Eles cuidam de Sergio Moro

Passou batido um detalhe da reportagem de ontem da Folha sobre a ocupação do governo Bolsonaro pelos militares.
São ao menos 2.500 membros das Forças Armadas ocupando cargos de chefia ou no assessoramento em ministérios e repartições. São 30 órgãos tomados pelos militares.
Esse é o detalhe: o Ministério da Justiça tem 28 militares. Vinte e oito!!!
O general Guilherme Theophilo, secretário nacional de Segurança Pública, determina que os militares da pasta devem ir trabalhar fardados todas as quartas-feiras.
Em Curitiba, Moro tinha a sua turma e reinava absoluto, com uma força-tarefa que se estendia da sua sala até as salas dos procuradores. Moro mandava em tudo, era o chefe de fato de Deltan Dallagnol e dos subalternos de Dallagnol.
Era adorado pela imprensa, tinha autonomia para controlar conduções coercitivas, prisões preventivas intermináveis, delações, vazamentos seletivos para a imprensa.
Hoje, o ex-juiz de Curitiba parece estar sufocado sob o controle de militares. Bolsonaro criou uma armadilha para o justiceiro de Curitiba. Moro pode ser apenas um subalterno obediente de uma estrutura militarizada.

A MÁFIA E A IMPRENSA

A bomba nos pés do jornalismo da Argentina hoje é a denúncia de Pérez Esquivel sobre o esquema de espionagem montado pela direita macrista.
O caso não é novo e já está na Justiça. A novidade é a descoberta de envolvimento de jornalistas da grande imprensa.
O esquema mafioso, para perseguir as esquerdas, especialmente Cristina Kirchner, era comandado pelo falso advogado Marcelo D’Alessio, que agia em conluio com promotores e gente do Judiciário.
A gangue produzia dossiês, extorquia, forçava delações e tentava envolver kirchneristas em falsas denúncias.
O relatório divulgado por Esquivel, que agora envolve a imprensa, foi produzido pela Comissão Provincial da Memória e encaminhado à Justiça.
Tudo muito parecido com o que aconteceu com a Lava-Jato. Falta chegar aqui aos cúmplices que agiam dentro das redações.
O Intercept já deu a entender que sabe quem são. Está na hora de divulgar.

Baixou o Bolsonaro em Maurício Macri:
“Populismo (referindo-se a Cristina Kirchner) é como quando você passa a administração da casa a sua mulher e, em vez de pagar as contas, ela usa o cartão de crédito. Usa, usa, até que um dia você tem de hipotecar sua casa”.
A resposta de Cristina: “Ele é um machistinha”.
Cristina é educada. Macri é um fascistão.

NEGÓCIOS

Um jornalista amigo que conhece todos os labirintos de Brasília me assegura o seguinte. É ingênua ou deliberadamente diversionista a análise segundo a qual Onyx Lorenzoni perdeu poder ao transferir a tarefa de articulação política do governo ao general Luiz Eduardo Ramos.
É o contrário. Onyx se livra das negociações com um Congresso imprevisível e movido a dinheiro e passa a cuidar das concessões e parcerias do governo. Onyx vai cuidar de negócios.

Doria e o homem-mosca

Doria Júnior entrou na briga com os Bolsonaros. Cada dia entra mais um.
Diogo Mainardi, o homem-mosca, já abandonou os Bolsonaros e Deltan Dallagnol, por alguma promessa não cumprida.
Mas não abandona Sergio Moro. O homem-mosca, subgerente do site Antagonista, pode ser o próximo desafeto da família.
Ele anda mandando recados que os Bolsonaros talvez não entendam. O homem-mosca sobrevoa em torno dos Bolsonaros e pede algo.
O que aflige o homem-mosca?

O EMPRESARIADO ACHINELADO

Sergio Moro foi aplaudido efusivamente em palestra na Fiesp esta semana. A Folha fez uma lista com alguns nomes que estavam lá para ouvir o ex-juiz dizer que a lei é para todos:
Candido Pinheiro (Hapvida), Dan Ioschpe (Iochpe Maxion), Edgard Corona (Bio Ritmo/Smart Fit), Flavio Rocha (Riachuelo), Francisco Gomes Neto (Embraer), Luiz Carlos Trabuco (Bradesco), Frederico Curado (Grupo Ultra), Marcos Lutz (Cosan), Raúl Padilla (Bunge Brasil), Victorio de Marchi (Ambev) e Waldemar Verdi Junior (Rodobens).
Em outros tempos, os empresários seriam Antonio Ermírio de Moraes, Laurence Pih, Mario Amato, Paulo Bellini, José Mindlin, Roger Agnelli, Raul Randon, Oded Grajew, Benjamin Steinbruch, Luiz Fernando Furlan. Ozires Silva…
Em outros tempos, eles aplaudiam Simonsen, Delfim Netto, Roberto Campos, Bulhões. Hoje aplaudem Paulo Guedes e Sergio Moro.
Não foi só o governo. O empresariado brasileiro também se adequou à Era Bolsonaro e se achinelou.

AINDA ACREDITAM NELE

Para quem acha que Bolsonaro perdeu apoios nos últimos dias com a briga de facções pelo dinheiro do PSL. Saiu hoje a pesquisa da XP Investimentos: 33% aprovam o governo. Em setembro eram 30%.
A rejeição a Bolsonaro ficou em 38%. No último levantamento era de 41%. E agora vem a pior parte: 46% esperam que o restante do mandato seja ótimo e bom. Esse índice era de 43% em setembro.
Bolsonaro tira educação, saúde, aposentadoria, emprego, tira tudo do povo, e o povo diz que acredita nele. Não são só os ricos lavajatistas, porque não há 46% de ricos. São os ricos e os seguidores dos ricos, porque se acham ricos.
Uma explicação possível é o impacto do FGTS na cabeça dessa gente. Quando acabar o dinheiro, pode acabar a ilusão, ou não.

PEGARAM O BIVAR

Os Bolsonaros provam que ainda estão no comando. A Polícia Federal está pedalando as portas da casa e de escritórios do deputado Luciano Bivar, presidente do PSL.
O desafeto dos Bolsonaros vai para o sacrifício com as buscas e apreensões da PF. Vão empurrar para Bivar todas as culpas pelos laranjas da campanha de Bolsonaro.
A guerra das facções do PSL não pode parar, porque é reveladora do caráter do partido e do bolsonarismo e suas divisões internas.
O mais conservador jornal brasileiro, o ultragolpista Estadão, diz hoje em editorial que os Bolsonaros e o PSL não são conservadores, mas “reacionários, autoritários e obscurantistas”.
Os Bolsonaros e o PSL são carimbados como fundamentalistas por antigos parceiros. O Estadão ajudou a inventar a família e a estrutura que a sustenta.
Estadão, Folha e Globo são apenas dissidentes da turma dos Bolsonaros. O PSL também é deles.