O teatro de Gilmar Mendes

Gilmar Mendes quebrou 124 flechas de Rodrigo Janot durante a defesa do seu voto contra a apresentação da nova denúncia do Ministério Público em que o jaburu-da-mala é apontado como chefe de quadrilha.
Mendes quebrou o arco, quebrou as flechas, pulou em cima e só não sentou nas flechas porque é perigoso. Atacou Janot, os procuradores de Janot, atacou Joesley Batista, fez mais do que o advogado de defesa do jaburu tentou fazer.
Mas perdeu por sete votos a um. Seu voto foi, até agora, o único contra o prosseguimento da denúncia, que deve agora ser encaminhada à decisão da Câmara, para ser recusada pelos mesmos que refugaram a primeira acusação contra o jaburu.
Gilmar Mendes não tem mais nenhuma preocupação em atuar como advogado do jaburu no Supremo. E ninguém poderá impedi-lo de continuar atuando. O Supremo é um teatro desqualificado por frases em latim, argumentos rococós, poesia ruim e pela performance patética de Gilmar Mendes.

 

Um caso sem cura

Pronto. Aconteceu o que qualquer um poderia prever. O placar no Supremo estava assim: sete a zero a favor do encaminhamento à Câmara da nova denúncia do Ministério Público contra o jaburu-da-mala.
E foi aí então que surgiu o voto contra a denúncia e a favor do jaburu acusado de ser o chefe do Quadrilhão.
O voto foi dado agora. É uma rara peça de sabedoria e imparcialidade de um ministro, apenas um, o primeiro e único sábio do Supremo.
Quem votou a favor do jaburu? Quem?
Este é um caso sem tratamento, sem qualquer possibilidade de cura.

Doria é um homem de dinheiro

Confissão de Doria Júnior em entrevista que ouvi ontem no rádio (numa pausa da visita dele ao Rio Grande do Sul para conhecer o fantástico sistema de parcelamento de salários da prefeitura tucana): “Eu não preciso de dinheiro, eu não preciso roubar”.
E falou então que era um homem de muito sucesso, rico e feliz com o dinheiro que tem. Mas que decidiu deixar o dinheiro de lado um pouco para ajudar o Brasil.
A direita nunca precisa de dinheiro. Maluf também não precisava. Nem Collor. Nem Aécio. Nem Serra (ninguém mais fala nos R$ 23 milhões na Suíça). Nem Geddel. Nem Cunha. Nem Jucá. Nem o jaburu-da-mala e os endinheirados do Quadrilhão.
Ouvi as frases, parei no sinal e comecei a rir sem parar. Uma moça me olhou com espanto, eu abri a janela do carro e gritei: “Eu também não preciso de dinheiro”.
A moça arregalou os olhos, fez um sinal com as mãos, como se dissesse ‘tu tá louco’ e arrancou.
Daqui a pouco teremos os adesivos nos vidros dos carros com a cara e a frase de Doria Junior, o nosso Trump para enganar bobo: “Este não precisa roubar”. Vai ser um sucesso.
(Doria Júnior, mesmo que não precise roubar, foi processado por grilar uma área pública em Campos do Jordão e anexar ao terreno da sua mansão. Esperneou, mas teve que devolver o terreno.)

Destemor

No dia da repressão policial que protegeu o MBL e atacou jornalistas na Praça da Alfândega, na semana passada, escrevi aqui sobre a agressão da BM, que jogou gás de pimenta no rosto da repórter Isadora Neumann.

Fui colega de Isadora na Zero, conheço seu trabalho, e o ataque à repórter, pela minha proximidade com ela (e pela violência), foi o que mais me chamou a atenção.

Mas esqueci de registrar outra agressão, esta ao fotógrafo Douglas Freitas, da organização Amigos da Terra Brasil. Douglas foi arrastado e preso pela BM.

Depois ele contou ao Marco Weissheimer, do Sul21, como os policiais se posicionaram na praça ao lado dos fascistas (pareciam uma barreira de proteção), como atacaram os jornalistas com os gases e como saíram em retirada levando em escolta os sujeitos que foram à praça só para provocar os que protestavam contra a censura à exposição de arte do Santander.

Admito que me atrasei bastante para registrar minha solidariedade a Douglas Freitas, o que não muda nada. Mas aí está. A resistência à repressão depende muito do destemor desses profissionais.

O humor nos cura

Seu Mércio me manda um WhatsApp aplaudindo a decisão do juiz José Antonio Coitinho, de Porto Alegre, que negou liminar a um advogado que pretendia censurar a peça ‘O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu’.
Em nome da liberdade de expressão, defendida no despacho, seu Mércio pediu que prestem atenção no nome do juiz. Para um caso com forte componente sexual, um magistrado que se chama Coitinho.
Para enfrentar o fascismo, rir é preciso, disse seu Mércio. E viva o juiz.

AS DOENÇAS

No intervalo de uma das reuniões na ONU, Moreira Franco bateu na porta da suíte onde estavam o jaburu-da-mala e seus assessores. Moreira Franco pediu licença e entrou:

– Cumpre informar que o juiz não autorizou o tratamento para a cura do Padilha.

– Podemos falar disso depois? – indagou e ordenou o jaburu, alegando que precisava preparar uma proposta de paz entre Trump e o gordinho da Coreia e que esse plano seria decisivo para evitar a guerra.

Moreira Franco insistiu:

– Padilha deve ser curado logo.

– O que ele tem é saudade do Geddel – disse o jaburu.

Moreira Franco argumentou:

– E saudade é doença. Mas recorremos a um juiz de Brasília, o mesmo que disse que os gays são doentes, e ele disse que Padilha deve lutar para esquecer o Geddel. Ele não reconhece um homem saudoso como doente. Que Padilha é um homem sadio.

– E o Gilmar?

– Ainda não recorremos ao Gilmar.

– Pois faça-o. O Gilmar decide o que é doença, do resfriado às pestes medievais. Se for preciso, Gilmar prende as doenças e solta as doenças – disse o jaburu.

Quando Moreira Franco estava deixando a suíte, chegou Padilha.

– Saudade é doença, sim – disse Padilha.

– Mas o Geddel sairá logo – falou o jaburu, com a voz baixa, aquela voz em ponto morto que parece que não é dele, em tom de quem consola.

Padilha jogou-se na cama presidencial, agarrou-se ao travesseiro e começou a chorar.

– Mas e as malas? E as malas?

Padilha dava socos no travesseiro. O jaburu chamou Moreira Franco e fez um sinal com a mãozinha:

– Psss… Deixa ele quieto.

E virou-se para o assessor e continuou ditando, fazendo círculos com o dedo indicador no ar:

“Como eu estava dizendo, todavia, o Brasil oferece-se, no entanto, como potência mundial, a tratar a doença que acomete o mundo e que pode de inopino afastar-nos dos trilhos da paz, da bonanza…(com z mesmo)…”

Esconderam Lula

Tente achar, na capa dos sites dos grandes jornais, a pesquisa CNT/MDA, da Confederação Nacional dos Transportes, que mostra como Lula cresceu como líder às eleições do ano que vem. Se achar, me avise.
Hoje, as pesquisas escondidas pelos jornais mostram que só há um jeito de tirar Lula da corrida, como favorito em todos os cenários contra Aécio, Bolsonaro, Doria, Ciro Gomes, Marina, Álvaro Dias, Alckmin.
Só o Judiciário, que deve deixar Aécio e Bolsonaro livres para concorrer, pode tirar Lula da eleição.
A pesquisa não incluiu Sergio Moro. Deve ser porque Moro é juiz e juiz deve ser uma autoridade imparcial e neutra em disputas políticas. Imagino que seja por isso.

Mourões

Quem aguentou um general Mourão no golpe de 64, precisa mesmo aguentar outro general Mourão agora? No Brasil, a História se repete como farsa até nos sobrenomes. E esse também tem tanques?
Nem a Venezuela aguentaria dois golpes com dois Mourões. Teremos mais Figueiredos? E os jornalistas de direita rindo dos generais do Maduro e do gordinho da Coreia.
O surpreendente é que não há nenhum jornalista golpista que se chame Lacerda, ou há e eu não sei, porque eles são tantos. Hoje, temos mais jornalistas do que militares golpistas.

Caíram todas as máscaras

Teve um tempo em que grandes empresas eram sustentadas pela reputação institucional construída por décadas. Agora, o que importa é o resultado imediato às custas do marketing de ocasião.

A reputação, os compromissos sociais, a imagem externa, os vínculos duradouros com as comunidades, nada disso interessa mais. O que interessa é vender o produto. Mesmo que tenha soda cáustica, pelos de rato, pedaços de unhas e restos de propinas.

Degradou-se o esforço construído também por profissionais que se dedicavam a fortalecer marcas associadas a compromissos humanistas e à diversidade.
A reputação é algo vago, cada vez mais distante para os empresários brasileiros e em especial para seus herdeiros pragmáticos.

Obter resultados de curto prazo para os acionistas é a tática da sobrevivência, no ambiente pós-golpe de devastação da democracia e da economia. A estratégia vai até amanhã.

Foi-se o tempo em que boa parte dos empresários gostaria de parecer alguma coisa que não era, em meio a projetos grandiosos e sinceros. Mas na maioria dos casos caiu a máscara.

O grande empresário brasileiro é, na média, um reacionário enrustido finalmente exposto pelo golpe. Um ultraconservador, muitas vezes até simpatizante de Bolsonaro, que ainda tentava se vender como um moderado liberal.

Há exceções? Claro, mas não vamos refletir sobre exceções que ainda resistem. A regra é esta: foi-se embora o capital social que algumas grandes empresas tentavam preservar.

A vantagem disso tudo é que o desmonte de compromissos pulverizou também algumas farsas construídas mais recentemente nos anos 90 da redemocratização, em todas as áreas, inclusive na grande imprensa.

Vale tudo

O futebol também está financeira e moralmente corrompido há muito tempo. Mas não era preciso, numa hora como essa, no país do golpe, do Quadrilhão, das malas do Geddel, da Justiça seletiva e dos criminosos impunes da direita, que também um grande jogador comemorasse tão acintosa e vergonhosamente um gol com o braço, como fez Jô contra o Vasco, e continuasse dizendo, depois do jogo, que não foi com o braço. E ainda disse sorrindo.
O exemplo dos pilantras do futebol também ajuda a corromper mais ainda. Jô está reafirmando para as torcidas e para todos que o mundo é dos espertos. Se for o mundo do brasileiro, melhor ainda.