Os fantasmas da Luciana de Abreu

Ainda sobre os casarões da Rua Luciana de Abreu, demolidos ontem em poucas horas pela construtora Goldsztein. Desde as primeiras reações ao plano de demolição dos seis prédios, há mais de 10 anos, não teria sido o caso de a construtora parar para pensar? Mas parar mesmo.

Se entidades e a vizinhança do Moinhos, preocupadas com a memória da cidade, reagiram à ameaça de destruição, a empresa não poderia ter refletido sobre a agressividade e o constrangimento da ideia?

Além da suspeita de que as casas teriam valor arquitetônico, os construtores não poderiam ter medido também o valor afetivo do que pretendiam pôr abaixo? Ou mediram e não encontraram nada que os comovesse?

Por que derrubar algo que provoca reações tão fortes? Por que, às vésperas do Natal, demolir em uma tarde, com a pressa dos que fogem de algo que os assusta, os velhos casarões da Luciana de Abreu?

Por que Porto Alegre vai se enfeiando e maltratando sua memória e seus mortos? O que aconteceu com Porto Alegre que a levou a se transformar numa cidade em que tudo o que prevalece é o negócio a qualquer custo, como se fosse uma Aleppo dissimulada em conflito com seu passado?

Mas, como disse ontem aqui minha amiga virtual Joice Mittmann, os que derrubaram os casarões e os que testemunharam a demolição passivamente são os mesmos que admiram os prédios de Buenos Aires e postam no Facebook belas fotos em que aparecem sorridentes diante do casario de Korcula, na Croácia. São lindas as casas de Korcula.

Porto Alegre foi sequestrada pelos que pretendem desfigurá-la até virar outra cidade. Que a nova gestão da prefeitura não acelere esse processo, ou que as reações continuem e se fortaleçam, ou que os fantasmas despejados dos casarões da Luciana de Abreu atormentem seus agressores para o resto da vida.

 

 

É lindo o Beira-Rio

Encerro hoje minhas brincadeiras infantis com os colorados, publicando o link de uma crônica que escrevi há mais de dois anos e que me fez levar muitas bordoadas dos gremistas.

Ontem, no abraço à Fundação Piratini, olhei o estádio lá de cima do morro, fiz esta imagem e me lembrei da crônica. Aí está.

http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticia/2014/07/moises-mendes-o-novo-beira-rio-e-o-mais-belo-de-todos-os-estadios-da-copa-4542927.html

Histórias do futebol

roberto

Roberto Jardim é um dos talentos do jornalismo brasileiro que se puxam para abordar as coisas do futebol com o artesanato da literatura.
O meu amigo Roberto está publicando o livro cartonero “Além das Quatro Linhas” (Vento Norte Cartonero), com belas histórias do fubebol.
Não são aqueles textos que aparecem em resenhas e notícias de jogos, treinos, fofocas e cartolagens. São histórias mais complexas que geralmente não aparecem em lugar algum.
É o que eu posso contar agora. Quem quiser saber mais, que apareça amanhã, dia 25, no lançamento, com sessão de autógrafos, a partir das 19h, no Brechó do Futebol, Rua Fernando Machado, 1188. Eu estarei lá, com certeza.
A obra tem uma apresentação muito bonita do Juca Kfouri, que exalta na medida as qualidades do Roberto Jardim.
O livro pode ser comprado também pela internet, no Facebook:
https://www.facebook.com/ventonortecartonero/
Quem ainda não sabe e quiser saber por que é cartonero, que entre aqui:

Movimento Cartonero

A superlua gaúcha

A superlua que acontece hoje me faz lembrar uma história contada por um paulista. Ele falou de uma crônica de Rubem Braga, dos anos 50, que tratava do complexo de inferioridade de Niterói diante do esplendor do Rio de Janeiro.
Rubem Braga escreveu: pobre Niterói, até a lua que se vê lá não é a lua dela, é a lua do Rio de Janeiro.
E este amigo me contou então um causo do complexo inverso, o de superioridade dos gaúchos, também com a lua como personagem.
Em uma dessas aparições da superlua, quando todos no mundo puderam ver o fenômeno, ele leu uma manchete no dia seguinte na capa de um jornal de Porto Alegre que comemorava:
GAÚCHOS VIRAM A SUPERLUA

 

Os sons ao redor

mafalda

Eu até ouviria em casa algumas músicas que meu vizinho me obriga a ouvir. Mas eu não ouço música em volume alto. E quando vem da casa dos outros, aquela não é a música que quero ouvir. Então, essa história de que o vizinho não ouve só pancadão não é um consolo.

Ouço tudo o que não quero nos fins de semana e muitas vezes durante a semana mesmo. E não é o som do cortador de grama, da musiquinha do caminhão de gás (que não deveria existir, segundo a lei) ou do aspirador de pó do homem que limpa o carro duas vezes por dia. Às vezes, é bossa nova das antigas.

Mas ninguém aguenta João Gilberto sábado e domingo. E agora ainda morre o Leonardo Cohen. E o vizinho descobre o Leonardo Cohen.

É a música alheia que incomoda, não necessariamente a alta como a de festas eventuais (o que é aceitável). É a música-mosca varejeira, que fica zunindo, alternando som alto e médio, que às vezes parece sumir e volta, mas é intermitente, como se estivesse em um chip descontrolado dentro da nossa cabeça.

O som de mosca-varejeira é o pior, porque é uma agressão às vezes sutil, que consome nosso estoque de tolerância com a vida em comunidade. Reclamar? Não tem pra quem.

Só se fosse para alguém da força-tarefa da Lava-Jato, porque eles são durões. Mas o pessoal da Lava-Jato só reagiria se a música fosse de alguém do PT. O Aécio, por exemplo, pode ouvir música alta quando quiser.

O certo era fazer valer para tudo, e inclusive casas e apartamentos, a lei que vale desde outubro para os carros. Desde outubro, qualquer som que saia de um carro, baixo ou alto, provoca multa. Não sei se estão fiscalizando, mas a lei existe. O grande teste será no veraneio deste ano.

Mas e a música-varejeira que vem do vizinho? Mais a voz de locutor de quermesse do Temer, com aquelas frases do século 19 (e não há lei que controle), a voz do Meirelles com um ovo na boca anunciando a austeridade todos os dias, o som da voz do Serra… Os sons estão cada vez mais insuportáveis.

Mujica

çivrooos

Pensei algum tempo, fazendo onda, se deveria ou não compartilhar o texto que o José Antônio Silva escreveu no seu blog a respeito de Todos Querem Ser Mujica.
Mas se eu me fizer de bobo em relação ao reconhecimento ao livro, posso cometer o delito do falso recatamento. E o juiz Moro não gosta disso.
E este texto é de um jornalista e ensaísta que admiro muito. Então, lá vai o link do blog do Zé.
Como diz o seu Mércio, prefiro vender meu peixe a alugar minha alma.

http://lavralivre.blogspot.com.br/2016/10/moises-mendes-reune-e-confirma-o.html

De mãos

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Ontem, andando pela Andradas, me deu vontade de fotografar esses guris que caminhavam de mãos dadas na minha frente. E depois deu vontade de publicar.
Não, não é porque eu ainda ache diferente ou novidade. Claro que não. É porque imagino que um dia a Andradas estará cheia de guri de mão com guri e guria de mão com guria.
E espero que eles sejam admirados, observados e até fotografados, como fotografamos tudo o que se repete e continua nos surpreendendo e nos tocando, como o pôr do sol, os bichos, os filhos e as árvores.
Eu gostei da cena, porque percebi no jeito de andar dos dois que eles estavam leves e felizes.

Os óculos

O jornalista Mário Marcos de Souza, comentarista do SporTV, é quem narra a história de hoje do Porta na Cara. É uma clássica lembrança de infância, com a clássica guria dos cabelos longos.

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OS ÓCULOS

Mário Marcos de Souza

Quando vi aqueles óculos debaixo do banco da frente do ônibus que me levaria ao ginásio, logo imaginei lá na ingenuidade dos meus 11 anos que tinha descoberto a chave (na época, estávamos muito distantes do tempo das senhas) para um novo mundo.

Sabia a quem pertenciam.

Eles estavam sempre no rosto daquela moreninha de cabelos lisos e compridos, que andava com o balançar seguro e superior de quem era admirada.

Encontrar os óculos, portanto, e ter o privilégio de entregar em mãos daquela primeira paixão de criança, receber um olhar agradecido em troca e, quem sabe?, romper com a barreira da indiferença, me fez sonhar o tempo todo, na curta viagem entre o centro da Criciúma dos anos 50 e o morro onde ficava o prédio antigo do colégio Madre Teresa Michel.

Quando desci, corri logo para o corredor onde os alunos aguardavam a sineta da chamada e passei a procurar a menina dos cabelos compridos.

Ela estava lá, conversando com algumas amigas, segura como habitualmente era.

Aproximei-me, balbuciei (ou tremi) alguma palavra e estendi a mão com os óculos. Me achava o herói do momento.

Foi tudo muito rápido. Ela se virou, pegou os óculos sem me encarar e, imediatamente, virou-se e seguiu na conversa com as amigas.

Rápido e frio assim.

Eu esperava ao menos um prosaico obrigado.

Recebi indiferença. Minha primeira paixão terminou em rejeição.