O juiz sabe tudo

Circula desde ontem o trecho de um livro de Sergio Moro (Crime de Lavagem de Dinheiro), divulgado a partir do perfil no Facebook do professor mineiro Idelber Avelar.

Está ali a contribuição de Sergio Moro para que se identifique uma das formas de lavagem de dinheiro, que é o depósito fracionado de dinheiro, para que os valores sejam pequenos e dispersos.

Exatamente como fazia ou ainda faz o Queiroz dos Bolsonaros. É quase uma bobagem, que qualquer bancário sabe. Mas aí está o trecho:

 

MAIS UM TIRO

A Globo tem mesmo munição para uma guerra longa (ou que talvez venha a ser curta). A manchete do jornal O Globo de hoje pode acabar com tudo: Fabrício Queiroz movimentou R$ 7 milhões em três anos.

É de novo informação do Coaf para o colunista Lauro Jardim. Agora, entende-se o que levou Bolsonaro a tirar o Coaf da Fazenda e transferi-lo para o Ministério da Polícia de Sergio Moro.

O ex-juiz foi usado numa manobra desesperada para que o Coaf seja controlado pela família. Claro que os informantes, com dados conseguidos muito antes da chegada de Moro, não estão sob o controle do ex-juiz.

A Globo é abastecida por gente que Sergio Moro pôs a correr da direção do órgão quando assumiu o Coaf.

Moro cometeu um erro ao demitir Antonio Carlos Pereira de Sousa do comando do Coaf como se caçasse um inimigo. O Coaf tem uma equipe de 37 técnicos.

Os vazamentos são parte da vingança desses técnicos contra o esquema montado para que o bolsonarismo tivesse o controle absoluto das atividades de controladoria da movimentação de dinheiro sujo.

Moro achou, por excesso de soberba, que ainda estava em Curitiba. Foi politicamente amador. Pode estar mandando para o ralo sua estratégia de usar o Ministério da Polícia para chegar ao Supremo.

Só um milagre ou uma gigantesca manobra imoral seriam capazes de oferecer um desfecho “feliz” (para eles, os Bolsonaros e sua turma) nesse caso.

Uma manobra imoral do tamanho da que derrubou Dilma ou da que levou Lula para o cárcere. Ou a direita não tem mais como manobrar?

Bolsonaro não deveria ter autorizado o porte de armas para um jornalismo que hibernava desde o golpe, sem saber direito como iria sobreviver.

Está sendo bombardeado pelo grupo que ajudou a criá-lo como solução para acabar com o lulismo.

Bolsonaro salvou o jornalismo da Globo e pode salvar toda a Globo.

QUEM FICOU COM O MILHÃO?

Espero que essa dúvida que vou revelar agora não me leve à insônia.

Quer dizer que descobriram mais uma movimentação estranha de Flávio Bolsonaro. Um depósito que ele fez de pouco mais de R$ 1 milhão (exatamente R$ 1.016.839). Mas não sabem dizer quem teria sido o favorecido?

O Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) identificou a movimentação, mas não sabe quando foi feita nem quem recebeu o dinheiro de Flávio Bolsonaro.

Vou dizer o que eu acho. Como a movimentação de um centavo em qualquer banco é registrada, há como não saber quem ficou com R$ 1 milhão?

Então, vou dormir pensando o seguinte: alguém sabe ou muitas pessoas já sabem quem recebeu o milhão, mas dizem que não sabem. Por quê?

Porque aí pode estar a bomba, ou uma delas. Essa situação toda encaminha-se para um desfecho previsível.

Esse caso e seus personagens só poderão ter um final feliz por algum milagre ou por uma manobra mais imoral do que aquela que resultou na cassação de Dilma Rousseff, se é que isso é possível.

Minha intuição me diz que a Globo tem mais munição. Vai usar? Vai avaliar a reação do inimigo (sim, porque Bolsonaro declarou-se inimigo da Globo)? Vai segurar?

Vou tentar dormir. Não sei se os Bolsonaros e o Queiroz conseguirão.

O Senado vai tratar Flávio Bolsonaro como tratou Delcídio do Amaral, cassado pela totalidade dos 74 colegas que votaram pela sua destituição, ou como tratou Aécio, poupado pela maioria dos golpistas da direita?

Saídas para Sergio Moro

O que Sergio Moro fará quando perceber que o fogo no circo se tornou incontrolável?
– Continua fingindo que ainda está na sua vara especial de Curitiba.
– Emite 10 medidas contra a lavagem de dinheiro na Venezuela.
– Entra com recurso no plantão de Luiz Fux para ter o direito de voltar a ser juiz.
– Abre uma banca com um time de advogados para clientes milionários, em sociedade com o ex-amigo do Tacla Duran.
– Olha o circo pegar fogo pra ver se pode tirar vantagem e abrir o próprio circo mais adiante.
– Chama o Fantástico, veste uma fantasia do homem-aranha, sobe no trapézio, grita “seja o que Deus quiser” e atira-se lá do alto nos braços do general Mourão.

O Brasil do bolsonarismo

Esta reportagem foi publicada na Folha de hoje. Este é o Senado da República.

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Gabinete 24 ‘some’ dos corredores do Senado

Associado ao veado no jogo do bicho, número é utilizado para manifestações discriminatórias contra homossexuais

Ranier BragonCamila Mattoso

BRASÍLIA

Há quatro anos o Senado abriga uma manifestação implícita de preconceito contra homossexuais que pode ser checada por qualquer pessoa que percorra o principal corredor de gabinetes dos parlamentares. A numeração exposta nas portas começa no 1 e segue a sequência numérica lógica até chegar ao 23, quando, sem qualquer explicação, pula para o 25.

Em algum momento entre o final de 2014 e o início de 2015 a plaquinha de número 24 desapareceu sem (quase) deixar vestígios.

O Senado diz não ter nenhum registro oficial do sumiço. Parlamentares igualmente afirmam desconhecer o que aconteceu com o 24 —que por ser o número associado ao veado no jogo do bicho é usado há décadas como muleta para manifestações discriminatórias contra homossexuais.

O fato é que desde essa época o até então existente gabinete de número 24 passou a se chamar gabinete 26 —ele fica no lado do corredor de numeração par.

Folha visitou gabinetes, buscou documentos e entrevistou parlamentares e funcionários nos últimos dias para resolver o mistério e descobrir por que o Senado abriga de forma institucional, há quatro anos, a manifestação simbólica de discriminação.

O gabinete de número 24 foi usado até 2014 pelo senador Eduardo Amorim (PSDB-SE). Ele trocou para outro, naquele ano, e diz não ter ideia do que aconteceu dali em diante.

“O meu gabinete foi entregue. Eu troquei por causa da distância. Eu saí de lá e era 24. Eu não sei quem entrou depois”, disse.

O novo inquilino foi Dário Berger (MDB-SC), 62, de cujo gabinete partiu o pedido de mudança da numeração, do 24 para o 26.

Folha ligou 28 vezes nestas quarta (16), quinta (17) e sexta-feira (19) para o telefone celular de Berger e deixou recados também com sua assessoria. Não houve resposta.

Folha também enviou à assessoria de imprensa do Senado perguntas sobre quem pediu e quem mandou trocar a numeração, qual a justificativa usada e se a Casa considera adequado esse tipo de medida. Também não houve manifestação.

O presidente do Senado, Eunício Oliveira (MDB-CE), que assumiu o comando da Casa dois anos depois do sumiço do gabinete 24, se disse surpreso.

“Fui surpreendido, estou tomando conhecimento no dia de hoje. Eu, sinceramente, não encontro justificativa para que a numeração não seja seguida. Isso não aconteceu na minha gestão. Se tivesse tomado conhecimento antes teria dito à diretoria para voltar ao número anterior”, afirmou Eunício, cujo mandato termina no próximo dia 31.

“Nem o Senado nem ninguém pode dar guarida a qualquer tipo de discriminação, contra quem quer que seja”, acrescentou o senador.

Presidente da Casa à época, Renan Calheiros (MDB-AL) também diz que “nunca” soube da troca, afirmando que esse tipo de coisa não é assunto que chegue à cúpula da Casa. Renan, que é candidato a presidir o Senado novamente, disse ainda que não é preconceituoso e que não se “prestaria” a isso.

“Pelo amor de Deus, jamais essa discussão chegou no Senado. Eu não sou preconceituoso, não.”

O diretor-geral do Senado à época da mudança era Luiz Fernando Bandeira de Melo, hoje secretário-geral da Mesa. Ele confirmou ter havido um pedido para a mudança do número 24 para o 26, mas disse não se lembrar de quem partiu.

“O Senado busca atender às demandas que surgem dos parlamentares. Isso é tratado com absoluta simplicidade”, afirmou Bandeira, que disse não ter recebido justificativa da solicitação de mudança.
Perguntado sobre a falta de transparência no caso, respondeu: “Está plantado [o número] na porta, como não há transparência?”.

Folha esteve no corredor de gabinetes dos senadores na última quarta-feira (16), período de recesso dos parlamentares.

Pessoas que estavam nas proximidades também disseram não saber o que havia ocorrido.

Seguranças que trabalham no local há mais de cinco anos afirmaram não poder comentar o assunto.

Ainda é possível ver na placa geral de identificação dos gabinetes vestígios do número 24 por trás do atual 26.

Em fim de mandato, o senador Cristovam Buarque (PPS-DF) era um dos poucos que estavam no local nesta quarta de recesso. Também se disse surpreendido com a história.

“Meu Deus. O jogo do bicho é ilegal. Então, o Senado se baseou em algo ilegal para manifestar preconceito contra os gays? É um absurdo”, exclamou.

Último ocupante do gabinete 24, o senador Eduardo Amorim hoje está no número 1.

Ele disse nunca ter ouvido manifestações preconceituosas em forma de piada durante o tempo que ficou no escritório anterior.

O MASSACRE

Se quiserem e se não sucumbirem a uma trégua, a Globo e a Folha poderão triturar os Bolsonaros.
O bolsonarismo ressuscitou o jornalismo moribundo. Os jornais estavam entregues à sua irrelevância com o esvaziamento das redações e a desistência de fazer jornalismo.
A maioria comeu pela mão da Lava-Jato, sem produzir uma, só uma reportagem de investigação sobre o caso.
Alguns optaram pelo jornalismo de opinião de direita como tentativa de salvação. Mas a maioria sobrevivia da inércia, mandando embora jornalistas de esquerda, à espera do que acontece com jornais em todo o mundo, inclusive os já alojados no mundo virtual.
Mas Bolsonaro brigou com quem não poderia ter brigado. Não só com os comandos das empresas, mas com os jornalistas. O bolsonarismo ressuscitou o furo, como os dois aplicados pelo grupo Globo ontem.
Primeiro, o Globo antecipou a posição do ministro Marco Aurélio sobre a pretensão desastrada de Flávio Bolsonaro de buscar refúgio no Supremo e desmontar as investigações do Ministério Público do Rio.
E depois veio o furo da TV Globo, que revelou que Flávio recebeu, em 2017, R$ 96 mil depositados em dinheiro vivo na sua conta. Foi devastador. A cachorrada está solta. Até os jornalistas fofos começam a se revoltar.
Os Bolsonaros acharam que iriam fazer comunicação com mensagens de fumaça pelo Twitter e pelo WhatsApp, para o contingente de estúpidos que acredita em tudo o que eles dizem.
Queriam continuar em campanha. Subestimaram a estrutura de comunicação da direita (que sempre os rejeitou), que ainda conversa com a classe média, como o PT já havia subestimado.
Os Bolsonaros são atacados por todos os lados, inclusive em relação às suas vidas privadas. Experimentam os mais variados bumerangues na testa. Não deveriam ter provocado tantos inimigos ao mesmo tempo.
Não há como enfrentar a Globo, a Folha, as ex-namoradas, os desafetos que hibernavam, os inimigos dos primos e agora o Ministério Público e um ministro que destoa do acovardamento do Judiciário, do Supremo, com Fux e com tudo.
Os Bolsonaros terão de pedir uma trégua, mas talvez seja tarde demais.

ELES NÃO

Já há líderes da direita dizendo que eles não são e nunca serão representantes da direita.
E claro que já há militares, e não são poucos, preocupados em dizer que eles não representam os militares.
Daqui a pouco vão aparecer fascistas dizendo que eles não representam o fascismo. Que eles não são fascistas, são quadrilheiros que agem como fascistas.