ATÉ QUANDO, BASTINHOS?

Carlos Bastos é um dos sábios do jornalismo gaúcho. Foi mais do que um repórter, foi militante da resistência da Legalidade em 61, sempre ao lado de Brizola.

Encontrei Bastos hoje no velório do nosso amigo Nico Noronha. Bastinhos me puxou pelo braço e me disse no ouvido: “Nunca vi nada igual ao que está acontecendo hoje”.

E ele viu e viveu coisas grandiosas e trágicas desde a Legalidade. Conversamos rapidamente sobre as particularidades do golpe e do Quadrilhão que se apoderou do governo e concluímos o seguinte.

O governo, loteado por medíocres sem votos, tem um poder que nunca governante nenhum teve, nunca, em época alguma. E este governo não tem nenhum apoio popular.

E nunca, nem mesmo na ditadura, um governo esnobou tanto o povo, fazendo o que bem entende contra os interesses da população.

O golpe produziu um fenômeno inédito no Brasil. Os sujeitos que usurparam o poder descobriram que não precisam temer ninguém. E, como observou Bastos, mesmo as mais cruéis ditaduras sempre temeram e temem o povo. O atual regime de exceção não teme nada.

O Brasil inventou uma situação em que elementos denunciados por formação de quadrilha controlam um país anestesiado, sem correr riscos, sem reações, sem incômodos.

Até quando? Bastinhos ouviu minha pergunta, balançou a cabeça e foi embora largando pontos de interrogação de tamanhos variados pelo chão.

 

O MANUAL E O BOATO

Esta é uma das recomendações do novo Manual de Redação da Folha de S. Paulo aos seus jornalistas sobre como se comportar nas redes sociais: não compartilhem boatos.
Parece um conselho óbvio. Só que o jornalismo sempre dependeu dos boatos, e o jornalismo brasileiro vive de boatos há muito tempo.
Comentarista de jornal, rádio ou TV, engajado ao golpe, só funciona com boatos das suas fontes ligadas a tucanos e jaburus, no governo, no Congresso, no Judiciário, no Ministério Público.
Desde o começo da Lava-Jato o que o jornalismo faz nem é compartilhar boatos. É produzir boatos. As colunas de fofocas da política existem por causa do boato.
A Lava-Jato sustentou todo o trabalho da imprensa (sem nenhuma reportagem investigativa relevante, uma que fosse) com a alcaguetagem e o boato. Desde que a vítima fosse Lula, Dilma e o PT.
Sem o boato, a Folha de S. Paulo não seria o que é. O boato, sob as mais variadas embalagens, é a matéria-prima e o produto acabado de quem cobre a Lava-Jato.
Mas para a Folha e os grandes jornais, não é boato, é informação privilegiada.

QUEM CENSUROU A TUIUTI? 

A censura foi a ‘surpresa’ da Tuiuti no desfile das campeãs. A tarefa de reagir ao que aconteceu não é apenas da escola.
O jornalismo da grande imprensa, com sua força-tarefa de Carnaval, tem a missão de esclarecer em detalhes quem determinou que o vampiro-do-jaburu desfilasse sem a faixa presidencial.
O Globo informa que a ordem teria partido de “emissários da Presidência da República”.
Emissários? Na ditadura, sob risco de represálias, tortura e morte (não esqueçamos Vladimir Herzog), sabia-se muito do funcionamento e da estrutura dos censores, quem eram eles e a quem se submetiam.
Meu amigo jornalista Rafael Guimaraens, um bravo da resistência daqueles tempos no Coojornal de Elmar Bones, sabe muito bem disso.
Se os repórteres que descobrem pedalinhos não descobrirem quem censurou a Tuiuti (de quem foi a ordem, como foi dada e quem decidiu executá-la), o jornalismo brasileiro terá finalmente despencado no penhasco do golpe.
O jornalismo pagará o maior mico da história da imprensa se não esclarecer, com nomes, quem deu a ordem à Tuiuti. Ou também o jornalismo está sob intervenção federal?

https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/carnaval/2018/noticia/assustador-diz-professor-que-representou-vampiro-neo-liberalista-na-sapucai-sobre-repercussao-apos-desfile.ghtml

 

 

O SINHOZINHO FICOU MAL

Com a barbeiragem na tentativa de emplacar Luciano Huck como candidato tucano, Fernando Henrique Cardoso virou a figura folclórica do PSDB.
O sinhozinho que liderava a mesa dos chefes tucanos no Restaurante Fasano hoje é como aquele tio-avô que todo mundo ouve, por formalidade, mas ninguém mais leva a sério.
A estratégia com Huck é coisa de coronel. FH jantou com o preposto da Globo no restaurante e combinou que sairia a dar entrevistas a rádios e jornais defendendo o pupilo.
Depois, era só esperar a reação dos parceiros. Ele seria o fiador de Huck. Foi chamado de caduco.
FH poderia ter optado pela construção de um protagonismo de estadista. É um ex-presidente enfiado em brigas miúdas do partido e nas lambanças contra Lula.
Um dia ainda teremos a exata noção da sua mediocridade também como governante que vendeu estatais a preço de banana e quebrou o país no segundo mandato.
Luciano Huck é a cara de Fernando Henrique, apenas com um nariz mais potente.

FOI-SE LUCIANO HUCK. INVENTEM OUTRO

Luciano Huck testou as forças e as manobras da política como um amador. Recebeu afagos de Fernando Henrique Cardoso, o sinhozinho tucano que não manda mais nada no partido, consultou o mercado financeiro, conversou com amigos do mundo dos bacanas, ouviu a Globo, hipnotizou-se com o auditório, titubeou e acabou concluindo que não tem talento nem estrutura para aguentar uma campanha.
Huck sabe que poderia ser traído, se não aumentasse seus 8% nas pesquisas, que os votos de Lula não iriam tudo para ele (como o DataFolha insinuava, se Lula ficar de fora) e que os próprios tucanos ressentidos se encarregariam de pulverizá-lo. E ele seria então o candidato do PFL.
O ‘novo’ no PFL de Zé Agripino e Pauderney. Huck seria o saco de pancadas da campanha. Ele e a Globo levariam bordoadas.
Um sujeito que prega altruísmos (mesmo que patrocinados) e compra um jato de R$ 17 milhões com dinheiro do BNDES não tem como ser candidato.
Huck sabia, no fundo, que era mais um impostor da direita. Era um teco-teco. Que inventem outro.

Jaguar à direita

Sérgio de Magalhães Gomes Jaguaribe, o Jaguar, foi um dos mais atrevidos cartunistas da geração de ouro do Pasquim. Vai fazer 86 anos no dia 28 deste mês.
Pois Jaguar foi contratado pela Folha no ano passado para, acreditem, fazer contraponto aos chargistas de esquerda do jornal. Que missão ingrata para um humorista, que deve ser transgressor, e não bajulador.
Jaguar chegou à velhice como um reacionário. É dos mais reaças e mais simplórios cartunistas do jornalismo brasileiro hoje. Que triste.

A TURMA DO SERGIO MORO

Circula desde cedo a notícia da Folha com a informação de que os três juízes que reafirmaram a condenação de Lula, no Tribunal Regional Federal de Porto Alegre, recebem auxílio-moradia. São da mesma turma de Sergio Moro.
Sem surpresas. Dois deles (Leandro Paulsen, revisor da sentença contra Lula, e Victor Laus) são donos de imóveis.
Já o relator do processo, João Pedro Gebran Neto, que não tem imóvel próprio, deve receber o auxílio por não ter onde morar.
Os três se apropriam de uma ajuda imoral (é boba essa discussão sobre a legalidade da mumunha), enquanto a direita golpista que os aplaude pede e ganha austeridade, reforma da Previdência, arrocho de salários para os sem-auxílio, fim das leis trabalhistas e o fim do SUS.
E os três condenaram Lula com o discurso moralista dos adoradores de Sergio Moro.

DELEGADOS DEMOCRATAS

Tem destemor, tem dignidade, tem um vigor que não se via há muito tempo o gesto dos delegados federais em defesa da instituição e contra a manobra para engavetamento das investigações sobre o jaburu-da-mala e sua turma.
Não é pouca coisa. É a melhor notícia do ano. Os delegados, através de suas entidades, enfrentaram o poder de um chefe nomeado pelo jaburu e desafiaram as insinuações do xerife Fernando Segovia de que o comandante do Quadrilhão deve ser poupado no inquérito das propinas dos portos.
Segovia talvez não esperasse a reação. É sinal de que a Polícia Federal tem focos importantes de resistência ao golpe. Que não sejam apenas focos, que eles representem a maioria.
Que vençam os delegados democratas (mesmo que nada se espere da Justiça mais adiante), e não a gangue sob investigação.

TINHA QUE SER UM JOÃO

Ficamos esperando que pegassem Aécio, Serra, Azeredo ou algum tucano do cartel do metrô paulista ou do roubo da merenda, da mesma turma, mas aí pegam o perigoso deputado João Rodrigues.

João era prefeito de Pinhalzinho e comprou uma retroescavadeira de R$ 60 mil, sem licitação, há quase 20 anos. João está preso em Porto Alegre, aos cuidados do mesmo Tribunal Regional Federal que condenou Lula.

É mais uma grande lição do Judiciário e do Supremo este ano. O Supremo que livrou Jucá, que livrou Serra e que livrou Aécio decidiu pegar o João do PSD de Pinhalzinho, conduzido por forte escolta armada até Porto Alegre.

O político preso, para que possam dizer que Lula também pode ser encarcerado a qualquer momento, não é nenhum corrupto tucano graúdo. Tinha mesmo que se chamar João.

Para o Judiciário, todos nós somos Joãos, desde muito antes do golpe de agosto.

Dona Eva

Dona Eva Sopher dedicou a vida a sonhar com coisas impossíveis que ela enfim conseguia realizar com sua bravura.
Escrevi há muito tempo na Zero que imaginava algumas pessoas em secretarias diversas da prefeitura de Porto Alegre, mas não nas secretarias que existem e sim em pastas imaginárias.
E imaginei então dona Eva Sopher como secretária de Todos os Sonhos de Porto Alegre. Uma secretária das utopias. Ela me mandou uma mensagem carinhosa dizendo que ficara feliz com a homenagem.
E assinou assim o e-mail com o timbre do maior dos seus sonhos, o teatro que ela salvou dos cupins humanos:
Eva Sopher
Secretária de Todos os Sonhos.
Todos sabemos, e não só os artistas, que perdemos uma das maiores personalidades do Rio Grande do Sul de todos os tempos. Perdemos a mais poderosa das gaúchas, exatamente numa época em que as nulidades inimigas da arte é que prosperam.