A reportagem da Folha sobre a “vida política” dos três filhos de Bolsonaro traz a confirmação da degradação da democracia.
Os Bolsonaros, Moro, Dallagnol, Tabata, Queiroz, os golpistas já mortos (Aécio na ponta), a imprensa que inventou essas criaturas – todos estão no palco da mesma farsa, com o Supremo, com os milicianos e com mais coisas que estão por vir.

PEGARAM OS HACKERS. E O QUEIROZ?

O caso do Queiroz, segundo Bolsonaro, já foi resolvido por Dias Toffoli. Flavio Bolsonaro, os laranjas e os milicianos do Rio das Pedras podem ficar tranquilos.
Agora, a Polícia Federal pode estar resolvendo a história dos hackers, com a prisão de quatro suspeitos de terem invadido os telefones de Moro e Dallagnol.
Acharam os hackers. Quatro presos em três cidades (São Paulo, Araraquara e Ribeirão Preto).
Acharam quatro, em cidades diferentes, mas até hoje não acharam o Queiroz, que é um só e está, como todo mundo sabe, protegido pelos Bolsonaros em algum lugar de São Paulo.
Outro detalhe. A Lava-Jato fará força para dizer que os hackers são os responsáveis pelos vazamentos dos diálogos escabrosos do juiz com o procurador. Se disserem que foram eles, estará provado que os diálogos são verdadeiros, mesmo que continuem com a história de manipulação das mensagens.
Se não disserem, de qualquer forma a confusão estará criada.
Vem aí o novo teatro da Lava-Jato, enquanto a a Polícia Federal de Sergio Moro não faz o que qualquer jurista sabe que deveria fazer: investigar os conteúdos das mensagens.
Por que a polícia sob o comando do ex-juiz não investiga as mensagens? Os servidores republicanos da Polícia Federal são minoria, a ponto de permitirem que a instituição continue calada sobre uma sindicância que deveria estar realizando há muito tempo?
Quando ficaremos sabendo das investigações em torno dos conluios contidos nas mensagens?
Quem, como fez o diretor do Inpe sobre a devastação da Amazônia, irá desafiar o aparelhamento do Estado e o poder absoluto dos bolsonaristas que se apoderaram das instituições?

TEM GENTE QUIETA DEMAIS

Osmar Terra, ministro da Cidadania, é contra o plantio de maconha para o uso medicinal que poderia atenuar sofrimentos e salvar vidas, porque – diz ele – não haveria como controlar o uso para outros fins. Terra enxerga sempre o risco de todo mundo virar maconheiro ou traficante.

Mas a colega dele, a fazendeira Tereza Cristina Dias, ministra da Agricultura, libera licenças para fabricação de dezenas de venenos por mês (são quase 300 este ano), com o argumento de que vale tudo para controlar pragas e aumentar a produtividade.

As diferenças entre um e outra conduzem para as suas semelhanças e convergências. Um proíbe o que considera veneno e impede que doenças sejam tratadas, e a outra libera e permite que os venenos matem cada vez mais, porque assim acha que salva o agronegócio.

Terra e Cristina são casos exemplares da mesma família bolsonarista. Um tentando fazer valer seu ponto de vista moralistas sobre drogas, e com isso atacando a maconha que boa parte do mundo já consome apenas com restrições, e a outra liberando à vontade, sob a imposição da indústria,
venenos que a maioria dos países já proibiu ou nunca liberou.

Terra vê toda a maconha como droga, e Cristina chama todo os venenos de defensivo. A grande questão é saber qual é o limite do poder desses dois para impor suas posições esdrúxulas, se os ministérios que chefiam são mantidos por técnicos de carreira que se dedicam há décadas aos assuntos que os bolsonaristas dizem dominar.

Técnicos concursados, muitos com longas trajetórias no serviço público, são servidores do Estado, não são de governos. Mas por que a maioria fica calada diante das atitudes de Terra e de Tereza Cristina?

Que resignação é essa que submete servidores de carreira, com boa formação, ao que é imposto pelos que estão ali apenas de passagem? Vale para os servidores do Meio Ambiente que toleram as tentativas de Ricardo Salles de acelerar a destruição da Amazônia e de vastas áreas de preservação do Rio Grande do Sul.

Vale para os servidores da Educação e do Itamaraty. Por que os técnicos, no sentido amplo de que dominam o que fazem com saber e ciência, não tentam reagir às barbaridades cometidas em nome do moralismo antimaconha, do servilismo à indústria do veneno, dos desmatadores e matadores de índios e dos terraplanistas que tomaram conta da diplomacia?

Nos últimos dias, o diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Ricardo Magnus Osório Galvão, enfrentou não o governo, mas o próprio Bolsonaro, e manteve sua posição em favor da divulgação da devastação criminosa da Amazônia.

Sim, Galvão é dirigente nomeado (foi escolhido por Michel Temer), com mandato fixado até o ano que vem. Não é servidor estável e de carreira. Mas sua conduta deveria ser inspiradora para os que detêm estabilidade.

Precisamos de mais gente com a coragem do físico e engenheiro Ricardo Galvão, que fez com que Bolsonaro admitisse que exagerou ao questionar (sem saber nada do que questionava) os dados sobre o avanço do desmatamento.

Será que não há silêncio demais no ambiente dominado pelos bolsonaristas? O Estado foi mesmo aparelhado sem muito esforço pela extrema direita, ou a capacidade de reação dos servidores públicos hoje é a mesma da população, ou seja, quase nenhuma?

O COAF, OS TRAFICANTES E OS MILICIANOS

Bolsonaro conseguiu tirar o Coaf dos calcanhares do filho senador e dos milicianos e agora tenta afastar o Coaf dos interesses dos traficantes. Sergio Moro, o combatente do crime organizado (desde que não seja a milícia) assinou com Bolsonaro o decreto que retira um representante do Coaf do Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas (Conad).
Que ninguém se esqueça de que, antes mesmo de assumir, Moro tentou, por ordem de Bolsonaro, puxar o Coaf para seu Ministério, mas foi derrotado pelo Congresso.
Como o Coaf não pode estar sob controle do ministro preferido e mais dedicado a caçadas seletivas, como fez na Lava-Jato, que se esvazie o Coaf, com a ajuda do Supremo.
O bolsonarismo aparelhou o Estado para beneficiar todos os que até bem pouco eram considerados delinquentes. O Coaf só vai vigiar pé-rapado e quem o governo acha que deve ser vigiado. Traficantes e milicianos aplaudem.

O TERRA DOS TERRAPLANISTAS

Cada vez que o nome do ministro da Cidadania, Osmar Terra, aparece em alguma notícia me recordo da sua passagem pela Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul.

Hoje, ele diz que o maior problema do país é a obesidade, não a fome. Assim, concorda com seu chefe, que com uma declaração eliminou a fome de todo o Brasil.

A frase de Terra seria apenas infeliz, se não fosse cruel com os pobres, os miseráveis e principalmente os negros cada vez mais discriminados. O que o Brasil mais tem desde o golpe é gente desempregada. E logo depois, gente passando fome.

Há uns 10 anos, quando era secretário da Saúde de Yeda Crusius, o tucano Terra foi autor de uma ideia (fracassada) também controversa e envolvendo a pobreza.

Terra patrocinaria, como secretário, uma pesquisa científica com com jovens violentos internos da Fase, a fundação que tratada de adolescentes infratores, para saber o que determinava suas condutas criminosas.

Neurociência e genética eram ciências da moda e iriam lastrear a pesquisa, com um pouco de sociologia e outras ferramentas. Mas por que pesquisar meninos pobres e miseráveis que vão parar na Fase? Para reafirmar os estigmas que carregam?

Por que não com os meninos de classe média e ricos que nunca seriam recolhidos à Fase por algum delito grave?

A pesquisa não foi adiante, porque se levantou a suspeita
generalizada de que negros e pobres estariam mais uma vez à disposição da “ciência” dos brancos e bem de vida para avaliações que sempre se dizem bem intencionadas.

O que Terra queria provar? A reação de gente de todas as áreas evitou que a pesquisa do secretário fosse adiante.

Mas ele continua aí dizendo o que pensa. É interessante que, num governo tomado pelos terraplanistas, um de seus sábios se chame Terra.

MORO, O SILENCIOSO

Sergio Moro continua calado sobre os comentários de Deltan Dallagnol nas mais recentes mensagens publicadas pelo Intercept.
Não sabemos ainda o que o ex-juiz pensa das declarações do procurador de que ele iria amarela diante do caso de Flavio Bolsonaro, para não perder a vaga no Supremo.
Dallagnol, como as mensagens mostram, era obediente ao juiz, que mandava em toda a força-tarefa da Lava-Jato com mão de ferro. Mas gostava de fazer comentários desairosos a respeito do chefe.
No conjunto, as trocas de mensagens revelam que Moro determinava o que bem entendesse ao grupo do Ministério Público em Curitiba. Sua imagem de chefe é que não era lá muito boa.
Como o ex-juiz sempre foi muito reservado, respeitador das leis, das normas e do bom senso, não se sabe o que ele pensava da turma que comandava.
O silêncio do ex-juiz, depois da licença-prêmio de uma semana, pode indicar que ele e Dallagnol já se acostumaram com as mensagens vazadas. A tática a partir de agora deve estar essa: adotar um ar blasé, como se nada estivesse acontecendo, e tocar a vida.
E Moro quer mesmo é tocar o projeto de defesa do cigarro nacional.

Só para lembrar que, depois da licença-prêmio, a partir desta segunda-feira teremos de novo a voz melodiosa, aveludada e assertiva do ex-juiz Sergio Moro pregando a moral bolsonarista contra o crime organizado, desde que não seja o crime organizado pelos milicianos e por seus cúmplices da política carioca.
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