O artigo de Abrão Slavutsky

(Compartilho o texto semanal que o psicanalista Abrão Slavutsky publicada no perfil dele no facebook)

O cachorro no campo de concentração

É difícil pensar num cachorro amigo dos presos num campo nazista. Agora, imaginem um vira-lata ser decisivo no pensamento de um filósofo prisioneiro. Seu nome é Emmanuel Levinas (1906-1995) e foi um lituano, judeu, que primeiro estudou na Alemanha e depois foi morar na França. E ao servir no exército francês terminou sendo preso e passou cinco anos num campo de concentração. Nesse campo conheceu o cão Bobby, apenas durante algumas semanas, mas suficientes para Levinas escrever:

“E eis que, em meio a um longo período de cativeiro –por algumas curtas semanas- um cão errante entra em nossa vida. Ele veio um dia se juntar à turba, quando ela retornava do trabalho sob boa guarda. Ele sobrevivia em algum canto selvagem, nos arredores do campo. Mas nós o chamamos de Bobby, um nome exótico, como convém a um cão querido. Ele aparecia nos encontros matinais e nos esperava na volta, saltitando e latindo alegremente. Para ele – isso era incontestável – nós éramos homens.”

Levinas contou em uma das entrevistas que passou da névoa do Ser, rumo aos entes vivos e individuais, ao pensar na vivência do campo. Ele e os presos eram desprezados pelos guardas, como se fossem objetos inumanos, indignos de qualquer solidariedade. O filósofo, aluno destacado de Edmund Husserl e Martin Heiddeger, se sentiu tratado humanamente por um cachorro, reconhecido por outro ser. Essa experiência contribuiu para revisar seu pensamento e abandonar a ontologia em busca da ética e o contato pessoal. Escreveu que não nos fundimos, reagimos um ao outro, tu me fitas nos olhos e continuas a ser Outro, continuas a ser tu. Sua filosofia passou a ser baseada nas relações humanas como fundamento e não uma mera extensão de nossa existência. Assim, afastou-se de seu professor Heidegger, que nunca pediu desculpas por ter aderido ao nazismo, mesmo que temporariamente. Essa experiência de Levinas com o olhar e a alegria do cachorro teve o efeito de um espelho que devolveu a ele sua humanidade perdida.
A experiência com Bobby aliviou a tristeza e o desamparo de viver como escravo. Causa espanto o quanto uma experiência pôde ser decisiva na vida de uma pessoa. São várias as histórias de como um animal ou a própria natureza podem recuperar a vitalidade de uma pessoa. Em tempos sombrios as redes sociais também podem gerar não só vivências efêmeras como experiências marcantes. Experiências que enriquecem e aliviam as dores, em um país onde o ódio domina os Tres Poderes. Portanto, é nesta sociedade que as palavras de Levinas adquirem maior peso. Cada vez mais é preciso construir pontes e fomentar as relações através da conversa ou da escrita.
Em dezembro de 1995 morreu Levinas, e seu amigo, o filósofo Jacques Derrida, fez uma homenagem póstuma no seu enterro com o discurso, “Adeus”. Anos mais tarde se transformou em livro, no qual ele refere, por exemplo, como Levinas foi um dos três maiores filósofos do século XX. Falou ainda no cemitério sobre as palavras bondade, tolerância, família, justiça, do A-Deus, entre tantas pensadas por seu amigo. Derrida e Levinas foram filósofos que defenderam a liberdade, a democracia e a justiça social.
Novos tempos sombrios chegaram, tempos da metralhadora onde podem atirar oitenta tiros pelas costas num auto familiar. Mataram mais um negro entre tantos que já foram mortos. Tempos em que precisamos de coragem e luzes, luzes que ajudem a iluminar as crescentes trevas. Emmanuel Levinas saiu do campo de concentração nazista com mais fé na importância da bondade, da tolerância e num futuro melhor. Imagino que a luta hoje é não afundar na lama de tempos enlouquecidos. Há um ataque ao sonho de uma sociedade mais justa e humana. Apesar de tudo, caminhamos em busca de um norte num mundo desnorteado.

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