O bueiro

A reportagem de Bruna Vargas, Humberto Trezzi e Itamar Melo sobre a água podre de Porto Alegre, na edição de hoje de Zero Hora, levanta a tampa do bueiro.
Fica claro que falharam as autoridades, o Ministério Público, as ONGs ambientais, o jornalismo e todos nós, com a nossa resignação.
A água fedorenta de Porto Alegre é um crime de repercussão mundial. Uma das metrópoles do Brasil bebe água podre há anos, sem que nada fosse feito de efetivo para conter a ação dos poluidores.
A reportagem com o histórico do caso, a partir do levantamento de documentos, é um gol do jornalismo, que agora certamente vai entrar no bueiro e chegas às ratazanas que se adonaram da água da cidade.

Água é coisa de pobre

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Só há um jeito de desvendar o mistério da água em Porto Alegre. É pela imposição do jornalismo. Foi assim, entre outros muitos casos, no famoso episódio da Borregaard, nos anos 70.

A Borregaard e o governo se renderam ao poder dos veículos da Caldas Júnior. Foi assim também com as restrições aos venenos nas lavouras. Sem jornalismo, tudo se acomoda nos interésses.

Autoridades enroladas nas próprias explicações devem enfrentar o desconforto dos grandes questionamentos. Essa é a missão da imprensa, mesmo que não exista mais um Lutzenberger (foto) para inspirar os repórteres e tocar tambor no ouvido dos poluidores.

A água continua podre e não há explicações convincentes porque a água de torneira para beber passou a ser um produto de pobre. Para a classe média, a água do Dmae serve apenas para o banho e para encher a piscina. Se rico também bebesse água de torneira, o problema da água com esgoto já estaria resolvido.

Um pool informal de jornalistas ambientalistas, como nos velhos tempos, forçaria as instituições (sempre elas) a explicarem o que ocorre e a fazer com que a água volte a ser sem cheiro e sem cor.

Se não for assim, a enrolação se estenderá por meses ou anos, e nós continuaremos consumindo água com dejetos químicos e bactérias que a ciência gaúcha não sabe dizer de ondem saem.

Uma empresa poderosa

A Fepam e outros órgãos ambientais poderiam esclarecer não o que é irregular, mas o que afinal é legal ou normal nas atividades da  Cettraliq, a empresa sob suspeita de poluir a água de Porto Alegre que desistimos de beber. Parece mais fácil dizer o que funciona na empresa.

Tenho acompanhado as reportagens da Bruna Vargas na Zero Hora sobre a prestadora de serviços de tratamento de efluentes (rejeitos de produtos químicos e orgânicos) de mais de mil empresas.

O texto de hoje da Bruna é mais uma sucessão de informações esclarecedoras sobre coisas que a empresa faz e não deveria fazer ou que deveria estar fazendo e não faz. Além de ser clandestina.

A dúvida que alguém em algum momento terá de esclarecer é esta: como a empresa (agora interditada pela Fepam) continuava atuando, apesar dos indícios de que a água fedorenta sai dos seus tanques e é despejada no Guaíba?

Que misterioso poder tinha esta empresa, a ponto de desafiar todas as evidências de que atuava de forma irregular, não cumpria normas e desafiava até o Ministério Público?

O MP também parece ter sido frouxo nessa questão. E nós bebendo água com cheiro de esgoto, mas perfeitamente potável, segundo as autoridades. Que empresa poderosa é esta Cettraliq.

 

 

 

O que há nos subterrâneos de Porto Alegre?

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Será que um dia descobriremos o que tomamos na água suspeita de Porto Alegre? E quem provoca esse gosto e esse fedor?

Li no fim de semana que uma empresa, a Cettraliq,  “trata” os rejeitos (os tais efluentes) de 1.500 clientes e despeja os ditos efluentes no esgoto.

Os efluentes vão, claro, parar no Guaíba. Pois a empresa está sob suspeita de ser a responsável pelo gosto e pelo cheiro da água de Porto Alegre, segundo as autoridades do meio ambiente.

A firma, do bairro Navegantes, diz uma matéria da Bruna Vargas na Zero, não tem alvará para fazer o que faz na Capital. É clandestina.

Será que alguém vai nos informar o que, afinal, a empresa faz mesmo com os efluentes? Trata mesmo os efluentes? E que efluentes são estes? E quem são os 1.500 clientes e o que produzem?

Efluente é o nome bonito de um número incontável de imundícies químicas, muitas das quais podemos estar tomando na água com fedor.

Enquanto isso, em Guaíba, o fantasma da Borregaard aterroriza os moradores vizinhos da fábrica que hoje tem outro nome, Celulose Riograndense. E que continua poluindo e sendo acompanhada a longa distância pela fiscalização do setor.

O desprezo pelo ambiente retornou aos níveis dos anos 70. Hoje é tudo mais dissimulado e talvez com muito mais interésses encobertos e sob a proteção de gente que deveria contrariá-los.

Precisamos saber o que há de fato nos subterrâneos de Porto Alegre – em todos os subterrâneos, inclusive os dutos por onde circulam, não só superfaturamentos, mas omissões e estranhos conluios com os que nos oferecem água contaminada.

A guerra aos ambientalistas, articulada por gente de todas as áreas, pública e privada, contribui para que empresas e órgãos que deveriam ajudar a manter a água limpa estejam sob a desconfiança geral de que o que fazem é deixá-la ainda mais imunda, por ação deliberada e/ou por negligência.

A água sob suspeita de Porto Alegre é um fato vergonhoso (e provavelmente criminoso), inclusive para o Ministério Público.