As turmas de Fidel e FH

Há um estranhamento geral com a nota em que Fernando Henrique Cardoso reconhece as virtudes de Fidel Castro e escreve uma frase que muitos de esquerda assinariam:
“A luta simbolizada por Fidel dos “pequenos” contra os poderosos teve uma função dinamizadora na vida política no Continente”.
Mas estão batendo em FH porque é tucano, porque é da turma do Serra, do Aécio e do Alckmin, porque conspirou e ajudou a derrubar a Dilma etc.
Mas o que prevalece na carta é o antigo FH pré-politico que refletia sobre o Brasil e o mundo. FH, ao contrário de Serra (que nunca escreveu uma linha na vida e nunca foi ideologicamente bem definido), foi um pensador de lastro marxista. De Aécio e Alckmin nem vamos falar.
Foi com ferramentas marxistas que ele escreveu, aos 30 anos, Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional, sobre o escravismo e seus danos à economia e à alma do Rio Grande do Sul.
Se esse livro fosse lido ainda hoje nas escolas (é um crime que seja ignorado), poderíamos entender muito do que esse Estado vaidoso e quebrado é até hoje.
É esse FH jovem, do livro de 1962, que ele parece querer ressuscitar agora nessa nota em que pede que os cubanos preservem “o sentimento de igualdade que ampliou o acesso à educação e à saúde”.
Eu corro o risco de dizer que me comovo com uma nota em que um homem de 85 anos, que foi para a turma errada, tenta se reencontrar com o jovem que ainda o cutuca de vez em quando.

(Alguns vão dizer que já escrevi demais sobre este livro do Fernando Henrique. Sim, escrevi. E vou continuar escrevendo. É o mais importante livro sobre a paisagem sociológica do RS do século 19 e sobre a nossa herança escravista sempre camuflada. FH e Tau Golin, com a monumental série “A Fronteira”, escreveram, com temáticas e abordagens diferentes, é claro, as mais decisivas obras para compreensão do Rio Grande do Sul.)

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