Parecia que não, mas os franceses vão conseguir salvar Notre-Dame. Este homem encontrou o galo do alto da torre (a flecha) que caiu em chamas. O Brasil terá a mesma chance de Notre-Dame depois da tragédia do bolsonarismo?
Se pelo menos conseguirmos salvar o galo.

Tudo acertado

O mercado financeiro e os ‘acionistas’ da Petrobras venceram. Bolsonaro não disse, mas vai manter o aumento para o diesel, enquanto oferece uma esmola aos caminhoneiros.
Um empréstimo de no máximo R$ 30 mil para cada um, e está tudo resolvido, além de obras em estradas, que acabam contemplando também os empreiteiros.
O que vai acontecer com o empréstimo? A maioria dos caminhoneiros está em dificuldades e vai receber o dinheiro como doação. Mais adiante, irão para a pressão e exigirão anistia. Está tudo combinado.
A bolsa sobe sem parar, o dólar cai e o mercado solta foguetes. O bolsonarismo econômico é uma festa maluca.

OS FISCAIS E O MINISTRO CONDENADO

O que se espera dos fiscais do Ibama que estão sendo perseguidos por Ricardo Salles? Que denunciem e reajam ao ministro que ameaça servidores para defender desmatadores.
E os que ocupam cargos de desconfiança, que façam o que fez o presidente do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, Adalberto Eberhard.
Peçam pra sair e organizem a resistência fora do cercado de perseguição do ministério. Tem muita gente quieta que poderia estar falando.
Salles quer punir até os servidores do Ibama que não assistem suas palestras, que devem ser de uma chatice insuportável, além de depreciativas do trabalho dos próprios fiscais.
Os fiscais podem se rebelar e enquadrar o sujeito que, ao invés de defender o ambiente, age sempre em favor dos que derrubam florestas e perseguem índios.
Esse Salles está seguro demais de que domina a situação junto com a ministra defensora dos venenos.
Os fiscais devem se organizar e denunciá-los, ou estarão trabalhando contra o que são pagos para fazer. Fiscal é funcionário de carreira, servidor do Estado e não de governos.
Fujam das palestras do Salles. Não ouçam a conversa fiada de um cara já condenado pela Justiça por improbidade administrativa por dano ambiental em São Paulo em conluio com empresários.

PEDE PRA FICAR, PADILHA

José Padilha, o cineasta que ajudou a propagar o ódio contra o PT e contra Lula e a exaltar Sergio Moro como herói nacional, saltou fora. Escreveu na Folha para dizer que Moro é uma farsa.
Por que Padilha e outros escrevem só agora para dizer que fizeram essas descobertas, quando todo mundo sabe que eles já sabiam que Moro apenas fazia (e continua fazendo agora como bolsonarista) o jogo do antipetismo?
Que história é essa de descobrir agora que Moro vai proteger as milícias e que as milícias estão dentro do governo?
Por que Padilha, que sabe tudo de milícias, só pediu pra sair agora, quando a direita gostaria que ele pedisse pra ficar abraçado a Bolsonaro?
Por que abrir a boca quando todo mundo já sabe que os amigos dos milicianos detêm o poder compartilhado com Sergio Moro?
O que não deu certo nos planos de Zé Padilha?

…………

Este é o artigo:

O ministro antiFalcone

Pacote de Moro contra o crime vai fortalecer milícias

José Padilha

Sergio Moro sabe que:
1 – As milícias são organizações criminosas controladas por policiais civis e militares corruptos e violentos;
2 – Esses policiais utilizam o aparato do Estado, como armas, helicópteros e caveirões, para expulsar o tráfico e dominar as favelas;
3 – As milícias cobram por proteção e dominam atividades econômicas importantes nas áreas que controlam: distribuição de sinais de TV e de gás de cozinha e transporte alternativo;
4 – As milícias decidem quem faz propaganda eleitoral nas suas áreas e financiam campanhas políticas;
5 – Milicianos e políticos ligados a milicianos foram eleitos no Brasil para cargos legislativos e executivos em níveis municipal, estadual e federal.
Mesmo sabendo de tudo isso, o ministro Sergio Moro declarou que as milícias representam a mesma coisa que as facções criminosas dentro das prisões, sugerindo que esses grupos operam como o varejo do tráfico de drogas.
Ora, o leitor sabe que sempre apoiei a operação Lava Jato e que chamei Sergio Moro de “samurai ronin”, numa alusão à independência política que, acreditava eu, balizava a sua conduta. Pois bem, quero reconhecer o erro que cometi.
O ministro da Justiça, Sergio Moro, durante participação no Fórum Econômico Mundial, em Davos (Suíça) Fabrice Coffrini – 22.jan.2019/AFP
Digo isso porque não há outra explicação: Sergio Moro finge não saber o que é milícia porque perdeu sua independência e hoje trabalha para a família Bolsonaro. Flávio Bolsonaro não foi o senador mais votado em 74 das 76 seções eleitorais de Rio das Pedras por acaso…
O pacote anticrime que Sergio Moro enviou ao Congresso —embora razoável no que tange ao combate à corrupção corporativa e política— é absurdo no que se refere à luta contra as milícias. De fato, é um pacote pró-milícia, posto que facilita a violência policial.
Se Sergio Moro tivesse estudado os autos de resistência no Brasil teria descoberto que:
1 – Apenas no Rio de Janeiro, a cada seis horas, policiais em serviço matam alguém;
2 – A versão apresentada por esses policiais costuma ser a única fonte de informações nos inquéritos instaurados em delegacias para apurar os homicídios;
3 – Como policial tem fé pública, a sua versão embasa a excludente de ilicitude, evitando a prisão em flagrante;
4 – A Polícia Civil, além de raramente escutar testemunhas ou realizar perícias no local dos assassinatos, tem mania de desfazer as cenas do crime para prestar socorro às vítimas, apesar de a maioria delas morrer instantaneamente em decorrência de disparos no tórax;
5 – Desde 1969, quando o regime militar editou a ordem de serviço 803, que impede a prisão de policiais em caso de “auto de resistência”, apenas 2% dos casos são denunciados à Justiça e poucos chegam ao Tribunal do Júri.
Aprovado o pacote anticrime de Sergio Moro, esse número vai tender a zero. Isso porque o pacote prevê que, para justificar legitima defesa, bastará que o policial diga que estava sob “medo, surpresa ou violenta emoção” —ou, ainda, que realizava “ação para prevenir injusta e iminente agressão”.
O hábito que os policiais milicianos têm de plantar armas e drogas nos corpos de suas vítimas para justificar execuções é tão usual que deu origem a um jargão: todo bom miliciano carrega consigo um “kit bandido”. Aprovado o pacote de Moro, nem de “kit bandido” os milicianos precisarão mais.
Sergio Moro nunca sofreu atentados e nunca lidou com a máfia. Mas o juiz Giovanni Falcone, em quem o ministro diz se inspirar, foi morto aos 53 anos de idade na explosão de uma bomba colocada pela máfia em uma estrada. Sua mulher e três seguranças morreram com ele.
O crime foi uma reação da máfia à operação “Maxiprocesso”, que prendeu mais de 320 mafiosos na década de 1980. Ela deu origem à operação “Mãos Limpas”, que mostrou que a máfia elegia e controlava políticos importantes na Itália.
Ora, no contexto brasileiro, é obvio que o pacote anticrime de Moro vai estimular a violência policial, o crescimento das milícias e sua influência política. Sergio Moro foi de “samurai ronin” a “antiFalcone”. Seu pacote anticorrupção é, também, um pacote pró-máfia.

José Padilha

Cineasta, diretor dos filmes “Tropa de Elite” (2007) e “Tropa de Elite 2” (2010).

O MUSEU NÃO QUER BOLSONARO

Fico sabendo agora pelo perfil do Francisco Marshall. Não haverá festa para Bolsonaro no Museu de História Natural de Nova York. A direção do museu decidiu hoje: aqui ele não entra.
É um mico para a imagem do Brasil. Para a civilização, é a maior vitória contra o bolsonarismo, porque é uma decisão com repercussão internacional.
Os amigos do homem do ano (credo) da Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos terão de procurar outro lugar para a cerimônia do dia 14 maio. Um McDonald’s, quem sabe.
O presidente do McDonald’s no Brasil, Paulo Camargo, deu uma entrevista com tons bolsonaristas para a Monica Bergamo, publicada hoje na Folha.
Há McDonald’s por todo lado em Nova York, ou que façam a festa num encontro das liberdades liberais no Brasil mesmo.

O surto

Para um bolsonarista fundamentalista, a destruição de Notre-Dame pelo fogo é o espetáculo que esperavam para o grande surto.
Muitos já estão surtando sob a inspiração das epístolas virtuais de Filipe Martins, um dos pregadores dos novos tempos bolsonaristas.
Outros irão surtar nas próximas horas. Agora à noite teremos exorcismos em cultos purificadores por toda parte.
Nem as gárgulas de Paris conseguiram escapar das trevas que consomem razão, memória e arte.

MACRI E BOLSONARO

A Argentina tem eleições em outubro, e a grande ameaça para a máfia de Macri (com novas denúncias sobre corrupção nos Correios, do tempo em que a família foi dona dos serviços) é a volta de Cristina Kirchner.
O que o governo está tramando por lá é parecido com o que Bolsonaro fez aqui com o diesel: controlar demagogicamente alguns preços.
Especula-se em Buenos Aires que o governo poderia articular com os supermercados um congelamento de preços de alimentos e produtos básicos por seis meses, ou seja, até as eleições. A população cairia no golpe?
Aqui, Bolsonaro adiou o aumento do diesel com medo dos caminhoneiros, e Eduardo Bolsonaro, o filho que sabe tudo, disse que os preços dos combustíveis devem ser controlados pelo governo.
Foi aquele Deus nos acuda, e hoje todo mundo está quieto. Ninguém mais nos jornais fala no aumento do diesel, porque os especuladores estão à espreita, e especulador não pode ser contrariado.
Não pode ser sério um país em que o filho do presidente produz manchetes com opiniões sobre os preços dos combustíveis.
Os filhos do presidente entendem mesmo de milícia (descobriram mais um assessor miliciano na família, agora de Carlucho Bolsonaro).