O HUMOR ATRAPALHA?

Tem um grupo de peso aqui no Facebook defendendo que o excesso de brincadeiras com as gafes do governo desvia a atenção das coisas sérias. O humor teria caído nas armadilhas do Bolsonaro e da Damares.
Tenho dois amigos nessa linha, Mario Marona e Maria Lúcia Sampaio, cada um com seus argumentos. Ontem, Marona escreveu:
“Funcionou. Só se fala na Damares nas redes sociais.
Muito pouco sobre perda de direitos em áreas importantes.
Se vamos passar 4 anos sacaneando a Damares e o chanceler, o povo esquece que a oposição existe e o presidente se reelege fácil. Debochar é uma forma de se opor, mas nem tudo precisa virar concurso de meme.
Mas quem sou eu pra pautar a oposição.
Divirtam-se”.
Eu dei um pitaco: “O humor é o aquecimento para a resistência”.
Maria Lucia (filha do grande Sampaio, o pai de todos os chargistas e cartunistas gaúchos) indagou: “Resistência sem partido e sem lideranças, Moisés Mendes?” Maria Lucia reclama da apatia dos políticos e partidos.
E aí então veio o depoimento do Renato Aroeira, pra mim o maior chargista brasileiro há muito tempo: “Maria Lucia Sampaio, enquanto vocês “sérios” encontram suas lideranças e suas organizações, vou memerizando os cretinos, chargeando os idiotas e rindo. Rindo enquanto sou processado pelo Bolsonaro e sofrendo outras ameaças. Pelo visto, o outro lado vê mais sentido no que faço do que vocês. Lamento, mas concordo MUITO com o Moisés Mendes”.
E o debate continua. Mas eu faço uma sugestão: leiam O Humor é Coisa Séria (Editora Arquipélago), do psicanalista Abrão Slavutsky. Ali está dito em detalhes, com pesquisa, com reflexão, com a leveza da erudição e do texto do Abrão, porque o humor é historicamente arma poderosa de luta e resistência.
E leiam também Ria Por Favor, que a Maria Lúcia editou com cartuns e charges do pai dela, José Miguel Pereira de Sampaio.
(E claro que a charge que está aí é do Aroeira)

A mais bela invenção humana

Abrão Slavutzky

Psicanalista

Para Galileu Galilei, um dos gênios da humanidade, a mais bela invenção humana é o alfabeto. Ele sustenta que as combinações variáveis de vinte pequenos caracteres permite a comunicação entre pessoas distintas no espaço e no tempo.

Importante destacar o espanto de Galileu ao escrever: “Mas pairando acima de todas essas invenções estupendas, a que altura superior estava a mente daquele que se propôs inventar um modo de comunicar seus mais recônditos pensamentos a não importa que outra pessoa, por mais extenso que fosse o intervalo de tempo e espaço entre ambos?”.

As letras formam palavras que são pontes essenciais para imaginar, amar, mudar. E com as palavras e a imaginação é possível formar essa frase: “Aprender a escrever é colorir o mundo com palavras”. Quem escreveu foi minha neta Carolina, em uma dedicatória à sua professora de redação. As palavras são capazes de colorir o mundo e mudar a vida.

O poder da palavra pode ser percebido numa simples piada. Quem escuta a piada e acha graça (só aí se pode dizer que foi mesmo uma piada) libera no riso desejos agressivos ou eróticos. Aliás, como estamos no fim de um ano tenso, vale a pena contar uma história do poeta Heinrich Heine.

Durante sua vida fez várias críticas à sociedade, aos alemães, mesmo sendo alemão, e teve que se refugiar em Paris. Teve, como poeta e jornalista, muitos inimigos, e por isso um dia escreveu: “Tudo que desejo na velhice é ter paz e tranquilidade, morar numa choupana simples, ter pão e leite fresco, e poder olhar por uma janela para ver as montanhas. E ver no horizonte várias árvores, e que em cada delas estejam dependurados um a um de meus inimigos”.

Se nesse momento o leitor sorriu é porque pôde dar vasão a sua agressividade, tão importante na vida. Aliás, um tema importante é a função do ódio.

Um texto não se resume a palavras em uma página. É algo vivo, capaz de transpor os limites do papel e entrar na vida de quem o lê. Uma frase boa alivia a dor, anima o desanimado, alegra o tristonho. O desafio não é só de quem escreve ou fala, mas de quem lê ou escuta, logo, a palavra é metade do emissor e metade do receptor. As palavras são essenciais na educação, em casa e na escola, todos ensinam falando de alguma forma. Todos são marcados por palavras, frases inesquecíveis, críticas, conselhos. Admiro os que conseguem usar palavras mais calorosas do que as frias. Indispensáveis aí os poetas ou a beleza com que as palavras são vestidas.

O psicanalista passa a vida aprendendo a escutar as palavras, e com o tempo precisa escutar melhor as ligações que vão ocorrendo nas associações que vão sendo feitas. Escuta melhor quem pode perceber a musicalidade do que é dito, as conexões das palavras, inclusive a dimensão engraçada das queixas.

Importante é desenvolver o sentido poético, para escutar o novo no repetitivo. E, principalmente, buscar mais a leveza das palavras que o peso.

Entretanto, convém pensar o alerta de Jean Baudrillard sobre o quanto os valores universais perderam o trem da História, e aí entram também as palavras. Vejam como a justiça, que tanto se vale de palavras, leis, aceita teorias perigosas como a do domínio do fato, o que termina por adoecer gravemente essa senhora chamada democracia. Justiça sem contraditório não existe, e o mesmo se pode dizer das grandes mídias que vêm se transformando em pensamento único.

O problema não são as palavras, mas quem as maneja. E há, às vezes, um manejo perverso sedutor e perigoso na manipulação das pessoas submissas. Aí entra uma variável essencial que é a ética. Uma sociedade onde a ética é só cobrada de uns e não de todos é hipócrita, e o mesmo vale para nós todos.

Uma tática para viver e conviver aqui no Face é criar uma conversa divertida pelos comentários. Entretanto, é sempre uma luta encontrar as palavras certas. O poeta Carlos Drummonnd de Andrade alertou em seu poema “O Lutador”: “Lutar com palavras é a luta mais vã. Entanto lutamos mal rompe a manhã”.

Essa luta para escrever melhor é emocionante. Quem escreve precisa ler, é o primeiro leitor, uma experiência excitante. Ler é buscar algo, algo que toque, ilumine. Há palavras que liberam as fantasias, onde a realidade da magia se une à magia da realidade, a magia da alegria.

Lebn iz shver 

Abrão Slavutzky

Psicanalista

Lebn iz shver, a vida é pesada, integra a velha tradição judaica. Cansei de escutar essa frase, mas não entendia o que era, e com o tempo gravei-a como um significante. Um significante importante, pois a entonação dessa frase era diferente de tudo. Havia um peso solene que concluía uma conversa. Sobravam motivos para os velhos judeus dizerem que a vida é pesada. Podiam recordar os anos de fome, a destruição dos templos e o antissemitismo que culminou no Holocausto.
A vida também foi pesada para os negros com a escravidão. Milhões de seres humanos foram sequestrados da África para servir aos brancos das Américas como se fossem animais. E foram também os brancos que dizimaram os índios. Não faltam exemplos na História em que a vida é mesmo pesada, e mais ainda para os pobres, a maioria da população.
Lembrei-me da expressão Lehn iz shver porque vivemos tempos pesados. Há uma sensação de surpresa frente aos ventos conservadores que já atacam a saúde e a educação pública. Entretanto, diante do peso, dos sofrimentos, é preciso alguma leveza para não afundar. Foi o que fizeram os judeus, os negros, São Francisco de Assis, entre tantos outros.
Diante do peso, é preciso mudar o ponto de observação da realidade. Ver o mundo por outra ótica, outra lógica, escreveu Italo Calvino em “Leveza” no seu livro de propostas para o novo milênio. Conhecemos e desconhecemos o ser humano, o Brasil, à esquerda e à direita. Temos a tendência a idealizar, e hoje vivemos a desidealização do nosso querido Brasil.
Parece simples, mas não é, pois podemos pensar que nós estamos certos, e aí mora o perigo. Podemos, por exemplo, idealizar a esquerda, e quando somos surpreendidos com o maquiavelismo da direita nos entristecemos. Fomos o governo, mas o poder mesmo sempre foi e tende a ser dos que efetivamente mandam. Um exemplo é o da deusa Justiça, que nunca teve os olhos vendados a não ser nas esculturas. Ela sempre viu por baixo da venda e tem em suas mãos a espada que usa quando lhe convém. Hoje vemos que idealizamos a Justiça, pois ela é política e só faz justiça a quem lhe interessa e é injusta quando lhe convém. Muitos processos são arquivados, outros relevados com pedidos de desculpas. Corruptos e ladrões são só os adversários, e algum boi de piranha para disfarçar.
Estamos construindo um norte para caminhar. Já brilha uma Mangueira com o samba sobre Marielle e o Brasil, que não está no retrato. Redes sociais estão sendo criadas que não dependem mais da grande mídia. Creio que há muito para conversar, crescer e inventar novos caminhos. É hora de enxugar as lágrimas, parar de repetir que a vida é pesada e nos fortalecermos na vivacidade pura da graça. Lembrar que os judeus criaram o humor judaico, os negros dançaram, inventaram a capoeira, os índios nos ensinaram o amor à natureza. Confio que não vamos afundar, já podemos cantar e dançar o samba da Mangueira. Vamos sorrir com os humoristas e usufruir dos artistas. Apesar do peso da derrota, vamos em busca da poesia que nos redime. Com calma é preciso perceber a beleza da vida, a beleza da nossa humanidade sofrida.

Servidão voluntária

Abrão Slavutzky*

Admiro os que não desistiram de pensar os enigmas da condição humana. Um dos enigmas é o da servidão voluntária. Desde a metade do século XVI o desejo de submissão ficou sem explicação. Servidão voluntária é um paradoxo que revela como duas verdades contrárias não se excluem.

Muitos, em busca da sonhada segurança, abrem mão da liberdade. Foi o francês Étienne de La Boétie quem, em 1546, criou a expressão servidão voluntária.

Escreveu sobre a tirania, o governo, o poder, a servidão e a amizade. Fez a pergunta difícil de responder: “Não é vergonhoso ver um número infinito de homens não só obedecer, mas rastejar (…)?”. Defendia a rebeldia do povo em não se submeter aos desejos dos governantes.

O enigma da servidão voluntária foi esclarecido com a contribuição da psicanálise. Em 1924, Freud se surpreende ao pensar sobre o masoquismo primário, o erotismo do sofrimento, que está presente em todos nós. Foi o que escreveu Sigmund Freud em 1924 em O problema econômico do masoquismo. Afirma que o masoquista quer ser tratado como uma criança pequena, desamparada, dependente, com necessidade de castigo.

Essa necessidade é um alívio ao desamparo, pois tem alguém que goza, desfruta da sua dor. Nós fazemos mal muitas vezes, com fantasias de maus tratos, pesadelos que expressam a necessidade de castigo. Sofridas são as mortificações, como os vícios de toda ordem e as parcerias destrutivas, entre tantos.

Assim, o masoquismo se vincula à pulsão de morte. Essa poderosa pulsão é estudada a partir de 1919, logo após a Primeira Guerra Mundial. Aliás, essa guerra marcou não só a obra freudiana, mas as artes através do surrealismo, e a irrupção de ditaduras cruéis.

Temas novos na Psicanálise como a Psicologia das Massas e o Mal-estar na Cultura são pontes entre o indivíduo e a sociedade que aos poucos foram estabelecidas. E uma palavra irá crescer de importância que é o desamparo com destinos tanto criativos como destrutivos.

A angústia gerada pelo desamparo é uma das principais origens do medo da liberdade. Desde a perspectiva individual, todos nascem submetidos e amparados pelos pais. Quando nos tornamos adultos, o desafio será conquistar a independência, para construir o seu sentido de vida. É difícil atravessar a ponte que leva da segurança imaginária ao desamparo de viver livremente.

A luta contra a servidão passa pelo desafio do desamparo. Aí é indispensável construir a fraternidade. Algo como: desamparados do mundo, uni-vos! É uma vitória diminuir a tendência masoquista que nos constitui. Aí é preciso construir os vínculos de amizade que permitem manter a rebeldia criativa.

O apoio dos amigos auxilia a cruzar o caminho da dependência à liberdade. É um caminho pessoal, para libertar-se das imposições familiares. Ajuda a pensar o lugar que cada um ocupa nos desejos dos progenitores, como ajuda na busca do sentido de vida de cada um.

Por outro lado, não convém dar as costas à realidade social. É bom lembrar que crescem os inimigos íntimos da democracia, como definiu Tzvetan Todorov. Alertou que aí está uma ameaça à sobrevivência dos ideais democráticos no nosso século: o crescimento das estruturas autoritárias no sistema político ocidental.

Se for mesmo assim, pode-se dizer que a democracia corre riscos. Parte do povo pode se transformar em massa manipulável pelos que dominam a economia. Os inimigos usam os trajes da democracia e podem passar despercebidos.

Passa a ser crucial recuperar o entusiasmo do projeto democrático. Creio que esse entusiasmo passa por lutar contra a servidão voluntária.

*Psicanalista

Bíblicos

Para começar a semana bem, publico esta foto que a Virginia fez esses dias na casa da Sonia e do Abrão Slavutzky.
Luis Fernando Verissimo com Abrão e Moisés. Verissimo é o único do novo testamento.
Abrão quis ficar do lado esquerdo e eu claro que concordei. Ele é o dono da casa. E Abrão, sabemos bem, é aquele que veio antes de todos.

A imagem pode conter: 3 pessoas, incluindo Moisés Mendes e Abrao Slavutzky, pessoas sorrindo, pessoas sentadas, barba e área interna

A DEMOCRACIA E OS SONHOS

Um aviso aos ‘entendidos’ em eleições que acham que entrei na pré-campanha a deputado estadual para passear. Estou ralando muito e não me queixo.
Acordo cedo, converso com muita gente por telefone, envio e respondo mensagens, tento ajeitar a agenda para que abrigue o que acho que deve abrigar, saio de casa, vou ao encontro de gente de todas as áreas e volto à noite.
Não entrei nessa briga boa para participar de uma empreitada sem dedicação integral. Mas me divirto e me entusiasmo com o timaço que consegui reunir, com amigos talentosos e dedicados. Todos também estão ralando, e muito.
Tento, como recomendam os políticos mais velhos, seguir minha intuição e as lições que ouço na caminhada, sem que nada mude o que sou.
Lutar pelo real é também construir sonhos. Porque, como diz meu amigo Abrão Slavutzky, “somos sonhadores; se não formos sonhadores, não somos nada”.
Estou feliz e honrado com os que me acompanham e me acompanharão nesse projeto. Este é o ano para que os democratas trabalhem muito e possam sonhar juntos.

NA CASA DE SONIA E ABRÃO

Estive ontem com a Virgínia na casa dos nossos amigos Abrão e Sonia Slavutzky. Os dois convidaram outros amigos dispostos a conversar sobre a minha pré-candidatura a deputado estadual pelo PT.

Conversamos com Luis Fernando e Lúcia Verissimo, Robson Pereira, Edson Luis de Sousa, Élida Tessler, Suzana Saldanha, Igor Arriada e Davi Slavutzky.

Falamos do Estado, do Brasil, dos netos e da Copa. E concordamos todos num ponto: esta é uma boa hora para fazer política. Por isso disse a eles que sou pré-candidato. Eu quero fazer política agora, na resistência pela volta da democracia plena.

Virgínia acha que foi um dos melhores sábados das nossas vidas. E foi mesmo. Foi bom ouvir todos eles e saber que o Luis Fernando e a Lúcia deixaram de ver o jogo da Alemanha com a Suécia para participar da roda de conversa.

Sonia saudou os presentes, fez chá e chocolate e ofereceu um banquete de quitutes. Falamos sério e também rimos muito. Nos divertimos. E decidimos que iremos em frente.

Luiz Antonio de Assis Brasil e Valesca de Assis não puderam comparecer porque viajaram para São Paulo. Enviaram uma mensagem carinhosa lida por Abrão.

Que sábado. Chegamos no início da tarde e fomos embora tarde da noite. Quando saímos, o Davi ficou lavando a louça.

Que belo presente nós ganhamos da Sonia e do Abrão.

 

Conversa bíblica

Contei ao meu amigo Abrão Slavutszy que um dia acordo eufórico e no outro acordo depressivo. Não tem meio termo. Desde o golpe de agosto é assim. Até os sabiás da Aberta dos Morros sabem.

Hoje, acordei em estado de euforia. Me dei conta finalmente do tamanho do crescimento de 0,2% da economia no último trimestre. É algo real, concreto, palpável.

Tive um lampejo de lucidez. Eu posso ver, pegar e cheirar o crescimento de 0,2%. Quem ainda não teve essa experiência deve aprimorar os sentidos. O crescimento de 0,2% é para ser percebido pelos sensitivos.

Os jornais, todos os jornais, dizem que os governistas entram forte nas eleições do ano que vem por causa de 0,2%. Até o Padilha pode concorrer ao que quiser. O Jucá pode chegar à presidência (e sem precisar do Supremo).

O gás já dobrou de preço desde o golpe, mas o Brasil cresceu 0,2%. O Brasil é um país feliz. É o único país do mundo em que uma mexida de 0,2% na economia, e somente num trimestre, quer dizer alguma coisa em meio a 13 milhões de desempregados.

O Brasil é o único país em que a gasolina sobe todas as semanas e os comentaristas econômicos comemoram a queda da inflação. E a queda da inflação é apenas o sinal de que a economia foi esfacelada, de que muita gente não consegue comprar comida. Mas a economia cresceu 0,2%.

O doutor Abrão, psicanalista, psiquiatra e escritor, mas apenas meu amigo, ficou me escutando. Amanhã, se estiver depressivo, quero falar de novo com o Abrão.

Eu telefono e ele logo anuncia: Abrão está aqui para escutar Moisés. E escuta. Que paciência bíblica.

O caminho de Abrão

O psicanalista e escritor Abrão Slavutzky é o autor do depoimento de hoje do Porta na Cara. Ele conta como lidou com uma advertência que ouviu, quando voltou a Porto Alegre para exercer aqui a profissão que aprendera em Buenos Aires.

porta

“Tens que entrar nos trilhos”

ABRÃO SLAVUTZKY

O amigo, um bom amigo, me disse com toda sinceridade: “Ou tu entras nos trilhos, ingressando na IPA – Associação Psicanalítica Internacional- ou tu vais te dar mal”.

Outro amigo não foi tão contundente, mas me alertou que voltar para Porto Alegre em 1979, sem fazer a IPA, seria muito problemático. Fui avisado que seria ignorado, mas assim mesmo decidi voltar com a identidade de psicanalista que tinha em Buenos Aires, onde vivi por sete anos.

Fiz minha formação através de análise, supervisão e grupos de estudo, como centenas de psicanalistas fizeram e fazem. Por isso, não me incomodaram as advertências dos amigos, além do que  sabia que eram verdadeiras. Entretanto, os obstáculos têm a vantagem de nos estimular a superá-los. E assim também nos obrigamos a ser criativos.

Os primeiros anos aqui na cidade foram difíceis, anos de aprendizado, de tombos, até de fracassos na escolha dos caminhos. Aos poucos, sempre encontrando apoios indispensáveis, fui me estabelecendo, e a escrita foi uma descoberta essencial.

Tive a sorte de contar o tempo todo com muito amor da família e dos pacientes. Ter vindo morar aqui me fez perder amigos, como o que me advertiu da necessidade de entrar nos trilhos.

Lamentei as perdas, mas felizmente ganhei novos amigos. Há dois anos estive autografando  o livro Humor é coisa séria e tive a alegria de ver e abraçar vários colegas e amigos do mundo psicanalítico.

Entrar nos trilhos pode ser conveniente às vezes, mas também podemos criar novos caminhos e criar novos trilhos. Nesse processo, é preciso pagar o preço da ousadia, pagar bufando ou sem bufar, mas a rebeldia tem seu preço.

O poeta já escreveu que criar é não se adaptar à vida como ela é. Não se adaptar é conviver com o desafio da solidão e, mesmo sem ser artista, poder ter neles um estímulo. Por fim, é preciso lembrar que a arte, o humor e até a psicanálise não cabem em templos rígidos.

Lembro por fim um breve artigo de J.B. Pontalis – “ Fora do templo” – onde estimula os psicanalistas a terem experiências e vivências fora de seus templos, isso é, suas instituições. O mesmo, acredito, vale para todos seres pensantes, rebeldes e que buscam não se adaptar à vida como ela é.