A BRAVURA DE FRANCISCO

As alas mais radicais do reacionarismo da Igreja Católica estão odiando o papa Francisco. Mas o gesto que ele fez hoje, ao receber Lula, é mais do que um movimento de atrevimento político, é um reencontro do papa com Jorge Mario Bergoglio e seu passado em tempos de medo e horror.

Francisco consola o Bergoglio que, da segunda metade dos anos 70 e até bem pouco tempo, carregava o peso de uma suspeita desabonadora. Bergoglio teria sido não um colaboracionista, mas um chefe religioso vacilante diante da sangrenta ditadura argentina.

Bergoglio era líder dos jesuítas e teria afastado dois padres das suas atividades sociais com comunidades pobres – Orlando Yorio e Francisco Jalics –, diante da pressão dos militares. Livros e o filme Dois papas, de Fernando Meirelles, contam essa história.

Os dois padres foram presos e torturados. Jalics reencontrou-se com Bergoglio anos depois e passou a rejeitar a acusação de que havia sido abandonado pelo líder jesuíta.

No fim, prevaleceu a versão segundo a qual Bergoglio fizera manobras titubeantes, na tentativa de proteger os padres, retirando-os de área de conflito. Deu errado e eles foram presos. Yorio nunca mais quis se encontrar com seu chefe e morreu em 2000.

Hoje, Francisco recebeu o perseguido político de um país em que que a polícia mata milicianos abandonados por ex-amigos no poder. Seu gesto não é pouca coisa.

O papa decidiu enfrentar o reacionarismo da Igreja Católica e acolheu Lula com as liturgias dispensadas aos líderes mundiais.
No mundo tomado pelos covardes, e se fosse um deles, Francisco poderia esperar mais um pouco para receber um ex-presidente caçado, condenado e preso, sem provas, por corrupção. Lula saiu da cadeia há apenas três meses.

Francisco preferiu mandar um recado: recebeu um preso político, porque assim Lula deve ser tratado. A direita fica sabendo que Lula é o interlocutor de Francisco, e não alguém que apenas foi ao Vaticano pedir sua bênção.

Os fascistas têm hoje, ao ver a foto de Lula com o papa, um dos piores dias das suas vidas. Bolsonaro pode tentar dar o troco e se encontrar ou com Edir Macedo ou com Joseph Ratzinger.

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