Nós assistimos

O jornalismo boliviano mais confunde do que esclarece (o que não é novidade para os brasileiros). Alguns jornais noticiam que cocaleros e governo chegaram a uma trégua.
Outros informam que os manifestantes antigolpe deram hoje 48 horas para que a autoproclamada ditadora interina Jeanine Áñez deixe o governo.
P que importa é que o povo continua resistindo ao golpe. Nós, mais uma vez, ficamos assistindo.
Como assistimos ao que aconteceu na Argentina antes da eleição e ainda acontece no Equador, no Peru, na Venezuela (onde o povo evitou o golpe), no Chile, no Uruguai (onde vão às ruas para advertir que os militares não se atrevam de novo).

LICENÇA PARA MATAR

Começa daqui a pouco o que os moradores dos arredores de La Paz anunciam como o grande cerco pela derrubada da autoproclamada ditadora interina Jeanine Añez.
Gente de toda parte ocupará La Paz, para forçar um recuo dos soldados nas ruas, mas há o temor de uma tragédia.
Esta é a manchete de agora da versão online do jornal El Día:
“14 distritos de El Alto y 20 provincias resuelven cercar La Paz”.
Polícia e Forças Armadas, com a ajuda de milicianos da extrema direita de Camacho El Macho, já mataram nove cocaleros.
E a matança pode ser ampliada com o cerco à cidade. Porque os golpistas devem ter um Sergio Moro boliviano trabalhando muito depois do golpe que derrubou Evo Morales.
A partir de agora, qualquer integrante das Forças Armadas pode atirar para matar em manifestantes, em quaisquer circunstâncias. Assassinos serão anistiados.
Os golpistas deram, pelo decreto 4078, de Jeanine Añez, licença para que os soldados continuem matando sem piedade. Nenhum militar que atirar em militantes da democracia nas ruas irá enfrentar processo por assassinato.
Os assassinos bolivianos estão livres de qualquer punição. Pelo decreto, vale lá o que Sergio Moro quer fazer aqui: que atirem para matar em nome não só do medo e da violenta emoção, mas também da defesa da pátria.
Golpistas e milicianos têm afinidades ‘jurídicas’, em qualquer país e em quaisquer circunstâncias.

PELÉ E BOLSONARO SE MERECEM

Bolsonaro foi à Vila Belmiro hoje, no jogo do Santos contra o São Paulo, e vestiu a camisa de Pelé. Faz sentido.
Pele é a mais omissa das celebridades brasileiras, em relação não só aos negros, mas às lutas sociais dos pobres e de todos os explorados por figuras como o visitante de hoje.
Bolsonaro se fardou com a camisa do jogador despolitizado que nunca vestiu a camisa dos que enfrentaram ditadores e ainda enfrentam racistas e fascistas.
Pelé poderia ser uma voz forte contra os opressores. Calou-se e nunca foi nada.
Por isso Pelé e Bolsonaro se merecem. Como Renato Portaluppi, Neymar, Felipe Mello, Felipão e tantos outros.
As camisas de todos eles ficam muito bem em Bolsonaro.

MATANÇA

Exército e polícia dispararam contra uma marcha de colonos bolivianos, mataram cinco e feriram mais de 20 hoje à tarde.
A coluna de manifestantes seguia de Sacaba para Cochabamba (foto), onde se juntaria a milhares de pessoas numa caminhada até La Paz.
É a repressão violenta do golpe à reação do povo, que não desiste de ir às ruas. Foram presas 200 pessoas na manifestação de hoje.
A matança que começou com o golpe pode fazer com que Evo Morales tente apressar sua volta ao país. É o que noticiam em La Paz. Como?
Poderemos saber nos próximos dias.

A casa de 1888

Nos 130 anos da República, a imagem de uma casa erguida um ano antes em Porto Alegre. Ainda sobrevive, degradada e pichada, na Rua Washington Luiz, perto da Ponte de Pedra.
Aguentará os tempos bolsonaristas? ‘Abolição’ e ‘proclamação’ da República foram, lá no seu tempo, farsas que estão aí até hoje. O Brasil comemora datas, só isso.
A extrema direita comemora a chegada ao poder e debate as surubas do príncipe ‘herdeiro’. Para os fascistas, tudo é mais divertido. Não há História que aguente.

CHEGA

Chega de Renato Portulappi. Não merecemos ter um técnico na contramão da tendência mundial de engajamento das celebridades do esporte à luta contra o racismo, a homofobia e a xenofobia.
Ninguém espera que Renato tenha a lucidez dos jogadores e dos técnicos do Chile e da Argentina (seria pedir demais). Mas o Grêmio não pode ter seu nome associado a um governante da extrema direita e admirador de torturadores.
Chega de ouvir a voz bolsonarista de Renato. Chega das lições reacionárias de um cara que não pode induzir adolescentes gremistas ao erro de admirar uma família formada por aberrações políticas ligadas a milicianos.
Renato tenta vincular a história e a imagem do Grêmio ao que o Brasil tem hoje de mais repulsivo desde a ditadura.
Chega. Ele não tem esse direito. Vamos dar ao Grêmio a chance de ser um clube comprometido incondicionalmente com o humanismo, sem concessões à exaltação de fascistas.
Renato não previsa ser um Roger Machado, assumido como militante anti-racista. E o Grêmio não precisa ser um Bahia, clube reconhecido mundialmente por suas ações em defesa da diversidade. Que seja apenas uma entidade com líderes que estejam de acordo com o que pensa a maioria da sua torcida.
A não ser que a torcida tricolor seja hoje de maioria bolsonarista. Se essa for a realidade, estou fora. Chega.