CULTURA DOADORA

Ouvi esses dias os depoimentos dessas cinco profissionais da área da saúde sobre os gestos singelos e grandiosos de quem se envolve com a doação e o transplante de órgãos. Elas são Simone Lysakowski, Carla Giuliane, Paola Eccel, Valéria Weimar e Kelen Machado. Carla é psicóloga, as demais são enfermeiras.
O grupo falou, na Fundação Ecarta, sobre o que faz, no Hospital Montenegro 100% SUS e na Santa Casa de Porto Alegre. Todas se emocionaram. Quem estava ali para ouvi-las também se emocionou.
As histórias que contaram são comoventes, principalmente porque mostram o que acontece numa cidade que é exemplo de mobilização nessa área, quando até bem pouco não registrava nenhuma doação.
Tudo porque a Fundação Ecarta, mantida pelo Sinpro (Sindicato dos Professores do Ensino Privado do RS), mobiliza hospitais, profissionais da saúde, escolas, igrejas, sindicatos, imprensa, comunidades no Projeto Cultura Doadora.
Além dos relatos delas, um grupo de jornalistas ouviu Marcos Fuhr, presidente da Fundação Ecarta, e Glaci Borges, coordenadora do projeto.
Eu não sabia quase nada do que contaram. Essa turma deveria ser convocada pelas escolas de todo o Estado. Por isso tenho orgulho de escrever para o Extra Classe, também mantido pelo Sinpro.

O link para a reportagem do Extra Classe sobre o projeto está na área abaixhttps://www.ecarta.org.br/projetos/cultura-doadora/apresentacao-3/o.

O repórter e o fiscal

Quando me perguntam qual é o fundamento de ver o Fantástico, eu respondo assim: pra ver as reportagens de um jornalista de fundamento, o meu amigo Marcelo Canellas.
Ontem, Canellas e os repórteres Alan Ferreira e Marcos Silva mostraram a perseguição da bandidagem da floresta aos servidores do Ibama e do ICMBio que tentam defender a Amazônia. Bandidagem que tem agora o incentivo e a proteção do bolsonarismo.
Carlos Rangel da Silva, o fiscal de 70 anos, conduz e fecha a reportagem dizendo a Canellas, quase chorando, que deseja sobreviver para ver o neto, que vai nascer logo.
Silva é a imagem do servidor público abandonado e entregue pelo bolsonarismo aos bandidos da Amazônia.

OS GENERAIS DE BOLSONARO

O bolsonarismo nos ajuda a enxergar o que talvez nunca viesse a ser exposto sem a extrema direita no poder: não há uma elite de generais no Brasil com um mínimo de brilho ou de pensamento complexo, como havia na ditadura.

Há apenas operadores a serviço de Bolsonaro. Ou há elite pensante entre os que estão fora do poder? Ou esses que estão aí podem ser considerados de elite? Ou o conceito de elite mudou?

O vice, general Hamilton Mourão, de quem alguns esperavam alguma coisa e hoje ninguém espera mais nada, escreveu ontem essa barbaridade no Twitter:

“Na data de hoje, em 1532, o Rei D. João III criava as #capitanias no #Brasil. Descoberto pela mais avançada #tecnologia da época, o País nascia pelo #empreendedorismo que o faria um dos maiores do mundo. É hora de resgatar o melhor de nossas origens”.

Imaginem que o homem publicou #capitanias assim mesmo, com hastag, imaginando que sua surpreendente análise iria bombar. E bombou, submetida a todo tipo de sarro.

Fernando Haddad acompanhou as reações da maioria e escreveu:
“Opinião de um dos cérebros do governo”.

Algum déficit de formação pode ter mediocrizado os generais a ponto de um deles defender as capitanias hereditárias como exemplo de empreendedorismo e de outro pregar que a Terra é plana. Os acadêmicos poderiam investigar.

Se eles pensam assim na paz, nos atemoriza o que poderiam pensar numa guerra, se Bolsonaro decidir invadir a Venezuela ou se a China invadir a Amazônia.

O POLÍCIA, O GENERAL E A KOMBI

Três notícias para tumultuar o debate do almoço de domingo da família:
O delegado da Polícia Federal Hélio Khristian Cunha de Almeida, acusado pela Procuradoria-Geral da República de obstruir as investigações sobre a morte de Marielle Franco, montou uma “central de mutretas” na própria superintendência da PF no Rio de Janeiro.
A própria PF define assim, em relatório, o esquema de Almeida. Por conta disso, sabe-se que Ronnie Lessa, vizinho de Bolsonaro, matou Marielle. Mas não se sabe quem matou matar, porque gente da própria PF atrapalhou as investigações.

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Revela-se uma das condições para que Augusto Aras fosse escolhido por Bolsonaro para procurador-geral da República. Ele deveria ter uma general ao seu lado, para abrir a caixa preta da PGR deixada por antecessores. Bolsonaro tem obsessão por caixas pretas.
O assessor especial para Assuntos Estratégicos de Aras é o general Roberto Severo. Um militar, mais um, vai analisar tudo o que ex-procuradores fizeram, para saber quem beneficiou quem.

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A Kombi que carregava a menina Ágatha Félix, assassinada com um tiro de fuzil no Complexo do Alemão, foi lavada antes de passar por perícia. A Lombi só foi apreendida pela investigação mais de 20 horas depois do crime.
O advogado Rodrigo Mondego, da Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ, que acompanha a família da menina, diz que a Kombi sempre esteve à disposição da perícia.

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Mas as instituições continuam funcionando.

O Bolsonaro gaúcho

O novo Código de Meio Ambiente do Rio Grande do Sul, que devasta a legislação da área, transforma o gestor tucano no Bolsonaro gaúcho.
Um quer incendiar a Amazônia, o outro quer destruir os campos e o que resta de mato.
A diferença é que um é ogro declarado e assumido e o outro é o mais lustroso representante da direita rococó.
Os dois pretendem entregar a incendiários, grileiros, desmatadores e especuladores de terras o direito de gerir e fiscalizar os próprios crimes.
O Ministério Público acompanha a proposta que o gestor tucano encaminhará à Assembleia.
Não sobrará um pé de guanxuma. Muita gente já sente saudade do antecessor.
Para completar, Demétrio Magnóli escreve na Folha que o ativismo de gente com a radicalidade da menina Greta Thunbeg é culpada pelo surgimento de outra gente com a radicalidade incendiária de Ricardo Salles.
Ele queria alguém mais sensato do que Greta, porque aí não haveria o contraponto da direita.
Como se Salles e os devastadores dependessem da existência das Gretas para justificar seus crimes com a ajuda do Magnóli.