Lebn iz shver 

Abrão Slavutzky

Psicanalista

Lebn iz shver, a vida é pesada, integra a velha tradição judaica. Cansei de escutar essa frase, mas não entendia o que era, e com o tempo gravei-a como um significante. Um significante importante, pois a entonação dessa frase era diferente de tudo. Havia um peso solene que concluía uma conversa. Sobravam motivos para os velhos judeus dizerem que a vida é pesada. Podiam recordar os anos de fome, a destruição dos templos e o antissemitismo que culminou no Holocausto.
A vida também foi pesada para os negros com a escravidão. Milhões de seres humanos foram sequestrados da África para servir aos brancos das Américas como se fossem animais. E foram também os brancos que dizimaram os índios. Não faltam exemplos na História em que a vida é mesmo pesada, e mais ainda para os pobres, a maioria da população.
Lembrei-me da expressão Lehn iz shver porque vivemos tempos pesados. Há uma sensação de surpresa frente aos ventos conservadores que já atacam a saúde e a educação pública. Entretanto, diante do peso, dos sofrimentos, é preciso alguma leveza para não afundar. Foi o que fizeram os judeus, os negros, São Francisco de Assis, entre tantos outros.
Diante do peso, é preciso mudar o ponto de observação da realidade. Ver o mundo por outra ótica, outra lógica, escreveu Italo Calvino em “Leveza” no seu livro de propostas para o novo milênio. Conhecemos e desconhecemos o ser humano, o Brasil, à esquerda e à direita. Temos a tendência a idealizar, e hoje vivemos a desidealização do nosso querido Brasil.
Parece simples, mas não é, pois podemos pensar que nós estamos certos, e aí mora o perigo. Podemos, por exemplo, idealizar a esquerda, e quando somos surpreendidos com o maquiavelismo da direita nos entristecemos. Fomos o governo, mas o poder mesmo sempre foi e tende a ser dos que efetivamente mandam. Um exemplo é o da deusa Justiça, que nunca teve os olhos vendados a não ser nas esculturas. Ela sempre viu por baixo da venda e tem em suas mãos a espada que usa quando lhe convém. Hoje vemos que idealizamos a Justiça, pois ela é política e só faz justiça a quem lhe interessa e é injusta quando lhe convém. Muitos processos são arquivados, outros relevados com pedidos de desculpas. Corruptos e ladrões são só os adversários, e algum boi de piranha para disfarçar.
Estamos construindo um norte para caminhar. Já brilha uma Mangueira com o samba sobre Marielle e o Brasil, que não está no retrato. Redes sociais estão sendo criadas que não dependem mais da grande mídia. Creio que há muito para conversar, crescer e inventar novos caminhos. É hora de enxugar as lágrimas, parar de repetir que a vida é pesada e nos fortalecermos na vivacidade pura da graça. Lembrar que os judeus criaram o humor judaico, os negros dançaram, inventaram a capoeira, os índios nos ensinaram o amor à natureza. Confio que não vamos afundar, já podemos cantar e dançar o samba da Mangueira. Vamos sorrir com os humoristas e usufruir dos artistas. Apesar do peso da derrota, vamos em busca da poesia que nos redime. Com calma é preciso perceber a beleza da vida, a beleza da nossa humanidade sofrida.

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