O CARÃO DA ESTUDANTE EM BOLSONARO

Informação do site do Estadão. Uma menina se recusou a cumprimentar o presidente Jair Bolsonaro durante a celebração de Páscoa, na última quarta-feira, 17, no Palácio do Planalto. O próprio Bolsonaro divulgou um vídeo em sua conta no Twitter do momento em que cumprimenta crianças da Escola Classe 1 da Estrutural, região da periferia de Brasília, e Yasmin – nome identificado no crachá – se nega a estender a mão para ele.
Ao publicar o vídeo feito no Planalto, Bolsonaro citou um versículo do livro bíblico de Provérbios: “Ensina a criança o caminho que deve andar e mesmo quando for velho, não se desviará dele.” Na postagem, ele ainda escreve “vamos cuidar do futuro do Brasil!”.
O interessante é que o próprio Bolsonaro divulgou o vídeo em que leva o carão da menina. Certamente uma barbeiragem da assessoria de efeitos especiais do Planalto.

Uma semana para não esquecer. A semana em que a defesa da liberdade de imprensa foi feita por Bolsonaro e por Diogo Mainardi. É brabo.
Só falta o diabo usar o Twitter para falar da ressurreição de Jesus Cristo.

FUX, LULA E QUEIROZ

Não se sabe até agora o que Luiz Fux pensa do fim da mordaça que ele impôs a Lula, impedido de conceder entrevista a Monica Bergamo, da Folha. Fux, tão falante, está calado.
Não vamos esquecer que, ao mesmo tempo em que censurava Lula, Fux tentou impedir o andamento do processo contra Fabrício Queiroz no Ministério Público do Rio.
Fux estava de plantão no Supremo e foi muito atencioso ao apelo de Flavio Bolsonaro, ex-patrão do sujeito. O processo só voltou a andar porque o ministro Marco Aurélio cassou a decisão favorável à dupla amiga das milícias.
É provável que Lula seja finalmente entrevistado. Mas quem garante que Queiroz será um dia obrigado a falar? Lula queria ser ouvido por Monica Bergamo e Fux não deixava.
O Ministério Público queria ouvir Queiroz, e Fux tentou impedir. Mesmo com o processo destravado, Queiroz nunca prestou depoimento sobre o caso da caixinha com dinheiro de assessores de Flavio Bolsonaro, que beneficiou até a primeira-dama.
Será linda a Páscoa do Queiroz.

O DEBOCHE DO BOLSONARISTA

As referências da minha geração quando se fala de liberdade de imprensa têm a grandeza de Barbosa Lima Sobrinho, Prudente de Moraes Neto, Herbert Moses, Audálio Dantas.
Era deles que sempre ouvi falar, desde a adolescência, quando o tema era o direito à informação e à opinião. Todo estudante de jornalismo deveria saber quem foram essas figuras monumentais que enfrentaram os ditadores.
Pois chegamos, em tempos de bolsonarismo, ao estágio inimaginável em que a liberdade de imprensa só ganha relevância no Brasil (e acaba forçando o Supremo a rever sua postura de censor) por interferência de um sujeito chamado Diogo Mainardi.
Censuraram o site de Diogo Mainardi e foi um Deus nos acuda. Barbosa Lima Sobrinho foi substituído por um indivíduo que nunca defendeu liberdade alguma e que só berrou quando seu site foi atingido.
Diogo Mainardi, como lembrou Monica Bergamo hoje, riu da Folha quando o jornal foi censurado por Luiz Fux e impedido de entrevistar Lula. Mainardi ri da democracia, das minorias, das esquerdas, dos movimentos sociais, das feministas.
De Veneza, Mainardi debocha do Brasil, porque se considera europeu. Ter Mainardi como paladino da liberdade de imprensa é coerente com o tempo que vivemos.
Um golpista e bolsonarista como defensor das liberdades. O Brasil estava merecendo.

SÉRIES

O escritor português João Pereira Coutinho, cronista da Folha (reaça, mas bom demais), escreveu um texto muito engraçado para contar que não vê séries. Eu também não vejo e me sinto culpado.
Trechos do que ele escreveu:
“Serite aguda é uma obsessão autoinfligida em que adultos razoavelmente sãos iniciam uma competição entre eles para descobrir quem vê a maior quantidade de séries recentes.
Mas não só. Dentro das séries recentes, a serite aguda se desdobra em vários sintomas. Um deles é saber quem viu mais episódios da série em causa e, de preferência, em quantas horas.
O vencedor sente um alívio temporário e uma sensação de superioridade que dura até ao lançamento da próxima série. O derrotado questiona se vale a pena viver”.
Pois eu leio pelo menos 10 comentários por dia aqui no Facebook sobre séries. Acompanho só os comentários. Às vezes, quando perco algum, me sinto meio confuso e não entendo a série.
Não gosto de séries, mas gosto de comentários sobre séries, ou de série de comentários. A última série que vi foi O Vigilante Rodoviário.

Lula

A Folha está liberada para entrevistar Lula. A decisão, segundo a própria Folha, é de Dias Toffoli, que havia censurado a revista Crusoé e o site o Antagonista e agora levanta a censura imposta por Luiz Fux.
É uma maravilha a clareza de entendimento do Judiciário. Ainda mais quando as medidas são tomadas por imposição da imprensa de direita.
A imprensa que mais conspira contra as liberdades (incluindo o site do bolsonarista Diogo Mainardi) é a maior beneficiada pelas liberdades.
O Supremo ainda tem que se entender com os procuradores da República. O STF deu corda e ajudou a criar os monstros da Lava-Jato que agora prometem devorá-lo.
Mas o que falta mesmo é o Supremo, se tiver coragem, mandar soltar Lula. Se o Supremo cede às pressões do golpista e bolsonarista Diogo Mainardi, terá de ceder ás pressões da Constituição e da democracia.

O CINISMO DOS PROCURADORES

Bolsonaro pode dizer que defende a imprensa livre, desde que não chegue perto do Queiroz, como não vem chegando. Ele pode dizer e não significa nada. Todo mundo sabe o que ele pensa. O que ele diz não tem relevância.
Mas os procuradores da República que gritam contra os desmandos do Supremo, diante da ameaça de serem investigados, são mais cínicos do que o próprio Supremo. Os procuradores nunca ergueram a voz contra os desmandos de colegas que atuaram e atuam na Lava-Jato.
Nunca ouvi um procurador dizer que as delações forjadas e os vazamentos eram ilegais ou imorais. Nunca se ouviu uma voz em desacordo com o power point de Deltan Dallagnol, só para dar um exemplo.
E agora a jornalista Consuelo Dieguez mostra na Piauí que, incentivada pelo Ministério Público, para que seus executivos façam delações na Lava-Jato, a empreiteira CCR vai remunerar os delatores.
Mais do que remunerar, vai premiar quem fizer delação. Para que os delatores não enfrentam problemas financeiros, a CRR gastará R$ 71 milhões com esse prêmio.
Cada delator vai receber da empresa R$ 78 mil mensais por cinco anos. Tudo como compensação pelas delações. Para que se faça justiça, um procurador, Adonis Callou, ouvido por Consuelo critica a mutreta.
“Os acordos (de delação) existem para ressarcir os lesados e não os que cometeram crime”, disse o procurador à jornalista.
Pois então não venham os procuradores com essa história corporativa e pretensamente legalista de que o Supremo não pode conduzir investigações porque isso é ilegal ou inconstitucional, além de caracterizar perseguição.
A Lava-Jato será um dia desvendada quando chegarem aos seus subterrâneos. E muitos procuradores, que hoje gritam contra perseguições, estarão lá ou terão deixado rastros das suas atuações no mínimo controversas.