A AMPLIAÇÃO DAS MILÍCIAS

Está nos cantinhos dos sites. Nenhum jornal da grande imprensa teve o peito de dar em manchete a declaração de Bolsonaro ontem em Santa Maria, quando finalmente explicitou em discurso o objetivo do armamentismo bolsonarista:
“Nossa vida tem valor, mas tem algo com muito mais valoroso do que a nossa vida, que é a nossa liberdade. Além das Forças Armadas, defendo o armamento individual para o nosso povo, para que tentações não passem na cabeça de governantes para assumir o poder de forma absoluta. Temos exemplo na América Latina. Não queremos repeti-los. Confiando no povo, confiando nas Forças Armadas, esse mal cada vez mais se afasta de nós”.
(Vi ontem no Diário de Santa Maria os vídeos da visita de Bolsonaro. Havia uma certa euforia histérica nas ruas da cidade universitária. Tem alguma coisa na água e no ar de Santa Maria.)

ARMAS E CIGARROS

Prosperam em Brasília as mais variadas conclusões para a decisão de Sergio Moro de continuar no governo, apesar de ter uma ideia derrotada por dia.
Prevalece o entendimento de que Moro tem três tarefas que não pretende abandonar. Ajudar Bolsonaro a armar a população (mesmo sem fuzis), ver aprovado seu projeto que libera os policiais para que atirem em quem provocar fortes emoções e tocar adiante seu plano de salvação da indústria fumageira.
Armas, balas e cigarros estariam segurando o ex-juiz. O grande plano de combate à corrupção já foi pulverizado pela própria direita no Congresso.
E o sonho maior de um dia ser ministro do Supremo? Isso hoje seria, como um dia admitiu o próprio Moro, como ganhar na Mega Sena.
Na situação em que se encontra, Sergio Moro não ganharia nem ursinho de pelúcia em pescaria de quermesse.

O GESTOR GAÚCHO E AS ARMAS

A liberação de armas, principalmente fuzis, não é consenso nem entre políticos da direita alinhados com Bolsonaro.
Agora pela manhã, governadores de 13 Estados divulgaram um manifesto dirigido ao governo, ao Congresso e ao Supremo contra o decreto das armas.
Pedem a revogação imediata da liberação, porque temem o aumento da violência e da criminalidade.
Os governadores destes Estados assinam o documento: Maranhão, Piauí, Pernambuco, Ceará, Paraíba, Espírito Santo, Bahia, Rio Grande do Norte, Alagoas, Sergipe, Amapá, Amazonas, Tocantins e mais o Distrito Federal.
Até Helder Barbalho, do Pará, e Ibaneis Rocha, bolsonarista do Distrito Federal, assinaram o documento que li agora.
E o Rio Grande do Sul? O gestor gaúcho ficou quieto. Ele está acomodado ao lado dos governadores liberais de São Paulo, Minas, Goiás, Rio, Santa Catarina e Paraná, que não se queixam de nada do que Bolsonaro faz.
É de se perguntar também se o governador gaúcho decidiu não assinar o manifesto contra as armas porque a Taurus é daqui e está pronta para entregar 2 mil fuzis já encomendados por cidadãos do bem.
Esse é o gestor que se elegeu, com seu discurso tucano-fofo-rococó, com o voto de boa parte das esquerdas.

O EX-JUIZ NÃO SABE NADA

É comovente o esforço dos jornais (incluindo o Jornal Nacional) para dizer que Sergio Moro não teve nenhuma influência na maluquice do decreto das armas de Bolsonaro.
Este é o principal argumento para o desconhecimento. O governo mandou o decreto para o Ministério da Justiça e exigiu pressa. Não houve tempo para fazer uma análise aprofundada.
O JN fez questão de reproduzir o parecer da equipe de Sergio Moro com essa desculpa. Mais ou menos assim: vimos o decreto, fizemos algumas correções de forma, mas é como se o texto não tivesse passado por aqui.
É um pretexto furado, que em nada favorece o ex-juiz. Ao dizer que não se meteu no decreto, Moro tenta saltar fora das consequências da loucurada. Acaba dizendo que não é consultado para questões relevantes.
O ministro da Justiça não sabia nada da decisão de Bolsonaro de armar a população. Deveria saber. Deveria interferir, palpitar, assumir a condução de questão tão grave.
Mas Sergio Moro prefere dizer que não foi consultado a tempo. O que no fundo ele confessa é que Bolsonaro não quer saber da sua opinião. Sergio Moro é um ministro sem ter o que fazer, além de dizer que vai caçar facções.
Muitas das facções que deveria monitorar estão dentro do próprio governo que ele ainda tenta ajudar a salvar.

OS ARMADOS SÃO DONOS DAS RUAS

Por que os atiradores ‘esportivos’, caçadores e colecionadores foram liberados por decreto de Bolsonaro para que possam carregar armas municiadas entre o local onde moram e o local onde irão praticar tiros ou caçar? Caçar o quê?
Por que alguém precisa andar com uma arma carregada, se vai praticar tiro ao alvo? Por que ‘colecionadores’ (outra ‘categoria’ favorecida) precisam andar com armas municiadas pela cidade?
Por que soldados das Forças Armadas foram autorizados, pelo mesmo decreto, a andar armados nas ruas?
Preparem-se para os efeitos trágicos do decreto assinado hoje. Poderemos num incidente de trânsito estar diante de um maluco com uma arma municiada.
Poderemos estar daqui a pouco sendo peitados por ‘caçadores’ e ‘colecionadores’ que andam por aí com armas pesadas pelas ruas.
Qualquer maluco poderá virar colecionador, para poder sair com um arma carregada no banco do caroneiro, como se estivesse num filme do Tarantino?
Que história é essa? O que os generais pensam disso? Olavo de Carvalho é quem governa?
O que a cabeça de Bolsonaro (com a ajuda da cabeça cheia de biografias de Sergio Moro) está planejando?
Qual é o plano? E os ‘liberais’ acovardados continuarão calados?

SERGIO MORO E A VISITA DA TAURUS

Esta pode ser a suspeita mais grave desde o início do governo. Às vésperas do decreto de ‘flexibilização’ da posse de armas, o ministro Sergio Moro teria recebido representantes da Taurus em seu gabinete.
É gravíssimo. A Taurus, todo mundo sabe, é a grande fabricante de armas do Brasil e da América Latina. Não havia empresa mais interessada no conteúdo armamentista do decreto do que a Taurus.
O PSol mandou perguntar se havia registro da entrada do presidente, Salesio Nuhs, e de um diretor da Taurus no gabinete de Moro.
A resposta, que está agora na Folha online, é ridícula: o ministro nega o acesso a esse tipo de informação e não diz nem sim nem não, em nome do ‘direito à privacidade’.
A lei de acesso à informação e o dever da transparência obrigam ocupantes de cargos públicos a revelarem suas agendas, até porque não estamos em guerra (ou Moro acha que estamos, ou que os altos interesses bélicos da Taurus merecem tratamento de confidencialidade?).
Moro ainda pensa que está em Curitiba, sob a proteção de uma vara especial, da imprensa e da direita que o considera seu ídolo. Não está.
O nada a declarar é típico do período da ditadura. Mas a tentativa de drible de Moro no pedido de informação do Psol já vale como resposta. Está respondido.
(O interessante é que o Palácio do Planalto admite, em resposta a outra consulta do Psol, que Salesio Nuhs esteve na Casa Civil, antes da edição do decreto, e conversou com o chefe de gabinete de Onyx Lorenzoni, Marco Rassier. A Casa Civil não sonega informações sonegadas por Sergio Moro. A Taurus, quando as empresas ainda podiam fazer doações a políticos, foi uma das financiadoras da campanha de Onyx. É tudo misturado. Há mais armas nisso tudo do que as arminhas de dedinhos dos filhos de Bolsonaro.)

AS ARMINHAS

Esta charge da Laerte na Folha é a expressão do momento de degradação do bolsonarismo. Os Bolsonaros se declaram caçadores de bandidos, e muita gente acreditou e ainda acredita neles.
Mas o que vai ficando da família é a arminha de dedos. Nunca ninguém viu um bandido caçado por um Bolsonaro. O que se sabe é que certa vez um bandido tirou uma arma de Bolsonaro e levou sua moto.
E agora se sabe um pouco mais. Surgem as provas de que gente ligada ao chefe de uma das mais terríveis milícias do Rio, a mãe e a mulher desse chefe, trabalhava com Flávio Bolsonaro quando era deputado.
E o que diz o agora senador? Que as duas eram assessoras dele por indicação de Fabrício Queiroz, que ele não sabia de nada.
Flávio Bolsonaro, famoso caçador de bandidos, não sabia que duas assessoras, dentro do seu gabinete, eram da família de um miliciano cruel, que comanda um grupo de extermínio que mata por encomenda.
Os Bolsonaros, e não só o pai, são o que a charge de Laerte mostra.

Intrigas

A equipe de Sergio Moro espalhou para os jornalistas amigos que o seu decreto original sobre armas era mais fofo.
O decreto foi cair na mesa de Onyx Lorenzoni, que liberou o que foi possível em favor da indústria da arma.
Moro tentou bancar o bonzinho paz e amor, quase um pacifista na comparação com a linha dura da turma do Bolsonaro.
Claro que assim ele mede forças com Onyx e seus cúmplices do armamentismo. Se continuar fazendo intriga com esse pessoal, pode colocar a arma, ops, a viola no saco.
Moro ajnda não teve uma vitória no governo. Suas armas são fracas.

O avalista

É repulsivo o entusiasmo com que eles falam na liberação das armas. Lembrem-se sempre que Sergio Moro estava ao lado de Bolsonaro na assinatura do decreto.
E que Moro foi citado por Bolsonaro como o autor da ideia para que o governo pudesse ampliar, via decreto, o alcance da posse de armas. Moro é o avalista da corrida armamentista.