Blogueiros são ex-jornalistas?

Me contaram há alguns dias que uma colunista gaúcha classificou jornalistas blogueiros como ex-jornalistas. É um ataque depreciativo que nem a direita assumida comete.

Sei que não é verdade, porque continuamos na lida longe das redações. Pois fico sabendo agora, pela voz de Jorge Furtado, que não somos ex-jornalistas. Minha modéstia me manda compartilhar esse trecho de reportagem do Sul21, porque não é todo dia que se aparece ao lado de Jânio de Freitas numa citação de Jorge Furtado:

“O futuro do jornalismo depende dos jornalistas. Porque tem jornalistas bons em qualquer lugar, eles podem escrever até sozinhos. Eu vou seguir o Jânio de Freitas onde ele for. Se ele sair da Folha amanhã e abrir um blog, vou ler o blog dele. Eu continuo lendo o Moisés Mendes no blog dele. Ele saiu da Zero Hora, mas leio no blog dele. É uma diferença: a credibilidade não é mais só do veículo, mas da pessoa”.

Concordo com o Furtado que os blogueiros continuam ajudando a reinventar o jornalismo, no momento em que a grande imprensa enfrenta uma crise generalizada de desconfiança.

(Este é o link da matéria).

‘Sobrevivência só é possível com a verdade’: debate colocou no divã as crises do jornalismo

Covardes em matilhas

A trajetória do golpe até aqui reforça a certeza de que Dilma Rousseff foi uma valente ao ser cercada pelas hienas do Congresso e por outras matilhas camufladas como patos, principalmente no dia em que as enfrentou no Senado.

Claro que ninguém esperava que a bravura de Dilma tivesse algo correspondente entre os golpistas. Mas o Brasil nunca teve tantos covardes amontoados no poder como agora.

 

 

Palocci

Era o que se pensava. Ninguém dava bola para o pedido de delação de Palocci (muito menos Sérgio Moro), porque ele só queria dedurar bancos e grandes empresas sonegadoras.

Palocci somente teria validade se dedurasse Lula e sua relação com as empreiteiras, como desejavam os procuradores.

Pois Lula entrou então no pacote, segundo a Folha. Os procuradores querem saber também das tais contas de US$ 150 milhões de Joesley para Lula e Dilma.

Vai começar tudo de novo. Saem as malas das mulas de Aécio e volta a cozinha do triplex com nova decoração.

Malas X pedalinhos

Me preparo todos os dias para a volta de Lula ao noticiário do Jornal Nacional. Claro que será sobre o tríplex no Guarujá ou o sítio de Atibaia.

Depois de todos os horrores que vimos nos últimos dias sobre as malas do jaburu-rei e de Aécio Neves, sei que terei um acesso de riso e, como consequência, até um acesso de asma quando voltarem a falar da cozinha e dos pedalinhos.

As suspeitas da Lava-Jato de Curitiba (atropelada pelo Joesley) ficaram engraçadas. Diante de tanta mala, a investigação de Curitiba parece apenas uma sindicância imobiliária.

Wander Wildner diz o que aconteceu

Compartilho o texto que o roqueiro Wander Wildner publicou há pouco em seu perfil no Face Book sobre o já famoso episódio no bar de São Paulo. Aí está:

“Eu gostaria aqui de me manifestar sobre a bola de neve que se formou em cima de uma opinião postada na rede social por um dono de bar onde me apresentei sábado (na opinião dele eu tinha sido racista e machista). Ele postou isso domingo, eu li e fiz um post dizendo que o que tinha acontecido tinha sido um mal entendido, até porque não sou racista nem machista. Ele retirou o post no domingo mesmo, mas na rede continuou a discussão. Não imaginei que um mal entendido tomasse tamanha proporção, até porque ele retirou o post da rede. Pensei que ele tinha se tocado da besteira que fez e fiquei tranquilo. Mas como na rede a história tomou uma proporção maior tenho que explicar o que aconteceu. O som do lugar estava péssimo e fiquei varias vezes no começo do show tendo que parar e arrumar. Acho quase que certamente que o dono do bar não gostou das minhas reclamações. Meus shows solos são repletos de textos, histórias engraçadas e comentários entre as músicas. No final da música “Eu queria morar em Beverly Hills” eu termino sempre pedindo uma bebida para a Daryl Hannah (personagem da música), e nesse dia eu disse para a personagem da música “Traga-me una IPA, sua vadia”, fazendo uma alusão ao fato de Daryl estar namorando o Neil Young, o que levou ao fim um casamento de muitos anos dele com Pegi Young e como fan isso me tocou. Talvez quase que certamente eu não devesse tratar ela como vadia, sorry Darryl. E aqui estendendo as minhas sinceras desculpas a todas as mulheres. Seguindo a história, em outro momento do show antes da música “Mares de cerveja” eu costumo pedir uma cerveja para brindar com o público. Nesse bar trabalha um amigo e parceiro meu, que é negro, e eu fiz uma cena, olhando pro dono do bar dizendo – aquele teu funcionário negro está aí? Daí olhei para o público e disse – eu chamo ele de negro e ele me chama de alemão, e não temos problema nenhum com isso. Ok, talvez quase que certamente não devesse ter feito esse texto, sinto muito.
No final do show olhei para o dono do bar e disse – já que nenhuma vadia me trouxe uma cerveja vou cantar a última música. Daí ele desligou o som, o show acabou e eu fui embora. Talvez com certeza não devesse me referir ao dono do bar como vadia, mas minha maior chateação na verdade desde o começo era com ele. O Tribunal do facebook de Tom Zé acabará de me julgar… Minha decisão de não falar textos entre as músicas está tomada, porque podem haver mal entendidos, o que não é nada legal. Reforço pedido de desculpas pelo ocorrido”.
Wander também compartilha o texto do jornalista Mauro Garcia Dahmer, que eu já publiquei antes aqui.

 

Artista não tem foro privilegiado

Vou encerrar por aqui minha participação na polêmica sobre o Wander Wildner. Há uns dois anos, conversava na Zero com o jornalista Cristiano Duarte sobre música e músicos quando eu disse, com ar de sabichão, que ele tinha o perfil de quem gostava das coisas deixadas por Sergio Sampaio e Torquato Neto.

Foi só uma tirada, porque não tenho conhecimento de música e minha ‘cultura musical’ é zero. E aí surgiu, entre outros, o Wander na conversa.

Não, ninguém estava comparando Wander com Torquato ou Sergio Sampaio. Mas falávamos de desviantes. E concordamos que a música suja e debochada do Wander (de quem nunca vi um show) era uma coisa única no Estado.

Então, quero dizer que não tenho nada contra Wander e sua arte. Não tenho nada contra Wander sem a sua arte. Só fiz um comentário sobre um episódio que me chocou.

Wander cometeu um erro com as frases sobre o “nego do bar” e a “vadia” no show em São Paulo. Que encare as reações com naturalidade e não como linchamentos. Artistas são pessoas públicas, não são vítimas indefesas. Artistas de verdade não podem sucumbir à síndrome do linchamento.

Torço para que o roqueiro siga em frente. E desejo que os amigos dos artistas, incluindo o Wander, deixem de pensar que seus brothers têm direito a foro privilegiado.

Se o artista quiser foro privilegiado, que vire político. Vale para jornalistas.

O caso Wander Wildner

Publico este depoimento do jornalista Mauro Garcia Dahmer sobre o episódio ocorrido com o cantor Wander Wildner, num show no bar Fatiado Discos e Cervejas Especiais, de São Paulo, quando o roqueiro foi acusado de racismo e machismo.

“Eu estava lá e a história foi mais ou menos assim: O show estava marcado para as 19h00. O Wander chegou às 18h30 e a casa estava lotada. Não havia técnico de som e o equipamento não estava montado. O Wander começou ele mesmo a montar tudo e o show começou pontualmente às sete da noite. Às sete e meia chegou o Alan (dono da casa) e surpreso perguntou “já começou?”. O som da casa é ruim e começou a apitar e foi apitando até a última música com várias paradas e mesmo assim o público todo se divertindo pra caraca… Mas quem conhece o Wander percebeu que ele estava ficando irritado… Pediu uma cerveja e nada, outra cerveja e nada, nem água… Ele operando o som e tocando… Todo mundo bebendo vinho, cerveja artesanal e a casa ganhando dinheiro. Mais ou menos na metade do show o Wander começou a fazer piadas bem mal humoradas para o dono da casa…”O Negão que trabalha pra ti não pode me trazer uma cerveja? (até onde sei o Malásia e o Wander se tratam de Negão e Alemão desde que se conhecem). O show foi ficando cada vez mais punk mas o público seguia se divertindo e achando tudo engraçado mesmo com as paradas pelo som ruim. Nesse momento eu já estava do lado de fora porque não aguentei tanta microfonia…Começou a tocar Daryl Hanna que é uma música que narra uma paródia de um playboy que quer morar em Beverly Hills. É uma paródia ao machismo consumista e a última fala da letra é “Traga-me tequila babay”, e foi aí que o Wander, dentro do personagem, largou um “já que nenhuma vadia me trouxe cerveja vou fazer a última canção”. O Alan ficou puto da cara e cortou o som… –> fato: ninguém vaiou ou reclamou de machismo ou racismo durante o show porque era evidente que o Wander estava reclamando da casa e lutava contra o som ruim e a falta de cerveja. O show estava lotado de mulheres e nenhuma me pareceu ofendida ou demostrou isso. O Alan publicou no Facebook só a versão dele sem contar o contexto e depois apagou do mas daí o tribunal já estava armado. A casa é legal e o Alan é gente fina e preocupado com questões sociais mas o Wander, com razão, estava puto da cara com o tratamento e a falta de atenção da casa ao trabalho do artista –> conclusão: se eu fosse feminista não tentaria formular discursos numa briga de dois punkrockers sem ter visto a cena. Foi um bate boca de machos daqueles que qualquer mulher com juízo deveria evitar. A banda do Wander em SP é um trio composto por ele e duas mulheres fodonas que mandam na banda e fica bem difícil acusar ele de machismo, ainda mais porque não houve discurso nenhum… Foi mais ou menos isso. Uma bobagem que o tribunal do facebook repercutiu sem ver ou saber os fatos″

É melhor isso do que aquilo

Da filosofia das compensações do juiz Sergio Moro, em uma palestra em Portugal (quando li, quase não acreditei), sobre o valor das delações:

“É melhor você ter um esquema de corrupção descoberto e algumas pessoas punidas do que ter esse esquema de corrupção oculto para sempre. É melhor ter alguém condenado do que não ter ninguém condenado”.

Um filósofo do futebol diria, na mesma linha: é melhor ganhar de 1 a 0 de pênalti do que empatar ou perder.

Um corrupto seguiria o mesmo raciocínio: é melhor ter meia propina do que não ter propina alguma.

E assim vai. A Lava-Jato também é lógica e cultura. Nunca antes neste país o pensamento precário fez tanto sucesso.