O EX-JUIZ E AS ARMAS

Sergio Moro já avisa, antes mesmo de assumir o Ministério da Polícia e da Justiça, qual será sua missão no governo. O ex-juiz é quem vai levar adiante, por imposição, algumas das ideias que ajudaram a eleger Bolsonaro.
A principal delas é a liberação do porte de armas, que eles chamam de flexibilização. Moro quer liberar o uso de armas por decreto.
O defensor retórico das leis para todos pretende que o governo mude num canetaço uma das questões mais controversas em debate há décadas no país.
A liberação das armas será a marca do governo. Sergio Moro deve achar que pode passar por cima do Congresso porque ainda manda numa vara especial só dele, com a turma dele, em Curitiba.

A FESTA DA TURMA DO QUEIROZ

As esquerdas, que nunca conseguem convergir em questões relevantes, finalmente tomaram uma decisão que merece aplausos. Não ir à festa da extrema direita na posse de Bolsonaro não significa afrontar a democracia.
Quem afrontou a democracia foram os que chegam agora ao poder. Agrediram liberdades, atacaram adversários e desqualificaram a eleição com o jogo sujo da mentira e da difamação.
Ir a essa festa seria compactuar com quem ameaçou eliminar a oposição e acha que a campanha eleitoral continua.
Eles que tomem toda a sidra doce ao lado do Queiroz, da Damares, do Aécio, do Sergio Moro, do Serra, do jaburu, do Alexandre Frota e de todos os corruptos impunes da direita.
Essa não é a festa da democracia, é a festa dos golpistas. Tudo o que devemos fazer é tentar estragá-la.

Recado

A queda de Alexandre Garcia na Globo manda um recado ao jornalismo da direita.
Jornalistas ligados à Globo e simpatizantes, incluindo os fofos gaúchos, devem continuar sendo antiPT, antiLula e antiesquerda, mas não podem ser bolsonaristas.
É uma saia justa, porque alguns deles já estavam mandando flores para Bolsonaro. Devem ser mais contidos.

Mirian Lane

Este foi um ano em que Mirian Lane se dedicou muito à literatura. Mirian adora sestear sobre livros. Onde há livros, lá está ela.
Mirian prefere deitar-se sobre livros aparentemente desarrumados, em desnível, como toda gata literária. Raramente desfruta de superfícies planas e sem livros.
Já Sahry, que não gosta de aparecer em fotos (e a gente respeita), prefere as séries. Snow, o rueiro, gosta de rua, muros e gangorras.
E Mila, que não é gata, mas uma poodle diferente, é reflexiva e contemplativa. Gosta muito de meditar.
Admito que este ano Mirian Lane teve mais contato com livros do que eu, mas menos do que a mãe dela, a Virgínia, que traga em média três livros por mês e depois discute (acreditem) a leitura com a gata.
Em nome de Mirian Lane, Sahry, Snow e Mila, desejo a amigas e amigos um 2019 de entendimento e paz com seus bichos.

 

Zanatta

Fico sabendo pelo Marcelo Canellas que perdemos hoje um grande poeta e jornalista, o santamariense Humberto Gabbi Zanatta, autor de Não podemos se entregá pros home.
Covivi com Zanatta no tempo do jornalismo ligado ao cooperativismo, nos anos 80. E este ano fui surpreendido, aí por setembro, quando ele me mandou um poema para a minha campanha a deputado.
Foi um dos grandes presentes que ganhei nos últimos anos e vindo de um baita artista.
Pela tua arte e pela tua memória, meu amigo Zanatta, nunca iremos nos entregá pros home, de jeito nenhum.

Intenções

Benjamin Netanyahu não veio ao Brasil para ajudar na luta contra o crime, coisa nenhuma.
Veio para vender suas ideias e sua tecnologia de ódio, guerra e fascismo a um parceiro.
(E bem no dia da morte do pacifista Amos Oz, que sabia muito bem quem é Benjamin Netanyahu.)

A despedida

Publico o texto em que o diretor de jornalismo da TV Globo, Ali Kamel, despede-se de Alexandre Garcia.

Compartilho porque é muito pobre, é colegial, é para estudantes de jornalismo saberem o que não podem escrever.

Eis a obra do senhor Kamel:

“Conheci pessoalmente Alexandre Garcia em 1991, quando fui diretor do jornal O Globo em Brasília e ele era o diretor regional de jornalismo da Globo na capital.

Costumávamos nos encontrar às terças, quando o saudoso Toninho Drummond, então diretor da Globo em Brasília, oferecia um almoço com fontes e nos convidava. Percebi em Alexandre, de imediato, o homem que ele é: correto, íntegro e também extremamente gentil e generoso.

Ele, um super consagrado jornalista, com presença marcante no vídeo, além das atribuições editoriais do cargo; eu, um recém chegado a Brasília, com 29 anos, nove anos de profissão.

Apesar disso, Alexandre me tratava como um igual e me ajudava no que podia. Ao chegar à Globo em 2001 reencontrei o mesmo Alexandre: profissional completo, com conhecimento de pós-graduado na cobertura política, mas o mesmo homem gentil que eu conhecera 10 anos antes.

Em decisão muito refletida, depois de quase 31 anos de trabalho aqui na Globo, Alexandre decidiu deixar a emissora para amenizar um pouco o seu ritmo frenético de trabalho. Diante do trabalho exemplar ao longo de todos esses anos, é uma decisão que respeito.

Ele deixa um legado de realizações que ajudaram o jornalismo da Globo a construir sua sólida credibilidade junto ao público. O trabalho na Globo foi a sequência de uma vida profissional que poucos podem ostentar. 

A naturalidade frente às câmeras sempre foi um dos trunfos de Alexandre. Consta que quando começou na Globo, o saudoso Armando Nogueira dizia que ele estava inovando porque fazia gestos na televisão.

Enquanto a norma era uma postura mais formal, Alexandre caminhava, fazia gestos. Essa naturalidade vinha de criança. Aos sete anos já atuava como ator infantil na rádio em que seu pai, o radialista Oscar Chaves Garcia, trabalhava.

Aos 15, transmitia a Missa na Rádio de Cachoeira do Sul, onde nasceu em 1940. Aos 16, era locutor, redator, apresentador, repórter de rua da pequena rádio Independente de Lajeado. Ao se mudar para Porto Alegre para continuar os estudos, virou locutor da Rádio Difusora, dos Diários Associados.

Ele conta que o salário pagava a pensão e a escola. Quando entrou na PUC-RS para estudar Comunicação Social (onde foi o primeiro lugar no vestibular e no curso todo e presidente do Centro Acadêmico) era funcionário concursado com primeiro lugar no Banco do Brasil.

Agora era o bancário sustentando os estudos do futuro jornalista. Conseguiu seu primeiro estágio na sucursal do Jornal do Brasil na capital gaúcha. Especializou-se na cobertura de economia, com ênfase na Bolsa de Valores. Ao ser contratado pelo JB, apostou no seu talento como jornalista e encerrou sua carreira de bancário. 

Em 1973, cobriu o fechamento do Congresso uruguaio, que deu início à ditadura militar no país. Foi transferido então para Buenos Aires, onde ficaria três anos, acompanhando a agonia do governo peronista e a crise que levaria também ao golpe militar. Alexandre teve que deixar a Argentina às pressas depois de uma reportagem em que denunciava o esquema de corrupção da polícia rodoviária argentina próximo à cidade de Mar del Plata.

De volta o Brasil, foi trabalhar na sucursal do JB em Brasília, onde permaneceu dez anos, firmando-se como um bem sucedido repórter de política. Em 1983, estreou no vídeo na extinta TV Manchete.

É dele a entrevista do último presidente militar, João Figueiredo, de quem foi porta-voz por um período. Foi a antológica entrevista em que Figueiredo disse: “Eu quero que me esqueçam!” Continuou a carreira como correspondente internacional cobrindo as guerras civis no Líbano e Angola – e a Guerra das Malvinas, o que lhe valeu a Ordem do Império Britânico, concedida pela Rainha Elizabeth II. Em março de 1988, a convite de Alberico Souza Cruz, começou a trabalhar na TV Globo de Brasília. Entre seus primeiros trabalhos, um quadro no Fantástico que levava o seu nome: A Crônica de Alexandre Garcia, em que divertia os brasileiros com gafes e bastidores do mundo político da capital, num texto irresistível. Como repórter especial dividia-se entre o JN, o JH e o Jornal da Globo.

Participou de momentos memoráveis da história recente do Brasil como as primeiras eleições democráticas para presidente, em 1989, depois da ditadura militar. Ao lado de Joelmir Betting, entrevistou todos os candidatos no programa Palanque Eletrônico. Ainda foi um dos mediadores do debate de segundo turno entre Lula e Fernando Collor, realizado em pool pelas quatro grandes emissoras de então, Globo, Band, SBT e Manchete. 

Entre 1990 e 1995, como disse, Alexandre Garcia foi diretor regional de jornalismo da Globo de Brasília, sem deixar de lado seu trabalho frente às câmeras. Em 1993, estreou como comentarista do JG, em 96, passou a ter um programa na GloboNews, Espaço Aberto. De 2001 a 2011 foi o âncora do DFTV.

Comentava, analisava, cobrava das autoridades soluções para os muitos problemas que afetam os brasilienses. Nos últimos anos, tornou-se comentarista político do Bom dia Brasil, comentarista local diário do DFTV e faz parte do grupo de apresentadores que se reveza na bancada do JN aos sábados. Durante todo esse período, não houve cobertura de política no Brasil sem que ele brilhasse. 

Em nossa conversa, Alexandre me disse que deixa a Globo, mas não o jornalismo. Ele continuará a ter seus comentários políticos transmitidos por duzentas e oitenta rádios Brasil afora. Do mesmo jeito, continuará a escrever artigos para um sem número de jornais por todo o país. E, entre seus planos, está o de acrescentar outro títulos ao seu livro de grande sucesso “Nos Bastidores da Notícia”, lançado em 1990 pela Editora Globo. 

Em nome da Globo, eu agradeço tudo de grande que Alexandre fez para o jornalismo da emissora, um legado que deve inspirar a todos nós que aqui trabalhamos: profissionalismo, brilho, correção e competência. E eu agradeço tudo o que fez por mim, seu jeito gentil, sua generosidade. Muito obrigado Alexandre, um grande abraço, que você seja muito feliz, porque você fez por merecer.”

Demitiram Armandinho

A caçada da direita continua, dentro e fora das redações. Pegaram até o Armandinho.

Leiam o que escreveu Alexandre Beck, criador do personagem:

Uma notícia ruim e uma boa.
Ou uma boa e uma ruim.

Em janeiro as tiras do Armandinho deixam de ser publicadas em quatro jornais de Santa Catarina. Incluindo Diário Catarinense, onde o personagem nasceu em 2010.

A tira do Armandinho que aponta nosso racismo estrutural – que motivou nota de repúdio da Brigada Militar/RS, que por sua vez motivou uma onda de mensagens de ofensas e ameaças à minha pessoa – estará em livros didáticos no próximo ano. O assunto – portanto – será discutido em salas de aula.

Seguimos 

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