Resistência

Esta foto é da manifestação de ontem diante do Congresso contra as propostas do governo de reforma da previdência e das leis trabalhistas. Em Buenos Aires, claro. No dia em que seriam derrotados no futebol, nos deram mais uma lição de que não se entregam nunca.
Foto Télam/Página 12

 

AS PANELAS SUJAS DA COZINHA DA LAVA-JATO

Tacla Duran, um dos mafiosos da JBS, confirmou em depoimento por vídeo hoje à CPI da JBS: um grande amigo do juiz Sergio Moro, o já famoso advogado Carlos Zucolotto, tentava intermediar acordos de delação para a Lava-Jato em Curitiba. Tudo com pagamentos por fora.
Duran também confirmou que se formou, em torno da força-tarefa de Curitiba, uma “panela” de advogados encarregados de formatar e amarrar delações. Todo mundo sabe que a indústria da delação move a Lava-Jato e está enriquecendo muita gente, mas Tacla Duran sabe mais, sabe quem pode fazer parte desse grupo.
É o destino favorecendo paneleiros, gente que bateu panelas contra a corrupção e acaba participando de uma panelinha de advogados, com o aval da Lava-Jato, para ganhar muito dinheiro com as delações.
O que acontecerá depois do depoimento de Duran? Nada. Vou repetir: nada. E na semana que vem ele contará de novo o que se passava em Curitiba e nada, nada acontecerá.
A indústria da delação deveria entrar na conta da formação do PIB e da geração e emprego. A Lava-Jato, o jaburu e o Quadrilhão fomentaram no Brasil a próspera indústria da delação, que adota o sistema de trabalho intermitente.

Versões

Já tenho duas versões de texto para hoje à noite, depois que o jogo acabar.
Uma começa assim:
Esta conquista é mais do que uma vitória tricolor, é uma epopeia gaúcha, brasileira e da humanidade contra os argentinos.
E a outra versão começa assim:
Foi apenas mais uma partida de futebol contra o poderoso Lanús,

A família de traficantes e o cinismo

Vou dizer o que penso sobre a prisão de uma mulher e seus dois filhos por tráfico de drogas. É uma família de Charqueadas, que há muito tempo vem sendo monitorada pela polícia, porque o pai também lida com drogas.
Pois vou dizer o que penso. Não me escandaliza e não me choca. E não me induz a pensar que a família brasileira se degradou a ponto de uma mãe envolver os filhos no crime.
Nada disso. O que eles fazem é ilegal. É tão ilegal quanto a corrupção impune de tucanos e da maioria da direita brasileira. Mas é menos imoral. Porque eles não lidam com dinheiro público. A mãe traficante e seus filhos traficantes são menos imorais do que a mãe de Geddel, que contava em casa o dinheiro da propina.
Essa família de Charqueadas faz comércio para abastecer quem consome maconha e cocaína. Deve ter muitos bacanas entre seus clientes de cocaína. Num país em que a repressão fosse substituída por outras formas de controle, num país menos cínico, eles poderiam ser apenas abastecedores da classe média que se droga e continuará se drogando.
Uma notícia dessas não me choca mais. O tráfico mata, corrompe, ameaça a vida de adolescentes, porque a briga é pelo cliente e pelos territórios. O tráfico vai continuar matando enquanto não admitirem que o sistema de guerra às drogas é vencido, é antigo, é ineficiente.
Espero que daqui a alguns anos uma mulher e seus filhos sejam tratados como abastecedores de drogas para bacanas, sob outros controles, mas sem a repressão que apenas os fortalece na guerra entre quadrilhas.
A exposição da mulher e de seus dois filhos nas manchetes é inevitável. É notícia, pelo inusitado de envolver toda a família nessa desgraceira. Mas, como disse uma vez o jornalista Caco Barcellos, eu vou me surpreender no dia em que os compradores de drogas da mulher, entre os quais os executivos do alto consumo, apresentarem seus dramas como consumidores. Se eles, os dramas, de fato existirem.
E eu não desejo, não, que os bacanas sejam presos e condenados (como a polícia e a Justiça fazem com pobres e negros e seus cigarros de maconha), mas que sejam entendidos como abastecedores de traficantes. Desejo que as famílias dos consumidores de cocaína sejam menos cínicas ao lerem manchetes como esta da família de Charqueadas.

A direita unificada

O jornal argentino Página 12 tem investido em reportagens sobre suspeitas e indícios de participação do Judiciário na perseguição a Cristina Kirchner e às esquerdas. Quase todos os dias o jornal tem um texto em que um juiz federal é personagem.
Argentina e Brasil têm de novo muitas coisas em comum. O governo Macri vem com tudo com as reformas trabalhista e da Previdência, enquanto a repressão policial ataca índios Mapuche na Patagônia. Duas pessoas já morreram em confrontos com a polícia e milícias que protegem latifundiários invasores das terras dos índios.
A diferença é que lá a resistência é historicamente melhor organizada. As esquerdas e as centrais sindicais não deixam em paz os Caiados, os Pauderneys, os Maruns e os Bolsonaros deles.
Mas a tática da direita de lá é a mesma daqui. Apostar que a democracia em crise anestesiou a classe média e o povo e então agir impunemente para sequestrar direitos, reprimir, criminalizar os movimentos sociais, fomentar o fascismo e aprimorar o conluio com o Judiciário.

O canto dos tucanos

Li o documento do PSDB, que tenta transmitir a ideia de que o partido vai andar de novo em direção às suas origens de centro-esquerda. Acho interessante como provocação, mas e daí?
O documento me faz lembrar os programas do PSDB para os dois governos de Fernando Henrique. Ambos escritos sob a coordenação de Paulo Renato Souza.
Escrevi a respeito, no segundo governo FH, sobre o caminho que na época era inverso. De um programa social-democrata, no primeiro governo, para um programa mais liberal no segundo.
Eram textos sedutores, bem elaborados, com detalhamentos, até porque Paulo Renato era reconhecidamente bem preparado e se dedicava com afinco ao que fazia. Mas o que documentos como esses significam hoje em dia?
Talvez signifiquem apenas tentativas de acenos a um centro democrático que anda perdido. E o documento tem também um certo cheiro de populismo de direita.
Mas quem do povo, que o PSDB tenta alcançar, vai ter tempo e paciência para ler declaração de intenções no meio desse tiroteio?
Os tucanos tentam dizer que podem ser uma alternativa não necessariamente conservadora, como sempre foram, e que desistiram de trabalhar só para os ricos. Acredite quem quiser.

Cascatas

Uma colunista da Folha diz hoje que a aproximação de Rodrigo Maia com Henrique Meirelles, pensando na eleição de 2018, pode ser uma ameaça a Geraldo Alckmin.

Rodrigo Maia e Meirelles não ameaçam nem o José Maria Eymael. Maia e Meirelles teriam nove votos, incluindo os deles. Mas como Eduardo Cunha, Garotinho, Rosinha e Sergio Cabral estão presos, ficariam com apenas cinco.

Jornalistas adoram essas cascatas. Porque têm simpatia por pretensos candidatos. Mas vamos concordar: ter simpatia pelo Rodrigo Maia é brabo.