O artigo de Abrão Slavutsky

(Compartilho o texto semanal que o psicanalista Abrão Slavutsky publicada no perfil dele no facebook)

O cachorro no campo de concentração

É difícil pensar num cachorro amigo dos presos num campo nazista. Agora, imaginem um vira-lata ser decisivo no pensamento de um filósofo prisioneiro. Seu nome é Emmanuel Levinas (1906-1995) e foi um lituano, judeu, que primeiro estudou na Alemanha e depois foi morar na França. E ao servir no exército francês terminou sendo preso e passou cinco anos num campo de concentração. Nesse campo conheceu o cão Bobby, apenas durante algumas semanas, mas suficientes para Levinas escrever:

“E eis que, em meio a um longo período de cativeiro –por algumas curtas semanas- um cão errante entra em nossa vida. Ele veio um dia se juntar à turba, quando ela retornava do trabalho sob boa guarda. Ele sobrevivia em algum canto selvagem, nos arredores do campo. Mas nós o chamamos de Bobby, um nome exótico, como convém a um cão querido. Ele aparecia nos encontros matinais e nos esperava na volta, saltitando e latindo alegremente. Para ele – isso era incontestável – nós éramos homens.”

Levinas contou em uma das entrevistas que passou da névoa do Ser, rumo aos entes vivos e individuais, ao pensar na vivência do campo. Ele e os presos eram desprezados pelos guardas, como se fossem objetos inumanos, indignos de qualquer solidariedade. O filósofo, aluno destacado de Edmund Husserl e Martin Heiddeger, se sentiu tratado humanamente por um cachorro, reconhecido por outro ser. Essa experiência contribuiu para revisar seu pensamento e abandonar a ontologia em busca da ética e o contato pessoal. Escreveu que não nos fundimos, reagimos um ao outro, tu me fitas nos olhos e continuas a ser Outro, continuas a ser tu. Sua filosofia passou a ser baseada nas relações humanas como fundamento e não uma mera extensão de nossa existência. Assim, afastou-se de seu professor Heidegger, que nunca pediu desculpas por ter aderido ao nazismo, mesmo que temporariamente. Essa experiência de Levinas com o olhar e a alegria do cachorro teve o efeito de um espelho que devolveu a ele sua humanidade perdida.
A experiência com Bobby aliviou a tristeza e o desamparo de viver como escravo. Causa espanto o quanto uma experiência pôde ser decisiva na vida de uma pessoa. São várias as histórias de como um animal ou a própria natureza podem recuperar a vitalidade de uma pessoa. Em tempos sombrios as redes sociais também podem gerar não só vivências efêmeras como experiências marcantes. Experiências que enriquecem e aliviam as dores, em um país onde o ódio domina os Tres Poderes. Portanto, é nesta sociedade que as palavras de Levinas adquirem maior peso. Cada vez mais é preciso construir pontes e fomentar as relações através da conversa ou da escrita.
Em dezembro de 1995 morreu Levinas, e seu amigo, o filósofo Jacques Derrida, fez uma homenagem póstuma no seu enterro com o discurso, “Adeus”. Anos mais tarde se transformou em livro, no qual ele refere, por exemplo, como Levinas foi um dos três maiores filósofos do século XX. Falou ainda no cemitério sobre as palavras bondade, tolerância, família, justiça, do A-Deus, entre tantas pensadas por seu amigo. Derrida e Levinas foram filósofos que defenderam a liberdade, a democracia e a justiça social.
Novos tempos sombrios chegaram, tempos da metralhadora onde podem atirar oitenta tiros pelas costas num auto familiar. Mataram mais um negro entre tantos que já foram mortos. Tempos em que precisamos de coragem e luzes, luzes que ajudem a iluminar as crescentes trevas. Emmanuel Levinas saiu do campo de concentração nazista com mais fé na importância da bondade, da tolerância e num futuro melhor. Imagino que a luta hoje é não afundar na lama de tempos enlouquecidos. Há um ataque ao sonho de uma sociedade mais justa e humana. Apesar de tudo, caminhamos em busca de um norte num mundo desnorteado.

GOVERNO BÍBLICO

Essa é uma das notícias mais reproduzidas desde o anúncio do novo ministro da Educação, Abraham Weintraub. Ele tem um irmão. E esse irmão, Arthur, é um reacionário mais assustador do que ele.
Fiquei sabendo que o irmão também é professor e tem a mania da direita de processar quem considera detrator (a direita lida mal com a crítica). Em dois processos contra alunos, por dano moral, o irmão perdeu.
Essa história de irmão que é mais artista, mais jogador de futebol, mais poderoso, mais bonito ou mais reaça sempre se repete.
O irmão da gente sempre tem algo que pode ser mais belo, sedutor ou ameaçador. Precisamos conhecer melhor esse irmão do ministro, porque ele pode estar na fila para qualquer vaga em algum ministério.
Esse é um governo em que as famílias têm muito poder, começando pelos filhos de Bolsonaro.
A democracia brasileira vai regredindo e nos devolve a tempos bíblicos em que os irmãos estavam sempre por perto fazendo alguma confusão.
Como estamos no antigo testamento do bolsonarismo, com Deus acima de todos, faltava um Abraham anunciando que o comunismo pode acabar com o mundo.
Que tempos, meu amigo Abrão Slavutzky.

O dever da memória

ABRÃO SLAVUTZKY

Psicanalista

No canto IX da Odisseia, Homero relata a história dos lotófagos, os que comem loto, um fruto gostoso que gerava esquecimento. Nosso Brasil, desnorteado com a violência crescente, está, aos poucos, aprendendo a não se embriagar com lotos. O dia 14 de março pode entrar para a História como o dia da memória do assassinato da vereadora Marielle Franco e do seu motorista Anderson Gomes. Lembrar sua vida, sua luta pelos Direitos Humanos, incomoda, inquieta os poderes. Lembrar de Marielle é dar voz a ela e ao seu trabalho, logo ela está viva na memória e na prática de sua luta. Aliás, indico o documentário O silêncio dos outros, que relata a luta dos espanhóis pelo dever da memória dos enterrados sem identificação na Guerra Civil Espanhola. Vi o filme com um casal amigo, nos encontramos no cinema; ela espanhola, teve seu pai morto quando era um bebê. Falamos muito do filme, de nosso dever de memória e fui alertado: não esqueça dia 14, dia da Marielle e do movimento feminista.
Na Espanha, no Brasil e no mundo todo, o dever da memória é hoje um novo imperativo categórico. O dever da memória é, na verdade, um dever de humanidade. E esse dever foi seguido no carnaval, no desfile da escola de samba da Mangueira, ao contar a história de índios, negros e pobres esquecidos no País. Houve um carro alegórico corajoso lembrando a ditadura assassina. Aliás, em 2014, nos cinquenta anos do golpe militar, foi editada uma revista de psicanálise, Percurso, número 52. Entre outros temas estão os traumas externos, a tortura, os indígenas, a memória, a clínica do testemunho. É a psicanálise enfrentando o desafio de pensar, escrever sobre o trauma psíquico, o silenciamento, a dor dos filhos desaparecidos em que as marcas do sinistro, do irrepresentável, se fazem presentes. Nenhuma geração pode ocultar das gerações seguintes o que ocorreu, escreveu o velho e bom Freud: temos o dever da memória.
Cedo aprendi que devia conhecer o passado, ao comemorar a festa judaica do Pessach, a festa da passagem da escravidão do Egito à liberdade. Não demorou para fazer a ponte com o Brasil ao aprender o quanto sofreram os negros escravos. Há uns trinta anos, convidado a escrever sobre o colonialismo e os judeus, optei por apresentar “As marcas da escravidão”, que consta no livro Psicanálise e Colonialismo, organizado pelo amigo e professor da UFRGS Edson Luiz André de Sousa. Na adolescência percebi como diferentes identidades podiam se integrar na luta pela liberdade. Muito escutei no velho Bom Fim dos que se mostraram indiferentes diante do antissemitismo e da tragédia do Holocausto. E aí pensei que não podia ficar indiferente ao racismo, ao preconceito contra os judeus, negros, índios, LGBT e pobres. E também não podia ignorar os que foram assassinados, torturados e desapareceram nos tempos ditatoriais e do temível DOPS. Tempos em que se criou a expressão “os inimigos internos” para justificar a luta fratricida. O ódio do passado está de volta hoje, abrindo o caminho ao autoritarismo, à ditadura e ao pior do humano.
Na realidade psíquica, há as marcas mnêmicas, as marcas da memória, que não são esquecidas. Num sonho noturno, essas marcas têm a chance de chegar à consciência. É quando recebemos a visita dos mortos que vivem na memória de cada um. Essas marcas constituem o sistema inconsciente. Hoje, entretanto, me refiro às marcas da memória da História, marcas que não devemos permitir que as águas de março lavem e levem para o esquecimento. Marielle está presente mesmo depois da morte, e a cena das bandeiras da Mangueira com seu rosto tremulam corajosamente. Ontem, dia 14 de março, ocorreram dezenas de manifestações nas cidades do Brasil e também no exterior. Aqui em Porto Alegre milhares cantavam ontem:“Mariele presente, virou semente”. Quem mandou matar Marielle é a questão a não ser esquecida. Definitivamente Marielle Vive. O dever da memória é um dever de humanidade.

O HUMOR ATRAPALHA?

Tem um grupo de peso aqui no Facebook defendendo que o excesso de brincadeiras com as gafes do governo desvia a atenção das coisas sérias. O humor teria caído nas armadilhas do Bolsonaro e da Damares.
Tenho dois amigos nessa linha, Mario Marona e Maria Lúcia Sampaio, cada um com seus argumentos. Ontem, Marona escreveu:
“Funcionou. Só se fala na Damares nas redes sociais.
Muito pouco sobre perda de direitos em áreas importantes.
Se vamos passar 4 anos sacaneando a Damares e o chanceler, o povo esquece que a oposição existe e o presidente se reelege fácil. Debochar é uma forma de se opor, mas nem tudo precisa virar concurso de meme.
Mas quem sou eu pra pautar a oposição.
Divirtam-se”.
Eu dei um pitaco: “O humor é o aquecimento para a resistência”.
Maria Lucia (filha do grande Sampaio, o pai de todos os chargistas e cartunistas gaúchos) indagou: “Resistência sem partido e sem lideranças, Moisés Mendes?” Maria Lucia reclama da apatia dos políticos e partidos.
E aí então veio o depoimento do Renato Aroeira, pra mim o maior chargista brasileiro há muito tempo: “Maria Lucia Sampaio, enquanto vocês “sérios” encontram suas lideranças e suas organizações, vou memerizando os cretinos, chargeando os idiotas e rindo. Rindo enquanto sou processado pelo Bolsonaro e sofrendo outras ameaças. Pelo visto, o outro lado vê mais sentido no que faço do que vocês. Lamento, mas concordo MUITO com o Moisés Mendes”.
E o debate continua. Mas eu faço uma sugestão: leiam O Humor é Coisa Séria (Editora Arquipélago), do psicanalista Abrão Slavutsky. Ali está dito em detalhes, com pesquisa, com reflexão, com a leveza da erudição e do texto do Abrão, porque o humor é historicamente arma poderosa de luta e resistência.
E leiam também Ria Por Favor, que a Maria Lúcia editou com cartuns e charges do pai dela, José Miguel Pereira de Sampaio.
(E claro que a charge que está aí é do Aroeira)

A mais bela invenção humana

Abrão Slavutzky

Psicanalista

Para Galileu Galilei, um dos gênios da humanidade, a mais bela invenção humana é o alfabeto. Ele sustenta que as combinações variáveis de vinte pequenos caracteres permite a comunicação entre pessoas distintas no espaço e no tempo.

Importante destacar o espanto de Galileu ao escrever: “Mas pairando acima de todas essas invenções estupendas, a que altura superior estava a mente daquele que se propôs inventar um modo de comunicar seus mais recônditos pensamentos a não importa que outra pessoa, por mais extenso que fosse o intervalo de tempo e espaço entre ambos?”.

As letras formam palavras que são pontes essenciais para imaginar, amar, mudar. E com as palavras e a imaginação é possível formar essa frase: “Aprender a escrever é colorir o mundo com palavras”. Quem escreveu foi minha neta Carolina, em uma dedicatória à sua professora de redação. As palavras são capazes de colorir o mundo e mudar a vida.

O poder da palavra pode ser percebido numa simples piada. Quem escuta a piada e acha graça (só aí se pode dizer que foi mesmo uma piada) libera no riso desejos agressivos ou eróticos. Aliás, como estamos no fim de um ano tenso, vale a pena contar uma história do poeta Heinrich Heine.

Durante sua vida fez várias críticas à sociedade, aos alemães, mesmo sendo alemão, e teve que se refugiar em Paris. Teve, como poeta e jornalista, muitos inimigos, e por isso um dia escreveu: “Tudo que desejo na velhice é ter paz e tranquilidade, morar numa choupana simples, ter pão e leite fresco, e poder olhar por uma janela para ver as montanhas. E ver no horizonte várias árvores, e que em cada delas estejam dependurados um a um de meus inimigos”.

Se nesse momento o leitor sorriu é porque pôde dar vasão a sua agressividade, tão importante na vida. Aliás, um tema importante é a função do ódio.

Um texto não se resume a palavras em uma página. É algo vivo, capaz de transpor os limites do papel e entrar na vida de quem o lê. Uma frase boa alivia a dor, anima o desanimado, alegra o tristonho. O desafio não é só de quem escreve ou fala, mas de quem lê ou escuta, logo, a palavra é metade do emissor e metade do receptor. As palavras são essenciais na educação, em casa e na escola, todos ensinam falando de alguma forma. Todos são marcados por palavras, frases inesquecíveis, críticas, conselhos. Admiro os que conseguem usar palavras mais calorosas do que as frias. Indispensáveis aí os poetas ou a beleza com que as palavras são vestidas.

O psicanalista passa a vida aprendendo a escutar as palavras, e com o tempo precisa escutar melhor as ligações que vão ocorrendo nas associações que vão sendo feitas. Escuta melhor quem pode perceber a musicalidade do que é dito, as conexões das palavras, inclusive a dimensão engraçada das queixas.

Importante é desenvolver o sentido poético, para escutar o novo no repetitivo. E, principalmente, buscar mais a leveza das palavras que o peso.

Entretanto, convém pensar o alerta de Jean Baudrillard sobre o quanto os valores universais perderam o trem da História, e aí entram também as palavras. Vejam como a justiça, que tanto se vale de palavras, leis, aceita teorias perigosas como a do domínio do fato, o que termina por adoecer gravemente essa senhora chamada democracia. Justiça sem contraditório não existe, e o mesmo se pode dizer das grandes mídias que vêm se transformando em pensamento único.

O problema não são as palavras, mas quem as maneja. E há, às vezes, um manejo perverso sedutor e perigoso na manipulação das pessoas submissas. Aí entra uma variável essencial que é a ética. Uma sociedade onde a ética é só cobrada de uns e não de todos é hipócrita, e o mesmo vale para nós todos.

Uma tática para viver e conviver aqui no Face é criar uma conversa divertida pelos comentários. Entretanto, é sempre uma luta encontrar as palavras certas. O poeta Carlos Drummonnd de Andrade alertou em seu poema “O Lutador”: “Lutar com palavras é a luta mais vã. Entanto lutamos mal rompe a manhã”.

Essa luta para escrever melhor é emocionante. Quem escreve precisa ler, é o primeiro leitor, uma experiência excitante. Ler é buscar algo, algo que toque, ilumine. Há palavras que liberam as fantasias, onde a realidade da magia se une à magia da realidade, a magia da alegria.

Lebn iz shver 

Abrão Slavutzky

Psicanalista

Lebn iz shver, a vida é pesada, integra a velha tradição judaica. Cansei de escutar essa frase, mas não entendia o que era, e com o tempo gravei-a como um significante. Um significante importante, pois a entonação dessa frase era diferente de tudo. Havia um peso solene que concluía uma conversa. Sobravam motivos para os velhos judeus dizerem que a vida é pesada. Podiam recordar os anos de fome, a destruição dos templos e o antissemitismo que culminou no Holocausto.
A vida também foi pesada para os negros com a escravidão. Milhões de seres humanos foram sequestrados da África para servir aos brancos das Américas como se fossem animais. E foram também os brancos que dizimaram os índios. Não faltam exemplos na História em que a vida é mesmo pesada, e mais ainda para os pobres, a maioria da população.
Lembrei-me da expressão Lehn iz shver porque vivemos tempos pesados. Há uma sensação de surpresa frente aos ventos conservadores que já atacam a saúde e a educação pública. Entretanto, diante do peso, dos sofrimentos, é preciso alguma leveza para não afundar. Foi o que fizeram os judeus, os negros, São Francisco de Assis, entre tantos outros.
Diante do peso, é preciso mudar o ponto de observação da realidade. Ver o mundo por outra ótica, outra lógica, escreveu Italo Calvino em “Leveza” no seu livro de propostas para o novo milênio. Conhecemos e desconhecemos o ser humano, o Brasil, à esquerda e à direita. Temos a tendência a idealizar, e hoje vivemos a desidealização do nosso querido Brasil.
Parece simples, mas não é, pois podemos pensar que nós estamos certos, e aí mora o perigo. Podemos, por exemplo, idealizar a esquerda, e quando somos surpreendidos com o maquiavelismo da direita nos entristecemos. Fomos o governo, mas o poder mesmo sempre foi e tende a ser dos que efetivamente mandam. Um exemplo é o da deusa Justiça, que nunca teve os olhos vendados a não ser nas esculturas. Ela sempre viu por baixo da venda e tem em suas mãos a espada que usa quando lhe convém. Hoje vemos que idealizamos a Justiça, pois ela é política e só faz justiça a quem lhe interessa e é injusta quando lhe convém. Muitos processos são arquivados, outros relevados com pedidos de desculpas. Corruptos e ladrões são só os adversários, e algum boi de piranha para disfarçar.
Estamos construindo um norte para caminhar. Já brilha uma Mangueira com o samba sobre Marielle e o Brasil, que não está no retrato. Redes sociais estão sendo criadas que não dependem mais da grande mídia. Creio que há muito para conversar, crescer e inventar novos caminhos. É hora de enxugar as lágrimas, parar de repetir que a vida é pesada e nos fortalecermos na vivacidade pura da graça. Lembrar que os judeus criaram o humor judaico, os negros dançaram, inventaram a capoeira, os índios nos ensinaram o amor à natureza. Confio que não vamos afundar, já podemos cantar e dançar o samba da Mangueira. Vamos sorrir com os humoristas e usufruir dos artistas. Apesar do peso da derrota, vamos em busca da poesia que nos redime. Com calma é preciso perceber a beleza da vida, a beleza da nossa humanidade sofrida.

Servidão voluntária

Abrão Slavutzky*

Admiro os que não desistiram de pensar os enigmas da condição humana. Um dos enigmas é o da servidão voluntária. Desde a metade do século XVI o desejo de submissão ficou sem explicação. Servidão voluntária é um paradoxo que revela como duas verdades contrárias não se excluem.

Muitos, em busca da sonhada segurança, abrem mão da liberdade. Foi o francês Étienne de La Boétie quem, em 1546, criou a expressão servidão voluntária.

Escreveu sobre a tirania, o governo, o poder, a servidão e a amizade. Fez a pergunta difícil de responder: “Não é vergonhoso ver um número infinito de homens não só obedecer, mas rastejar (…)?”. Defendia a rebeldia do povo em não se submeter aos desejos dos governantes.

O enigma da servidão voluntária foi esclarecido com a contribuição da psicanálise. Em 1924, Freud se surpreende ao pensar sobre o masoquismo primário, o erotismo do sofrimento, que está presente em todos nós. Foi o que escreveu Sigmund Freud em 1924 em O problema econômico do masoquismo. Afirma que o masoquista quer ser tratado como uma criança pequena, desamparada, dependente, com necessidade de castigo.

Essa necessidade é um alívio ao desamparo, pois tem alguém que goza, desfruta da sua dor. Nós fazemos mal muitas vezes, com fantasias de maus tratos, pesadelos que expressam a necessidade de castigo. Sofridas são as mortificações, como os vícios de toda ordem e as parcerias destrutivas, entre tantos.

Assim, o masoquismo se vincula à pulsão de morte. Essa poderosa pulsão é estudada a partir de 1919, logo após a Primeira Guerra Mundial. Aliás, essa guerra marcou não só a obra freudiana, mas as artes através do surrealismo, e a irrupção de ditaduras cruéis.

Temas novos na Psicanálise como a Psicologia das Massas e o Mal-estar na Cultura são pontes entre o indivíduo e a sociedade que aos poucos foram estabelecidas. E uma palavra irá crescer de importância que é o desamparo com destinos tanto criativos como destrutivos.

A angústia gerada pelo desamparo é uma das principais origens do medo da liberdade. Desde a perspectiva individual, todos nascem submetidos e amparados pelos pais. Quando nos tornamos adultos, o desafio será conquistar a independência, para construir o seu sentido de vida. É difícil atravessar a ponte que leva da segurança imaginária ao desamparo de viver livremente.

A luta contra a servidão passa pelo desafio do desamparo. Aí é indispensável construir a fraternidade. Algo como: desamparados do mundo, uni-vos! É uma vitória diminuir a tendência masoquista que nos constitui. Aí é preciso construir os vínculos de amizade que permitem manter a rebeldia criativa.

O apoio dos amigos auxilia a cruzar o caminho da dependência à liberdade. É um caminho pessoal, para libertar-se das imposições familiares. Ajuda a pensar o lugar que cada um ocupa nos desejos dos progenitores, como ajuda na busca do sentido de vida de cada um.

Por outro lado, não convém dar as costas à realidade social. É bom lembrar que crescem os inimigos íntimos da democracia, como definiu Tzvetan Todorov. Alertou que aí está uma ameaça à sobrevivência dos ideais democráticos no nosso século: o crescimento das estruturas autoritárias no sistema político ocidental.

Se for mesmo assim, pode-se dizer que a democracia corre riscos. Parte do povo pode se transformar em massa manipulável pelos que dominam a economia. Os inimigos usam os trajes da democracia e podem passar despercebidos.

Passa a ser crucial recuperar o entusiasmo do projeto democrático. Creio que esse entusiasmo passa por lutar contra a servidão voluntária.

*Psicanalista

Bíblicos

Para começar a semana bem, publico esta foto que a Virginia fez esses dias na casa da Sonia e do Abrão Slavutzky.
Luis Fernando Verissimo com Abrão e Moisés. Verissimo é o único do novo testamento.
Abrão quis ficar do lado esquerdo e eu claro que concordei. Ele é o dono da casa. E Abrão, sabemos bem, é aquele que veio antes de todos.

A imagem pode conter: 3 pessoas, incluindo Moisés Mendes e Abrao Slavutzky, pessoas sorrindo, pessoas sentadas, barba e área interna

A DEMOCRACIA E OS SONHOS

Um aviso aos ‘entendidos’ em eleições que acham que entrei na pré-campanha a deputado estadual para passear. Estou ralando muito e não me queixo.
Acordo cedo, converso com muita gente por telefone, envio e respondo mensagens, tento ajeitar a agenda para que abrigue o que acho que deve abrigar, saio de casa, vou ao encontro de gente de todas as áreas e volto à noite.
Não entrei nessa briga boa para participar de uma empreitada sem dedicação integral. Mas me divirto e me entusiasmo com o timaço que consegui reunir, com amigos talentosos e dedicados. Todos também estão ralando, e muito.
Tento, como recomendam os políticos mais velhos, seguir minha intuição e as lições que ouço na caminhada, sem que nada mude o que sou.
Lutar pelo real é também construir sonhos. Porque, como diz meu amigo Abrão Slavutzky, “somos sonhadores; se não formos sonhadores, não somos nada”.
Estou feliz e honrado com os que me acompanham e me acompanharão nesse projeto. Este é o ano para que os democratas trabalhem muito e possam sonhar juntos.

NA CASA DE SONIA E ABRÃO

Estive ontem com a Virgínia na casa dos nossos amigos Abrão e Sonia Slavutzky. Os dois convidaram outros amigos dispostos a conversar sobre a minha pré-candidatura a deputado estadual pelo PT.

Conversamos com Luis Fernando e Lúcia Verissimo, Robson Pereira, Edson Luis de Sousa, Élida Tessler, Suzana Saldanha, Igor Arriada e Davi Slavutzky.

Falamos do Estado, do Brasil, dos netos e da Copa. E concordamos todos num ponto: esta é uma boa hora para fazer política. Por isso disse a eles que sou pré-candidato. Eu quero fazer política agora, na resistência pela volta da democracia plena.

Virgínia acha que foi um dos melhores sábados das nossas vidas. E foi mesmo. Foi bom ouvir todos eles e saber que o Luis Fernando e a Lúcia deixaram de ver o jogo da Alemanha com a Suécia para participar da roda de conversa.

Sonia saudou os presentes, fez chá e chocolate e ofereceu um banquete de quitutes. Falamos sério e também rimos muito. Nos divertimos. E decidimos que iremos em frente.

Luiz Antonio de Assis Brasil e Valesca de Assis não puderam comparecer porque viajaram para São Paulo. Enviaram uma mensagem carinhosa lida por Abrão.

Que sábado. Chegamos no início da tarde e fomos embora tarde da noite. Quando saímos, o Davi ficou lavando a louça.

Que belo presente nós ganhamos da Sonia e do Abrão.