AOS QUE MERECEM O VÉIO DA HAVAN

Botaram fogo na estátua da loja do véio da Havan em São Carlos, ou a estátua se autoimolou em situação de desespero. O véio da Havan se apropriou da imagem da Estátua da Liberdade para reproduzir réplicas grotescas espalhadas pelo país.
Quase toda réplica de imagens transformadas em ícones da humanidade, para o bem e para o mal, acaba sendo, por mais perfeita que pareça, uma aberração artística e cultural.
As estátuas do véio da Havan são também aberrações políticas, porque as ideias do dono das lojas não se conectam com quase nada que expresse liberdade.
Ele acha que, que por ser um ‘liberal’ do ponto de vista econômico, a liberdade está ao seu lado e com ele caminha, inclusive quando é processado por sonegar contribuições sociais de seus funcionários ou por constrangê-los a apoiar os candidatos da firma.
Mas colocaram fogo na estátua. O que importa, a cada notícia como essa, é ter clareza do significado do véio da Havan como modelo de empresário e como representação do bolsonarismo econômico do vale tudo.
O véio da Havan está exposto às reações que provoca. Mas não me incluo entre os que desejam a destruição das suas estátuas. Estou entre os que defendem, como direito, o boicote às lojas do véio da Havan.
Uma pessoa com um gay na família, ou um parente negro ou um filho ou um amigo com deficiência e que já foi humilhado pela extrema direita – se essa pessoa entrar e comprar nas lojas do véio da Havan é porque submeteu sua resignação a um indivíduo que reclama da sinalização para cegos em suas lojas por trazer prejuízo estético para o piso.
Um sujeito com parentes que a extrema direita usa como alvos dos seus ataques, de preconceitos e de ódios e mesmo assim compra nas lojas de um cara que humilha os cegos tem mesmo que votar em Bolsonaro, perder a aposentadoria, ser condenado a ver a destruição do SUS e da universidade pública e ainda aplaudir as ações do fascismo.
Alguém que, para comprar bugigangas da China, pensando em obter alguma vantagem, ignora as ofensas do véio da Havan, e que faz programa de fim de semana passeando nos corredores das lojas de quinquilharias tem que se resignar com o desprezo da extrema direita por pobres, negros, índios e pessoas que eles consideram imperfeitas.
A estátua incendiada era de resina sintética, quando todos pensavam que as réplicas seriam de concreto. A liberdade do véio da Havan, mesmo quando representada, não é o que até os seus seguidores pensam que possa ser.

LETÍCIA E O OGRO

Todo mundo já sabe, de Camaquã a Ibicuitinga, que a jornalista Letícia Duarte foi chamada de vagabunda, mentirosa, maliciosa, idiota e puta, durante entrevista com Olavo de Carvalho para um perfil publicado agora pela revista The Atlantic.

O sujeito estava irritado com um texto anterior de Letícia sobre a figura grotesca do entrevistado. Olavo queria ser melhor retratado.

Muitos podem perguntar: mas como alguém continua a conversa depois de tantas agressões? Um alguém poderia cair na armadilha e ir embora. Não Letícia Duarte.

Quem acompanha o que ela faz sabe que não desistiria tão facilmente. Eu sei porque leio quase tudo que Letícia escreve, desde quando era foca e muitos anos antes de se mudar para os Estados Unidos (mora agora em Nova York e faz mestrado na Columbia).

Posso dizer que sei também porque conheço Letícia. Se fosse mais exibido, diria que trabalhei com Letícia na mesma redação de Zero Hora.

Mas não vou dizer nada disso, nem que tomávamos café juntos e que eu me lembro da sua alegria quando conquistou o primeiro prêmio nacional.

Digo apenas o que todos já sabem, que Letícia é um dos grandes nomes do jornalismo brasileiro hoje. Está na área de comentários o link para uma reportagem que ela fez com refugiados sírios em 2016.

É daquelas maratonas que te deixam exaustos só de pensar como uma aventura como essa (incluindo a aventura do próprio jornalista) começa e como parece que nunca termina.

Essa é a minha amiga Letícia Duarte, que pôs, não o dedo, mas seu texto forte na cara do ogro Olavo de Carvalho, o oráculo da idiotia brasileira.

A ESTÁTUA E A MIRAGEM

Para quem esperava pelo motivo definitivo para fugir do centro turístico caro e manjado da Serra gaúcha, esta é a notícia que faltava e está na Folha de hoje.
A estrada entre Gramado e Canela terá uma estátua da Havan.
Porto Alegre terá uma roda gigante de 80 metros, e a Serra ganha uma réplica grotesca de 30 metros da estátua verde.
O programa agora para a direita será subir a Serra para comprar bugiganga na loja do véio da Havan e fazer selfie com a estátua que virou símbolo da era bolsonarista.
Mas há uma saída. Afugentar-se na Miragem, a livraria mágica de São Francisco de Paula.
Fujam para a Miragem.

OS ATEUS

As pesquisas do DataFolha nos oferecem “base científica” para entender a situação absurda que vivemos desde o golpe de agosto de 2016.
O DataFolha pesquisa tudo. Este título de reportagem da Folha parece brincadeira de alguém e deixa tudo mais absurdo:
“Ateus e sem religião são os que mais reprovam atuação do Supremo”
Imaginem a Folha fazendo uma pesquisa e concluindo que ateus são os que mais comem tomate, ou mais vão ao cinema, ou são os mais flamenguistas.
Mas de fato eu tenho amigos ateus que não confiam no Supremo. Só confiam no ministro Celso de Mello, que logo irá encerrar (naquele processo de suspeição) a fama de justiceiro do ex-juiz da Lava-Jato.
Se fossem unidos, os ateus seriam um contraponto de peso aos neopentecostais. Mas os ateus são muito desorganizados.
(A linda imagem que ilustra esse texto é de um quadro da fantástica Harmonia Rosales)

SOU UM SEM-BITCOINS

ais um ano se vai e eu não investi em bitcoins. Leio tudo que aparece sobre bitcoins. Li esses dias que as estruturas para processamento de dados de moedas virtuais da Islândia consomem mais energia do que todas as casas dos 340 mil habitantes.

Sei que brasileiros envolvidos com a tal mineração de bitcoins atravessaram a fronteira e se instalaram no Paraguai atrás de energia mais barata.

É um dos paradoxos do mundo virtual. A moeda não existe, mas consome energia, porque é preciso fazer as máquinas operarem a todo vapor e assegurar a refrigeração dos equipamentos, ou tudo explode.

Na Europa, já há países alarmados com a possibilidade de os exploradores de bitcoins consumirem com seus computadores toda a energia de um país.

Um dos maiores exploradores de bitcoins no Paraguai, um brasileiro, é claro, ocupa com seus equipamentos os três andares de um prédio e tem um puxadinho, com outra máquinas, em sete contêineres num terreno ao lado.

No fim, se os bitcoins tomarem conta do mundo da especulação financeira, não haverá espaço para mais nada. O mundo será uma rede gigantesca de máquinas a serviço dos bitcoins. E toda a energia será destinada à especulação.

As máquinas passam o tempo todo fazendo cálculos matemáticos. Bitcoins são como prêmios para quem consegue resolver problemas complexos programados numa rede chamada blockchain.

Já sei que alguns cálculos exigem que se encontre a combinação certa numa sequência de 45 algarismos. Nessa sequência, há letras, números e símbolos. Como essa, que é apenas uma amostra com poucos dados: 81*&34%$+56#90@645&&666.

Como os bitcoins oferecidos na rede são finitos, há um número x a ser prospectado. Só pode competir quem tem máquinas potentes. Por isso não dá pra levar a sério os que aparecem dizendo que operam com bitcoins e que estão nas notícias como pilantras, muitos dos quais são gaúchos. Eles não têm processadores, são vendedores das velhas pirâmides.

Antônio Silva, 52, dono da MDX, tem 12 mil máquinas em quatro áreas de Ciudad del Este, segundo a Folha. “Fala-se em moeda digital e as pessoas não entendem que há uma estrutura física por trás. Acham que é só um programa de computador”, diz ele.

Há empresas na China com mais de 30 mil computadores catando bitcoins. O fim do mundo poderá estar próximo com essa realidade maluca, em que um dinheiro virtual ameaça a destruir coisas reais.

Vale para tudo que for virtual e que só funciona porque existem máquinas e energia na base das suas estruturas, como as redes sociais. Os bolsonaristas e Olavo de Carvalho podem acabar com a Terra.

Eu recebo todos os dias por telefone ofertas de terrenos, casas e até jazigos perpétuos, mas nunca recebi uma oferta de bitcoins.

Ninguém me ligou até hoje dizendo: temos aqui bitcoins por bons preços para investidores com o seu perfil (que é a conversa de sempre de quem acha que temos dinheiro). Sou um sem-bitcoins.

Pensei que em 2020 finalmente eu seria dono de um bitcoin. Mas um bitcoin, só um, custa R$ 30 mil. Vou comprar um quilo de nióbio, ou quem sabe um boi.

A MORTE DE NILCÉA FREIRE E A ASCENSÃO DE DAMARES

Duas notícias, uma ao lado da outra, que reforçam o desalento de um Brasil exausto de ódio, ignorância, perdas e obscurantismo. As notícias estão na capa da Folha online.

A primeira é sobre a agenda seletiva de Damares Alves, a ministra que transformou o gabinete num reduto de entra-e-sai de políticos neopentecostais e representantes da extrema direita e de total desprezo por pedidos de audiência com líderes de movimentos sociais e de direitos humanos.

A outra notícia é a da morte de Nilcéa Freire, ex-ministra de Políticas para as Mulheres do governo Lula.

Médica, professora e ex-reitora da Universidade Estadual do Rio, Nilcéa morreu aos 66 anos, de câncer, num momento em que o bolsonarismo destrói tudo o que ela ajudou a construir.

Morre uma feminista, defensora e implantadora de politicas públicas para as mulheres, pioneira na adoção das cotas nas universidades. Uma militante das liberdades.

É ofensivo, mas ao mesmo tempo denunciador de realidade que não podemos esconder, que a notícia da sua morte esteja agora na capa da Folha ao lado de uma reportagem sobre o poder incontrolável do fundamentalismo político e religioso de Damares Alves.

A roda

Os anúncios do gestor de Porto Alegre em jornais de São Paulo, exaltando as maravilhas da cidade, teriam um motivo encoberto.
O gestor tucano pretende ser candidato a prefeito de novo, mas de São Paulo, ou qual seria o sentido de fazer anúncios para paulistas?
Um tucano sempre pensa em grandes voos, apesar do bico pesado pelos vínculos com a direita e agora com a extrema direita.
Isso quer dizer que Porto Alegre pode perder para São Paulo o projeto da maior roda gigante do mundo.