Pega o haitiano

Um retrato do Brasil nas areias de Balneário Camboriú. Fiscais da prefeitura passam a manhã correndo atrás dos haitianos que vendem óculos.
Mas a prefeitura deixa numa boa os caras com as caixas de som esculhambando com a praia. E uma lei municipal diz que som alto é infração a ser punida com multa.
Liga-se para o 153, reclama-se, dizem que vão mandar a guarda municipal, mas não aparece ninguém e não acontece nada.
E daqui a pouco passa outro haitiano em disparada e um fiscal correndo atrás.
Ao fundo, ao redor, por toda parte, o som na caixa. Alguém grita desesperadamente, como se cantasse, para que a mulher volte pra casa.
E tem gente querendo entender o que se passa no Irã.

Os sons, de novo

Escrevi ontem sobre a lei que pune motoristas que estejam em carros (andando ou parados) com som que possa ser ouvido fora do veículo. Não interessa se o som é alto ou baixo. Se for ouvido fora do carro, é infração.
Pois bem. Às 17h de domingo, entrei na Avenida Guaíba, em Ipanema, e percorri o trajeto de uns quatro quilômetros, desde o cotovelo, logo depois do Bologna, até o Guarujá. Ali na beira do Guaíba está o foco da bagaceirada que vem de todas as regiões de Porto Alegre para infernizar a vida dos moradores aos domingos.
Encontrei três automóveis com som que poderia ser ouvido na rua. Um andava logo atrás do meu carro, com o clássico som bate-estaca, a todo volume.
Os outros foram encontrados mais adiante, parados, com som médio, mas chato. Não encontrei um brigadiano ou um azulzinho para perguntar: quem de vocês multa estes caras?
E agora digo o que eu acho: essa lei não pega. Só vai pegar se algum preso na masmorra de Curitiba delatar um motorista com o som alto. E, claro, se o motorista for do PT.

Os sons ao redor

mafalda

Eu até ouviria em casa algumas músicas que meu vizinho me obriga a ouvir. Mas eu não ouço música em volume alto. E quando vem da casa dos outros, aquela não é a música que quero ouvir. Então, essa história de que o vizinho não ouve só pancadão não é um consolo.

Ouço tudo o que não quero nos fins de semana e muitas vezes durante a semana mesmo. E não é o som do cortador de grama, da musiquinha do caminhão de gás (que não deveria existir, segundo a lei) ou do aspirador de pó do homem que limpa o carro duas vezes por dia. Às vezes, é bossa nova das antigas.

Mas ninguém aguenta João Gilberto sábado e domingo. E agora ainda morre o Leonardo Cohen. E o vizinho descobre o Leonardo Cohen.

É a música alheia que incomoda, não necessariamente a alta como a de festas eventuais (o que é aceitável). É a música-mosca varejeira, que fica zunindo, alternando som alto e médio, que às vezes parece sumir e volta, mas é intermitente, como se estivesse em um chip descontrolado dentro da nossa cabeça.

O som de mosca-varejeira é o pior, porque é uma agressão às vezes sutil, que consome nosso estoque de tolerância com a vida em comunidade. Reclamar? Não tem pra quem.

Só se fosse para alguém da força-tarefa da Lava-Jato, porque eles são durões. Mas o pessoal da Lava-Jato só reagiria se a música fosse de alguém do PT. O Aécio, por exemplo, pode ouvir música alta quando quiser.

O certo era fazer valer para tudo, e inclusive casas e apartamentos, a lei que vale desde outubro para os carros. Desde outubro, qualquer som que saia de um carro, baixo ou alto, provoca multa. Não sei se estão fiscalizando, mas a lei existe. O grande teste será no veraneio deste ano.

Mas e a música-varejeira que vem do vizinho? Mais a voz de locutor de quermesse do Temer, com aquelas frases do século 19 (e não há lei que controle), a voz do Meirelles com um ovo na boca anunciando a austeridade todos os dias, o som da voz do Serra… Os sons estão cada vez mais insuportáveis.