VEJA E AS ESQUERDAS DESMEMORIADAS

Veja é uma revista caindo aos pedaços. Dia desses peguei uma, com uns cinco meses de idade, amassada, num consultório que ainda tem Veja para que seus pacientes fiquem ainda mais doentes.

Vamos reconhecer que sempre foi uma revista de textos atraentes, mesmo na pior fase de aliada de golpistas e extremistas que levaram à eleição de Bolsonaro. Sempre foi bem escrita.

Peguei e larguei, não só por ter informações vencidas. É uma revista medíocre, com texto precário, murcha como uma uva-passa, sem nada do que já foi (e nem falo do tempo de Mino Carta, falo de tempos recentes mesmo).

Pois Veja encontrou as duas testemunhas da conversa de Moro com Dallagnol. Está provado que as duas testemunhas existem e que o juiz se meteu até na indicação de quem deveria ser ouvido para tentar comprometer Lula.

É uma boa informação, mas não piora a situação do ex-juiz, porque a maioria não vai entender o que isso significa. O que acontecerá agora é mais uma discussão jurídica sobre a controversa de sempre: se um juiz pode ou não indicar testemunhas a um procurador. Não pode. Até o Louro José da Ana Maria Braga sabe.

Mas o que importa nesse caso é ver o entusiasmo de uma certa esquerda com a adesão de Veja à tentativa de mostrar a verdadeira face de Moro.

Vamos ter vergonha na cara. Era só o que me faltava comemorar a ressurreição de Veja como aliada da esquerda.

Veja foi a maior articuladora do golpe contra Dilma e do esforço da Lava-Jato para encarcerar Lula. Me deixem fora dessa comemoração. Eu não quero nada com o jornalismo oportunista de Veja.

Não é uma publicação conservadora (como são todas da grande imprensa, no mundo todo, a maioria com grandes profissionais), que decide se aliar à tentativa de retomada da democracia e da normalidade nas instituições.

Não é uma revista dita liberal que se dá conta de que deve estar do lado certo, porque todos sabem hoje qual é o lado certo.

É uma revista reacionária, golpista, antiLula, antiPT, que se desentendeu com o juiz e parte da direita e agora faz o jogo de que ajuda a desmascarar o chefe da Lava-Jato. Ah, dirão, mas é o mesmo caso da Globo.

Não é. É muito pior, Veja é o Everest do golpismo, é o jornalismo sem escrúpulos que se consagrou como modelo com Diogo Mainardi, Augusto Nunes, Joice Hasselmann, Reinaldo Azevedo (que agora é “aliado”) e outros.

Estou fora dessa. Se a revista derrubar Sergio Moro, eu posso até ficar envergonhado com o jornalismo que teve de depender de Veja para que fizesse desmoronar os esquemas mafiosos do Judiciário.

Desejo apenas que se alie à Globo e à Folha e que se matem nesse entrevero de desentendimentos e traições com esse pessoal da Lava-Jato. Mas não me chamem para essa claque.

Rubens Valente e o casal poupado

Artigo de Rubens Valente hoje na Folha sobre um assunto que a imprensa esqueceu. A constrangedora manobra do Ministério Público Federal que blindou os Bolsonaros. Aqui se entende como o casal irá escapar, se pegaram mesmo o filho de Bolsonaro e a turma do Queiroz.
Este é o texto:

INVESTIGAÇÃO SOBRE O CASO QUEIROZ POUPA O CASAL BOLSONARO

Rubens Valente

O escritor Ivan Lessa (1935-2012) dizia —ou pelo menos dizem que ele dizia— que, a cada 15 anos, o país esquece o que aconteceu nos 15 anteriores. Em tempos de “Justiça seletiva”, uma expressão que está na moda, cabe atualizar a conta para um ou dois anos.
Vejamos o caso de Fabrício Queiroz. O ex-assessor amigo da família Bolsonaro tinha uma conta bancária turbinada com parte dos salários de assessores da Assembleia Legislativa do Rio. Dinheiro público, portanto. Nessa mesma conta foi compensado um cheque de R$ 24 mil em benefício da primeira-dama, Michelle Bolsonaro.
Após um sintomático delay de 38 horas, o presidente saiu em defesa da mulher. Disse que Queiroz devolvera dinheiro de um empréstimo pessoal seu e que o valor total na verdade era maior, R$ 40 mil, quitado em prestações.
Desde então sabemos que a conta alimentada com dinheiro público também alimentou o casal Bolsonaro. Isso posto, o que fez o sistema judicial encarregado de apurar o caso Queiroz? Quebrou o sigilo da primeira-dama ou do presidente? Não. Tentou ouvi-los em depoimento? Não. Ao menos instou o presidente a esclarecer alguma coisa por escrito? Não.
Os responsáveis por esse lapso têm endereço: o Ministério Público Federal no Rio e a Procuradoria-Geral da República em Brasília. Os dois órgãos abriram mão do caso, que acabou enviado ao Ministério Público estadual, preso a limites jurídicos e políticos. Simplesmente não pode intimar Bolsonaro, por exemplo.
Até pouquíssimo tempo atrás policiais, procuradores e juízes sabiam que a mera menção a autoridades com foro privilegiado paralisava a apuração, que devia ser imediatamente enviada ao tribunal competente para prosseguimento. De repente, não é mais assim no Brasil. E nenhuma autoridade constituída reage contra essa proteção ao casal Bolsonaro, que em outro momento histórico seria chamada de blindagem judicial.

Escórias

Para que eles não se esqueçam. O branco do Sul racista e bolsonarista, da única região que bajula e exalta o governo de extrema direita, descende em maioria de imigrantes que chegaram aqui no século 19 como a escória social da Europa.
O indivíduo que descende de imigrantes miseráveis e rejeita a história de seus ancestrais e vira racista é parte da escória moral da humanidade.

O pó no colo de Bolsonaro

O escândalo do traficante que pegou carona na viagem de Bolsonaro é mais do que um caso policial. Este é meu artigo quinzenal no Extra Classe.

https://www.extraclasse.org.br/opiniao/2019/06/o-po-no-colo-de-bolsonaro/?fbclid=IwAR0Dksp3hGZDJIsrL-45wuw2KzQdc_N7w2Wc78eKkBKo7g_Hg3nCrKmlbEQ

Angela

Fiquei bem chateado ao ver na TV a cena de Angela Merkel tremendo daquele jeito. Muito antes da crise dos refugiados, tinha admiração que nem sei explicar direito por essa conservadora humanista, que enfrentou os reacionários do mundo todo (e assim correu o risco de fortalecer a extrema direita alemã e europeia) para acolher pessoas em situação de miséria e desamparo.
Admiro Angela Merkel ainda mais agora, quando ela é a voz forte a denunciar a destruição do Brasil pelo bolsonarismo que protege grileiros, odeia índios, libera agrotóxicos, envenena ainda mais plantas e bichos, contamina rios e devasta a Amazônia.
Eu quero que Angela Merkel fique boa logo. Para continuar brigando a seu modo pelos refugiados e para enfrentar Bolsonaro. Angela é a conservadora que muitos ditos progressistas gostariam de ser.

UM TERÇO

Todo mundo está noticiando que o índice de desaprovação de Bolsonaro na nova pesquisa do Ibope subiu de 40% para 48%. É recorde.
Mas não é o dado que considero relevante ou impactante. O dado que me inquieta é este: Bolsonaro ainda tem a aprovação de 32%.
Um terço da população acha que ele governa bem. Um terço!!! O Brasil tem um terço de ricos, gente bem de vida, sem problemas e que não se preocupam com os problemas dos outros?
O Brasil tem um terço de reacionários egoístas, armamentistas, odientos, homofóbicos capazes de apoiar a qualquer custo um governo que se encaminha para o desastre?
Esse é o dado assustador, porque ele pega o cara que não está nem aí para as perdas provocadas por Bolsonaro e pega também o que acha que deve ser bolsonarista por se identificar com o bolsonarista que não está nem aí.
A verdade é que nesse um terço estão os que ainda não sabem nada do que está acontecendo. Esse é o dado que deve alarmar. O bolsonarismo se sustenta no egoísmo do reacionário rico e de classe média e na resignação das ignorâncias.

AS PROVAS ELIMINADAS

A Folha entrega os pontos hoje ao admitir que não há como comprovar a autenticidade dos diálogos vazados da Lava-Jato, no escândalo Moro-Dallagnol denunciado pelo Intercept.
E só não há como comprovar porque Moro, Dallagnol e outros procuradores se desfizeram do aplicativo de mensagens Telegram.
Dallagnol e seus subordinados na força-tarefa admitiram solenemente que se livraram do Telegram em abril.
Ao descartar o uso do aplicativo, o usuário corre o risco de perder todas as mensagens armazenadas. É o que já disse várias vezes o próprio Telegram.
Moro, Dallagnol e os procuradores correram esse risco. Desfizeram-se do Telegram sob o argumento de que estavam sendo hackeados.
A eliminação das mensagens torna impossível cotejar os textos vazados com os arquivos originais. Se fosse numa investigação normal, uma sindicância poderia determinar se houve crime de ocultação ou eliminação de provas.
Mas não estamos tratando de um caso normal. Nada mais é normal no Brasil desde o golpe de agosto de 2016. Nada pode ser normal quando o vazamento de conversas revela que um juiz orientava um procurador, como se o acusador fosse seu subordinado.
Nada mais é normal num Judiciário em que magistrados consideram normal as ordens do juiz que orientava o procurador, porque dizem que todos eles fazem isso na maior normalidade.
Nada pode ser normal num país em que um avião da comitiva presidencial é usado por traficante de cocaína.

A agilidade de Moro

Sergio Moro, o chefe da Polícia Federal, levou mais de 24 horas para se manifestar sobre o flagrante de tráfico de cocaína dentro de um avião da comitiva presidencial.
Por que demorou tanto, se ele sempre foi tão ágil como juiz? Porque estava no Estados Unidos, no poderoso DEA, tratando de intercâmbios para combater o tráfico internacional (aí está ele na foto em pose de xerife).
Moro diz o óbvio na nota, que o caso deve ser investigado, mesmo que seja “uma ínfima exceção”:
“O militar preso com drogas em Sevilha é uma ínfima exceção em corporação (FAB) que prima pela honra. Os fatos serão devidamente apurados pelas autoridades espanholas e brasileiras. Como disse o PR Bolsonaro, não vamos medir esforços para investigar e punir o crime”.
Moro nunca foi de medir esforços.