O golpe e o futebol

Às vezes, o futebol é muito mais importante do que a política e os destinos de uma nação. Por um dia. É o caso desta quarta-feira.
O golpe nos tirou a vontade de enfrentar e vencer o Quadrilhão. Mas o futebol nunca irá mexer com o desejo de vitória, mesmo nas piores circunstâncias, ou estará morto.
A democracia teria muito a aprender com o futebol. Principalmente a democracia usurpada. Se acreditamos que podemos vencer até os argentinos, lá na casa deles, por que não podemos vencer golpistas corruptos aqui na nossa casa?

Fomos derrotados pelo Quadrilhão

Um dia, a direita brasileira no poder foi sofisticada. Tinha um disfarce de centro-esquerda, mas era uma direita emplumada. Uma direita com o charme de Fernando Henrique Cardoso, Pedro Malan, Armínio Fraga, Luis Carlos Mendonça de Barros, Paulo Renato Souza, Bresser Pereira (há muito tempo arrependido do que pensou e fez), Celso Lafer e tantos outros.

Aquela direita sim era uma direita neoliberal com convicções ideológicas e fortes laços com os interesses dos grandes grupos internacionais. Tanto que vendeu metade do Brasil. Aquela direita tinha lastro e glamour.

Hoje, o programa de TV do PMDB nos mostrou a cara da direita que chegou ao poder em agosto do ano passado. O Brasil arcaico nos governa, com o jaburu, Padilha, Moreira Franco, Jucá, Eunício de Oliveira. Esses caras, que aplicaram o golpe com a ajuda de tucanos e do baixo clero, com o Supremo e com tudo, mantêm o povo sob controle.

Não há sofisticação nenhuma. Não há desculpa de que o mundo financeiro internacional manda cada vez mais no Brasil. O mundo financeiro não precisa mandar, mas só desfrutar do que o Brasil primitivo faz. As esquerdas acham que, ao atribuir o golpe e a anestesia geral a conspirações internacionais, atenuam suas culpas.

Nós fomos golpeados pelo Brasil arcaico, por essa turma do PMDB. Eles nos venceram. As reformas trabalhista e da Previdência, a destruição do SUS e da educação, a entrega do pré-sal, tudo passa antes pelo desejo dos coronéis de desfrutar dos benefícios de todas essas manobras. Do dinheiro que delas resultam, da partilha do saque. Os estrangeiros, claro, chegam para se apropriar do butim.

Mas o Brasil arcaico, predatório, não precisa que o sistema financeiro internacional lhe diga o que fazer para voltar ao sistema escravocrata do século 18. O Brasil do PMDB do Quadrilhão que apareceu na TV é o Brasil primitivo que nos mantém sob controle total.

Foi-se o Brasil de FH e de seus ministros que falavam com George Soros e com os grandes banqueiros e executivos mundiais. O Quadrilhão conversa com os grileiros de terras, os destruidores de florestas, os matadores de índios e os patos reacionários da Fiesp. Meirelles é apenas um lustro.

Não houve e não há nenhuma sofisticação no golpe. Não nos enganemos. Não há hoje nenhuma força internacional mais implacável do que a que sempre existiu.

O dinheiro manda no mundo e o mercado financeiro manobra com a política também no Brasil. Mas os coronéis da política, do latifúndio e seus prepostos das igrejas evangélicas e das balas mandam no Brasil. Estamos anestesiados por forças nacionais retrógradas, pelo Brasil da escravidão. Eles tomaram conta das instituições.

Mas as esquerdas não falam disso, que é admitir a submissão aos novos bandeirantes, a capitães do mato, a sinhozinhos, a coronéis e a todos os agregados que para eles trabalham, inclusive na imprensa e no Judiciário.

O PMDB que apareceu na TV tem o Brasil sob controle. Esqueçam as conspirações do FBI. Nós estamos sob o comando do Brasil do Quadrilhão e não conseguimos reagir. O Quadrilhão não precisa de FBI. Só precisa dos seus cúmplices em todas as instituições, principalmente no Judiciário.

WALY SALOMÃO

Um dia escrevi aqui sobre 10 pessoas que eu ressuscitaria, só para que interferissem um pouco com seu atrevimento neste país cada vez mais racista e fascista.
Hoje me lembrei do Waly Salomão. Não vejo mais ninguém falando do Waly Salomão. E como era bom esse cara, falando e poetando.
Isso aqui eu tirei agora da página dele, que descobri neste momento. É atual demais. É um presente.
“A felicidade do negro é uma felicidade guerreira!
Brasil, meu Brasil brasileiro
Meu grande terreiro, meu berço e nação
Zumbi protetor, guardião padroeiro
Mandai a alforria pro meu coração”
(Waly Salomão)

O ATAQUE SUJO

É possível tentar identificar um dos “ataques sujos” que o juiz Sergio Moro diz ter sofrido de críticos da Lava-Jato. Todo mundo sabe que o maior atacante se chama Tacla Duran e está foragido na Espanha.

O advogado é processado como integrante da quadrilha de propinas da Odebrecht. Ele acusou outro advogado amigo íntimo de Moro de tentar negociar acordos paralelos de delação em troca de dinheiro. O advogado acusado se chama Carlos Zucolotto Júnior.

Zucolotto foi representante, como advogado, de interesses de Tacla Duran em Curitiba. E Zucolotto, além de amigo, foi padrinho de casamento de Sergio Moro.

Tacla Duran, como parceiro de banca de Zucolotto, fazia pagamentos ao amigo do juiz. E a mulher do juiz, Rosângela, foi sócia do escritório de advocacia de Zucolotto.

A revista Veja descobriu que Tacla Duran fez pagamentos ao escritório quando Rosângela era sócia de Zucolotto. Mas isso não é novidade.

A novidade agora é que Sergio Moro finalmente referiu-se a “ataques sujos”. Mas Tacla Duran fez as denúncias, depois renovadas, no dia 27 de setembro. Foram publicadas pela Folha de S. Paulo. Hoje, a reportagem completa dois meses.

Até agora, pelo que se sabe, nenhuma autoridade policial ou do Ministério Público se interessou pelas denúncias. Nem o advogado amigo de Moro se pronuncia sobre a acusação.

Para concordar com o juiz, o ataque é de fato bem sujo. Limpo certamente não é.

O Judiciário desmoralizado

Não interessa se os juízes que irão determinar o futuro de Lula são os mais corretos e dedicados magistrados da Justiça Federal. Interessa que eles não podem ser apartados do contexto. E o contexto é de degradação do Judiciário, desde o começo da caçada a Lula e Dilma, em meio à assustadora expansão do fascismo e da censura, muitas vezes com o aval da própria Justiça.

É do que trata meu texto quinzena no jornal Extra Classe, no link abaixo:

http://www.extraclasse.org.br/exclusivoweb/2017/11/os-juizes-diante-de-lula/

O juiz que trata críticos como cães

É impressionante a criatividade de Luciano Huck e de Sergio Moro. Huck despediu-se da sonhada candidatura a presidente citando o Ulisses da Odisseia. E Moro, o juiz que se inspira no povo, cita o seu João do bar da esquina. Um é erudito e refinado, o outro é um magistrado popular.
Vejam o que o juiz disse hoje em palestra em São Paulo sobre os ataques que sofre de críticos da Lava-Jato:
“Quanto a essas ofensas, tem um ditado: não se deve atirar uma pedra em todo cachorro que ladra”.
É um jeito bem delicado de ser. Muito bonito e educativo. Moro atirou pedras pra todo lado. Eu sou um crítico do juiz, mas espero não ser tratado por ele como cachorro. Nem espero que ele me trate como tucano.

NOSSOS GREGOS DE 1,99

O começo da carta-renúncia de Luciano Huck é de uma modéstia exemplar:
“Como Ulisses em A Odisseia, nos últimos meses estive amarrado ao mastro, tentando escapar da sedução das sereias, cantando a pulmões plenos e por todos os lados, inclusive dentro de mim”.
Não é pouca coisa. O cara era um Ulisses. Perdemos a chance de ter um presidente épico e erudito. O último a citar a Odisseia foi Jânio Quadros.
O jaburu do Quadrilhão cita Heráclito a todo momento. As malas que passam nunca mais serão as mesmas malas.
Como diria Homero, eta Brasil veio.

Justiça com pressa seletiva

Leio notícias sobre os esforços das famílias dos jogadores da Chapecoense para cobrar na Justiça as indenizações a que têm direito. Fico pensando no drama interminável que enfrentarão, como muitas continuam enfrentando em casos semelhantes.
Essas famílias verão o poder do dinheiro adiar decisões, e a Justiça caminhará lentamente para desfecho nenhum durante anos.
As famílias somente teriam êxito se encontrassem um juiz com a pressa processual de um Sergio Moro. É triste, mas é a realidade. Só há celeridade seletiva na Justiça da vara especial da Lava-Jato de Curitiba.