Estrelas

Meu amigo Santiago andou por Itaqui no fim de semana. Perguntei na volta o que ele fez. Se tomou mate no galpão, se andou a cavalo, se comeu costela gorda ou se viu assombração.
O cartunista me respondeu com singeleza: vi um céu de estrelas bárbaro. Porque em Porto Alegre só se vê estrela na TV.
Pronto. Valeu a viagem de 1.300 quilômetros. Me lembrei então de uma crônica do Rubem Braga em que ele lamenta. Pobre Niterói, nem lua tem. Até a lua que se vê de Niterói é a lua do Rio de Janeiro.
Combinamos que no verão vamos a Alegrete olhar estrelas. Não há no mundo um céu mais estrelado do que o do Caverá, até porque o centro do mundo fica bem ali.

Alegrete

A Alegrete de Qorpo Santo, a cidade de Mario Quintana, de Lacy Osório, de Tyrteu Rocha Vianna, João Saldanha, Guto Pereira, Irene Sbrissa, Sergio Faraco, dos Fagundes, de Cyro Leães, Helio Ricciardi, da Maria Waleska van Helden e da Judete Ferrari, a única cidade que realiza passeata de loucos, a mais abusada das cidades do interior do mundo, Alegrete merece sediar a exposição Queermuseu, censurada pelo Santander.
Levem a transgressão que incomoda a direita para a cidade onde todos fazem literatura e arte e onde bois, ovelhas, cavalos, bombachudos, conservadores e outros personagens são apenas pretextos para que o atrevimento resista e transpire.

De mãos dadas

Acho que vamos esperar por muito tempo para ver no Brasil as cenas que todos viram esta semana em cidades da Holanda, quando homens héteros saíram de mãos dadas pelas ruas em solidariedade aos gays, depois da agressão sofrida por um casal homoafetivo.

Alegrete, onde tudo acontece (inclusive passeata de loucos), poderia liderar um gesto como este no Estado.

Que escolhessem um dia para que amigos, irmãos, vizinhos, primos, colegas de trabalho héteros saíssem de mãos dadas no Alegrete. Duvidam?

 

Orgulho louco

orgulholouco

 

Eu estava com o pé que era um leque para participar da VI Parada Gaúcha do Orgulho Louco, hoje no Alegrete.

Fui convidado pela Judete Ferrari para o painel da Roda de Conversa Mosaico da Resistência: valorizando a história e consertando a vida, que acontecerá na Praça Getúlio Vargas, mas não deu pra ir.

O grande momento do evento, organizado pela prefeitura, Fórum Gaúcho de Saúde Mental/Núcleo Alegrete e outras entidades, é a Parada com doentes mentais, profissionais da área e parceiros na luta pelo fim do preconceito e dos manicômios – familiares, amigos, militantes.

É gente que defende abordagens no tratamento da doença mental que não passem necessariamente pelo confinamento e por outras práticas há muito tempo consideradas controversas.

Ainda há profissionais da área que consideram a Parada depreciativa do doente mental. Não é. É uma ideia humanista, com rodas de conversa, oficinas de arte e muito humor.

Os que se incomodam são, na verdade, os que têm suas ‘sabedorias’ questionadas pelo encontro.

A Parada já é um evento nacional. Vale pela capacidade de integrar, de desmistificar, de abalar preconceitos e de alegrar.

Tinha que ser mesmo no Alegrete. Sorte para todos os envolvidos nesta festa tão bonita.

Saquearam o caminhão das rapaduras

eu

Uma história do tempo antigo, da minha infância, do tempo desta foto, que decido contar agora com o bom pretexto da véspera do Dia da Criança.
Não, não é sobre a soma que aparece no cenário de papel que simulava uma biblioteca e que poderia, desde aquela época, explicar as acusações que sofro hoje de que sou petralha desde criança.
É que li ontem que dezenas de moradores do Complexo do Chapadão, na zona norte do Rio, se engalfinharam saqueando a carga de carne de um caminhão que havia sido furtado. Se a carne era roubada, que se roubasse do ladrão.
Não sei em que circunstâncias a carne foi parar no chão, a reportagem não conta. Mas o que importa é que foi saqueada.
Lembrei então que, na época em que fiz pose para essa foto clássica, no Grupo Escolar Alexandre Lisboa, do Alegrete, eu tinha uns sete ou oito anos, lá por volta de 1960.
Um dia cheguei ao colégio e quase todos na rua e no pátio se lambuzavam com rapaduras. Eu logo também ganhei de um amigo uma rapadura. E continuavam chegando crianças da minha idade, com no máximo 10 anos, com rapaduras enfiadas no bolso do tapa-pó.
Um caminhão com rapaduras havia tombado na Rua das Tropas, perto da escola. Foi saqueado. Quem vinha daquele lado, trazia rapaduras. Lembro que narravam que havia rapadura espalhada por todo lado. Eu comi a rapadura saqueada.
Mas eu queria que um dia alguém me explicasse o que significava o saque de um caminhão de rapaduras por um grupo de crianças, lá em meados do século 20, e um saque de caminhão de carne por adultos hoje.
O sentimento de que, se a carga estava tombada e talvez desperdiçada, não tinha mais dono seria o mesmo de hoje? Com que variações, com quais entonações?
Não me lembro de ter percebido esse dilema circulando pelo colégio. O que sei é que comi rapadura saqueada. Mas tenho a impressão, apenas a impressão, de que naquela época até os saqueadores infantis eram mais românticos e inocentes do que os infratores de hoje.
Olho a minha foto agora e ainda penso que não participei da pilhagem, e sinto como se fosse hoje o gosto daquela rapadura. Eram tempos parecidos com o de hoje, quando a direita começava a se apoderar de novo do país.
Mas eles, sim, nos saqueiam quando bem entendem.

O laçador e o homem do Jaburu

Muitos da minha geração, na infância e na adolescência, queriam chutar uma bola com a categoria do Pedrinho (o barulho que ele fazia era diferente), o 10 do Guarani do Alegrete. Outros queriam ser parecidos com o Darcy Fagundes, ou o Mario Quintana, ou o Oswaldo Aranha, para poder discursar na ONU.
Eu queria laçar como o Juvenal, capataz do meu tio Pedro na Fazenda Santa Teresa. Ninguém laçava como o Juvenal no Caverá. De cada 10 tentativas de pealo, ele acertava nove.
Quando eu estava tentando chegar perto do Juvenal no tiro de laço, ainda guri, desloquei o ombro direito.
Já na adolescência, tentei ser um Pedrinho, mas a asma de um inverno ventoso me tirou definitivamente do futebol. Eu estava quase perto de ser um Pedrinho.
Falo disso, no 20 de Setembro, porque o que eu queria mesmo era ser laçador. Uma asma ou um ombro fora do lugar podem acabar com um talento.
Não tenho provas, mas tenho certeza e testemunhas de que teria sido um grande laçador.
É o destino. Poucos conseguem ser um Juvenal, um Pedrinho ou um Oswaldo Aranha. Agora há pouco, o chefe do Palácio do Jaburu discursou na ONU.