que defende Lula, e o colunista Merval Pereira, do Globo.

Zanin acusa a “participação ampla, direta e ilegítima das Organizações Globo na perseguição judicial imposta ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva com o intuito de prejudicar ou inviabilizar sua atuação política”. E aponta erros nos artigos de Merval.

Merval admite alguns erros mas, é claro, defende a Globo e o seu jornalismo. O estranho é que em outros tempos o jornalismo de Merval e da Globo seriam defendidos por gente de peso nas trincheiras da imprensa dita ‘independente’.

Não vi nenhum nome importante do jornalismo defendendo Merval e a Globo. Nem importante nem desimportante. Nem os subalternos mais prestativos, entre os quais alguns gaúchos, se manifestaram em defesa de Merval.

Abandonaram Merval, como Merval abandonou os tucanos avariados pela Lava-Jato e que antes mereciam tanta deferência em sua coluna.

A direita nunca foi muito solidária nos maus momentos de seus pupilos.

Um milagre salva Lula

Alguns dizem, repetem e insistem que as sentenças do juiz Sergio Moro nos processos contra Lula terão de ser muito bem amarradas, ou poderão ser desatadas pela segunda instância. E a segunda instância é a o Tribunal Regional Federal da 4ª Região, em Porto Alegre.

Pois se sabe que o TRF delibera quase tudo a favor de Sergio Moro. Em março, o Tribunal refugou um processo de Lula contra o juiz por abuso de autoridade (o grampo da conversa com Dilma e a condução coercitiva).

O argumento básico é o de que o juiz está em missão única, excepcional, e que suas deliberações podem então ser fora da curva.

O TRF ratifica 70% das sentenças que saem de Curitiba. Este é o grande argumento da Lava-Jato para a conduta do juiz Moro.

Quem conversa com fontes do Judiciário ouve o seguinte: não alimentem as expectativas dos mais otimistas com possíveis decisões do Tribunal Regional que possam vir a favorecer Lula. Não embarquem nessa ilusão.

A situação de Lula, com cinco processos, dois em Curitiba e três em Brasília e outros que ainda poderão aparecer com as investigações em andamento, é a mesma do jogo do Brasil com a Alemanha. Ele pode até marcar um gol, mas corre o risco de tomar sete.

Lula foi cercado impiedosamente. Deve ser destruído antes da eleição de 2018. Não haveria mais o que fazer, a não ser esperar pelo milagre de um inesperado movimento do imponderável, dentro ou fora do Judiciário.

Quanto mais Lula crescer nas pesquisas, mais os delatores irão se multiplicar. Vão levar Lula para o canto e massacrá-lo, em Curitiba e no Jornal Nacional. Com ou sem provas, com ou sem convicções, num cenário geral de anestesia, resignação e acovardamento.

E ninguém enfrenta Sergio Moro, porque desafiá-lo formalmente, nas instâncias do Judiciário (e a corregedoria do Conselho Nacional de Justiça?), condenaria sumariamente o discordante como inimigo da Lava-Jato, da Globo, do pato da Fiesp e dos golpistas do Jaburu.

Moro pode manter alguém em prisão preventiva, como mantém, pelo tempo que quiser (porque a lei o favorece!), para depois obter delações de farrapos morais. Alguns colegas seus até reagem, como os Juízes para a Democracia, mas e daí?

Poucos ou quase ninguém fica sabendo que há discordâncias graves dentro do próprio Judiciário e do Ministério Público em relação aos métodos medievais de Sergio Moro. É uma discordância valente, honrosa, decidida, mas ainda inconsequente, porque aparentemente minoritária e escondida nos biombos da grande imprensa.

E, para completar, o único juiz de instância superior a enfrentar Moro, num episódio pontual, ao recriminá-lo pelo delito de grampear Dilma e mandar a gravação para a Globo, foi o ministro do Supremo Teori Zavaschi.

Mas Teori Zavaschi está morto.

 

FINALMENTE, AS PROVAS

Fico sabendo só agora, porque passei o dia distraído, que apareceram as provas do empreiteiro Léo Pinheiro de que o tríplex do Guarujá é de Lula.

A primeira prova, já nas mãos de Sergio Moro: dois carros em nome do Instituto Lula passaram pelo sistema automático de cobrança dos pedágios a caminho do Guarujá entre 2011 e 2013.

A Folha informa a outra prova: registros de ligações telefônicas entre Léo Pinheiro e pessoas ligadas a Lula.

Mais provas: e-mails que mostram a agenda de Lula, na qual aparece a previsão de encontros com Pinheiro, e mensagens da secretária do instituto para Okamotto, que preside a entidade, avisando que o empresário havia ligado para falar com ele (Lula).

Com provas como estas até eu consigo provar que aquele helicóptero tucano com cocaína mineira era de Lula.

Ah é?

É inquietante esta pergunta que circula nas redes: se o empreiteiro Léo Pinheiro disse a Sergio Moro que Lula mandou destruir as provas das doações por caixa 2 ao PT, por que o juiz não quis saber se ele de fato as destruiu?
Qualquer aprendiz de repórter teria feito a pergunta. O erro (será?) é tão primário que até a Globo registrou ontem, no Jornal Nacional, que Moro ficou em silêncio.
Por que Pinheiro fez a afirmação e o juiz não quis saber mais nada? Porque, se o empreiteiro dissesse que destruiu as provas, não haveria por que ele estar ali. Um delator, dizem, só vale alguma coisa se tiver provas do que afirma.
Ou será que as provas ressuscitarão de repente, junto com outras que nunca aparecem? Ou teremos mais uma convicção?

Uma armadilha para Sergio Moro

O jornalismo de direita comete um erro grave, quase infantil, ao tentar induzir Sergio Moro a pensar que não há outra saída que não seja prender Lula.

A estratégia é precária, porque constrange o juiz. Moro sabe que se transformou em ídolo dos golpistas. É dado estatístico que quase todos os seus gestos (inclusive fotos e presença em eventos) acabam por atender as demandas dessa turma.

Mas o juiz, que tanto valoriza a comunicação com a população, também sabe que seus atos não podem ser vistos como gestos inspirados no ativismo da direita na imprensa. Um juiz não pode ser guru da direita mais reacionária, em lugar algum.

Prender Lula é o desejo primitivo de quem bateu panelas, apoiou o golpe de agosto e viu a quadrilha do Jaburu apropriar-se do poder. E está vendo agora a destruição dos seus ídolos tucanos Aécio, Serra e Alckmin. E verá mais adiante que não terá nem Previdência nem leis trabalhistas. E que seu guru passa a ser Doria Júnior e que um dia poderá vir a ser Luciano Huck.

Essa gente deprimida, que já andou de braços dados com Bolsonaro, não pode acreditar que  orienta a missão do Judiciário na Lava-Jato.

Moro não tem o direito de cometer novas barbeiragens. Duas delas, em circunstâncias normais, teriam avariado seriamente sua carreira: o grampo da conversa de Dilma com Lula, depois entregue à Globo, e a condução coercitiva de Lula.

Prender Lula agora, sem provas, não seria apenas mais uma barbeiragem. Poderá ser um dos maiores erros já cometidos pela Justiça, com consequências políticas imprevisíveis.

Os jornalistas de direita, que babam pedindo a prisão de Lula, os patos sonegadores da Fiesp e os batedores de panela atormentados pelos estragos do golpe que eles mesmos patrocinaram não podem ter a ambição de orientar a conduta de Sergio Moro.

E o juiz sabe que os brasileiros não podem ser induzidos por esta direita abusada ao equívoco de achar que os golpistas pedem e ganham tudo da força-tarefa da Lava-Jato em Curitiba

Um juiz com a missão de Sergio Moro não é alguém tomando decisões em uma ilha, alheio às ansiedades e expectativas de um país inteiro. Um juiz indiferente ao que se passa ao seu redor, nessas circunstâncias, pode cometer falhas brutais.

Se um juiz ignora seu contexto, ou se acha que seu talento e seu marketing pessoal são infalíveis, que Themis, a deusa da Justiça, o proteja.

Os estragos de Palocci

Muita gente não dormiu esta noite e não irá dormir bem a partir de agora com essa declaração do Palocci de que tem assunto para um ano de trabalho da Lava-Jato.
Dizem que os insones não serão tesoureiros do PT, não são Lula, nem Dilma, não serão os delatados de sempre.
A insônia irá pegar uma turma até agora imune e impune.
Aguardemos os estragos que Palocci pode fazer, se é que a delação dele (que atingiria os bancos, dizem) será aceita pela turma de Curitiba.
Os jornalistas da direita mais alegre esperavam muito de Palocci, mas poderão se frustrar com o italiano.

Mais uma do gari tucano

João Doria Júnior está processando (já com despacho favorável de um juiz) os organizadores de um evento virtual em São Paulo, que debocham das suas decisões sobre a Virada Cultural.
Na ditadura, os militares passaram a perseguir quem fazia ironias com o governo, mas a reação geral os obrigou a calibrar a repressão.
Em tempos de democracia, quando o Judiciário ratifica a perseguição a críticos de um prefeito tucano, é porque a coisa ficou feia mesmo.
Golpistas sempre lidaram muito mal com o riso e o humor, mas a Justiça não pode ser cúmplice desta gente.
Confirmam-se as previsões de que a direita cumpre agora a nova etapa do golpe, recorrendo ao Judiciário para intimidar e fazer valer sua postura autoritária, mesmo com quem faz humor.
E dizem que as instituições estão funcionando. Estão mesmo…