OS JOVENS E A CLASSE MÉDIA

Escrevi para o jornal Extra Classe online sobre os cinco anos dos protestos do inverno de 2013 e lancei mais perguntas do que afirmações.
Mas vou esclarecer um ponto da minha posição, para que não especulem sobre o que não escrevi.
Entendo que quaisquer tentativas de ver as passeatas pós-junho de 2013 como uma cauda dos movimentos iniciados pelos estudantes no começo daquele ano em Porto Alegre (e não no Rio, como muitos analistas acham que foi), comete um erro brutal.
O que vem depois, com a classe média que vai às ruas (nunca vi tanta tristeza em passeatas como aquelas) não tem nenhuma relação com os impulsos dos jovens que se mobilizam com força a partir do começo de 2013.
Os jovens tinham seus motivos variados para sair às ruas e queriam desafiar, transgredir e serem jovens. Protestaram contra o aumento da passagem do ônibus, contra o Fuleco, contra o governo e o que viesse pela frente. Mas eram na essência jovens em movimento, não eram golpistas.
Já a classe média assustada com a ascensão dos pobres, que engrossa as mobilizações de rua a partir do inverno de 2013, tomando a inquietação das mãos dos estudantes, tinha apenas suas incertezas e seus medos.
Os jovens que em algum momento perdem o controle dos protestos para a Globo e Sergio Moro estavam sendo jovens. E a classe média estava tentando se manter como classe média.
Dizer que os movimentos de rua iniciados pelos estudantes têm alguma relação com as passeatas da classe média desiludida, porque essas vêm na sequência e nas ruas, é mais ou menos como querer ver Trump como uma continuação de Obama só porque ambos ocuparam a Casa Branca.

O IMBECIL DA ERA DA LAVA-JATO

O macho que foi a Moscou para tentar debochar das mulheres russas é um aparentado do homem do relho. Todos têm uma conexão entre si e se consideram imunes a qualquer abordagem da lei, mesmo na Rússia.
Eles não são babacas fazendo bobagens porque não pensaram nas consequências. São, ao contrário, sujeitos que pensam no que fazem e se consideram inalcançáveis por qualquer consequência.
Os imbecis dos vídeos de Moscou são os empoderados pela inspiração da Lava-Jato. A direita arcaica, nas suas manifestações diversas, tudo pode, inclusive na Copa e em qualquer parte do mundo.
Os idiotas de Moscou, que certos jornalistas fofos consideram apenas rapazes mal-educados e inconsequentes, são parte do contexto do golpe, da perseguição às esquerdas, do encarceramento de Lula e do aparelhamento das instituições.
O babaca de Moscou se acha protegido pelo golpe e seus desdobramentos, porque o golpe é consequência do seu apoio. O golpe lhe deve favores.
Aqui ele não é “apenas” machista, é um fascista fantasiado de verde-amarelo. Lá ele se apresenta como um engraçadinho.
O bobalhão dos vídeos se acha dono de tudo, inclusive em Moscou. Dono da piada, das grosserias, do machismo e das mulheres russas.
O imbecil brasileiro de direita foi aperfeiçoado pelo golpe, que o estimula a ir em frente. Ele mesmo é um golpista a passeio, que talvez nem veja os jogos.
Ele quer fuzarca e exibicionismo. O imbecil dos vídeos quer dizer que foi a Moscou só para azarar e que mesmo lá nada de errado acontecerá com ele. A soberba do fascista se manifesta onde ele estiver.

O EXEMPLO DE OLÍVIO

Muita gente acha que eu decidi disputar uma eleição a deputado estadual no pior momento da política. Para mim, esse é o melhor momento, porque eu não seria submetido a teste algum em tempos de calmaria.
Me apresento como pré-candidato do PT a deputado no ano em que Lula foi encarcerado. E tenho certeza de que, por Lula e pelo que ele representa como preso político, a eleição trará de volta muita gente que, por motivos variados, havia se distanciado da crença de que não há democracia sem partidos.
Hoje mesmo participei de uma roda de conversa com o presidente licenciado da CUT/RS e pré-candidato a deputado federal Claudir Nespolo, coordenada pela ex-secretária de Cultura Margarete Moraes.
O vereador Adeli Sell estava lá. Adeli é um dos entusiasmados com a perspectiva de resgate de parte da classe média que, na hora de votar, vai dizer: eu quero meu espaço de volta na política.
Mas nada foi mais motivador, ali naquele encontro, do que o vigor de um líder da grandeza de Olívio Dutra. Olívio pediu licença (como se preciso fosse) para fazer três intervenções no debate.
Falando de Porto Alegre, pediu que se questione sempre os rumos erráticos da gestão da cidade. Que se encaminhe o debate da regulação da mídia (para que a comunicação seja democratizada) e que os candidatos se dediquem com afinco à discussão e formulação de conteúdos caros ao PT, como as leis trabalhistas.
Mas o que o ex-governador passou mesmo a todos foi o sentimento de dedicação ao partido e à democracia. Com Olívio por perto, não há como esmorecer. Hoje me convenci mais um pouco, diante da energia de Olívio, de que vou para uma batalha na hora certa.

A GURIA DE VACARIA

Márcia Tiburi é de Vacaria. Foi o que anunciou com alegria o advogado e professor Carlos Frederico Guazzelli no meio de um debate sobre fascismo hoje à noite no Café Nossa Cara, no Bom Fim. Guazzelli é vacariense e estava se exibindo.
Há muito tempo não temos muito o que exaltar por aqui. O fascismo, um dos temas que Márcia Tiburi gosta de abordar, ganha feições variadas no Estado desde antes do golpe de agosto de 2016.
O Rio Grande que alguém algum dia inventou de chamar de o Estado mais politizado do Brasil (e muitos acreditaram nessa lenda) é visto hoje como a república do relho.
Márcia mexe com o orgulho dos vacarienses porque se atreveu a se apresentar como pré-candidata ao governo do Rio pelo PT. Criou o fato político do mês. A professora de filosofia mora no Rio há quatro anos. Vai para uma guerra.
Joga-se na linha de frente da política numa hora em que muitos estão saindo.
Quem ainda estiver em dúvida sobre o que deve fazer em meio à longa ressaca do golpe, que se inspire no gesto corajoso de Márcia. Pelo Rio, por Marielle, pelas mulheres, pelo Brasil, por Lula, pela democracia.
Uma mulher vai encarar a disputa pelo governo no Estado em que os homens não conseguem descobrir ou não querem descobrir quem matou uma mulher negra, favelada, de esquerda, militante política, vereadora, defensora das comunidades pobres e dos direitos humanos, bissexual, formada em sociologia.
A valente Marielle merece que sua história e sua memória sejam homenageadas pelo gesto de uma gaúcha de Vacaria. Sem gauchismos e sem bravatas.
Márcia se dispõe a enfrentar a barra de um Estado quebrado, os traficantes, as milícias, os capitães Nascimentos, os amigos do José Padilha, a Globo, o Jornal Nacional, os traumas causados pela intervenção federal, os golpistas, os fascistas com chiado, os conchavos das máfias dos garotinhos e dos cabrais.
É fácil ser militante e correr poucos riscos em tempos de calmaria. A democracia testa seus defensores em seus piores momentos.
No livro “Como Conversar com um Fascista – Reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro”, editado pela Record, Márcia nos ajuda a refletir sobre o medo que os fascistas têm das mulheres.
Pois vai em frente, Márcia Tiburi. Mete medo neles.

O CENTRO ACOVARDADO

Chama-se Centro Democrático o partido de direita que venceu a eleição na Colômbia com o candidato Iván Duque.
É estranho, mas não é tanto. No Brasil, um partido de direita se define como Progressista. Outro se anuncia há muito tempo como Democrata, para ser confundido com o partido americano que acolhe exatamente os setores progressistas. Mas aqui os democratas são a direita da direita.
A imitação do Podemos, que na Espanha é a marca da tentativa de renovação da esquerda, aqui é também direitista. O partido que se diz da social-democracia é igualmente liderado e sustentado pela direita.
E onde estariam hoje os políticos de fato de centro, remanescentes ou herdeiros daqueles que que ajudaram a conduzir a luta pela volta da democracia no Brasil?
Onde estão os políticos, os empresários e os juristas e os profissionais de formação dita liberal, que se se esconderam desde antes e depois do golpe, com raras exceções?
A direita engoliu o centro no Brasil. O centro se deixou ser devorado pelo reacionarismo. O avanço do fascismo e do Judiciário partidarizado (que estimula muito das aberrações que prosperam por aí) acabou com o centro.
Na Colômbia, no Brasil, na Argentina, em toda parte a direita dissimulada finge ser o centro que não existe mais ou se escondeu em algum canto, envergonhado com o próprio acovardamento.

(A charge é do Edu Oliveira)

A Seleção sem força

Uma sensação muito ruim de que a Seleção parece refletir a situação do país. Na adversidade, o time esmorece, como o povo esmoreceu depois do golpe.
É algo que vem desde a Copa de 2010, quando os jogadores parecem ter perdido, naquele jogo com a Holanda, quase tudo que a Seleção acumulou de vitalidade e dedicação à luta a partir de 1958.
Foi em 2010, com aquele time de pernas frouxas, que tudo começou, até o desfecho dos 7 a 1 em 2014. Foi em 2014 que o mundo viu pela primeira vez o capitão de uma equipe chorar num canto, afastado dos liderados.
Para completar, a direita se apropriou da camiseta da Seleção e da bandeira. A direita verde-amarela do golpe e do ódio fundamentalista pode ter amaldiçoado o futebol brasileiro.

O EMPURRÃOZINHO

Nenhum atacante do Sá Viana, do Ferro Carril, do 14 de Julho, do São Gabriel ou do Grêmio Santanense tiraria um zagueiro do Guarani do Alegrete da jogada com um empurrãozinho como aquele do suíço em cima de Miranda.
É muita moleza. Zagueiro, zagueiro mesmo, não amolece diante de um empurrãozinho. Não é, Paulo Renato Rodrigues?
É isso, Rui Fabres? Fala, Luizinho Tristão. Me conteste, Valderli. Confirma, José Airam? Tem fundamento um empurrão frouxo daqueles, Villa?
Pastel, Nelson, Grillo, Kako Perfeito, Bibi, Grisa, Jason, Élvio, Celso, Bola, Miguel Castro, Moisés Moisa, Juliani, Japur: um empurrão como aquele, com a mão mole, aconteceria assim, na facilidade, na zaga do Guarani do Alegrete?

Resistência

Meu amigo Marcos Trindade me perguntou na sexta-feira se eu preferia ver no sábado o jogo do Peru com a Dinamarca ou comer uma costela.
Pensamos por meio segundo e decidimos pela costela, assada pelo David Stival na casa do Diógenes Oliveira. Trindade espetou a carne. Diógenes fez a salada e o arroz. Mas eles não me deixaram fazer nada, talvez por falta de confiança no que apresentei como virtudes de fronteiriço.
Sabe-se que todos eles são da militância e da liderança histórica de esquerda, de antes e depois do surgimento do PT. Aprendi mais um pouco. Com o jogo do Peru com a Dinamarca eu não iria aprender muito.

A imagem pode conter: 4 pessoas, incluindo David Stival e Moisés Mendes, barba

A PRAÇA É NOSSA

Diálogo entre Galvão Bueno e Arnaldo César Coelho no primeiro tempo do jogo do Brasil com a Suílça.
Galvão:
– O juiz está atrasado. Ele apita depois da cobrança da falta, Arnaldo.
E Arnaldo esclarece:
– O áudio é que chega atrasado pra nós, Galvão.
E o jogo segue. Segundo Galvão, com o juiz apitando depois do próprio apito.

A SUÍÇA E OS CORRUPTOS TUCANOS

Sei pouco sobre o que mudou na Suíça que enfrenta o Brasil na estreia da Copa. Sei basicamente que a Suíça escondia e ainda esconde dinheiro sujo do mundo todo.
Mas que nos últimos anos decidiu, para cumprir acordos internacionais e por algum drama de consciência, rever sua conduta. Passou a exercer controles sobre a origem do dinheiro que busca proteção em seus bancos.
Sei que foi a Suíça que mandou dizer ao Ministério Público de São Paulo, hámais de 10 anos, que deveriam investigar o cartel do metrô. Que havia indícios claros de suborno, de propina e outros roubos envolvendo gente do governo tucano e a empresa suíça Alstom.
Sei que foi a Suíça que mandou dizer ao Ministério Público e à Justiça do Brasil que o tucano Paulo Preto (laranja de José Serra) tem mais de R$ 200 milhões suspeitos, que passaram por lá e foram enviados depois para outros paraísos ficais.
Sei que foram os suíços que denunciaram a existência de contas de Aécio e outros da direita. É impossível publicar toda a lista.
E o que aconteceu até hoje, apesar dos avisos dos suíços? Nada. Todos estão soltos e pate do processo do metrô tucano foi engavetada agora por prescrição..
Sei também que, no cerco a Dilma e Lula, tentaram de todo jeito produzir alguma suspeita da existência de contas na Suíça. E o que sei é que nenhuma autoridade suíça acusou Lula e Dilma de terem conta escondida.
Mas Dilma foi golpeada e Lula está encarcerado para que não dispute a eleição.
Em homenagem aos suíços, pelo esforço que fizeram para ajudar a pegar corruptos tucanos, eu torço hoje por um empate. A Suíça ajudou a desmascarar a farsa da Lava-Jato.