O EMPURRÃOZINHO

Nenhum atacante do Sá Viana, do Ferro Carril, do 14 de Julho, do São Gabriel ou do Grêmio Santanense tiraria um zagueiro do Guarani do Alegrete da jogada com um empurrãozinho como aquele do suíço em cima de Miranda.
É muita moleza. Zagueiro, zagueiro mesmo, não amolece diante de um empurrãozinho. Não é, Paulo Renato Rodrigues?
É isso, Rui Fabres? Fala, Luizinho Tristão. Me conteste, Valderli. Confirma, José Airam? Tem fundamento um empurrão frouxo daqueles, Villa?
Pastel, Nelson, Grillo, Kako Perfeito, Bibi, Grisa, Jason, Élvio, Celso, Bola, Miguel Castro, Moisés Moisa, Juliani, Japur: um empurrão como aquele, com a mão mole, aconteceria assim, na facilidade, na zaga do Guarani do Alegrete?

GUI

Esse guri aí é a prova de que o Alegrete não para de produzir artistas. O cantor e compositor Guilherme Mendes recebe hoje o título do Mérito Legislativo, na Câmara de Vereadores da cidade.
A homenagem foi proposta pelo vereador Paulo Antônio Berquó Farias. Eu queria estar lá, porque o Guilherme é um figuraço. E por acaso é meu sobrinho. Viva o Gui. Viva o Alegrete.

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A DIREITA FUGIU DE VILLA

O deputado Adão Villaverde é um orgulho do Alegrete. Saiu da Coxilha e veio guri para Porto Alegre, estudou, formou-se em engenharia, virou professor da PUC, passou a militar na política e elegeu-se deputado do PT por quatro vezes.
Hoje à tarde, fui à Assembleia Legislativa com outros amigos para o anúncio antecipado da despedida de um dos mais talentosos e combativos nomes do PT. No ano que vem, o alegretense volta a lecionar e a atuar como engenheiro e passa a cuidar do seu doutorado.
Villa discursou no Grande Expediente para lembrar sua trajetória e defender a democracia dos ataques do “ódio, da intolerância, da irracionalidade e da barbárie” e para lembrar que o maior líder do país é preso político.
Havia muita gente nas galerias, mas bem que poderia ter mais deputados no plenário. Nas bancadas dos partidos de “centro” e de direita, todas as cadeiras estavam vazias (foto). Todas. Foi uma indelicadeza com um colega de parlamento que anunciava a decisão de não mais concorrer.
Como está no título do discurso de Villa, vivemos “tempos de obsessões obscurantistas e embrutecimentos conservadores”.
Adelante, Villa.

OS LOUCOS E OS EXCESSIVAMENTE NORMAIS

Não tinha visto, mas fui alertado pela gente do Alegrete. Zero Hora incluiu hoje entre projetos que considera esdrúxulos, aprovados pela Assembleia, a criação do Dia do Orgulho Louco no Alegrete. O projeto foi uma iniciativa do deputado Adão Villaverde.
O Villa levou adiante uma ideia de profissionais da saúde, médicos, psiquiatras, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais, familiares de pacientes, amigos, vizinhos, todos envolvidos com a abordagem da doença mental e o fim dos estigmas. A Parada do Orgulho Louco é uma festa e um momento de reflexão inspirados em ações semelhantes que existem em outros países.
Mas esse tipo de iniciativa só prospera em cidades como Alegrete. Tem que sair da caixinha e ser menos esquemático e cartesiano para entender uma iniciativa tão bonita, que enfrenta tudo o que se construiu de preconceito a respeito dos doentes mentais.
Alegrete é a terra onde nasceram ou viveram Qorpo Santo, Mario Quintana, João Saldanha, Tyrteu Vianna, Nora Dornelles, Sergio Faraco, Helio Ricciardi, Cyro Leães, Lila Ripoll, Élvio Vargas. Todos certos das loucuras das suas criações e também do seu jeito de viver, num mundo de normalidades sempre ameaçadoras.
O Orgulho Louco é um esforço pela inclusão pela arte e pelo humor. Não pode ser desqualificado pelo preconceito que busca combater com a teimosia do Villa, da Judete Ferrari, da Preta Castro Mulazzani, da Károl Veiga Cabral e de centenas de voluntários de um evento transformador.
Meu amigo Fabio Schaffer, que escreveu a reportagem na Zero, errou feio ao tratar um conjunto de abordagens criativas e transgressoras da questão da loucura como coisa esdrúxula.
Fábio é bom repórter e vai se corrigir. Ele sabe que deve tomar cuidado com o mundo dos que se acham excessivamente normais e moralmente superiores.
O jornalismo não pode ficar ainda mais esdrúxulo.

O ‘ó’ e o ‘oi’

Eu sou do tempo em que se dizia ó quando se encontrava um conhecido na rua. Ó, tudo bem? Alguns até respondiam: Tudo bem, comendo pão de ló com a tua vó.

Minha infância no Rosário foi ouvindo ó no Ginásio Plácido de Castro e por toda parte. Depois é que comecei a ouvir oi, mas aí eu já morava no Alegrete.

Alguém levou para a Fronteira o oi de Porto Alegre ou do Rio. Aí pelo começo dos anos 70. Foi logo um sucesso no quiosque da praça, mas o oi demorou a chegar até a região da Coxilha do Adão e do José Ascânio Villaverde.

Poucas vezes se vê alguém falando olá para um conhecido. Falam mais na TV (olá, boa tarde, como diz a Sandra Annenberg), nos gibis e nas dublagens de desenho animado.

Agora, leio que o Facebook é considerado cada vez mais antigo por jovens e adolescentes porque tem muito texto. Eles querem cada vez menos texto. Menos do que no Twitter e menos do que no Instagram.

Os jovens querem ler e escrever com menos letras e podem assim abandonar o oi, porque tem duas letras, e escrever ó. Escreveriam assim: ó, tdb?

Este texto, por exemplo, é considerado um textão pelos jovens. Mas eu tenho uma versão mais curta que resume: no Rosário, as pessoas diziam ó.

(O ‘ó’ consta do Dicionário Houaiss, ao lado do oi e do olá, todos como interjeições. O ó pode ser usado como saudação reconhecida.)

Alegrete não tem culpa

Me disseram que o deputado Carlos Marun, da tropa de choque de Eduardo Cunha e agora braço direito do jaburu (e que admite a compra de votos na Câmara pelo governo), tem suas origens em família de libaneses do Alegrete.
E que ele gosta de contar por aí, meio que pra se exibir, que suas raízes são de lá da Fronteira. Era só o que faltava Alegrete levar a culpa. A direita tem cada um.
(Raramente falamos de política na Confraria do Alegrete, que reúne meus amigos da adolescência, mas vou propor que tratemos do assunto, apenas pelo aspecto cultural, no próximo encontro. O nome do Alegrete não pode ser citado em vão.)

Estrelas

Meu amigo Santiago andou por Itaqui no fim de semana. Perguntei na volta o que ele fez. Se tomou mate no galpão, se andou a cavalo, se comeu costela gorda ou se viu assombração.
O cartunista me respondeu com singeleza: vi um céu de estrelas bárbaro. Porque em Porto Alegre só se vê estrela na TV.
Pronto. Valeu a viagem de 1.300 quilômetros. Me lembrei então de uma crônica do Rubem Braga em que ele lamenta. Pobre Niterói, nem lua tem. Até a lua que se vê de Niterói é a lua do Rio de Janeiro.
Combinamos que no verão vamos a Alegrete olhar estrelas. Não há no mundo um céu mais estrelado do que o do Caverá, até porque o centro do mundo fica bem ali.

Alegrete

A Alegrete de Qorpo Santo, a cidade de Mario Quintana, de Lacy Osório, de Tyrteu Rocha Vianna, João Saldanha, Guto Pereira, Irene Sbrissa, Sergio Faraco, dos Fagundes, de Cyro Leães, Helio Ricciardi, da Maria Waleska van Helden e da Judete Ferrari, a única cidade que realiza passeata de loucos, a mais abusada das cidades do interior do mundo, Alegrete merece sediar a exposição Queermuseu, censurada pelo Santander.
Levem a transgressão que incomoda a direita para a cidade onde todos fazem literatura e arte e onde bois, ovelhas, cavalos, bombachudos, conservadores e outros personagens são apenas pretextos para que o atrevimento resista e transpire.

De mãos dadas

Acho que vamos esperar por muito tempo para ver no Brasil as cenas que todos viram esta semana em cidades da Holanda, quando homens héteros saíram de mãos dadas pelas ruas em solidariedade aos gays, depois da agressão sofrida por um casal homoafetivo.

Alegrete, onde tudo acontece (inclusive passeata de loucos), poderia liderar um gesto como este no Estado.

Que escolhessem um dia para que amigos, irmãos, vizinhos, primos, colegas de trabalho héteros saíssem de mãos dadas no Alegrete. Duvidam?

 

Orgulho louco

orgulholouco

 

Eu estava com o pé que era um leque para participar da VI Parada Gaúcha do Orgulho Louco, hoje no Alegrete.

Fui convidado pela Judete Ferrari para o painel da Roda de Conversa Mosaico da Resistência: valorizando a história e consertando a vida, que acontecerá na Praça Getúlio Vargas, mas não deu pra ir.

O grande momento do evento, organizado pela prefeitura, Fórum Gaúcho de Saúde Mental/Núcleo Alegrete e outras entidades, é a Parada com doentes mentais, profissionais da área e parceiros na luta pelo fim do preconceito e dos manicômios – familiares, amigos, militantes.

É gente que defende abordagens no tratamento da doença mental que não passem necessariamente pelo confinamento e por outras práticas há muito tempo consideradas controversas.

Ainda há profissionais da área que consideram a Parada depreciativa do doente mental. Não é. É uma ideia humanista, com rodas de conversa, oficinas de arte e muito humor.

Os que se incomodam são, na verdade, os que têm suas ‘sabedorias’ questionadas pelo encontro.

A Parada já é um evento nacional. Vale pela capacidade de integrar, de desmistificar, de abalar preconceitos e de alegrar.

Tinha que ser mesmo no Alegrete. Sorte para todos os envolvidos nesta festa tão bonita.