O NOVO CUNHA

Bolsonaro pode ter passado dos limites ontem e se autodestruído no Roda Viva. Não acredito que ele tenha saído fortalecido.
Finalmente estourou a bomba que Bolsonaro levava no colo. Há estilhaços da bomba da extrema direita na sala de muitas casas de tradicionais famílias da classe média brasileira.
Não há como ignorar isso. Quem fingir que não está vendo nada, que não viu Bolsonaro atacar negros e mulheres e defender a tortura, com uma ferocidade ampliada, terá que um dia prestar contas a familiares e à própria consciência.
Bolsonaro pode até subir nas pesquisas, pela exposição que teve. Mas cairá logo adiante. Ele faz apenas uma empreitada para a direita ressentida e mais odienta. Apenas uma empreitada.
Faz o trabalho sujo temporário e intermitente como racista, homofóbico e misógino e como antiPT e antiLula, como o MBL também faz. Mas não é uma opção séria de poder para a maioria da direita diplomada e com boa renda.
A direita sabe que Bolsonaro chegou ao limite do seu papel no golpe.
Se Alckmin reagir um pouco, Bolsonaro terá o mesmo destino de Eduardo Cunha e Aécio Neves.

MEIO VALENTÃO

A cena mais vexatória da entrevista de Bolsonaro ao Roda Viva foi quando ele tentou explicar como perdeu um revólver para um assaltante em 1995.
O cara que defende que cada brasileiro tenha uma arma, que foi treinado para usar armas, que é fortão, que diz enfrentar bandidos, teve a arma surrupiada por um bandido (ele diz agora que foram dois, talvez tenham sido três ou quatro).
E depois ainda diz que, se alguém com uma arma tiver 5% de chance de reação, contra 95% a favor do agressor, já está bom.
É o valentão que na hora da verdade entrega a arma a quem o confronta com a sua valentia meia boca.
(E ainda afirmou ao final do relato, com meio sorriso, insinuando alguma coisa, que o assaltante apareceu morto dias depois.)

Cena

Cena matinal da família-margarina de classe média dividida pelo apoio do pai a Bolsonaro.
A mãe corre para dar café aos dois filhos pequenos, todos atrasados, enquanto o pai, consultando o celular, provoca:
– Ele arrasou ontem no Roda Viva.
A mulher não reage, sai da sala arrastando o menor para o banheiro para escovar os dentes, e o homem insiste, agora gritando:
– Ele é fera.
A mulher arrasta o segundo filho, pega as mochilas, diz que não pode falar porque está queimada, e o homem faz a última tentativa:
– Ele melhorou muito na argumentação da parte econômica e sabe tudo sobre mortalidade infantil.
Antes de bater a porta e sair com os filhos, a mulher vira-se e diz:
– Não tortura a tua família. Cala a tua boca!!!

POUPARAM O INCITADOR DE ESTUPROS

E o Roda Viva foi encerrado com Bolsonaro mentindo sobre as posições da deputada Maria do Rosário sobre a punição de estupradores e passando incólume diante da grande questão que pode atrapalhar sua caminhada política.
Nenhum jornalista foi capaz de contestá-lo e dizer que ele falava uma besteira, ao atribuir de novo à deputada a defesa de estupradores (uma mentira grosseira que toda a extrema direita repete). E ninguém perguntou sobre o processo em que ele é réu por ser um incitador de estupros.
A mais grave de todas as questões envolvendo Bolsonaro, que é a incitação da violência sexual contra a mulher, foi escamoteada por perguntas envolvendo sua briga com Maria do Rosário.
Bolsonaro é o pregador de estupros. Não é um inimigo apenas da valente Maria do Rosário, é um inimigo e um agressor das mulheres.
O Roda Viva poupou o incitador de estupros Jair Bolsonaro. O Supremo  engavetador de processos, da turma de Romero Jucá (hoje presidido por uma mulher), também irá poupá-lo?

Bolsonaro

Anotações que fiz no Facebook da entrevista de Bolsonaro ao Roda Viva.

Bolsonaro encerra a entrevista ao Roda Viva com uma confissão que será aplaudida por seus eleitores de classe média com diploma, com bons salários e boas posições nas empresas.
O livro da sua vida é A Verdade Sufocada, do torturador Brilhante Ustra.
Bolsonaro reincide no elogio a uma das mais cruéis bestas da ditadura. E seus adoradores entram em êxtase.

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Ainda falta no Roda Viva uma pergunta que qualquer repórter tem a obrigação de fazer a Bolsonaro.
Como será sua defesa no processo que corre no Supremo em que o senhor já é réu por incitação ao estupro?

(E a pergunta não foi feita)

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Uma notícia aos que não estão vendo Bolsonaro. A entrevista pode ter o mesmo efeito do vídeo do Neymar para a Gillette. É destruidora.

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Bolsonaro acaba de dizer no Roda Viva que tem mais votos do que Lula. Porque ele está contando todos os votos a cada aperto de mão.

À ESPERA DE LULA

Li agora o título de uma notícia na Folha em que o jaburu é citado como presidente da República.
Assim mesmo: o presidente fulano de tal disse isso e aquilo sobre o tabelamento do frete.
É estranho, parece que o Brasil não tem mais presidente, nem governo.
A sensação é de que sobraram apenas Sergio Moro, Deltan Dallagnol, Cármen Lúcia, Alexandre de Moraes, Romero Jucá, Gilmar Mendes e Bolsonaro.
E que todo o resto circula ao redor deles, como cúmplices ou prepostos ou subalternos do que eles fazem e dizem.
E que o jaburu é apenas um zumbi que de vez em quando dá uma declaração sobre o tabelamento do frete, como se isso tivesse algum sentido.
Ninguém quer saber mais nada do que o jaburu pensa ou faz, porque não importa.
É como se Dom Luiz Pedro Eduardo de Orleans e Bragança emitisse uma opinião sobre o último eclipse. Não muda nada, não resolve nada. É uma bobagem.
A sensação geral é a de que os brasileiros desistiram de ter governo e estão apenas à espera da volta de Lula.
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Compadres do Bolsonaro

Formaram uma bancada de compadres e comadres para entrevistar Bolsonaro no Roda Viva hoje.
Sérgio Dávila, editor-executivo da Folha; Thaís Oyama, redatora-chefe da revista Veja; Maria Cristina Fernandes, colunista do Valor Econômico; e Leonencio Nossa, repórter especial do jornal O Estado de S. Paulo.
O único que destoa dessa turma é Bernardo Mello Franco, colunista do Globo.
O resto só vai fazer cena. A TV Cultura também deve ter medo de Bolsonaro.

Vão pagar?

O que foi feito na Freeway, que está caindo aos pedaços, é o óbvio. Programaram para que, quando a concessionária saltasse fora, o asfalto se esfarelasse. Ou alguém acredita que o asfalto acabou de repente ao perceber que havia ficado desamparo pelo antigo gestor de buracos?
O asfalto durou até a última hora. Saltaram fora no momento em que a estrada iria acabar. Agora, o TCU descobre que estávamos pagando à Concepa o dobro de pedágio que deveria ser pago.
O nome disso todos sabem e está no relatório do TCU. Fomos roubados. Vão devolver? Para quem?
(É triste ver engenheiros se prestando para dar explicações ‘técnicas’ sobre as causas da degradação do asfalto da Freeway. Por favor, não embarquem nessas explicações. É mais ou menos como as famosas explicações para o parafuso da ponte móvel do Guaíba, que nunca mais estragou…)

O PROCURADOR E A PF

O procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, da força-tarefa de Deltan Dallagnol na Lava-Jato, desqualifica o trabalho da Polícia Federal no acerto de delações, em entrevista à Folha.
É de se esperar agora a reposta da PF, se é que virá, ou se a PF continuará resignada com os ataques do Ministério Público ao que vem fazendo na tal guerra à corrupção.
O homem diz claramente que os acordos feitos pela PF são de segunda categoria. Os bons mesmo são os conduzidos por ele e a turma do Dallagnol.
Outra coisa que o procurador diz: que um dos acordos mais importantes de delação foi o do Pedro Barusco, o ladrão avulso da Petrobras.
O interessante é que Barusco não disse até hoje para quem roubou durante cinco anos no governo tucano de Fernando Henrique. Barusco, um gerente do terceiro time, juntou quase R$ 400 milhões em propinas. E ninguém sabe até hoje quem era o seu chefe no roubo.
Mas o procurador, que passa uma mistura de soberba com empáfia na entrevista, achou o acordo importante. Cada vez se sabe mais sobre o que é desimportante para a Lava-Jato.
O que o procurador não diz (e o repórter não perguntou) é que todos os delatores que passaram pelo MP estão hoje soltos e impunes.
Porque suas condenações foram apenas no papel. Os chefes das quadrilhas foram anistiados pelos bons acordos que fizeram. Todos estão em liberdade. E muito bem de vida.