UM DILEMA NO SARAU

Terça é dia de Sarau Elétrico no Ocidente. O entrevistado desta semana é Hélio Flanders, vocalista da banda Vanguart.
Dia desses fui ver minha amiga Rosa Maria Bueno Fischer conversar com o Luís Augusto Fischer (primo dela), a Kátia Suman e o Diego Grando.
Não tinha mais lugar, e o Fischer sugeriu que eu e outros que estavam em pé tentassem se acomodar nas mesas ocupadas. Olhei na volta e não havia cadeira.
Me encostei no balcão, com a perna direita cruzada na frente da esquerda, pedi duas doses de conhaque e fiquei imaginando a seguinte cena.
O Sarau vai receber Chico Buarque e já no meio da tarde não há mais lugar. Pouco antes do início da conversa, as pessoas vão se amontoando no balcão, e algumas estão sobre as árvores da Redenção, quando Fischer diz o seguinte:
– Pessoal, há uma cadeira vazia bem aqui na frente.
Kátia faz sinal com o dedo, olhando meio de lado, e Diego aponta com o queixo.
E na mesa estão Bolsonaro, Sergio Moro e o jaburu, porque eles também têm o direito gostar do Chico mais lírico. Todos tomam campari e cochicham.
Eis então o dilema. Tu estás ali, com a chance de ver Chico a meio metro de distância, mas a mesa com uma cadeira vazia é aquela.
O que fazer? Responda rápido, antes que chegue o Aécio.

PAIXÃO

Do Luís Augusto Fischer sobre Paixão Côrtes. Está dito aqui o que eu tentaria dizer desse homem talentoso, delicado e cordial:
“Na Feira do Livro de Porto Alegre de 2010, o patrono foi o grande Paixão Côrtes. E ele me convidou para conversar, numa sessão em homenagem ao patrono. Um grande gosto e uma honra para mim estar por perto dessa grande figura, um artista de talento, um agitador cultural inteligente, que não se deixava embretar — e fazia questão de dizer que o tradicionalismo deveria ser dinâmico, tanto que se chamava “movimento tradicionalista”, ele enfatizava, pondo acento na primeira palavra. RIP”

E o contrário?

Faz sucesso no youtube Bolsonaro andando a cavalo no rodeio de Barretos. Um homem andando a trote?
Não vejo nada de mais, mesmo que esteja meio torto nos arreios. Homem a cavalo é o que mais se vê no Alegrete.
Chamaria mais atenção se o cavalo decidisse andar no Bolsonaro.

Mais um processo?

O candidato de uma certa elite (mas rejeitado pelos jovens e pelas mulheres) pode ser transformado em réu de novo amanhã.
A Primeira Turma do Supremo vai decidir se acolhe ou não a denúncia do Ministério Público para a acusação de racismo contra quilombolas e outros grupos sociais.
Este ano, em palestra no Clube Hebraica, no Rio, o sujeito comparou negros a bois. “Eu fui em um quilombola em Eldorado Paulista. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas”.
É grave, mas tem outro caso mais grave. Aquele em que atacou a deputada Maria do Rosário e foi denunciado por incentivo ao estupro. Nesse processo, ele já é reú.
O propagandista de estupros vai escapar de mais um processo? Como a direita não encontra um candidato cheiroso, pode escapar.
O indivíduo pode ser a única alternativa para a classe média antiPT, que muitas vezes é bem mais do que antiPT, é racista e homofóbica.

PARAR DE SONHAR? NUNCA

Esta placa atraiu a atenção do futuro governador Miguel Rossetto ontem à tarde no centro da Lomba do Pinheiro, e ele me disse: vem cá, vamos tirar uma foto. Eu fui e o Emílio Pedroso fez a imagem.
Estamos diante de um apelo erguido no canteiro: não pare de sonhar. Está assinado pelos anjos do bem.
Um homem sem entusiasmo não daria bola para a placa.
Eu gosto muito de caminhar ao lado de Rossetto. Pela sua história, pela sua integridade e sensibilidade e pela possibilidade concreta de reconstruir o Rio Grande.
Foi uma caminhada bonita na Lomba. Com deputados, com candidatos a deputado, líderes do PT e com o povo parando, perguntando, andando junto. A maioria dos moradores que parava para conversar dizia: se vocês estão com Lula, nós também estamos.
É o que as pessoas dizem. Lula precisa voltar. Mas têm clareza: se não for com Lula, será com Haddad e Manuela.
Com essa gente, é claro que não vamos parar de sonhar.

 

Diferenças? Onde?

Cena assustadora esta semana em uma loja de Camaquã, mas que poderia ter ocorrido em qualquer outra cidade. Entrei na loja, como participante de uma caminhada do PT, e uma atendente começou a falar em voz alta para o grupo:
“Eu quero que todos sejam tratados como iguais. Que não existam diferenças entre mulheres, homens, gays, negros… Por isso eu voto em Bolsonaro”.
Outra moça da turma tentou argumentar:
“Mas é exatamente isso que ele não admite, o que você diz é o contrário do que ele pensa. Ele não respeita as pessoas porque não respeita as diferenças”.
E a comerciária continuou discursando, com o apoio de duas colegas e de um colega.
E a caminhada com Miguel Rossetto foi em frente. Uma senhora que participava da manifestação (e que não sei quem é) fez esse comentário a uma amiga, já na calçada:
“Fiquei com pena dela”.
Eu não senti pena, mas um certo estranhamento. Que formação (não só escolar) e que informações levaram a moça a fazer tal confusão?

A UNIVERSIDADE CERCADA

Mais um reitor da Universidade Federal de Santa Catarina entra na mira da Polícia Federal e do Ministério Público.
Agora é a vez de Ubaldo Balthazar, acusado, junto com o chefe de gabinete da reitoria, Aureo Mafra de Moraes, de ofender a “honra funcional” da delegada Erika Marena.
Os dois foram denunciados agora à Justiça pelo Ministério Público Federal de Santa Catarina.
Erika é a famosa delegada do inquérito que massacrou moralmente o reitor Luiz Carlos Cancellier.
O atual reitor e Moraes participaram em dezembro de um ato em defesa da memória de Cancellier, que se suicidou sob a pressão das acusações. O MP acha que os dois atingiram a honra da delegada.
As instituições seguem em Florianópolis o roteiro do caso da boate Kiss, em que vítimas passaram a ser processadas por acusadores.
Registre-se que o jornalista Elio Gaspari é um dos poucos da grande imprensa a denunciar o cerco sem provas ao reitor morto, acusado de obstrução de justiça.
A grande maioria dos jornalistas se acovardou. Nunca, nem no tempo da ditadura, a grande imprensa foi tão subalterna e covarde.