AS CIDADES DESCONHECIDAS

Sempre vejo Porto Alegre como uma cidade dividida ao meio. A cidade do sul e do oeste pouco se encontra com a cidade do norte e do leste.
Sempre haverá alguém dizendo: se fores ao cinema, ao Theatro São Pedro, ao Araújo Vianna, vais encontrar os mesmos rostos conhecidos desse lado de cá de onde moras. Os rostos desconhecidos são os da zona norte ou do entorno da Grande Porto Alegre.
Não é exagero. Há mais de 10 anos, convidei o professor, poeta e tradutor Donaldo Schüler a andar pela zona sul. Donaldo é morador da zona norte e não conhecia quase nada da Aberta dos Morros, de Belém Novo, da Restinga, do Lami.
E levei o escritor Sergio Faraco, morador da zona sul, a passear pela zona norte. O estranhamento era o mesmo. Faraco nunca havia andado pelas ruas do Jardim Lindoia, do Sarandi, do Rubem Berta. Publiquei as impressões deles em Zero Hora.
É a minha sugestão no dia do aniversário dessa cidade tão maltratada. Quem mora do lado de cá, do Viaduto Obirici para o centro e para os lados do Guaíba, que faça um dia, num fim de semana, uma aventura para o norte.
E que os moradores do norte se arrisquem a ir além de Ipanema e andem pelo sul profundo a partir da Aberta dos Morros que quase ninguém do norte sabe onde fica.
(A foto do Guaíba visto do cais é do meu amigo André Feltes)

O GOLPE DE 31 DE AGOSTO FAZ ANIVERSÁRIO

Eu me antecipo e, um dia antes, ofereço um bolo infantil a Eduardo Cunha, ao jaburu-da-mala, a Aécio, Serra, Fufuca, Jucá, Padilha, Geddel, Alckmin, Fernando Henrique Cardoso, Bolsonaro, Caiado, Raul Jungmann, Roberto Freire, Moreira Franco, Rodrigo Maia, Cristovam Buarque, Aloysio Nunes Teixeira, Pauderney, Zé Agripino, aos juízes seletivos, ao pato da Fiesp, aos jornalistas golpistas, aos subalternos de todos os políticos do golpe e a todos os seus cúmplices. Lambuzem-se. E aguardem porque mais adiante a festa pode ter alguns imprevistos.

O aniversário do PT

Em janeiro de 2003, saí à procura dos fundadores do PT, dos que assinaram a ata da reunião do dia 10 de fevereiro de 1980, no Colégio Sion, em São Paulo. E escrevi sobre suas lembranças de um projeto que estava chegando ao poder com a posse de Lula.

Olívio Dutra era um dos 12 que assinaram a ata e o manifesto de criação do PT. O outro gaúcho era Lourin Martinho dos Santos, líder dos operários da construção civil, que não fez carreira política. Localizei a maioria dos fundadores pelo telefone – quase todos militantes do sindicalismo urbano ou rural.

Contei essa história quando o PT fazia 23 anos e muitos de seus líderes ainda arrastavam sandálias. Hoje, o partido faz 37 anos sob ataques de todo lado. Dentro e fora de casa. Nenhum outro partido, nem o Partidão, se açoitou tanto na história brasileira.

A idade do PT é a de quem sabe que já deveria ter vencido indecisões, mas que às vezes não se reconhece na trajetória percorrida e vacila quanto à própria maturidade. Reavaliar-se é um mérito do partido, coisa que a direita, sem lastro teórico no Brasil que a sustente como ideia, nunca conseguiu fazer.

Não fui e não sou ligado ao PT. Mas sei que um partido com seu perfil merece ser salvo do inchaço, dos pragmatismos às vezes oportunistas e às vezes ingênuos, dos descaminhos dos que se corromperam, dos erros como governo e da ilusão fatal de que poderia sentar-se com os que um dia iriam comandar o golpe. Os petistas e as esquerdas superestimaram a capacidade da direita de aceitar derrotas e se submeter à democracia.

Nomes que conseguiram preservar suas histórias e suas reputações merecem, por obstinação, perseguir uma nova chance para o PT. Coisa que PSDB e PMDB, tatuados como golpistas, não merecem mais.