DONA TALIA DIZ EM QUEM NÃO VAI VOTAR

Conversei hoje por telefone com essa senhora. Dona Talia Christaldo é minha leitora desde o tempo de Zero Hora.
E dona Talia foi então me falando das suas impressões sobre o momento político com a sabedoria dos seus 85 anos.
Fomos comentando a conjuntura, citando nomes, listando certezas e dúvidas, e ela mesma se referiu à grande ameaça dessa eleição. Foi quando disse, depois de informar que não acredita na libertação de Lula e de falar das dúvidas sobre em quem votar:
“Eu não votaria de jeito nenhum em Bolsonaro”.
Assim, de forma categórica: de jeito nenhum.
Dona Talia é a expressão da lucidez que vai derrotar as pretensões da extrema direita. É a valentia das mulheres.
Já falei aqui que, apesar de muitas delas votarem em Bolsonaro, a grande maioria (é o que mostram as pesquisas) o rejeita por tudo que ele representa.
A voz das mulheres é a que se expressa por brasileiras com a grandeza dessa senhora. Obrigado, dona Talia.

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ESPAÇOS DE RESISTÊNCIA

Um fenômeno bem percebido nesse inverno que amplia a reação ao golpe. Até pouco tempo, espaços públicos, mas de propriedade privada (bares, cafés, livrarias, restaurantes etc) tentavam evitar qualquer evento ou ajuntamento que tivesse conotação política ‘de esquerda’.
A direita sempre desfrutou dos seus espaços consagrados à pregação ‘liberal’, principalmente os redutos de convescotes empresariais e corporativos. Mas a esquerda vinha sofrendo.
Já mudou e muito. Vou listar um dia desses lugares que se assumiram como acolhedores da resistência democrática.
Uma noite falei com o frequentador de um bar que me disse o seguinte: aqui, o direitista se sente incomodado e nem aparece, ou se aparece fica quieto. Porque o dono não tem o menor interesse no dinheiro deles.
Olhamos para um lado e tinha um desses sentado. Estava sozinho e parecia querer pegar os ares que circulavam por ali. É a democracia.
Tem gente que se omitiu quando do golpe (e eu entendo a situação de muitos deles) e agora está tentando voltar. E vai voltar. Todos os democratas serão bem acolhidos.

Porta Larga

Dia 2 de agosto, um encontro com a velha e a jovem guarda do Porta Larga, um dos bares-restaurantes da mitologia do jornalismo gaúcho.
O Porta é o único sobrevivente de todos os redutos de reflexão jornalística do século 20, onde foram projetadas soluções para as mais complexas questões do século 21.
Prometemos como atração a presença de lendas da imprensa, como… Não vou estragar a surpresa.
Programem-se e apareçam. Aberto aos militantes da democracia.

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O MBL E O BOITATÁ

O MBL está assustado e apressado. Pediu ao Tribunal Superior Eleitoral que Lula seja considerado inelegível, mas oficialmente Lula nem candidato é ainda.
Aliás, muita gente diz que o MBL tem grande influência na prefeitura de Porto Alegre. Eu perguntei esses dias a amigos o que é afinal o MBL no Rio Grande do Sul.
Eu acho que o MBL gaúcho é uma invenção para tentar justificar a administração errática do gestor tucano. A culpa por não conseguir nem tapar buracos de rua seria do MBL e não dele.
Outros dizem que o MBL é um guarda-chuva com gente de direita de todos os naipes, ou um espírito agregador de ultra-reacionários e não necessariamente um grupo homogêneo de pessoas.
Mas eu acho que o MBL daqui é uma lenda, como a lenda do boitatá. Com a diferença de que o boitatá existe.

COM CHEIRO DE FÁBRICA E DE TERRA

Estive ontem e hoje com duas figuras que admiro muito por seus vínculos de origem com o chão de fábrica, com a terra, o trabalhador e o povo. Claudir Nespolo, presidente licenciado da CUT/RS e pré-candidato a deputado federal, e Dionilso Marcon, deputado federal e pré-candidato à reeleição.

Ambos têm o que os líderes autênticos conquistam com muita dedicação e integridade: base social. O lastro político deles é o povo que ajudou a manter o PT vivo e forte, enquanto os partidos da direita caem aos pedaços.

Na primeira foto, Claudir está lá atrás, bem ao centro da turma que conversou conosco no Café Nossa Cara, ontem no Bom Fim. Claudir não está na última fila só porque é um cara grandão. Está lá porque já percebi que esse é o jeito dele.

Admiro demais o Claudir. Esta foto mostra muito bem quem é esse líder metalúrgico.

E o outro líder é o Dionilso Marcon, com trajetória de luta política na agricultura familiar e ao lado dos sem-terra. É um agricultor assentado que se elegeu deputado.

Notem que falta a última falange do dedo indicador da mão esquerda do Marcon. Ele me contou hoje que perdeu a ponta do dedo há muitos anos num moedor de milho. Por isso se diverte dizendo que o seu “L” de Lula feito com os dedos é minúsculo.

Tenho me encontrado com Claudir e Marcon porque me identifico em muitas coisas com os dois. Fui um dos tantos interioranos empurrados para a Capital em busca de trabalho. Mas sou até hoje um fronteiriço extraviado.

A simplicidade desses dois líderes tem força porque é autêntica, é da natureza deles, não é fabricada. Estou bem ao lado do Claudir e do Marcon.

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O vice

Muita gente esperava que Bolsonaro anunciaria uma mulher como vice, como estratégia ou como provocação mesmo.
Pois se sabe agora que ele irá anunciar um oficial reformado do Exército, o general Augusto Heleno, ex-comandante de missões no Haiti.
Tudo para que o seu eleitor não tenha dúvida sobre suas escolhas. Um presidente e um vice coerentes com o que representam e para que fique claro que Bolsonaro tem o apoio das Forças Armadas. Será?
Quem vai encarar?

A CULTURA E A CADEIA

Uma decisão que reafirma a ‘coerência’ do que acontece no Estado em todas as áreas. A sede da TVE pode dar lugar a três delegacias de polícia. Esta é a trágica manchete dos jornais online.
É pior do que privatizar o que era a comunicação pública do Estado. É mandar um recado: o que foi um espaço de informação, de jornalismo e de cultura pode passar a ser um espaço policial.
É simbólico e é real. Polícia num lugar em que se produzia conhecimento. Celas no lugar de estúdios e redações.
Podem argumentar como quiserem em favor da segurança. Mas é uma prova de que tudo pode acontecer. Aguardem o próximo lance.
A Casa de Cultura Mario Quintana poderia, nessa linha de raciocínio, virar um presídio. A direita brasileira parece estar desesperadamente em busca de uma Bastilha.

Servidão voluntária

Compartilho este belo artigo do meu amigo Abrão Slavutzky, publicado em Zero Hora.

Esta frase é poderosa: “A angústia gerada pelo desamparo é uma das principais origens do medo da liberdade”.

Servidão voluntária

Abrão Slavutzky*

Admiro os que não desistiram de pensar os enigmas da condição humana. Entre tantos enigmas um atravessou séculos como é o caso da servidão voluntária. Desde a metade do século XVI o desejo de submissão ficou sem explicação. Servidão voluntária é um paradoxo que revela como duas verdades contrárias não se excluem. Muitos, em busca da sonhada segurança, abrem mão da liberdade.

Foi o francês Étienne de La Boétie quem, em 1546, criou a expressão servidão voluntária. Escreveu sobre a tirania, o governo, o poder, a servidão e a amizade. Fez a pergunta difícil de responder: “Não é vergonhoso ver um número infinito de homens não só obedecer, mas rastejar (…)?”. Defendia a rebeldia do povo em não se submeter aos desejos dos governantes.

Trata-se de uma complexa questão do autoritarismo, mas também psíquica. A interpretação psicanalítica da servidão se baseia no masoquismo primário, o erotismo do sofrimento. O masoquismo é da condição humana definiu Sigmund Freud em 1924 em O problema econômico do masoquismo. Afirma que o masoquista quer ser tratado como uma criança pequena, desamparada, dependente, com necessidade de castigo. Essa necessidade é um alívio ao desamparo, pois tem alguém que goza, desfruta da sua dor. Nos   fazemos mal, com  fantasias de mal trato, pesadelos que expressam a necessidade de castigo. Sofridas são as mortificações, como os vícios de toda ordem, as parcerias destrutivas, entre tantos. Assim, o masoquismo se vincula à pulsão de morte. Essa poderosa pulsão é estudada logo  após o final da Primeira Guerra Mundial. Aliás, essa guerra marcou não só a Psicanálise, mas as artes através do surrealismo e a própria condição humana. Freud escreveu sobre a psicologia das massas e o mal estar da cultura. Construiu assim pontes  entre o indivíduo e a sociedade. E uma palavra irá crescer de importância que é o desamparo.

A angústia gerada pelo desamparo é uma das principais origens do medo da liberdade. Desde a perspectiva individual, todos nascem submetidos e amparados pelos pais. O desafio ao crescer é  a independência para buscar o seu caminho próprio. É difícil atravessar o deserto que leva da segurança imaginária ao desamparo de viver livremente.

A luta contra a servidão passa pelo desafio do desamparo. É uma vitória diminuir a tendência masoquista que nos constitui. Para isso  é preciso construir os vínculos de amizade que permitem manter a rebeldia criativa. O apoio dos amigos auxilia a cruzar a passagem da dependência à liberdade. Ajuda a pensar o lugar que cada um ocupa nos desejos dos progenitores, bem como na busca do sentido de vida.

Por outro lado, a servidão voluntária é estimulada politicamente. Vivemos  tempos em que crescem os inimigos íntimos da democracia. Há uma ameaça à sobrevivência dos ideais democráticos no nosso século: crescem as estruturas autoritárias no sistema político ocidental. Pode-se dizer que a democracia corre riscos.  Parte do povo pode se transformar em massa manipulável pelo Deus Mercado e seus representantes na economia e na política.  Todos usam os trajes da democracia e podem passar despercebidos. Passa a ser crucial recuperar o entusiasmo do projeto democrático-o poder do povo. Creio que esse entusiasmo passa por entender e se opor, em todos os níveis, a sedutora servidão voluntária.

*Psicanalista