Folha entrou na farra do pibinho

A Folha decidiu tocar o tambor da Globo. O povo percebeu, diz a Folha, que a economia cresceu fantásticos 0,6% no trimestre. É a farra do pibinho manipulado.
Teria sido por isso, por causa desse fabuloso PIB, que a rejeição a Bolsonaro não aumentou e até caiu de 38% para 36% de agosto para o início de dezembro. É o que informa a pesquisa do DataFolha.
Que bobagem. Como a população vai perceber o que não pode ser percebido? Como o brasileiro vai se dar conta, com o aumento da informalidade (que mascara o desemprego), que a economia cresceu 0,6%, se esse índice pode na verdade ser uma fraude?
Essa inércia do um terço bolsonarista (até melhorou um ponto de 29% para 30%), que segura um eventual aumento da rejeição, já foi assimilada e está muito clara na própria pesquisa. Ricos, brancos, ‘empreendedores’, evangélicos (onde estão os pobres da extrema direita) continuam apoiando Bolsonaro.
Quanto mais cruel ele for com o povo e mais besteiras produzir, mais o apoio se reafirma.
Do outro lado, uma maioria de mulheres, negros, jovens e desempregados não aceita o seu governo. É assim desde o começo. Mesmo com a hipnose do FGTS.
Pode mudar? Claro que pode, se todos os brasileiros acertarem a Mega Sena. O que Globo e Folha devem achar possível.

CONFIAR EM QUEM?

Não há o que comemorar com o fato de que 80% da população diz não acreditar ou desconfiar das declarações de Bolsonaro, segundo o Datafolha.
Dois outros dados alarmantes aniquilam essa informação. O primeiro é este: 19% dos entrevistados pelo mesmo Datafolha confiam sempre no que Bolsonaro diz. É muita gente que confia sempre.
O outro dado é da pesquisa da Veja sobre intenção de voto às eleições de 2022. Bolsonaro é candidato apresentado como imbatível.
E aí está a desconexão reveladora do que é o Brasil hoje. Num país em que 80% da população não confia no que o seu presidente diz, mesmo assim ele seria reeleito.
Uma das pesquisas está errada ou manipulada, ou o povo é que está desnorteado, ou as duas coisas juntas.
Chegamos ao ponto em que não confiamos no presidente, nem nas pesquisas e muito menos no povo, porque um tenta enganar o outro e todos acabam enganados.

A MENTIRA

Quem mentiu, Sergio Moro ou Bolsonaro? A hipótese mais razoável (e mais alarmante) é a de que Moro mentiu para Bolsonaro no caso dos laranjas do PSL.
Bolsonaro inventou um documento? Sergio Moro forjou um documento?
Este é o começo da matéria da Folha sobre as mentiras.
“Inexiste o documento que o próprio presidente Jair Bolsonaro disse, em junho passado, ter recebido do ministro Sergio Moro (Justiça) sobre o inquérito da Polícia Federal acerca dos laranjas do PSL, de acordo com a versão apresentada pela CGU (Controladoria-Geral da União), órgão do governo federal.
A CGU é comandada por um ex-oficial do Exército, Wagner Rosário.
A manifestação da CGU é resposta ao recurso feito pela Folha a partir de pedidos recusados duas vezes por Moro dentro da Lei de Acesso à Informação.
A CGU deu parecer sem pedir explicações adicionais à Presidência e ao Ministério da Justiça, sob o argumento de que as informações constantes no processo digital “foram suficientes para a formação da opinião técnica”.
O artigo 23 do decreto que regulamentou a Lei de Acesso diz que a CGU “poderá determinar que o órgão ou entidade preste esclarecimentos”. A Controladoria abriu mão dessa hipótese e escreveu que “não houve necessidade de interlocução” com a finalidade de obter esclarecimentos adicionais”.
E assim segue o baile. Sergio Moro enrolou Bolsonaro para fazer média com o chefe? Bolsonaro usou Sergio Moro?

OS FALSOS BOLSONARISTAS

Quais são os maiores estragos do bolsonarismo? O maior, o dano indiscutível, é o da destruição do que resta de coesão social. No sentido mais amplo, do extermínio de conquistas elementares de pobres e miseráveis.

O cineasta Fernando Meirelles abordou, em declarações desta semana, o que talvez seja outro dano ainda não bem medido e que pode ser, pelo menos para a classe média, maior do que os prejuízos econômicos e políticos, que um dia serão reparados.

Até os danos nas áreas da educação, da cultura e dos costumes poderão ser revertidos com o fim do período de trevas. Mas um estrago é profundo. Bolsonaro dividiu as famílias e os afetos ao meio, em alguns casos com embates irreversíveis.

“Famílias estão se separando por causa desse cara. Isso é realmente estúpido, e ninguém fala com o outro. Então, a tolerância se torna algo realmente raro no meu país”.

Podem dizer que essa é uma conversa antiga, só dos brancos, e que os bolsonaristas já existiam (e existiam mesmo), em outro estágio, e que a extrema direita só exacerbou o que era administrado. Os reacionários mudaram de nível e chegaram ao topo.

O reacionarismo antes encoberto, protegido pelo tucanismo, controlado por algum esquema familiar de moderação, agora está liberado. O fracasso do golpe liderado pelos tucanos contra Dilma gerou Bolsonaro, criado pelos próprios tucanos.

O que Meirelles diz parece óbvio e repetitivo, mas o Brasil precisa ouvir frases óbvias, para que uma hora saia do atoleiro do bolsonarismo.

A ação política reparadora de condutas terá de ser feita dentro de casa, para que pretensos bolsonaristas voltem a ser apenas coxinhas. Coxinhas chatos, mas toleráveis.

Há muita gente que pensa ser bolsonarista mas não é. Não são ideológicos, nem pragmáticos, são ocasionais, eventuais, estão no lugar errado com a turma errada.

São falsos bolsonaristas. Esses precisam de uma conversa, como aconteceu no fim da ditadura. É dureza, mas não tem outro jeito. Quem começa?

Só olhando

Passei perto do balcão de carnes do Zaffari da Aberta dos Morros, só para dar uma olhada. Fiquei com a sensação de que a maioria faz a mesma coisa.
O quilo da picanha está por R$ 78. As pessoas andam de um lado pra outro, simulando que estão escolhendo. A moda agora é fingir que se compra carne.
Circulam, pegam alguns cortes, fazem uma onda, largam e levam um quilo de pão de alho por R$ 20.
O Zaffari poderia criar dois ambientes: carne para levar e carne para olhar.
O bolsonarismo está testando nossa sanidade.

AS IGNORÂNCIAS

Por que, apesar das crueldades contra o povo, Bolsonaro ainda seria um candidato forte para enfrentar Lula em 2022?
Porque a ignorância é um fator cada vez mais decisivo na realidade brasileira.
Mais do que o reacionarismo da classe média decadente. Mais do que o crescimento do extremismo de direita com lastro ideológico. Mais do que o egoísmo das elites.
As esquerdas profissionais não gostam muito de tratar desse assunto, porque isso mexe com erros históricos. Mas eu sou da esquerda amadora.
As ignorâncias determinam o que o Brasil é hoje. Porque viraram poder e, de fora, sustentam o poder.

Param lá e aqui

Os franceses paralisaram Paris ontem e se preparam para a mobilização do século, marcada para terça-feira, dia 10. Vão parar toda a França contra as reformas de Macron.
Os brasileiros querem parar todo o Brasil no dia 21 de dezembro, quando o Flamengo enfrentará o Liverpool na final do Mundial de Clubes.
Será mais fácil, porque acontecerá num sábado.

As mulheres e as entranhas do bolsonarismo

São valentes os machos que atacaram Dilma em matilha dentro do avião. Os machos do bolsonarismo se unem para atacar mulheres, negros, pessoas com deficiência, índios e idosos.

O bolsonarismo é um ajuntamento de homens que temem as mulheres. No mundo instável do bolsonarista inseguro, a mulher é sempre a maior ameaça.

Ex-aliadas devem contar o que sabem desse mundo. Joice Hasselmann precisa ir além do que revelou sobre a conversa em que Bolsonaro referiu-se a uma deputada aliada como prostituta.

Denúncias sobre envolvimento com milícias, brigas pela dinheirama do partido, laranjas e tantas outras denúncias que ninguém investiga são repetitivas.

O bolsonarismo pode ser abalado por revelações das mulheres
que conviveram com algumas das facções, dentro ou fora do governo.

As mulheres devem falar, como algumas já falaram sobre como os homens do PSL usavam suas amigas para dividir a grana do fundo partidário entre os machos. Mas ainda é pouco.

Precisamos saber mais desse mundo que se manifesta em toda parte, inclusive dentro de aviões, onde o macho bolsonarista de gravata se sente mais seguro.

Os machos bolsonaristas, cúmplices da pregação que levou ao assassinato de Marielle e à matança de mulheres, precisam ser desmascarados pelas próprias dissidentes do bolsonarismo.

E está na hora de ver as mulheres brasileiras fazerem o que as mulheres chilenas fazem quase todos os dias, indo para as ruas para atacar não só o pinochetismo de Piñera, mas também o fascismo cotidiano.

Uma Dilma sozinha pode reagir, como reagiu com bravura, mas até quando? O Brasil ficaria bonito com milhões de Dilmas, Marias do Rosário, Djamilas, Manuelas, Marielles e Beneditas nas ruas.

VÍDEO: “Ótimo é o Bolsonaro, que defende milícia”, diz Dilma a bolsonaristas que a hostilizam em avião