O EVEREST E O SAX

Decidi hoje. Vou escalar o Everest no ano que vem. Cheguei a pensar em escalar a Serra do Caverá com um grupo de amigos, até organizei o que seria a Expedição Caverá e que não saiu por motivos vários.

Agora quero ir mais alto. O pico da Serra do Caverá deve ter uns 200 metros. Quero chegar a mais de 8 mil metros, e pelo lado mais perigoso da montanha do Tibete, sem a ajuda dos sherpas. Nenhum nativo vai carregar minhas tralhas.

Irei apenas com minha bombinha de asma. Decidi escalar porque fiquei sabendo que hoje em dia qualquer um tenta subir o Everest. Um alpinista disse que a escalada depende 70% da força mental, 20% da força física e 10% do tempo, do clima. Eu tenho força mental.

Vou tentar porque o mundo banalizou quase tudo. Descobriram que é possível fazer o que antes era excepcional, só para poucos. Qualquer um pode ser presidente do Brasil ou dos Estados Unidos.

Um palhaço que debochava da política foi eleito presidente da Ucrânia. Outro palhaço pode ser o próximo primeiro-ministro britânico. Não são palhaços que se valem do humor para divertir, mas para enganar.

Banalizaram coisas sérias. Qualquer um hoje acha que toca sax, como o ministro da Educação. Abraham Kafta Weintraub assoprou um sax no saguão do ministério essa semana. Porque ele acha que os outros vão achar que ele toca sax e que isso tem lá seu charme.

Mas aí não tem perdão. Abraham ameaçou denunciar professores, estudantes e pais que divulgarem protestos nas universidades. Eu vou denunciá-lo pelo delito de assoprar um sax como se tocasse um sax. Foi medonho.

Alguém pode até bater nas cordas de um violão ou espichar o fole de uma gaita sem saber tocar direito. Mas um sax, não. O sax exige o controle físico do que é mais importante, o ar, a respiração.

Dizem que só toca sax quem controla até a batida do coração. Não há como querer tocar sax sem saber de fato tocar e por isso Abraham deve ser denunciado. Pela crueldade com um instrumento que não aceita enganadores, pelo mau exemplo, pela tentativa de fingir que toca sax, porque não há como fingir.

Abraham é pior do que a Damares, porque Damares apenas vê Jesus na goiabeira. Abraham vê o sax e se avança no sax porque acha que sabe tocar.

O homem que faz ameaças a professores e estudantes pode não saber fazer contas básicas com chocolates, pode até confundir Kafka e kafta e fazer dancinha com guarda-chuva. Mas não pode achar que nos engana assoprando um sax.

Abraham não pode querer destruir a educação e um sax ao mesmo tempo.

O novo ministro

A evolução de uma espécie. Mendonça Filho, o ministro da Educação do jaburu, é uma figura da direita clássica, herdeiro fofinho do coronelismo da ditadura.
Vélez Rodriguez, um fundamentalista medíocre como professor e como pensador da direita, era mais uma figura folclórica do que um extremista ideológico com alguma consistência.
Abraham Weintraub é o aperfeiçoamento. É mais ameaçador como caçador de comunistas e agente do mercado financeiro numa área que deve ser, pra eles, apenas um bom negócio.
Perto de Weintraub, Mendonça Filho é um direitoso romântico.
O bolsonarismo começa agora a caçada aos inimigos que o colombiano Vélez, por atrapalhação, talvez não conseguisse fazer.
Professores e estudantes podem estar diante de um sujeito com poderes que só o MEC da ditadura teve. O terror vem aí.

GOVERNO BÍBLICO

Essa é uma das notícias mais reproduzidas desde o anúncio do novo ministro da Educação, Abraham Weintraub. Ele tem um irmão. E esse irmão, Arthur, é um reacionário mais assustador do que ele.
Fiquei sabendo que o irmão também é professor e tem a mania da direita de processar quem considera detrator (a direita lida mal com a crítica). Em dois processos contra alunos, por dano moral, o irmão perdeu.
Essa história de irmão que é mais artista, mais jogador de futebol, mais poderoso, mais bonito ou mais reaça sempre se repete.
O irmão da gente sempre tem algo que pode ser mais belo, sedutor ou ameaçador. Precisamos conhecer melhor esse irmão do ministro, porque ele pode estar na fila para qualquer vaga em algum ministério.
Esse é um governo em que as famílias têm muito poder, começando pelos filhos de Bolsonaro.
A democracia brasileira vai regredindo e nos devolve a tempos bíblicos em que os irmãos estavam sempre por perto fazendo alguma confusão.
Como estamos no antigo testamento do bolsonarismo, com Deus acima de todos, faltava um Abraham anunciando que o comunismo pode acabar com o mundo.
Que tempos, meu amigo Abrão Slavutzky.