ROSSI

Clovis Rossi é o exemplo clássico do jornalista às voltas com seus conflitos tantas vezes devastadores. Sempre foi um profissional progressista, com abordagens que davam profundidade e humanismo ao que fazia. Rossi não ficava na superfície dos fatos, das pessoas e das coisas.

Mas veio o golpe, e a Folha arredou Rossi para uma área que ele dominava, a de analista do mundo. Era bom ler seus textos, porque se informava sobre o que refletia como poucos jornalistas ainda fazem hoje.

E por que Rossi foi arredado para a área internacional, deixando de escrever sobre política interna? Porque era muito amigo de Lula. Ele mesmo dizia. Mas, pouco antes de virar um cronista quase exclusivo da área internacional, Rossi bateu muito em Lula.

Para reafirmar sua independência, bateu nas esquerdas, no PT, no que se movia diante da inatacável Lava-Jato. Aquilo parecia fora da curva, parecia estranho.

Pois Rossi apenas fazia o caminho que muitos jornalistas percorrem ao final da carreira, protegendo-se nos confortos do conservadorismo como opção, como estratégia de sobrevivência, talvez como reencontro com sua verdadeira vocação.

Nos últimos anos, dava alguns pitacos sobre política nacional, mas não era mais o Rossi de antigamente, que alguns, lá nas décadas de 70 e 80, acusavam de esquerdismo.

Há muitos anos, inventei de fazer o que raramente faço e enviei a ele, no impulso, um e-mail com comentários sobre um texto em que se referia a Lula com certa agressividade. A resposta dele (que não me conhecia) foi um petardo: não falo mais com petralhas.

Fiquei quieto e entendi a reação. Rossi foi um grande jornalista. E sua opção pelo conservadorismo político, no fim da vida, é do jogo. Também é assim que um jornalista sobrevive e segue em frente nesses tempos terríveis.

É uma pena que Clovis Rossi tenha morrido na hora em que o jornalismo ressuscita fora das grandes redações.

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