Ajuda

Professora Céli Pinto, me ajude. Se a produção e a publicação de textos científicos da área das ciências sociais, das humanidades e da linguística dobraram de 2008 a 2017 no Brasil, como mostra hoje na Folha a professora e pesquisadora da Unicamp Sabine Righetti, por que o Brasil também produziu tantas ignorâncias?
O que se passa com um país que ampliou seus saberes, a formação e a produção de seus mestres e de seus estudantes e as possibilidades de acesso dos jovens à universidade e, ao mesmo tempo, viu se criar um ambiente propício à consagração de alguém com o perfil tenebroso de Bolsonaro?
Que ralo engoliu tanto avanço social e tanto saber? Me ajude, professora Céli Pinto.

MORO E A FUNDAÇÃO DE DALLAGNOL

O poder de Sergio Moro sobre Deltan Dallagnol era absoluto. As conversas vazadas que o Intercept vem publicando deixam o procurador na constrangedora condição de subalterno do ex-juiz.

Não há dúvidas quanto à hierarquia dessa relação. Dallagnol cumpria ordens do magistrado poderoso. Moro orientava a produção de provas contra Lula. Dizia como deveriam fazer notas para a imprensa e como mobilizar jornalistas amigos contra o ex-presidente. Moro determinava a Dallagnol quem deveria ou não ser ouvido como delator.

Qualquer outra discussão vencida sobre a legalidade ou não do que ele fazia não elimina uma certeza: o juiz era o chefe de fato não só de Dallagnol, mas de muitos outros procuradores da Lava-Jato em Curitiba.

Dallagnol demonstra euforia e satisfação em se submeter às ordens do chefe que não deveria chefiá-lo. Parece um estagiário prestativo preocupado em ganhar pontos para subir na carreira.
Mas que carreira? Como Moro poderia ajudá-lo, se um é procurador e outro é juiz?

Essa é uma das tantas interrogações acionadas pelas conversas em que tudo o que eles tentam fazer é incriminar Lula de forma articulada, com o MP subjugado por Moro.

Dallagnol não á apenas um procurador em busca da melhor performance para fortalecer seu currículo na Lava-Jato. Ele parece sempre querer ficar bem com Sergio Moro, ele presta contas ao juiz, é cerimonioso. Moro é seu guru.

E aí surge a grande questão. Se Dallagnol devia tanta submissão a Moro, se Moro tinha tanto poder, se ele era o chefe de fato da Lava-Jato no Ministério Público, é de se perguntar ainda mais agora: que influência teve o ex-juiz na ideia de Dallagnol de criar a tal fundação com R$ 2,5 bilhões da Petrobras?

Se Dallagnol era tão ligado ao juiz e agia como seu subalterno, o juiz não teve nenhuma interferência no projeto da fundação que acabou se transformando num grande rolo até hoje não desvendado?

É possível supor que a ideia talvez nem tenha sido de Dallagnol? A sequência de fatos agora desvendados sobre os delitos da Lava-Jato pode, quem sabe, conduzir a algumas respostas.

Se Dallagnol for de fato investigado pela corregedoria do Ministério Público, o assunto fundação não pode ficar de fora. Sergio Moro, tão influente, não poderia estar à margem do que vinha sendo decidido para ficar com os R$ 2,5 bilhões, numa operação abortada dentro do próprio MP por Raquel Dodge, com a ajuda de parte da imprensa.

O que Moro fez além de autorizar que Dallagnol seguisse em frente? O que sabia da fundação bilionária que todos nós, em nome da transparência, também precisamos saber? Ou dito de outra forma: o que a fundação teria das ideias e das iniciativas de Moro? MP e Judiciário sabem onde estão as respostas.

A AMPLIAÇÃO DAS MILÍCIAS

Está nos cantinhos dos sites. Nenhum jornal da grande imprensa teve o peito de dar em manchete a declaração de Bolsonaro ontem em Santa Maria, quando finalmente explicitou em discurso o objetivo do armamentismo bolsonarista:
“Nossa vida tem valor, mas tem algo com muito mais valoroso do que a nossa vida, que é a nossa liberdade. Além das Forças Armadas, defendo o armamento individual para o nosso povo, para que tentações não passem na cabeça de governantes para assumir o poder de forma absoluta. Temos exemplo na América Latina. Não queremos repeti-los. Confiando no povo, confiando nas Forças Armadas, esse mal cada vez mais se afasta de nós”.
(Vi ontem no Diário de Santa Maria os vídeos da visita de Bolsonaro. Havia uma certa euforia histérica nas ruas da cidade universitária. Tem alguma coisa na água e no ar de Santa Maria.)

LEVARAM O LEVY

A direita está experimentado o veneno da extrema direita que muitos direitistas ditos liberais ajudam a sustentar. Joaquim Levy foi mandado embora do BNDES.
Antes, o advogado Marcos Barbosa Pinto havia se demitido da direção de mercado de capitais do banco, porque Bolsonaro o considerava uma ameaça por ter trabalhado em governos do PT.
Os dois demitidos são amigos do mercado financeiro. Pinto foi sócio de Armínio Fraga na Gávea Investimentos, mas Bolsonaro temia seu esquerdismo.
Bolsonaro já vinha perseguindo generais. Agora persegue economistas do esquema que o elegeu.
Bem feito para a direita tucana que presta serviços ao governo controlado por uma família envolvida com milicianos.

MORO, A POLÍCIA E OS GATOS

Poucos têm a coragem de levantar publicamente a hipótese apresentada pelo jornalista Luis Nassif: o uso da polícia do governo para tentar amedrontar o Intercept e interromper o vazamento de informações da Lava-Jato.

E a polícia do governo é, fora outros arapongas que agem nas sombras, a Polícia Federal. Nassif levantou hoje a possibilidade de uso da PF para, num gesto extremo de Moro, apreender equipamentos e documentos do jornal e fazer prisões preventivas determinadas pela Justiça amiga dele.

Isso porque Moro já tentou associar os vazamentos à informação que ele deu (muito antes da VazaJato) a respeito da invasão do seu celular. Moro dá a entender que as duas coisas são parte da mesma ação.

E sendo parte da mesma ação, é preciso agir apara proteger as instituições. Não que o Intercept tenha devassado suas comunicações e a dos procuradores a ele subordinados. Mas ele pode dizer que o Intercept poderia ter em seus arquivos informações que levariam ao hacker ou ao grupo de hackers que Moro pensa existir.

Moro também já disse que, além dele e dos procuradores, parlamentares podem ter sido vítimas das ações. O que ele quer dizer é: estamos tentando proteger não só o Ministério Público e o Judiciário, mas também vocês, os congressistas e a democracia.

O ex-juiz tenta compartilhar preocupações, quando tudo o que se sabe até agora é que que ele e seus procuradores foram vasculhados (além de Rodrigo Janot, que deveria, pela lei, ser o chefe dos procuradores). Não há até agora políticos como vítimas.
Leiam o que Nassif escreve: “A ideia de que há um crime em andamento confere a Moro uma carta na manga: pode recorrer ao “estado de flagrante delito” para, mais cedo ou mais tarde, deflagrar ações que atinjam o Intercept. As diligências no âmbito de uma possível operação policial incluem medidas como busca e apreensão, prisão preventiva e condução coercitiva – tudo que está no menu da Lava Jato, como o Brasil inteiro bem sabe há alguns anos”.

Agora, outra informação que Nassif não aborda, mas que merece preocupação. A Lava-Jato era uma usina de arapongagem, com ações em todas as frentes, incluindo o mundo das comunicações, da internet, dos telefones.

Moro fez arapongagem fora da lei quando grampeou os telefones do escritório dos advogados de Lula, para antecipar-se às suas estratégias. Admitiu o grampo, mas disse que cometeu um erro, porque imaginava que os fones do escritório eram os da fundação mantida por Lula. Uma desculpa esfarrapada.

O ex-juiz poderia agora acionar esses arapongas para dar sustos? Mas sustos em quem? Em qualquer pessoa que ele considerar uma ameaça às instituições, como fez na Lava-Jato com o argumento da caçada a corruptos.

A polícia nazista perseguia com preferência os judeus que tinham gatos em casa. Porque Hitler odiava os gatos.

Sou o que pensam que não sou

É triste a sina de Joaquim Levy. Era um estranho no ninho no governo de Dilma Rousseff, quando da tentativa desesperada do PT de fazer média com os empresários e o mercado financeiro.
Foi acusado de ser de direita num governo de esquerda. Ficou 11 meses no ministério da Fazenda e caiu fora.
Agora, Bolsonaro antecipa no Jornal Nacional que vai demiti-lo do BNDES. Levy está de novo no lugar errado num governo de extrema direita. Bolsonaro acha que ele leva gente de esquerda para o banco.
Levy passa na rua e os outros apontam o dedo na sua direção: lá vai um sujeito que não sabe mais o que fazer para provar o que não é.
É uma pena, porque dizem que é um baita cara. Mas fica a pergunta de sempre: por que um economista tão respeitado pelos colegas vai se meter com um governo que só pode desqualificar seu currículo?

A Globo veio com tudo de novo no Jornal Nacional. Vão repetir todos os dias que os vazamentos têm diálogos que Sergio Moro não reconhece.
É a única tática agora: insinuar que as mensagens transcritas não são verdadeiras. Moro não vai reconhecer nem textos nem falas. Falas grossas ou falas finas.

O AMEAÇADOR

“Não cabe ao Poder Judiciário ser guardião dos segredos sombrios dos nossos governantes.”
Juiz Sergio Moro, no dia 27 de novembro de 2017, em evento promovido pela revista Veja em São Paulo.

Pois agora são os segredos sombrios de Sergio Moro e dos procuradores que estão sendo denunciados, e não cabe a ninguém, muito menos ao Judiciário e tampouco ao Ministério Público, tentar proteger o ex-juiz e seus cúmplices.
Judiciário e MP não podem ser acobertadores dos delitos cometidos pelo ex-juiz e os procuradores que ele manobrava como bem entendia em Curitiba.
Mas o procurador aposentado (aos 55 anos) Carlos Fernando dos Santos Lima, que atuou na força-tarefa da Lava-Jato, emitiu uma nota em que ataca o Intercept e ameaça:
“Lembro, por fim que a liberdade de imprensa não cobre qualquer participação de jornalistas no crime de violação de sigilo de comunicações”.
Pela parte que me toca ao compartilhar o que o Intercept publica, digo apenas que não temo as ameaças do ex-procurador, que aparece nos diálogos como submisso às ordens de Sergio Moro.
O jornalismo não pode ser guardião dos crimes cometidos por homens que diziam agir em nome da lei e envolveram o Ministério Público na caçada de um juiz obcecado por um ex-presidente.
Alguém deve temer alguma coisa nesse momento. E não são os jornalistas que denunciaram o conluio.

Inflexão e desidratação. Bolsonaro usa as duas palavras no meio de qualquer frase. Não deve saber o que diz.
Hoje ele disse que Sergio Moro trouxe uma inflexão que ele admira muito.
Moro está mais para desidratação.