A IMPRENSA E O GOLPE

Dos grandes jornais brasileiros, apenas a Folha enviou um profissional à Bolívia. Mas o texto que a Folha publica como sendo de Sylvia Colombo na sua página online é frio e burocrático como se ela estivesse em Buenos Aires.
O que fica claro é que a jornalista não deve ter chegado a La Paz (ou chegou há pouco), e a Folha requenta informações dos jornais bolivianos.
O relato de Sylvia não tem detalhes do que se passa na Bolívia, onde a população explodiu em fúria, marchando de El Alto (na região metropolitana) para La Paz.
O que a Folha faz, com textos requentados, é uma saída clássica do jornalismo apressado.
A enviada não está onde acontece a explosão de fúria do povo em defesa de Morales, mas a Folha quer dizer que ela já está lá.
É ruim, porque a jornalista fica mal, por parecer incapaz de captar e narrar o cenário devastado do país golpeado pela extrema direita.

A marcha

A marcha gigantesca saiu hoje à tarde de El Alto para La Paz para enfrentar os golpistas. A extrema direita enfiou a Bolívia numa aventura que pode levar a uma tragédia.
El Alto fica na região metropolitana de La Paz.

#LTahora #LaPaz Armados con palos y gritando “Ahora si. Guerra Civil”, personas que apoyan a Evo Morales marchan por calles de El Alto en La Paz

Publicado por Los Tiempos em Segunda-feira, 11 de novembro de 2019

O EX-MISERÁVEL GAÚCHO QUE ODEIA MISERÁVEIS

Agricultores gaúchos, que viraram latifundiários em terras que eram dos índios na Bolívia, apoiam o golpe contra Maduro. É tão óbvio quanto dizer que os grileiros de terras dos índios da Amazônia apoiam Bolsonaro.
Poucos brasileiros são tão reacionários quanto os gaúchos, muitas vezes miseráveis, que saíram com pouco ou quase nada do Rio Grande do Sul e viraram fazendeiros no Mato Grosso, no Paraguai e na Bolívia.
Gaúchos descendentes de imigrantes europeus do século 19 (também esses miseráveis) se consideram uma elite branca herdeira de alguma aristocracia perdida.
Mas são apenas ex-pobres que, na partilha de minifúndios, ficaram sem um pedaço de chão e seguiram em frente.
Um ex-miserável reacionário será sempre uma figura repulsiva e historicamente fora do lugar. O ex-pobre que vira um abastado discriminador deprecia a memória dos próprios ancestrais miseráveis.

CÍNICOS E CÍVICOS

A desinformação do jornalismo brasileiro é contagiante. Todos repetem nos jornais, na TV e nas rádios, inclusive agora no Jornal Hoje da Globo, que Morales se referiu à trama como um “golpe cívico-policial”.
Mas se não fosse tão ignorante, o jornalismo da grande imprensa deveria esclarecer que esse ‘cívico’ (que todos repetem) não tem nenhum sentido de civismo.
Morales acusa que o golpe é obra do movimento civil do Comitê Cívico de Santa Cruz, o QG golpista de Camacho El Macho na Bolivia, articulado com militares.
A direita fascista consegue provocar todo tipo de confusão. Golpista na Bolívia é um cívico, um militante do comitê de El Macho. Os jornalistas deveriam saber.

Lições do golpe

Um texto para ser lido e relido pelas esquerdas, como lição elementar sobre as origens e a viabilização dos golpes e, nessas circuntâncias, a fragilidade de governos de esquerda.
É de Atilio Borón, sociólogo argentino, e foi publicado no site do jornal boliviano La Época.
Atentem para o detalhe do golpe militar por omissão.

http://www.la-epoca.com.bo/2019/11/10/el-golpe-en-bolivia-cinco-lecciones/

IMPRENSA BRASILEIRA É GOLPISTA ATÉ NA BOLÍVIA

Quem manda hoje na Bolívia? Os jornais bolivianos não sabem responder. A cobertura do golpe é precária, mesmo em jornais que não aderiram à deposição de Morales.
Os militares assumiram o controle absoluto do poder? Ninguém sabe. A segunda vice-presidente do Senado, Jeanine Añez, aliada dos golpistas, diz que vai assumir a presidência (depois do golpe atingir o vice-presidente da República e os presidentes de Câmara e Senado). Mas a impressão é de que ninguém dá muita atenção à Jeanine.
Uma dúvida atormenta os golpistas: qual será a função do chefe deles, o empresário, corrupto e fundamentalista religioso Luis Fernando Camacho Vaca, El Macho, se ele não tem representação política?
Pode começar agora uma guerra entre El Macho, o Bolsonaro deles, e grupos ligados ao ex-presidente Carlos Mesa, que disputou a eleição com Morales. Os militares ficarão com quem?
O interessante é que os jornais bolivianos não alinhados com a direita tratam a deposição de Morales como golpe. Os jornais brasileiros “liberais” tratam o golpe como renúncia.
A nossa grande imprensa é tão covarde que não enfrenta nem golpistas bolivianos.

GOLPE NA BOLÍVIA REAPROXIMA BOLSONARO E A GLOBO

Gustavo Maia é o repórter que conseguiu uma estranha proeza, a entrevista exclusiva de Bolsonaro, por telefone, para O Globo.
“A palavra golpe é usada quando a esquerda perde”, disse Bolsonaro na entrevista que virou manchete do Globo online na noite de domingo.
Se Bolsonaro quer destruir a Globo e nunca mais concedeu entrevistas a veículos do grupo desde a declaração de guerra aos Marinho (e ataca todos os dias os comentaristas da GloboNews), por que dar entrevista agora? E entrevista exclusiva.
Que história é essa de Bolsonaro atender telefonema da Globo, domingo à noite, para comentar a situação na Bolívia?
Bolsonaro se esqueceu de que seu projeto prioritário é a destruição da Globo?
Será que a Globo e Bolsonaro finalmente se entenderam e decidiram que o inimigo comum é Lula? Ou um golpe sempre restitui afinidades eventualmente abaladas entre golpistas?

O povo reage

Para os golpistas que consideram a situação sobre controle.

Jornalistas caçados

O jornal Página Siete, de La Paz, suspendeu a atualização do site e não terá circulação do jornal impresso amanhã.
O Página Siete está sendo ameaçado pelas turbas do golpe e prefere proteger seus funcionários.
E saiu do ar agora a página do jornal La Época. Será apenas uma casualidade?
O golpe invade e destrói casas, incendeia ônibus, persegue políticos e ataca a imprensa que não compactua com a extrema direita. O terror se espalha pela Bolívia golpeada.
Há informações de que alguns jornalistas, principalmente os ligados à estrutura de comunicação pública do país, estariam abandonando suas cidades.
E os jornalistas fofos do Brasil o que dirão nesta segunda-feira? Que a violência é lamentável, por isso e aquilo, mas que os jornalistas eram engajados ao esquerdismo de Morales e que por isso são perseguidos.
Um golpe sempre serve para reafirmar o caráter dos jornalistas fofos e suas posições subalternas a fascistas nacionais ou estrangeiros.
O jornalista fofo adora um golpista.

O horror

O jornal Página Siete, de La Paz, anunciou há pouco que suspendeu a atualização do site e que não terá circulação do jornal impresso amanhã.
O Página Siete está sendo ameaçado pelas turbas do golpe e prefere proteger seus funcionários.

https://www.paginasiete.bo/nacional/2019/11/10/pagina-siete-suspende-labores-por-seguridad-237039.html