Que espetáculo

A imagem mais comentada da sessão de ontem do Supremo é a da ministra Carmén Lúcia tropeçando nas próprias frases. Caindo, levantando-se, juntando cacos de argumentos, caindo de novo.

É só no que se fala hoje. Na ministra que deu o voto de minerva em favor do ponto de vista do Senado, apesar de ‘concordar’ com o voto do relator Edson Fachin. Concordava no essencial e discordava apenas em um detalhe. O detalhe era o essencial.

Carmén Lúcia seria a imagem acabada da confusão que o Supremo transmite aos mortais. Mas a melhor imagem do Judiciário atrapalhado pode ser a do ministro Alexandre de Moraes, o escolhido pelo jaburu. Moraes é alguém engasgado por tantas ideias ofegantes. Respira mal e está sempre um tom acima do que seria normal.

Se Moraes fosse um carro, seria um carro antigo com dupla carburação, em que um carburador nunca se entendia com o outro. Parece que a qualquer momento ele pode interromper sua argumentação e dizer: esperem, vou ver qual carburador está desregulado e começar de novo.

Se alguém de fora perguntar se as instituições funcionam no Brasil, mostre um vídeo de Alexandre de Moraes desregulado. Aquele emaranhado de pensamentos, com frases em que o sujeito vagueia atrás de verbos e predicados, aquilo é o Brasil hoje.

Que espetáculo o Supremo ofereceu ontem pela TV. Como diria Romero Jucá, assim se cumpriu o anunciado, com eles todos, com Moraes, com Carmén Lúcia, com Gilmar Mendes, com tudo.

O tucano de Haia

Fiquei sabendo que professores de Direito de universidades diversas suspendem as aulas na hora do Jornal Nacional para que seus alunos assistam (alguns, em êxtase) às explanações diárias do ministro Alexandre de Moraes.
É a ressurreição do brilho e da exuberância retórica de um magistrado, como há muito não se via, que o JN nos oferece quase todos os dias quando Moraes apresenta os argumentos para seus votos.
Seria, como diria um crítico literário do século 20, um estilo gongórico-parnasiano-enrolativo do século 19. Moraes nos dá a sensação de um carro que se esforça para correr em segunda.

Que prestígio

Cena de Poderoso Chefão na prestigiada posse de Alexandre de Moraes no Supremo. Dez delatados e denunciados em algum momento pela Lava-Jato estavam lá para beijar a mão do homem indicado para o cargo pelo chefe de um governo lotado de corruptos.
Além do padrinho, apareceram, na maior cara de pau, Eliseu Padilha, Eunicio Oliveira, Rodrigo Maia, José Serra, Aécio Neves, Aloysio Nunes, Geraldo Alckmin, Beto Richa e outros menos votados.
E o Jornal Nacional e o povo preocupados com a cabeça de porco na salsicha da Friboi.

O golpe e a censura

Um ex-ministro da Justiça, agora ministro do Supremo, censurando um ex-ministro da Justiça. Só mesmo no inacreditável Brasil do golpe.

Alexandre de Moraes recorreu à Justiça e conseguiu que, por determinação da juíza Cristina Inokuti, da 3ª Vara Cível de São Paulo, uma entrevista do ex-ministro Eugênio Aragão seja evaporada do site do PT.

Moraes considera a entrevista injuriosa, por conter informações que diz serem falas.Watch Full Movie Online Streaming Online and Download

Todos aprendemos que, se injúria, calúnia ou difamação são perpetradas, o ofendido pode pedir reparação.

O ministro Gilmar Mendes pode indicar como se faz isso, pois costuma processar quem o critica, como fez com a atriz Monica Iozzi, condenada a lhe pagar R$ 30 mil como indenização por frases e palavras consideradas ofensivas a sua honra.

Mas censurar uma entrevista antes da avaliação cuidadosa dos danos ‘morais’ que podem vir a ser causados por seu conteúdo? Tirar de alguém o direito de se expressar, mesmo que este se manifeste sob o risco de cometer um delito? Que seja acusado, denunciado, processado e, se for o caso, punido. Mas não com a censura ao que pensa. Quem tem certeza (Moraes?) de que Aragão mente?

Preparem-se, porque esta é uma das etapas do golpe. Eles vão banalizar os recursos à Justiça para censurar e espalhar o medo. Esperem pela proliferação de ações por reparação moral.

O Judiciário seletivo talvez seja hoje a arma mais ameaçadora à disposição dos que chegaram ao poder com o golpe de agosto.

A sabatina e a tese

Vale a pena dar uma espiada nas perguntas que foram encaminhadas ao Senado por cidadãos comuns, com sugestões para a sabatina do tucano Alexandre de Moraes na terça-feira.

Este é o link:

https://www12.senado.leg.br/ecidadania/visualizacaoaudiencia?id=10297

São mais de 400 perguntas, a grande maioria com interrogações e comentários que desqualificam o candidato. Nunca antes um candidato ao Supremo foi tão desrespeitado por suas atitudes contraditórias ou suspeitas.

Uma pergunta recorrente é sobre a famosa tese de doutorado em que Moraes defende que um governo não pode indicar alguém em cargo de confiança para ministro do Supremo.

É a grande questão: como confiar em alguém que passa anos estudando para formar uma convicção acadêmica (e na área da Justiça), convence uma banca de sábios de que está certo, vê sua tese aprovada e logo depois a despreza em nome de interesses pessoais?

Moraes estudou na USP, uma universidade pública. O contribuinte pagou por uma tese que não vale nada para quem a defendeu. A eleitora Débora Paiva sugere que o título do tucano seja cassado.

A sabatina poderá derrubá-lo, ou isso é otimismo demais?

 

 

Pergunta de cliente

Aécio Neves, cliente de Alexandre de Moraes, delatado uma dúzia de vezes na Lava-Jato, sob investigação em dois inquéritos autorizados pelo Supremo (mesmo que ninguém sabia o andamento disso), vai fazer perguntas ao ministro do Jaburu que pretende ser ministro do Supremo.

A sabatina de terça-feira será o grande show de 2017. Imagine as perguntas e as respostas. O golpe e os tucanos chegaram à arte. Agora, são personagens grotescos da Escolinha do professor Raimundo.

O currículo

Está disseminada a suspeita de que Alexandre de Moraes tem formação acadêmica, digamos, frágil e em desacordo com o que se propala a respeito dele. Como ainda é suspeita, eu não compartilho as informações que li sobre o currículo lattes do homem.
Qualquer sabatina em barco de pesca descobriria que eu não estou habilitado a localizar e decifrar incongruências na formação do candidato. O que espero, agora com ansiedade, é a sabatina. A sabatina de Alexandre de Moraes vai parar o Brasil.
(Tem gente tão assustada com as informações e os movimentos do jurista do Jaburu que chega a sentir saudade do outro pré-candidato, aquele com grande saber jurídico, mas que tem medo de mulheres e de gays.)

E se fosse uma jangada?

Está na nota oficial de Alexandre de Moraes sobre a noitada com senadores na Chalana Champage, em Brasília:
“A reunião foi agendada no endereço QL 22 Conjunto 10 casa 20. Compareci e fui surpreendido que a reunião ocorresse em um barco atracado nessa residência”.
O jantar com os sujeitos acusados de corrupção (e que vão sabatiná-lo no Senado) não significa nada. O detalhe que o preocupa é que foi realizado num barco.
A chalana é apenas o agravante, doutor Moraes, assim como se tivesse sido realizada numa jangada.

A chalana

A noitada de Alexandre de Moraes com um grupo de senadores investigados por corrupção, na chalana Champagne, em Brasília, é desmoralizante demais para o Supremo.
O governo e o Congresso deixam claro que pretendem transformar o STF num puxado do Palácio do Jaburu.
O Brasil todo está nesta chalana, mas sem direito à champanhe. Somos todos serviçais resignados das festas do Jaburu.

Notório saber

Todo cidadão pode encaminhar perguntas ao candidato a ministro do Supremo Alexandre de Moraes, quando da sabatina no Senado.
Seu Mércio me encaminhou uma pergunta e pediu que eu a enviasse à sua excelência o senador Edison Lobão, presidente da Comissão de Constituição e Justiça, denunciado por delatores e investigado como corrupto.
Esta é a pergunta que seu Mércio gostaria de fazer a Alexandre de Moraes:

Com a data venia de seu notório saber, nóis fugimo ou nóis fiquemo?