No tempo da Gazapina

gazapina

Até os cães viviam sob suspeita na fronteira Livramento-Rivera em 1974. Brasil e Uruguai estavam sob ditaduras. Mas o mundo de sombras não era apenas dos assustados, mas também dos atrevidos.

Eu tinha 21 anos, era repórter da lendária A Plateia.Durante muitos meses, todas as noites, aí pelas 23h, fechávamos a edição e íamos beber em Livramento ou Rivera, eu e meu chefe, o Nelson Basile.

Basile era o que se chamava de secretário de redação, o chefe geral do jornal. O cara que datilografava, em no máximo três tentativas, um título de duas linhas com exatos 26 toques em cada linha.

Quando acertava na primeira tentativa, sem nenhuma palavra inútil no título, ele gritava da mesa, na entrada da redação, no mezanino de um prédio histórico da Rivadávia Correa:

– Mais um de primeira!!! E semmm subterfúgios!!!

No inverno de 1974, em crise de asma, não fui trabalhar por dois dias. Numa noite, Basile saiu do jornal sozinho, com um pacote sob o braço, e foi para um dos bares da cidade.

Bebeu Gazapina (a cerveja de Livramento, bem brabinha) até por volta da meia-noite, pegou um táxi e saiu pelas ruas a distribuir o que havia no pacote.

Eram panfletos que diziam: fulano, fulano, o povo todo arde, por que tu só vais hoje, por que tu te vais tão tarde?

Basile jogava os papeis pela janela do Fusca, no centro, nas periferias, na divisa com Rivera, e assim comemorava a transferência de um delegado da Polícia Federal para outra cidade.

Foi dormir alegre como um adolescente que fizera uma arte. De madrugada, os homens do delegado foram buscá-lo em casa.

Suspeito que ele tenha esperado a chance de sair sozinho aquela noite para não me comprometer ao espalhar os panfletos contra o delegado.

Ficou dois dias preso em um quartel. Era alegre, falante, com um humor fronteiriço permanente. Reapareceu na redação calado e ficou mudo por dias. Foi triste ver o Basile abatido.

Mas era do jogo. Ele desafiara a ditadura e perdera, aquele episódio pelo menos. Sei apenas que o inquérito não resultou em nada além do susto. O jornalista não tinha nenhuma ligação com qualquer militância de esquerda. Era apenas um atrevido.

Por que conto isso agora? Porque dia desses falei do meu chefe Nelson Basile, quando da morte do jornalista Danilo Ucha, e lembrei dessa história.

Convivi com Basile por um ano e meio. Aprendi naquela redação como se tivesse trabalhado em A Plateia por uma década.

Se Basile ainda estivesse vivo, com ele eu tomaria até Gazapina de novo, na Cueva ou no Palacinho. Com o Basile na mesa, a Gazapina virava a melhor cerveja do mundo.

Esses seis delegados da Polícia Federal de Curitiba, da equipe da Lava-Jato, que faziam militância descarada pelo Facebook para Aécio, na eleição de 2014, enquanto destratavam Lula e Dilma, precisavam mesmo é de um Nelson Basile.

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