O príncipe e o leão

Li há muito tempo aqui na internet que Sergio Moro está querendo prender Lula porque o juiz seria um leitor contumaz, pertinaz e sagaz de Maquiavel.
Como se fosse grande coisa alguém ler Maquiavel. O Príncipe é um livrinho de 160 páginas. Meus netos daqui a pouco estarão lendo e recitando Maquiavel: “O tempo lança adiante todas as coisas e pode transformar o bem em mal e o mal em bem”.
Mas os meus netos não vão querer que prendam Lula só porque leram O Príncipe.
Maquiavel escreveu: “Aqueles que agem apenas como leão não conhecem a sua arte”.
Sergio Moro pode ter pulado esta parte ou lido um resumo de O Príncipe na Wikipédia.

 

Moisés Mendes é autor de  Todos querem ser Mujica 

(crônicas, Editora Diadorim).

A verdade

Imaginem que o juiz Sergio Moro tem à sua frente o empreiteiro Léo Pinheiro e decide então utilizar o novo método das nove mentiras e uma verdade para que o delator conte o que sabe.
E Léo Pinheiro começaria contando esta história:
– Lula mandou, porque ele mandava em todo mundo, que eu destruísse as provas de caixa 2 das doações da OAS ao PT.
E Moro interromperia então o empreiteiro:
– Chega, chega!!! Assim está bom. Esta é a verdade.
E Léo Pinheiro insistiria:
– Mas eu nem contei o resto, doutor?
– O resto não importa. Você está liberado. Pode ir embora com as nove mentiras.

O belo mundo do FMI

A diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, já sabe em Washington que a economia brasileira voltou a crescer sob o comando seguro do homem do Jaburu.
É a manchete esfuziante dos jornais online, que noticiam a declaração da moça como se fosse coisa séria. O Brasil deve ser o único país do mundo que ainda dá manchete para o FMI.
O engraçado é como alguém fica sabendo em Washington de algo do Brasil que aqui ninguém viu, ninguém sabe e ninguém sente.
Aqui na Aberta dos Morros, só o que se vê na TV é a desova de dúzias de delatores que atacam Lula por todos os lados.

E eu ganho o quê?

Tem um sujeito do terceiro time, que não disputaria a série C do jornalismo, tentando me atrair aqui, no Facebook, para um debate sobre engajamento político e militância. Era só o que faltava.
Polêmicas são, desde Jesus Cristo, duelos movidos a vaidade. Minha modéstia não me empurraria para um confronto com ‘jornalistas’ blogueiros veteranos (assumidamente de direita) que escrevem notinhas de três linhas e são incapazes de preencher dois parágrafos.
Como diria o Aristóteles do Alegrete, o que eu ganharia debatendo com bêbados golpistas na saída do baile?

Moro é especial

Gilmar Mendes ficou calado por uma semana e voltou a falar para dizer que não esperem rapidez do Supremo no julgamento dos casos da Lava-Jato.
Foi isso o que ele disse em Portugal, para defender a Justiça em geral, e não só o STF:
– O Judiciário brasileiro de primeira instância não é a 13ª vara de Curitiba (a famosa vara do juiz Sergio Moro).
Claro que não é. O Judiciário que anda a jato não existe em lugar algum. Talvez só exista mesmo, com esse formato, na 13ª vara de Curitiba.
O bom seria ter outra vara lava-jato para julgar os casos envolvendo tucanos. Mas aí também é pedir demais.
Gilmar Mendes está coordenando aquele seminário com tucanos em Lisboa.

E a nossa pátria mãe tão distraída

Enquanto o Brasil dorme, em menos de um ano a direita no Congresso terá feito o serviço completo. Em agosto, golpeou Dilma. De lá pra cá, reforçou a base de apoio incondicional ao homem do Jaburu e passou a aprovar tudo que vem do comando do golpe.

Quando eleitores, sindicatos, batedores de panelas e as tais forças sociais se derem conta, não sobrará mais nada da Previdência e das leis trabalhistas. E, sem verbas, teremos um SUS e uma educação aos pedaços. A Constituição de 88 terá sido destruída.

O país entretido com os pedalinhos de Atibaia subestimou o poder da direita no Congresso. Um dos maiores erros foi cometido pelos sindicatos. Os sindicatos falharam, sem uma estratégia que fizesse contraponto ao avanço do reacionarismo organizado.

O sindicalismo ficou vendo a banda passar, enquanto o golpe ganhava forma havia pelo menos três anos. Não houve nada que se opusesse, pela força da informação, com uma comunicação articulada, ao avanço do pato da Fiesp.

Erraram todos os que viam o Congresso conservador, com a ascensão de grupos religiosos, como um problema restrito aos costumes.

O Congresso das quadrilhas organizadas vai ratificar tudo o que é proposto por um governo que tem apenas 9% de aprovação, porque o projeto é deles, da maioria de deputados e senadores, e não apenas do homem do Jaburu.

Enquanto isso, o Jornal Nacional e a Lava-Jato seletiva de Curitiba nos incentivam a calcular e recalcular os custos da reforma do fantástico sítio de Atibaia.

E vem mais. Os que não estiverem adormecidos verão coisas assustadoras.

 

Que sítio

Apareceu o sujeito que fazia a gestão da reforma milionária do tal sítio de Lula em Atibaia. Ele disse em delação que cuidava de R$ 500 mil da Odebrecht guardados em casa num cofre, para as mais variadas obras.
Se a Odebrecht tivesse me dado essa atribuição, eu não faria reforma nenhuma em sítio de Atibaia. Com esse dinheiro, eu compraria para Lula uma casa nos Alpes suíços.
Essa história da fantástica reforma superfaturada do tal sítio de Lula é o caso exemplar do moralismo mais rasteiro da Lava-Jato, num país em que um ex-presidente tucano pediu e ganhou de presente de empreiteiros uma majestosa sede para seu instituto de altos pensamentos inúteis.
(E não venham com a conversa, igualmente rasteira e simplória, de que, se o FH fez, o Lula não deveria ter feito.)