A verdade, apenas a verdade, nada mais do que a verdade

Bolsonaro elogia miliciano em discurso. Manda o filho condecorar miliciano.
O filho de Bolsonaro emprega parentes de miliciano.
Um miliciano chefia o esquema de rachadinhas do filho de Bolsonaro.
A mulher de Bolsonaro recebe dinheiro de um miliciano.
Matam um miliciano na Bahia e Bolsonaro diz que o miliciano havia sido um herói.
E Lula é investigado por ordem de Sergio Moro por dizer que Bolsonaro se envolve com milicianos.

BOLSONARO, AS MILÍCIAS E A LEI DE SEGURANÇA NACIONAL

Lula prestou depoimento hoje à Polícia Federal em Brasília, em inquérito aberto por requisição de Sergio Moro. O ex-juiz quer enquadrar Lula na Lei de Segurança Nacional por ter dito que o governo tem ligações com milicianos.

Todo mundo repete todos os dias que Flávio Bolsonaro, o pai dele, a família toda tem ligações com milicianos. A polícia (inclusive o Bope da Bahia), o Ministério Público, o Coaf e até as gaivotas da Barra da Tijuca sabem que os Bolsonaros são ligados a milicianos.

Um grande miliciano morto na semana passada era ligado aos Bolsonaros. Corre no Rio, por conta do Ministério Público que não teme os Bolsonaros, a investigação sobre a atuação de laranjas no que o MP define como uma quadrilha formada em torno de Flávio para fazer funcionar o esquema das rachadinhas.

O esquema era movido com a ajuda de muita gente ligada a milicianos. Um deles era o miliciano morto na Bahia.

Mas, pelo que se entende da iniciativa de Moro, isso não quer dizer que a ligação seja do governo com os milicianos. Os Bolsonaros seriam os Bolsonaros, e o governo seria outra coisa.

Lula, ao dizer que os Bolsonaros são ligados a milicianos, estaria pondo em risco a segurança nacional. Não são os Bolsonaros, por suas ligações com as milícias, que põem o país em risco, mas o ex-presidente que diz o que todo mundo sabe.

Sergio Moro não larga do pé de Lula. Mas pode estar cometendo um erro. Pela insistência em atuar como advogado de Bolsonaro e pela decisão de ocupar o mesmo espaço da extrema direita do chefe, Moro pode ter entrado num brete sem volta.

Em algum momento, quando passar dos limites, estará disputando, como candidato, as atenções do mesmo público imbecilizado pelo seu líder.

Se conseguir continuar brilhando mais do que o chefe, com liderança de preferência nas pesquisas no eleitorado da extrema direita, boa parte dessa direita extremada não vai gostar. Nem as milícias.

CHUPETA

O gestor tucano gaúcho é o Rolando Lero que faltava desde a saída de cena do Zé Agripino. Tem pose, tem domínio de cena, tem voz de locutor, mas o verbo só engana quem acha que ele não é bolsonarista.
O gestor é o básico com lantejoulas, é o sertanejo universitário da direita gaúcha. Mais adiante ele será um Álvaro Dias.
Na conversa com Flavio Dino no Cafezinho, em determinado momento ele defende Bolsonaro, diz que votaria de novo no sujeito, exalta a recuperação da economia, vê o milagre da geração de empregos e então fecha os olhos, suspira e afirma alguma coisa na linha de “como dizia o Chupeta”.
Epa. Chupeta? É apelido de quem? Parei, voltei o vídeo e vi então que o citado era Schumpeter. Aí larguei. Um bolsonarista envergonhado metido a citador sofisticado. Esses fofos são atrevidos.

O editorial da Folha

Este é o já famoso editorial da Folha de S. Paulo, publicado ontem à tarde na versão online e hoje no impresso, em que o jornal chama Bolsonaro de chefe de bando.

FOLHA DE S. PAULO
Sob ataque, aos 99
Bolsonaro reincide na ofensiva ao jornalismo; alvo é o edifício constitucional

Ao completar 99 anos de fundação, esta Folha está mais uma vez sob ataque de um presidente da República. Jair Bolsonaro atiça as falanges governistas contra o jornal e seus profissionais, mas seu alvo final não é um veículo nem tampouco a imprensa profissional. Ele faz carga contra o edifício constitucional da democracia brasileira.
Frustraram-se, faz tempo, as expectativas de que a elevação do deputado à suprema magistratura pudesse emprestar-lhe os hábitos para o bom exercício do cargo. É a Presidência que vai se contaminando dos modos incivis, da ignorância entranhada, do machismo abjeto e do espírito de facção trazidos pelo seu ocupante temporário.
O chefe de Estado comporta-se como chefe de bando. Seus jagunços avançam contra a reputação de quem se anteponha à aventura autoritária. Presidentes da Câmara e do Senado, ministros do Supremo Tribunal Federal, governadores de Estados, repórteres e organizações da mídia tornaram-se vítimas constantes de insultos e ameaças.
Há método na ofensiva. Os atores agredidos integram o aparato que evita a penetração do veneno do despotismo no organismo institucional. Bolsonaro não tem força no Congresso nem sequer dispõe de um partido. Testemunha a redução de prerrogativas da Presidência, arriscada agora até de perder o pouco que lhe resta de comando orçamentário.
Escolhe a tática de tentar minar o sistema de freios e contrapesos. Privilegia militares com verbas, regras e cargos, e o exemplo federal estimula o apetite de policiais nos estados. Governadores são expostos por uma bravata presidencial sobre preços de combustíveis a um embate com caminhoneiros.
Pistoleiros digitais, milicianos e uma parte dos militares compõem o contingente dos sonhos do presidente para compensar a sua pequenez, satisfazer a sua índole cesarista e desafiar o rochedo do Estado democrático de Direito.
Não tem conseguido conspurcar a fortaleza, mas os choques vão ficar mais frequentes e incisivos caso a resposta das instituições esmoreça. A democracia é o regime da responsabilidade, o que implica a necessidade de punir a autoridade que se desvia da lei.
Defender o reemprego de um ato que fechou o Congresso Nacional, como fez o deputado Eduardo Bolsonaro ao invocar o AI-5, não deveria ser considerado deslize menor pelos colegas que vão julgá-lo no Conselho de Ética.
As imunidades para o exercício da política não foram pensadas para que mandatários possam difamar, injuriar e caluniar cidadãos desprovidos de poder, como está ocorrendo. Dignidade, honra e decoro são requisitos legais para a função pública. O presidente que os desrespeita comete crime de responsabilidade.
Ao entrar no seu centésimo ano, a Folha está convicta de que o jogo sujo encontrará a resposta das instituições democráticas. Elas, como o jornalismo, têm vocação de longo prazo. Jair Bolsonaro, não.

A FOLHA AJUDOU A CRIAR O CHEFE DO BANDO

O editorial em que a Folha de S. Paulo ataca Bolsonaro, definido como um ignorante e machista abjeto, com espírito de facção e de chefe de bando, tem alguns esquecimentos.

A Folha não identifica as origens de Bolsonaro no golpe que o próprio jornal ajudou a articular e tampouco cita os cúmplices do bolsonarismo entre os pares da Folha no empresariado nacional.

A Folha tenta ver Bolsonaro como um sujeito solto no mundo, apenas com seus parceiros de milícia, quando se sabe que ele é uma invenção da direita que derrubou Dilma e ajudou a encarcerar Lula.

A Folha se faz de boba, ao citar apenas “os jagunços de Bolsonaro”, como se a aberração política no governo fosse somente um produto dos banditismos cariocas e da articulação do amigo de Adriano da Nóbrega com militares e com Sergio Moro. A Folha estaria admitindo que o ex-juiz é um dos jagunços?

Bolsonaro é o bicho brabo saído da cabeça da direita, que vive agora atormentada com os extremismos da criatura. A Folha contribuiu para que Bolsonaro existisse com a forma que ganhou desde muito antes de eleito.

O jornal faz bem em atacá-lo, não só porque o sujeito agrediu covardemente a repórter Patrícia Campos Mello, mas porque Bolsonaro é um insulto à democracia, inclusive aos idiotas que o elegeram.

Mas a Folha precisa dizer que essa aventura, como o jornal define a gestão do sujeito, foi iniciada com o aval da imprensa. Para a Folha, Bolsonaro era apenas chefe de uma facção ao almejar o poder.

Escolhido como único nome capaz de derrotar o PT, foi eleito e se transformou no líder do empresariado dito liberal, o reduto do qual faz parte o comando da Folha. O editorial esqueceu de dizer que a Fiesp é Bolsonaro e que a elite brasileira sustenta seus projetos nos planos do bolsonarismo.

A Folha esquece de admitir que a própria Folha, em recomendação interna aos jornalistas, uma semana antes do primeiro turno da eleição de 2018, determinou a todos os profissionais da casa: não tratem Bolsonaro como um candidato da extrema direita,

Para a Folha, não havia no Brasil político de extrema direita, mas apenas políticos de direita, e Bolsonaro era um deles. Bolsonaro foi colocado ao lado de Álvaro Dias, Aécio, Henrique Meirelles, Alckmin, Amôedo.

O editorial, além das enrolações de conteúdo, é muito ruim na forma, como texto de opinião do comando do maior jornal do país num momento grave. É uma peça do século 19 no diário que pretende ser parte do que chama de “jornalismo com vocação de longo prazo”.

A Folha está enrolada no curto prazo. A Folha é esquecida quando interessa esquecer que, antes de tentar abandonar a criatura, já havia sido por ela abandonada.

A ELITE BRASILEIRA TAMBÉM É BAGACEIRA

As entidades de sempre se repetem nas manifestações de repúdio à agressão de Bolsonaro à repórter Patrícia Campos Mello, da Folha. Saíram notas das entidades dos jornalistas, de jornais e da OAB e foram publicadas manifestações de líderes de partidos, inclusive da direita.

Mas não há uma nota, uma só, de entidades que representam o que o Brasil tem de pior hoje depois dos Bolsonaros. Não há uma nota, uma fala, um pio de entidades empresariais ou ligadas às atividades de quem ganha dinheiro com o bolsonarismo.

As entidades que congregam o “liberalismo” fajuto à brasileira, o liberalismo que apoia golpes, que se cumplicia com milicianos, que aplaude piadas racistas, essas entidades estão quietas. Porque o reacionarismo empresarial brasileiro respalda Bolsonaro.

Os métodos do bolsonarismo se sustentam pelo lastro dos liberais de araque, incluindo cientistas prestativos, muitos professores e juristas que se dizem conservadores, mas são hoje aliados da extrema direita. A estrutura montada por Bolsonaro só existe porque é patrocinada pelos empresários e seus agregados.

A adesão dos liberais ao projeto de Bolsonaro não é ocasional nem oportunista, só para que Bolsonaro leve adiante as reformas que o mercado pede.

Bolsonaro é o comandante de um projeto estrutural. O liberalismo optou por aderir a qualquer governo que leve adiante suas ideias e sua sanha predatória, a qualquer custo, porque não haveria como obter resultados ‘liberalizantes’ sem controle absoluto do poder.

A briga da Folha e do Globo com os Bolsonaros é um ponto fora da curva desse conluio das elites. Globo e Folha estariam de fora do acerto só porque têm seus interesses contrariados por Bolsonaro.

O resto é tudo do mesmo time. A elite brasileira é politicamente retrógrada e culturalmente bagaceira. Não há nenhuma nota de repúdio dos empresários às ofensas de Bolsonaro à jornalista porque eles são da mesma turma.

Para a Fiesp, para os latifundiários, banqueiros, grileiros, para destruidores de matas e rios e profissionais ditos liberais, Bolsonaro é o operador de um grande plano.

Não existe nenhum constrangimento com o que Bolsonaro, os filhos dele, Paulo Guedes, Weintraub, Salles e Damares dizem. O que todos eles dizem publicamente os empresários dizem entre eles.

A bagaceirada da política chegou ao poder porque os bagaceiros da elite empresarial pertencem à mesma laia. A elite brasileira já era bolsonarista antes da existência de Bolsonaro.