O MINISTRO, O POLÍCIA E O QUADRILHEIRO

Assim caminha a democracia à brasileira. Encurralado pelo caso dos laranjas de Minas que abasteceram sua campanha, Bolsonaro chamou hoje o ministro da Justiça ao Planalto para tratar do assunto.
Mandou que Moro levasse junto o diretor-geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo, que é subordinado ao ex-juiz e é quem investiga o laranjal.
Depois de conversar com os dois bem mandados, Bolsonaro clamou Álvaro Antonio, o ministro que chefiou os laranjas e já foi denunciado pelo Ministério Público como comandante da quadrilha mineira.
Num curto espaço de tempo, Bolsonaro reuniu-se com um indiciado, um policial chefe da corporação que o indiciou e o chefe geral da mesma polícia.
Só faltou o Queiroz.

VAI SOBRAR A COLEIRA

A Folha segue batendo forte em Bolsonaro e Sergio Moro, para manter o ritmo do fim de semana, quando deixou claro que não dará folga aos dois:

1. As manchetes do jornal impresso e da versão online tratam do mesmo assunto, o laranjal mineiro de Álvaro Antonio, que pode ter financiado a campanha de Bolsonaro. Essa é a manchete online, mantida durante toda a manhã:

Polícia Federal sugere nova apuração sobre caixa 2 em campanha de ministro de Bolsonaro

2. No editorial, com o título O valor da prova, a Folha defende que sejam submetidas a perícia as conversas entre os lavajatistas, vazadas pelo Intercept e pela própria Folha, para que finalmente se esclareça a autenticidade das mensagens com os conluios entre Moro e Dallagnol:

“Os arquivos originais estão em poder da polícia e do STF. Submetê-los a uma análise técnica sobre sua integridade é passo preliminar indispensável para que seu conteúdo possa ser debatido pelo Judiciário com profundidade”.

3. Leandro Colon, diretor da Sucursal de Brasília, escreve uma coluna inteira de críticas a Moro e pergunta, ainda sobre o laranjal e o envolvimento da campanha de Bolsonaro no caixa dois de Minas:

“Diante das novas suspeitas, a PF, subordinada ao Ministério da Justiça, terá coragem e autonomia para investigar a campanha presidencial?”

4. O colunista Celso Rocha de Barros segue na mesma toada e levanta uma dúvida sobre a capacidade de resistência de Bolsonaro e de Sergio Moro:

“Essa será uma boa oportunidade para medir o quanto da aprovação de Bolsonaro ainda é lavajatismo, e o quanto o lavajatismo dos bolsonaristas era só oportunismo”.

5. Na coluna Painel, Daniela Lima conta que ministros do Supremo ficaram surpresos com a reação de Moro, ao sair em defesa de Bolsonaro e revelar que tem conhecimento de sindicâncias sigilosas da PF.

6. O melhor mesmo é a charge de Montanaro com Bolsonaro derrubando a estátua de Sergio Moro, que é puxado pela coleira.

MORO E OS LARANJAS

Sergio Moro no Twitter defendendo o laranjal que, segundo manchete da Folha, abasteceu a partir de Minas a campanha de Bolsonaro com caixa 2:
“PR @jairbolsonaro fez a campanha presidencial mais barata da história. Manchete da Folha de São Paulo de hoje não reflete a realidade. Nem o delegado, nem o Ministério Público, que atuam com independência, viram algo contra o PR neste inquérito de Minas. Estes são os fatos”.
Interessante a frase final: estes são os fatos.
Moro vai ser comido por Bolsonaro, pelo Congresso, pela Globo (que daqui a pouco embarca sem atalhos na campanha de Luciano Huck) e pelo Supremo.
O ex-juiz terá de disputar espaço com Bolsonaro entre os ricos, os racistas da extrema direita e entre os milicianos.

BOMBAS, BENGALAS E TRAVESSEIROS

Duas bombas no bolsonarismo, as duas na Folha, que vem rearticulando forças contra a extrema direita.
A primeira: Álvaro Antonio, o ministro do Turismo do esquema de laranjas em Minas, era guarda-chuva do esquema geral de caixa 2 de Bolsonaro, segundo um assessor do mineiro.
Por isso Bolsonaro, que rifa até generais inimigos de Carluxo, protege tanto o homem.
O chefe dos laranjas já foi indiciado pela Polícia Federal e mesmo assim é mantido no cargo.
A outra bomba é o ataque direto de Rodrigo Maia (leia-se como recado da Câmara) a Sergio Moro por pressionar o Congresso para manter a imagem de justiceiro.
Maia diz que, se o ex-juiz fosse mesmo levar a sério algumas das suas teses do combate ao crime, hoje ele não seria ministro mas réu. É forte.
E ainda tem a briga de travesseiros e bengalas do general Augusto Heleno com Fernando Henrique. A primavera promete.
Até novembro, o Congresso passa a governar e Bolsonaro ficará apenas brigando com ciclistas sobre o Queiroz.