OS CELULARES DESTRUÍDOS

O bolsonarismo conseguiu disseminar a versão de que Adriano da Nóbrega destruía todos os celulares depois de cada contato.
Muita gente boa está embarcando nessa conversa. Se fosse verdade, Adriano seria sócio da Apple, Samsung, Huawei.
Adriano estava foragido havia um ano. Quantos celulares teria destruído? Mais de mil?
É claro que os celulares sumiram agora como parte da queima de arquivo.
Não vamos ser ingênuos. Adriano foi cercado e morto como um amador, quando se sabia que era um profissional.
O miliciano foi levado para o sítio da morte porque estava sendo traído por seus pretensos protetores.
Sumir com os celulares do miliciano (e passar a versão de que ele os destruiu) é a parte menos complicada da trama.
Temos agora, em outra versão, algo parecido com as mensagens ‘sumidas’ do ex-juiz Sergio Moro no Telegram da Lava-Jato.
Vamos esperar a versão miliciana da Vaza Jato.

Flávio e o miliciano

A Folha descobriu, desde o primeiro dia do crime na Bahia, o modelo de título para falar do assassinato do miliciano amigo da família das rachadinhas e dos rachadões. O nome de Flávio aparece quase sempre.
Mas a Folha, cada vez mais atacada pelo bolsonarismo, ainda deve a grande reportagem sobre a execução de Adriano da Nóbrega.

RESPOSTAS PARA UM CADÁVER

O que deu certo e o que deu errado na operação que acabou matando o miliciano Adriano da Nóbrega na Bahia? Se não conseguir dar respostas, o governo de Rui Costa ficará com o cadáver no colo, enquanto Bolsonaro se diverte e o acusa de execução.

Algumas hipóteses para o que aconteceu, desde a origem da caçada, e para o desfecho desastroso ou, dependendo do ponto de vista, para o que estava devidamente programado:

1. A polícia civil carioca, sem o controle dos Bolsonaros, decide caçar Adriano da Nóbrega para comprometer a família. O início da caçada chega logo ao conhecimento do governo. Sergio Moro decide que Adriano não deve entrar na lista dos bandidos mais procurados do país, exatamente por estar sendo caçado. Moro não pode ficar com os créditos do incentivo a uma perseguição que iria comprometer os Bolsonaros.

2. Se a polícia carioca decide ir à Bahia para procurar o miliciano, a polícia baiana precisava dar suporte aos colegas. É óbvio que interessa a um governo do PT anunciar que encontrou o bandido amigo dos Bolsonaros. Quem faz investigações é, formalmente, a polícia civil. Mas o Bope, já preparado, é chamado para entrar em cena na hora da operação de cerco ao sítio.

3. É aí, na participação do Bope baiano, que pode ter ocorrido o desencontro entre o desejo de tentar prender e a decisão de atirar para matar. São 70 homens contra um sujeito sozinho num sítio. Um aprendiz de policial sabe como agir para cercar, negociar e levar o acossado ao cansaço e à rendição. O principal fator nesses casos é o tempo.

4. Tudo que o Bope não quis usar foi o tempo. Sabe-se que, do início da operação até o desfecho, a ação foi muito rápida. Que comando apressou a operação que levou à morte do miliciano? Havia um comando paralelo do Bope na linha de frente? Quem mandou atirar? Por que atiraram tão de perto e em áreas letais do corpo?

Se as respostas não forem oferecidas logo, os Bolsonaros vão repetir que são os acusadores com o dedo apontando para o PT, e não os aliados de um criminoso que os protegia e tinha a proteção da família.

A máxima bolsonariana de que a culpa é sempre de Lula chega ao nonsense total, com Flavio e o pai jogando Adriano e seus arquivos em cima de Rui Costa e do PT.

Como responder a tantas dúvidas? Encontrando quem sabe tudo. Alguém sempre sabe tudo, desde o começo. Alguém ou alguns. Que o governo da Bahia, mais do que o jornalismo, saiba procurá-los.

MORO FALA DE CAVEIRA E BOPE EM FESTA DE CASAMENTO

Sergio Moro conseguiu um feito inédito: discursou para falar de caveira e elogiar o Bope numa festa de casamento. Foi ontem, em Brasília, na cerimônia da deputada de extrema direita Carla Zambelli, do PSL de São Paulo, que se casava com o coronel Antônio Aginaldo de Oliveira.

Hastearam a bandeira, cantaram o Hino, e Sergio Moro discursou, para saudar os noivos, os convidados e, acreditem, também o Bope:
“É uma guerreira (a deputada). Sem formação de policial militar, mas mereceria aqui uma medalha de caveira honorária do próprio especial do Bope”.

Elogios e agradecimentos ao Bope numa hora dessas? É razoável aproveitar uma festa de casamento para mandar um aceno à tropa que executou o capitão miliciano Adriano da Nóbrega na Bahia? Sorrisos, civismo, hino, Bope, caveira (o símbolo da tropa), em meio a convidados do mundo do reacionarismo, e valsa, claro. O ex-juiz dançou com a mulher, Rosangela.

Que combinação para uma festa de casamento. É coisa de filme de Scorsese. O ex-chefe da Lava-Jato, que circulava com os bacanas tucanos, foi parar no antro do reacionarismo, que mistura terraplanistas, armamentistas e outras categorias agrupadas em torno do bolsonarismo.

Estavam lá a primeira-dama Michelle Bolsonaro, Abraham Weintraub, Ernesto Araújo, Regina Duarte e Fábio Wajngarten, o cara da Secom denunciado por liberar verbas para grupos ligados à sua empresa de comunicação.

Moro mostra todos os dias que está bem à vontade no meio dessa turma, mas há dois problemas. O pessoal das milícias, dos amigos de Bolsonaro ligados a Adriano, não deve ter gostado da saudação ao Bope. Não era hora de falar em caveira e agradecer à tropa de choque que executou o miliciano.

Sergio Moro pode estar avançando demais no terreno de Bolsonaro, que não apareceu na festa, e esse avanço é o segundo problema.

O ex-juiz parece o guri extasiado com a bicicleta emprestada. A bicicleta com as caveiras ainda é de Bolsonaro. Ainda.

Um fracasso

A cobertura dos grandes jornais do assassinato do miliciano na Bahia é precária. Não é preguiça, nem falta de gente. Os jornais têm medo de Bolsonaro e de Sergio Moro.
Em outros tempos, as melhores equipes dos jornais estariam acampadas no entorno do cenário da execução.
Hoje, fazem cobertura de campo de dentro das redações. É o jornalismo de tubo, que vai acabar matando o próprio jornalismo.
A tropa que matou Adriano da Nóbrega pode ter contribuído para que também o jornalismo morra mais um pouco.Mas ainda tenho esperança no grande esforço da Folha, mesmo temendo Bolsonaro e Moro, para dizer que enfrenta os dois.

Ainda o silêncio

Estou a mais de 2 mil quilômetros de Brasília e ouço daqui o silêncio de Bolsonaro, dos filhos de Bolsonaro e de Sergio Moro sobre a execução do miliciano amigo deles.
Quanto maior é a distância de Brasília, mais retumbante é o silêncio de todos eles.
Adriano da Nóbrega prestou grandes serviços à família. Foi abandonado e teve de se enfiar num mato, como faziam as vítimas de assassinatos do Escritório do Crime que ele comandava.
Se não falarem, se não disserem pelo menos uma frase de condolência, os Bolsonaros e Sergio Moro oferecerão a prova de que o assassinato os abalou.
Como escreveu Helena Chagas no DCM, o arquivo morto ainda pode assombrar a família Bolsonaro. Mataram o arquivista, mas seu acervo e seus rastros, que podem levar à família, não serão facilmente apagados.
E que não se esqueçam dos amigos e parentes de Adriano, que os Bolsonaros devem conhecer muito bem.

Sozinho e abandonado

A Folha fez o que se espera do jornalismo. Foi ao local do crime na Bahia. A reportagem ainda é precária, pelo pouco tempo e circunstâncias, mas indica na direção da suspeita generalizada.
O miliciano Adriano da Nóbrega foi cercado e morto em pouco tempo. Não há nada que indique uma abordagem planejada com a intenção de forçá-lo a uma rendição.
Sergio Moro não incluiu Adriano na sua lista de bandidos procurados talvez porque soubesse que ele já havia sido localizado. Só faltava um grupo ir ao esconderijo e fazer o serviço.
Adriano era protetor e protegido da família Bolsonaro. Morreu sozinho, abandonado pelos antigos parceiros.
Mataram um homem solitário dentro da casa de um sítio no meio do mato. Não há nem mesmo uma vaca como testemunha.

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/02/cenario-de-fuga-e-morte-de-miliciano-ligado-a-flavio-traz-duvidas-sobre-apoios-e-acao-policial.shtml

SÓ DOIS TIROS

Vão surgindo aos poucos algumas informações esparsas sobre a morte do miliciano. Um detalhe comprova que o assassinato foi coisa de profissionais, e não de pistoleiros que gastam munição à vontade em execuções cinematográficas.
Imaginavam que Adriano da Nóbrega tivesse sido morto com uma saraivada de balas de metralhadora e que seu corpo tenha sido todo furado.
Nada disso. O homem tombou e morreu ali mesmo com apenas dois tiros certeiros do Bope baiano.
Por que não cercaram o sítio e esgotaram todas as possibilidades de negociação e rendição, mesmo que o miliciano possa ter reagido antes?
Porque confiavam que alguém, com apenas dois tiros, faria o serviço. Só dois tiros. Fácil como num videogame.

Tentem entrar na lista

Todos os bandidos que não estão na lista de procurados de Sergio Moro devem buscar proteção. Adriano da Nóbrega não era nem reserva na lista do ex-juiz.
Tem bandido titular, nos primeiros lugares da lista, que não é procurado há anos. Mas Adriano, fora da lista, foi caçado e morto.
A senha é esta: se não estiver na lista de Moro, busque um esconderijo, mas nunca em sítios de políticos do PSL.
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