A família de traficantes e o cinismo

Vou dizer o que penso sobre a prisão de uma mulher e seus dois filhos por tráfico de drogas. É uma família de Charqueadas, que há muito tempo vem sendo monitorada pela polícia, porque o pai também lida com drogas.
Pois vou dizer o que penso. Não me escandaliza e não me choca. E não me induz a pensar que a família brasileira se degradou a ponto de uma mãe envolver os filhos no crime.
Nada disso. O que eles fazem é ilegal. É tão ilegal quanto a corrupção impune de tucanos e da maioria da direita brasileira. Mas é menos imoral. Porque eles não lidam com dinheiro público. A mãe traficante e seus filhos traficantes são menos imorais do que a mãe de Geddel, que contava em casa o dinheiro da propina.
Essa família de Charqueadas faz comércio para abastecer quem consome maconha e cocaína. Deve ter muitos bacanas entre seus clientes de cocaína. Num país em que a repressão fosse substituída por outras formas de controle, num país menos cínico, eles poderiam ser apenas abastecedores da classe média que se droga e continuará se drogando.
Uma notícia dessas não me choca mais. O tráfico mata, corrompe, ameaça a vida de adolescentes, porque a briga é pelo cliente e pelos territórios. O tráfico vai continuar matando enquanto não admitirem que o sistema de guerra às drogas é vencido, é antigo, é ineficiente.
Espero que daqui a alguns anos uma mulher e seus filhos sejam tratados como abastecedores de drogas para bacanas, sob outros controles, mas sem a repressão que apenas os fortalece na guerra entre quadrilhas.
A exposição da mulher e de seus dois filhos nas manchetes é inevitável. É notícia, pelo inusitado de envolver toda a família nessa desgraceira. Mas, como disse uma vez o jornalista Caco Barcellos, eu vou me surpreender no dia em que os compradores de drogas da mulher, entre os quais os executivos do alto consumo, apresentarem seus dramas como consumidores. Se eles, os dramas, de fato existirem.
E eu não desejo, não, que os bacanas sejam presos e condenados (como a polícia e a Justiça fazem com pobres e negros e seus cigarros de maconha), mas que sejam entendidos como abastecedores de traficantes. Desejo que as famílias dos consumidores de cocaína sejam menos cínicas ao lerem manchetes como esta da família de Charqueadas.

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