Deboche de R$ 89 MIL

O presidente do banco estatal de um Estado quebrado, com professores que recebem migalhas em parcelas, terá salário de R$ 89 mil.
Pode ser legal, pode se basear nos salários do Bradesco, pode parecer razoável num mercado financeiro em que nada é razoável.
Mas é muito mais do que inoportuno e desrespeitoso. É uma afronta imoral.
A direita sem escrúpulos, a pior de todas as direitas, a fofa bolsonarista dissimulada e encabulada, faz o que bem entende.
Quanto mais debocha, mais se fortalece com a idiotia política que a sustenta.

AS MOÇAS

Em 2013, o Banrisul fez a propaganda que só agora o Banco do Brasil teve a coragem de fazer e que acabou sendo censurada por Bolsonaro. Não era a mesma coisa, mas também tinha a essência da exaltação das liberdades e da diversidade associada aos jovens e ao atrevimento.
Na propaganda do Bansirul, sobre o que move as pessoas, em uma das cenas duas moças caminham de costas e revelam, em dois segundos, parte da mensagem que o Banrisul queria passar (olhem o vídeo).
É uma das propagandas mais lindas dos últimos anos, foi produzida pela Competence. Tem imagens e texto primorosos.
O Banrisul que tanto exaltava campos, tradições e cavalos, sempre associados ao conservadorismo, mudava seu olhar: dizia que estava com as mudanças, as diferenças, o respeito às moças e moços que namoram do jeito que querem namorar. Que cada um levasse adiante seus sonhos e seu jeito de viver, sempre respeitando o outro.
(E aqui acrescento, de carona, uma observação da minha amiga Walquires Maciel: a propaganda poderia ter mais negros. Digo eu: poderia ser menos branca.)
Escrevi a crônica As moças na Zero e fico feliz de ter ajudado a inspirar o então estudante Alex Pauletto Mello na sua monografia no curso de Comunicação da UFRGS.
Alex analisa a campanha do Banrisul em profundidade, e seu estudo deveria ser lido agora inclusive pelos reacionários (o link está abaixo).
Pois até ali, até aquele 2013, parecia que, mesmo aos solavancos, o mundo iria andar sempre pra frente. Começou a andar pra trás.
Nem sei se hoje, sob um governo estadual eleito com apoio do bolsonarismo, o Banrisul agora ameaçado de privatização faria algo parecido.

(Link para a monografia)
https://lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/88700/000913406.pdf?sequence=1&isAllowed=y&fbclid=IwAR19XJlrb5BrRcdcdEAj0Rj1OCdq8Zg-FjLf7TIBqWCCUesC6_HVrg42mKM

Nosso banco?

“O que faz um banco ser grande é a gente (o banco, no caso) falar a sua língua. É fazer aquilo que só um banco que é nosso pode fazer. E que por isso investe os recursos aqui no Sul. Porque é nosso.”

Essa lenga-lenga bairrista é de uma propaganda que vi na TV e no Youtube. Mostra ainda agricultores, maçãs, vinhos e a torcida Gre-Nal.

Tudo para dar ideia de vínculo com os gaúchos, com a terra, com as demandas e os sonhos do Estado.

Sabe de quem se trata? Do Banrisul, o banco dos gaúchos, segundo esse marketing gauchesco. Mas que conversa é esta de nosso banco, se todo mundo sabe que estão preparando o banco para venda?

O Banrisul e os bueiros

Estão dizendo com insistência que não vão vender o Banrisul. Agora, talvez não. Não hoje, nem amanhã, mas uma hora vão. É irreversível. Eles vão vender tudo no Brasil, no Rio Grande do Sul, na Bahia. A Caixa Federal, o Banco do Brasil, a Petrobras, os fios de cobre da iluminação pública, o serviço de água, tudo, tudo.

Se o juiz Sergio Moro dissesse que os delatores pertencem ao serviço público, como acreditam em tudo que o juiz diz, até os delatores seriam vendidos. Tudo se vende hoje, se a coisa pertence ao Estado, ou seja, se é de todos nós.

Vendem a preço de banana, de alface, de rabanete. Os homens no poder hoje, na maioria das cidades e Estados, foram programados para vender ou fechar tudo. A única tarefa deles é se desfazer do que o setor público tem.

Os serviços podem ficar ainda piores, porque assim eles venderão o que sobrar, sempre sob o argumento de que não funcionam.

Os governantes hoje são tarefeiros dos que pretendem se apoderar de todo o Estado. É uma tarefa velha, se sabe, mas que foi aperfeiçoada com os efeitos ‘moralizadores’ do golpe.

Aqui no Rio Grande do Sul, quando venderem o Banrisul e o pouco que resta, sobrará para o Estado apenas o Sartori.

A prefeitura de Porto Alegre ficará apenas com as tampas de bueiros que estão afundando. O prefeito da Capital daqui a pouco será gestor de tampas de bueiros que afundam. Se é que não vão quer vender os bueiros.