O caminho de Abrão

O psicanalista e escritor Abrão Slavutzky é o autor do depoimento de hoje do Porta na Cara. Ele conta como lidou com uma advertência que ouviu, quando voltou a Porto Alegre para exercer aqui a profissão que aprendera em Buenos Aires.

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“Tens que entrar nos trilhos”

ABRÃO SLAVUTZKY

O amigo, um bom amigo, me disse com toda sinceridade: “Ou tu entras nos trilhos, ingressando na IPA – Associação Psicanalítica Internacional- ou tu vais te dar mal”.

Outro amigo não foi tão contundente, mas me alertou que voltar para Porto Alegre em 1979, sem fazer a IPA, seria muito problemático. Fui avisado que seria ignorado, mas assim mesmo decidi voltar com a identidade de psicanalista que tinha em Buenos Aires, onde vivi por sete anos.

Fiz minha formação através de análise, supervisão e grupos de estudo, como centenas de psicanalistas fizeram e fazem. Por isso, não me incomodaram as advertências dos amigos, além do que  sabia que eram verdadeiras. Entretanto, os obstáculos têm a vantagem de nos estimular a superá-los. E assim também nos obrigamos a ser criativos.

Os primeiros anos aqui na cidade foram difíceis, anos de aprendizado, de tombos, até de fracassos na escolha dos caminhos. Aos poucos, sempre encontrando apoios indispensáveis, fui me estabelecendo, e a escrita foi uma descoberta essencial.

Tive a sorte de contar o tempo todo com muito amor da família e dos pacientes. Ter vindo morar aqui me fez perder amigos, como o que me advertiu da necessidade de entrar nos trilhos.

Lamentei as perdas, mas felizmente ganhei novos amigos. Há dois anos estive autografando  o livro Humor é coisa séria e tive a alegria de ver e abraçar vários colegas e amigos do mundo psicanalítico.

Entrar nos trilhos pode ser conveniente às vezes, mas também podemos criar novos caminhos e criar novos trilhos. Nesse processo, é preciso pagar o preço da ousadia, pagar bufando ou sem bufar, mas a rebeldia tem seu preço.

O poeta já escreveu que criar é não se adaptar à vida como ela é. Não se adaptar é conviver com o desafio da solidão e, mesmo sem ser artista, poder ter neles um estímulo. Por fim, é preciso lembrar que a arte, o humor e até a psicanálise não cabem em templos rígidos.

Lembro por fim um breve artigo de J.B. Pontalis – “ Fora do templo” – onde estimula os psicanalistas a terem experiências e vivências fora de seus templos, isso é, suas instituições. O mesmo, acredito, vale para todos seres pensantes, rebeldes e que buscam não se adaptar à vida como ela é.

 

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