A resposta

– Que tal o retorno dele à cadeira de senador?
Já vi várias vezes a cena da resposta do ministro Marco Aurélio Mello à pergunta da repórter sobre o constrangimento provocado pelo Supremo ao adiar o julgamento do pedido de prisão de Aécio Neves.
Marco Aurélio responde com outra pergunta (e antecipa sua decisão sobre o destino de Aécio), com uma empáfia que poderia constranger até Gilmar Mendes.
Quanto mais ouço, mais me convenço de que o Supremo é hoje a instituição que mais maltrata os brasileiros, porque vem destruindo expectativas e ilusões, muito antes de ter colaborado para a liturgia do golpe de agosto.
O sorriso irônico de Marco Aurélio, ao pronunciar a frase e virar as costas aos repórteres, é acintoso e destruidor.
(A pergunta da repórter e a fala do ministro aparecem a partir do trecho 6.47)

http://g1.globo.com/jornal-hoje/noticia/2017/06/stf-decide-que-aecio-neves-pode-voltar-exercer-funcao-de-senador.html

 

 

O tucano de Haia

Fiquei sabendo que professores de Direito de universidades diversas suspendem as aulas na hora do Jornal Nacional para que seus alunos assistam (alguns, em êxtase) às explanações diárias do ministro Alexandre de Moraes.
É a ressurreição do brilho e da exuberância retórica de um magistrado, como há muito não se via, que o JN nos oferece quase todos os dias quando Moraes apresenta os argumentos para seus votos.
Seria, como diria um crítico literário do século 20, um estilo gongórico-parnasiano-enrolativo do século 19. Moraes nos dá a sensação de um carro que se esforça para correr em segunda.

O Brasil merece o deboche destes dois

Flagraram policiais militares que recebiam propina do tráfico no Rio. Eles ainda não foram indiciados pela Polícia. Se forem, podem ou não ser denunciados pelo Ministério Público.

Mesmo assim, se apenas na condição de suspeito um deles fosse recebido pelo juiz que poderia depois julgá-lo, nenhum jornalista sairia a perguntar a juristas e professores de ética se aquilo teria sido normal ou moralmente aceitável. Porque a resposta é óbvia.

Mas um sujeito graúdo, denunciado pelo Ministério Público, e por acaso ocupando a presidência da República, provoca celeuma entre avaliadores de conduta quando janta com o juiz que o recebe em casa e já participou de um e pode vir a participar de outro julgamento em que o conviva é o réu.

Será que a atitude de Gilmar Mendes recebendo o jaburu em sua casa pode ser entendida como algo razoável? Há dúvidas sobre isso? É o que os jornais saíram a perguntar aos ‘especialistas’. Não há o que perguntar.

Ora, Gilmar Mendes e o jaburu jantam a todo momento e apenas voltaram a se encontrar agora, um dia depois do ocupante provisório do Planalto ter sido denunciado por corrupção passiva pelo procurador-geral da República.

Jantam e pronto. Está superado o debate sobre a questão ética envolvida nesta e em outras ações e gestos de Gilmar Mendes e do jaburu.

O que o Brasil não consegue debater é a questão política dessa relação entre juiz e réu. É a abordagem política que deveria interessar e nos mobilizar. Porque os juristas já apontaram as ilegalidades e imoralidades das atitudes de Gilmar Mendes. Tanto que já foram apresentados três pedidos de impeachment ao Senado, para que ele seja afastado do Supremo. Até os procuradores da Lava-Jato batem em Mendes.

Não é preciso ouvir professor da USP e da FGV para saber que Mendes e seu amigo jaburu não deveriam fazer o que fazem. O que o Brasil precisa é entender politicamente o deboche dessa dupla.

Eles agem assim porque se convenceram de que continuarão impunes. Mendes sabe que não será derrubado com argumentos legalistas e pedidos de impeachment. E o jaburu está certo do mesmo, de que pode continuar manobrando e permanecer no poder graças a essas manobras.

O único gesto capaz de derrubá-los seria o mais improvável hoje, o grande gesto das ruas, algo semelhante ao que a classe média ressentida fez com Dilma. Os dois, Mendes e Temer, sabem que as ruas não serão acionadas contra eles.

E sem a insatisfação expressa das ruas, ninguém mais cairá. Sem a compreensão de que Mendes e o jaburu nos desafiam politicamente e tripudiam nossa inação, tudo continuará como está (não vamos mais falar de indignação, por favor).

Ah, dirão alguns, mas Mendes não foi eleito. Nem o jaburu.

(A charge é do Aroeira)

Jornalismo

Viajo daqui a pouco para Erechim. Fui convidado pela presidente do Diretório Acadêmico de História Olga Benário, Najaska Martins, e participo da VII Semana Acadêmica do curso de História da Universidade Federal da Fronteira Sul.

Será a partir das 19h, no bloco A do campus da ERS 135, com mediação do professor Gerson Severo. Vou falar do jornalismo em tempos de crise. O tema central da Semana é “Tempo presente e história: tensões, tendências e problemas”.

Sergio Moro derrotado

Sergio Moro falhou no primeiro grande teste das sentenças sustentadas por delações. A 8ª Turma do Tribunal regional Federal da 4ª Região, em Porto Alegre, absolveu o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto.
Moro havia condenado Vaccari a 15 anos e quatro meses de prisão por lavagem de dinheiro. Por dois a um, os desembargadores entenderam que não há provas contra o ex-tesoureiro. E isso que o juiz da Lava-Jato sustentou a sentença em cinco delatores.
O petista já foi condenado em cinco processos em Curitiba. Faltam quatro. A decisão de segunda instância pode indicar que, ao contrário do que muitos pensam, o Tribunal Regional não vai se submeter à imposição de um Moro aparentemente absoluto, só porque seria o majestático e intocável caçador de corruptos.
Depois desta, que lastro Moro dará à sentença de Lula, se a acusação no caso do tríplex se sustenta em convicções e delações?
E os tesoureiros dos outros partidos, como enfrentam o juiz de Curitiba? Não há tesoureiro de outros partidos preso em Curitiba ou em qualquer outra masmorra no país. Só prenderam tesoureiros do PT.
Da direita só prendem pilotos que transportam cocaína, mas nunca ficam sabendo que quem é o pó.