JANUÁRIO, SEUS FILHOS E OS LIBERAIS BOLSONARISTAS

Há duas bombas nos jornais hoje. A primeira é a revelação de que o doleiro Dario Messer pagava propinas ao procurador da Lava-Jato Januário Paludo. É reportagem de Vinicius Konchinski, no UOL.

Januário é aquele dos Filhos de Januário, o grupo de mensagens do Telegram que trocava informações da turma de Deltan Dallagnol sobre a caçada a Lula em conluio com Sergio Moro.

A confissão está em conversas grampeadas pela Polícia Federal. Espera-se agora a delação formal do doleiro, que está preso, para saber se apenas Januário ou também os filhos são acusados do recebimento de propinas.

(Observem que na famosa foto de Januário e seus filhos, Januário é o único numa posição de submissão, com as mãos às costas.)

A segunda bomba é a admissão de Demétrio Magnoli, um dos grandes pensadores do liberalismo brasileiro, de que o liberalismo é hoje uma farsa dentro de um projeto totalitário. É o aperfeiçoamento de um modelo que só teria êxito sob controle absoluto de um déspota.

Magnoli adverte que as falas de Eduardo Bolsonaro e de Paulo Guedes sobre o AI-5 não expressam medo do governo com eventuais manifestações de rua.

Na verdade, os dois estão induzindo à realização de protestos para exercer então a repressão e impor um governo ditatorial. Só assim o esquema funcionaria plenamente. Não é novidade, mas é dito agora por um liberal.

O que ele não disse é que esse mecanismo depende da perseguição aos que dele discordam. Faltou coragem a Magnoli para admitir que o Brasil está sob lawfare, a perseguição do Judiciário a Lula, imposta pela facção da Lava-Jato.

Faltou admitir que, sem a caçada a Lula, o liberalismo de que ele fala não poderia prosperar livremente sob o comando de Bolsonaro e dos milicianos (quem diria que os liberais brasileiros teriam essa bela parceira).

A engrenagem só funciona se amordaçar quem pensa o contrário e pode chegar ao poder (como já chegou) para conspirar contra o totalitarismo bolsonarista-liberal.

Mas talvez Magnoli volte ao assunto, quando a Polícia Federal decidir levar adiante a denúncia contra o procurador denunciado por levar propinas do doleiro.

Sempre lembrando que a polícia está sob o controle do liberal Sergio Moro.

FOLHA ACEITA A GUERRA DE BOLSONARO

A Folha fez hoje o que não é comum. Largou um editorial fora de hora, no início da noite, na sua versão online, para bater forte em Bolsonaro.

O editorial é ruim. O padrão dos textos caiu muito nos jornalões, o que faz com que brigas com chance de serem históricas, envolvendo a imprensa e poderosos ex-aliados, pareçam hoje conflitos de estudantes.

O texto é precário como reflexão e colegial na forma. É quase uma composição de 5ª série, o que pelo menos tem coerência com o nível do debate.

A Folha foi cúmplice do golpe que derrubou Dilma Rousseff, por imaginar – antes das manobras no Congresso – que alguém da turma dos tucanos ou um parceiro deles, mesmo do PFL, poderia se beneficiar de uma eventual eleição indireta ou da eleição direta de 2018.

Fez uma aposta golpista e ajudou, ao lado da Globo, a criar Bolsonaro. A Folha foi patrocinadora das ideias que, por desvios de rota, levaram ao poder o sujeito agora denunciado por autoritarismo.

O editorial serve para formalizar uma posição. A Folha está dizendo que aceita a declaração de guerra de Bolsonaro. Os Frias vão tentar se livrar da criatura, mais uma vez com a ajuda da Globo.

Não é a defesa da democracia que está em jogo, mas a tentativa de proteger interesses contrariados, de um lado e de outro.

Pode ser a batalha final antes da extinção da grande imprensa com o formato que tem até hoje. É também a primeira vez que os jornalões se desentendem com um grupo acumpliciado com milicianos. Saiam de perto.

AS ABERRAÇÕES NOS GOVERNAM

Não basta que o presidente da Fundação Palmares seja um racista. Para o bolsonarismo, era preciso encontrar um racista negro. Aberrações humanas, que convivem com todos nós, muitas vezes quase caladas, agora têm poder político e falam em voz alta, em todos os escalões.

Um negro que defende a escravidão não é apenas alguém exercendo o direito de se expressar. É um descendente de povos escravizados falando em liberdade de opinião e defendendo a supressão de todas as liberdades. Na escravidão, ele não diria nada do que diz hoje, nem a favor dos seus algozes.

Mas no Brasil de Bolsonaro já não basta ser uma aberração, como as que circulam por aí, algumas tão próximas que não há como mantê-las à distância, porque são da família. Assim é a nossa vida torta, diversa e imperfeita. Mas agora as aberrações avançam e chegam à gestão de políticas públicas.

O negro racista, agora em cargo público de comando, é um problema e provoca indignações entre brancos do grupo de apoio do bolsonarismo, mas é um problema pequeno, um dos custos a serem pagos pelo antilulismo e pelo antiesquerdismo. O que importa é o projeto macro de Bolsonaro e esse projeto é “liberal”.

A elite brasileira aceita Bolsonaro em nome das reformas e do trabalho sujo que é preciso ser feito para destruir a educação pública, o SUS, os direitos sociais, as leis trabalhistas, a indústria nacional, a Amazônia.

Aberrações como a do negro que odeia negro só reafirmam que a aberração maior, a que sustenta o bolsonarismo, é isso que ainda definem com certa pompa como “a sociedade brasileira”. Bolsonaro é uma invenção das nossas patologias sociais e morais.

Sem a aberração coletiva que o elegeu, Bolsonaro não existiria, seria apenas um reacionário amigo do Queiroz e vizinho do Ronnie Lessa, ou continuaria sendo um deputado sem expressão e sem turma.

Bolsonaro é a aberração institucionalizada. Não é resultado de uma ditadura, nem uma imposição dos militares, não é um monarca. Bolsonaro é um déspota eleito.

A direita atrofiada descobriu que pode produzir figuras públicas repulsivas no atacado explorando medos, mentiras, desalentos e ignorâncias.

Às vezes, é preciso aplicar um golpe, como aplicaram na Bolívia. Mas são acidentes. A extrema direita foi mais competente, na manipulação da democracia, do que a direita clássica dita conservadora liberal. Perdemos o direito à normalidade.

As pessoas em cargos públicos que condenam tudo o que deveriam defender (o negro, o meio ambiente, a Justiça, o patrimônio público, a educação) são o Brasil representado nesses altos escalões.

Sim, o negro racista é uma exceção. Mas uma exceção com potência máxima. O negro racista está lá por ter poder político, e que poder. Ele é mais uma expressão dos descaminhos da democracia. As aberrações nos governam.

A vez do entregador de gás?

Com a decisão do Supremo que libera os dados do antigo Coaf para investigações, vai começar tudo de novo.
Queiroz, laranjas, milicianos, Flavio Bolsonaro, empréstimo de Bolsonaro para o Queiroz, depósito de Queiroz para a mulher de Bolsonaro.
A família volta a ser notícia, até surgir um novo impasse que tranque tudo mais uma vez, ou até aparecer um novo personagem misturado aos milicianos, um jardineiro, uma faxineira, um entregador de gás ou até outro porteiro.

A Suíça do Bolsonaro

Com a tarifa de manutenção do cheque especial, taxa de manutenção de conta corrente e outras taxas encobertas de administração disso e daquilo, o poupador pagará para ter o dinheiro no banco, em qualquer aplicação.
Porque nada mais rende mais nada. O juro cobrado pelo banco chega a 80% ao ano (o juro ‘pessoal’ moderado). O juro do cheque especial está acima de 300%. Mas o rendimento de qualquer aplicação está próximo de zero.
Estamos no mesmo estágio de Suíça, Japão e outros países ricos, onde o juro é negativo (menor que a inflação) e as pessoas pagam para que seu dinheiro seja protegido.
Bolsonaro conseguiu. A Suíça é aqui.

O prêmio para os impunes

Esta pergunta puxa meu texto no artigo quinzenal que publico no jornal Extra Classe: por que Dallagnol comemora a prisão de um corruptor que ele mesmo deixou escapar?

Leia aqui:

https://www.extraclasse.org.br/opiniao/2019/11/o-premio-para-os-impunes-deltan-dallagnol/?fbclid=IwAR0Mwc5qtGva0b0wDLS-deMvIc7MXZCufRLF5wqS7oYo5yQ-fuI4UhkNMGQ

Que moeda é essa?

Qual é o economista (pode ser um bolsonarista) que traduz essa frase de Paulo Guedes sobre a tendência de alta do dólar, assunto que ele, como ministro, nem deveria abordar.
“O dólar está alto. Qual o problema? Zero. Nem inflação ele [dólar alto] está causando. Vamos importar um pouco mais e exportar um pouco menos”, afirmou após participar em Washington do Fórum de Altos Executivos Brasil-EUA.
Quer dizer que o real mais fraco reduz exportação e aumenta importação, quando tudo que se aprendeu, desde tempos bíblicos, é o contrário?