Raso

Tem alguma coisa de infantil, de pueril, e que explica o rebaixamento de todo debate e de toda reflexão no Brasil, a resposta de William Bonner ontem a Bolsonaro.
Foi quando Bolsonaro disse que a Folha está acabando. Bonner, para defender a imprensa, disse que a Folha já fez críticas duras ao Jornal Nacional, mas deve ser defendida porque é parte da imprensa séria.
Se fosse numa conversa de criança, seria mais ou menos assim: ele intica comigo, mas eu até gosto dele, porque ele também é criança.
Esse jornalismo que está aí merece mesmo ser defendido por William Bonner da pior forma possível.

ENSINAMENTOS

Eu sempre tive vergonha da minha formação teórica precária sobre marxismos, trotskismos, anarquismos e outros ismos.
Eu gostaria de ser adolescente hoje para ter aulas com esses professores comunistas que ensinam em detalhes tudo que nunca aprendi em sala de aula e tive preguiça de aprender por conta própria nos livros.
Eu sei apenas que o marxismo é algo que a direita usa para acusar a esquerda de ser o que a maioria nem suspeita o que possa ser. Mas dizem que as escolas estão tomadas de comunistas,.
Todo adversário político da direita passa a ser perigoso comunista totalitário, por mais que defenda e exerça a liberdade de expressão e proteja todas as diferenças e todas as liberdades.
Mas a extrema direita odienta e raivosa, que tenta impor seu modo de pensar, sabe muito bem o que ela própria é. E não precisa ter aulas teóricas de fascismo para levar adiante seu plano de ameaçar e perseguir os discordantes.
Qualquer professor pode dizer a essa direita que o fascismo só existe como doutrina porque é uma deformação de caráter. É simples, em uma aula sobre liberdade e sobre violência e opressão um fascista fica sabendo tudo.

E agora?

Se Bolsonaro afirma agora, todos os dias, que não é racista, que não é homofóbico, que não vai eliminar os inimigos vermelhos, que não vai mais perseguir professores e que nunca desejaria o estupro de mulheres, seus eleitores (que votaram com tanta convicção) podem ter sido enganados.

A imprensa ressuscitada

Bolsonaro deseja todos os dias o fim da Folha de S. Paulo. Pois a Folha vacilante e moribunda poderá ressuscitar graças a Bolsonaro.
Muitos outros jornais aliados do golpe pegarão carona e tentarão a ressurreição. Em nome de uma liberdade que só defendem dependendo das circunstâncias e dos interesses em jogo.
Outros jornais vão moderar, como sempre moderam diante do poder que se instala, porque liberdade de expressão tem limite (de acordo com a verba de propaganda do governo).
E tantos outros serão apenas assessores de imprensa do eleito. Tem jornalista fofo na fila para bajular Bolsonaro. Mas sempre fazendo uma bajulação crítica.

Novos tempos

Compartilho este artigo do meu amigo Claudio Guedes, pulicado originalmente no FaceBook.

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NOVOS TEMPOS

Claudio Guedes

(Escritor)

A sociedade brasileira foi, de certa forma, tutelada pelo PT nos últimos anos. É sempre cômodo, quando temos governos democráticos, aceitar essa proteção que facilita, em muito, inclusive a tarefa, quase uma mania nacional, de esculhambar o próprio governo.

A defesa da democracia, das minorias, da cidadania, um dos grandes acertos dos governos petistas foi desconsiderado, por muitos do lado de cá – que se dizem defensores da democracia – e, obviamente, por todos do lado de lá – defensores do autoritarismo -, como se essa não fosse uma grande contribuição do partido à vida do país.

Muitos progressistas foram abduzidos pela cantilena moralista da santa aliança da toga parcial e antipetista com a mídia conservadora e reacionária, que inflou à estratosfera os erros do PT na questão do financiamento eleitoral e no fato de que alguns – poucos, na verdade, apenas uns gatos pingados – petistas se corromperam em benefício próprio.

A direita, como sempre mais esperta na manipulação de fatos e muito mais oportunista, soube aproveitar o vacilo de muitos, inclusive de pessoas sérias e comprometidas com a democracia, e transformou o antipetismo num programa eleitoral. Programa vazio de qualquer conteúdo mas com forte apelo emocional, poderoso o suficiente para desembocar na candidatura vitoriosa à presidência da República de um político grotesco, um homem sem qualidades, acolhido por uma legenda de aluguel.

E agora? Agora “Inês é morta”.

Muitos vão descobrir o imenso valor de termos governos preocupados com questões e políticas realmente significativas e decisivas à vida numa sociedade tosca e desigual como a nossa, ou sejam: de um lado, a defesa da democracia política e dos direitos das minorias e, de outro, ainda que timidamente, a gestação de políticas públicas de inclusão social.

Achavam pouco?

Bom, a partir de hoje, muitos vão passar a entender o quanto foram importantes e em quanto essas grandes escolhas, nada gratuitas, moldaram o ambiente salutar e generoso dos primeiros anos do século XXI no nosso país.

Recognition, quae sera tamen.

Depois é correr atrás do prejuízo.

Os truculentos e autoritários engrossaram o pescoço e vão dar trabalho.

#PerseguiçãoNão

Agora não é mais boato. O próprio eleito já determinou que sejam identificados professores com ideias em desacordo com as posições da maioria dos que o elegeram.

O vídeo com o apelo à deduragem, que vem sendo divulgado, seria de julho. Não interessa. Hoje ou amanhã ele poderá até ser desmentido, porque o eleito desmente todo o dia o que afirmou no dia anterior.

O que importa é saber se as escolas brasileiras passarão a ser, como ocorreu na ditadura, o espaço da desconfiança, da traição e dos alcaguetes. Não serão.

Antes da deflagração do projeto das listas com os inimigos vermelhos, sabia-se que circulava pelos corredores de universidades a notícia de que a extrema direita pede ‘limpeza’.

Não eram boatos. Pois as direções de universidades e escolas, fragilizadas pela pressão da extrema direita, devem pedir socorro. Das comunidades, dos professores, dos pais, do Ministério Público, de quem estiver por perto. E também, e muito, dos alunos.

Que não cometam o erro de fazer expurgos em nome da obediência devida à repressão. Que pensem muito antes de cometer abusos. Que não se sintam à vontade para referendar perseguições.

Todos, todos, todos iremos denunciar perseguições e demissões estranhas. Como disse Haddad, essa é a hora da coragem. É a hora de buscar inspiração nos que resistiram a tempos de horror e nos asseguraram o direito à democracia.

Todos nós devemos obediência às liberdades.