A REDE INTERNACIONAL DA MENTIRA

A Folha tenta acompanhar o ritmo do jornalismo do Intercept e volta ao assunto da campanha suja de Bolsonaro.
O jornal enviou a repórter Patrícia Campos Mello à Espanha, para investigar a participação de uma empresa daquele país no esquema que criou a rede internacional de disseminação de mentiras bolsonaristas na última eleição.
Esta é a manchete do jornal hoje:
Empresas contrataram disparos pró-Bolsonaro no WhatsApp, diz espanhol
Informação aparece em gravações obtidas pela Folha; dono de agência negou saber que se tratava de mensagens de campanha
Patrícia Campos Mello
CORUNHA (ESPANHA)
Durante a campanha eleitoral de 2018, empresas brasileiras contrataram uma agência de marketing na Espanha para fazer, pelo WhatsApp, disparos em massa de mensagens políticas a favor do então candidato a presidente Jair Bolsonaro (PSL).
A informação, que aparece em gravações obtidas pela Folha, é do espanhol Luis Novoa, dono da Enviawhatsapps.
Nos áudios, ele diz que “empresas, açougues, lavadoras de carros e fábricas” brasileiros compraram seu software para mandar mensagens em massa a favor de Bolsonaro.
Além de obter o áudio, a Folha confirmou posteriormente detalhes da conversa.
De acordo com Novoa, ele não sabia que seu software estava sendo usado para campanhas políticas no Brasil e só tomou conhecimento quando o WhatsApp cortou, sob a alegação de mau uso, as linhas telefônicas de sua empresa.
O WhatsApp confirmou à Folha que cortou linhas da empresa. “Não comentamos especificamente sobre contas que foram banidas, mas enviamos uma notificação judicial (Cease and Desist) para a empresa Enviawhatsapps.”
Não há indicações de que Bolsonaro ou sua equipe de campanha soubessem que estavam sendo contratados disparos de mensagens a favor do então candidato. Procurada, a assessoria de imprensa do Palácio do Planalto afirmou que não iria comentar.
Doação de empresas para campanha eleitoral é proibida no Brasil. Doações não declaradas de pessoas físicas também são ilegais.
A empresa de Novoa é especializada no envio automático de mensagens para milhares de números de telefone.
A Folha teve acesso à gravação na qual o espanhol fala sobre a contratação da empresa para disparar mensagens a favor de Bolsonaro. Ela foi realizada durante um encontro de empresários com Novoa, na Espanha. A Folhaconfirmou as informações citadas na gravação.
“Eles contratavam o software pelo nosso site, fazíamos a instalação e pronto […] Como eram empresas, achamos normal, temos muitas empresas [que fazem marketing comercial por WhatsApp]”, afirma o espanhol, na gravação.
“Mas aí começaram a cortar nossas linhas, fomos olhar e nos demos conta de que todas essas contratações, 80%, 90%, estavam fazendo campanha política”, completa o empresário espanhol.
Uma outra pessoa, nessa mesma gravação, pergunta a ele: “Era campanha para algum partido?” Novoa então responde: “Eram campanhas para Bolsonaro”.
Os cortes de linhas a que ele se refere foram feitos pelo próprio WhatsApp, cujas regras proíbem o uso da plataforma para envio de mensagens em massa.
Segundo o TSE (Tribunal Superior Eleitoral), apenas as campanhas oficiais podem fazer contratação de impulsionamento de conteúdo eleitoral nas redes sociais.
“A contratação do serviço de impulsionamento deve ser realizada exclusivamente por partidos, coligações, candidatos ou seus representantes e diretamente por meio da ferramenta responsável pelo serviço, cujo provedor deve ter sede e foro no Brasil, ou com filial, sucursal, escritório, estabelecimento ou representante legalmente estabelecido no país”, segundo lei de outubro de 2017.
Além disso, está proibido o uso de ferramentas de automatização, como os softwares de disparo em massa.
A contratação de empresas estrangeiras para enviar mensagens de WhatsApp evidencia a dificuldade de contabilizar gastos de campanhasefetuados por terceiros em favor de candidatos.
Procurado pela Folha, o empresário espanhol negou que tenha trabalhado para políticos brasileiros.
“É mentira, não trabalhamos com empresas que tenham enviado campanhas políticas no Brasil”, afirmou.
“Tanto faz se gravaram sem permissão uma conversa informal. Repito pela enésima vez: não trabalhamos com campanhas políticas no Brasil”, disse à reportagem o empresário espanhol.
No áudio obtido pela Folha, Novoa afirma que não sabia que empresas estavam usando seu software para beneficiar candidatos e só tomou conhecimento disso após o WhatsApp iniciar o corte das linhas.
Ou seja, pode ser que ele de fato nunca tenha sido contratado por uma campanha política brasileira, mas somente por brasileiros que se identificavam como empresas.
“Estávamos tendo muitíssimos cortes, fomos olhar os IPs, era tudo do Brasil, olhamos as campanhas, eram campanhas brasileiras”, diz Novoa, ainda no áudio.
Segundo a Folha apurou, os brasileiros compraram cerca de 40 licenças de software na agência espanhola. Cada linha pode disparar até 500 mensagens por hora — portanto, o pacote permitia até 20 mil disparos políticos por hora nas últimas eleições.
Alguns usavam números da Colômbia para enviar mensagens a números do Brasil, também por meio do software comprado de Novoa.
Os pagamentos eram feitos pela plataforma PayPal. As contas ficaram ativas durante alguns dias durante a campanha. Os brasileiros contratavam o software por meio dos seis diferentes websites que pertencem à empresa.
Segundo o site da Enviawhatsapps, a licença para um mês sai por 89 euros (R$ 386), a anual custa 350 euros (R$ 1.518), e o WhatsApp Business API, voltado especificamente a empresas, sai por 500 euros ao ano (R$ 2.169).
ELEIÇÃO NA ESPANHA
Na eleição espanhola deste ano, o espanhol Luis Novoa, dono da Enviawhatsapps, foi responsável pelas campanhas de disparos em massa de WhatsApp dos partidos Podemos e PSOE.
A plataforma suspendeu as contas desses partidos e do PP durante a campanha eleitoral, ao alegar que as legendas estavam violando as regras de uso da plataforma ao fazer envios em massa.
A Folha apurou que Novoa também prestou serviços para o partido de extrema direita Vox. Procurado, o partido não retornou pedido de entrevista.
ENTENDA O CASO
Empresários
Em 18 de outubro de 2018, a Folha revelou que empresários impulsionaram disparos por WhatsApp contra o PT na campanha eleitoral. O serviço foi vendido pelas agências Quickmobile, CrocServices e Yacows. Uma ação foi aberta no TSE para apurar o caso.
PT
Uma semana depois, o UOL mostrou que o PT também usou o sistema de envio de mensagens em massa e que a agência responsável pela campanha de Bolsonaro teve registros de uso do sistema da Yacows apagados após a reportagem da Folha.
Fraudes com CPFs
Em dezembro, reportagem baseada em relatos de um ex-funcionário, fotos e documentos apresentados à Justiça do Trabalho detalhou o submundo dos disparos em massa que se instalou no Brasil durante as últimas eleições. Uma rede de empresas recorreu ao uso fraudulento de nome e CPF de idosos para registrar chips de celular e garantir o envio em massa de mensagens em benefício de políticos.
Multa
Em março deste ano, o TSE multou a campanha de Fernando Haddad por ter impulsionando um site com ataques a Bolsonaro no mecanismo de busca do Google. Na decisão, o ministro Edson Fachin considerou que o impulsionamento feriu a lei eleitoral e causou desequilíbrio na disputa.
TSE
Até agora, ninguém foi ouvido na ação que apura os disparos contra o PT. O processo é relatado pelo corregedor-geral eleitoral, ministro Jorge Mussi
Empresário espanhol
Luis Novoa, dono da Enviawhatsapps, afirma, em gravação obtida pelaFolha, que empresas brasileiras compraram seu software para fazer disparos em massa pelo WhatsApp de mensagens a favor de Bolsonaro.

A HORA MORTA

Os primeiros vazamentos de mensagens do escândalo Moro-Dallagnol completaram hoje oito dias. Os que esperam mais informações estão inquietos e inseguros. Moro e o governo devem estar com a sensação de que o pior já passou.

O que tivemos depois da abertura das comportas foi basicamente essa sequência. A publicação dos diálogos completos, a conversa em que Fux é classificado como confiável por Moro, Dallagnol falando da articulação com os americanos e Moro orientado os procuradores a armarem na imprensa um ataque a Lula.

A partir daí Moro muda a fala e a postura e começa a insinuar publicamente que os diálogos podem não ser verdadeiros. Mas o próprio Moro cai em contradição e admite descuido na ordem a Dallagnol sobre as provas contra Lula. E Dallagnol se aquieta. Só quem fala é o chefe, e o chefe dele é Moro.

Os diálogos completos serviram para mostrar que o comando de Moro sobre a força-tarefa do Ministério Público era exercido com certa naturalidade. Moro põe a turma de procuradores a cumprir tarefas, e eles se sentem felizes montando esquema para cercar Lula.

Mas isso foi suficiente para mostrar que o Intercept tinha, depois da arrancada, mais informações relevantes e impactantes? Relevantes, sim, porque mostram um clima que parece de relação cotidiana e de promiscuidade do juiz com seus subalternos que não deveriam trabalhar pra ele. Mas não impactantes.

Fux era confiável em relação a Teori Zavascki, que representava a única ameaça a Moro. Parece previsível. É um comentário sobre a proximidade da Lava-Jato com o ministro que ninguém espera que seja um problema para os delitos da força-tarefa. É comprometedor, mas não tem grande impacto.

Então, fica a sensação de que merecemos e podemos esperar mais. Mas pode ser que os vazamentos não ofereçam nada mais de chocante (principalmente para o grande público) e que o repertório se esgotou.

Pode ser também que esta seja a hora morta, a hora do suspense, quando um redemoinho arrasta a sujeira do meio da rua. Todos parecem adormecidos, mas de repente o vento bate na porta e um rangido de dobradiça nos acorda.

O Intercept pode nos despertar de uma hora pra outra, é o que se espera. Moro e seu pessoal já deram a entender que vão escapar.

Quarta-feira o ex-juiz será ouvido na Comissão de Constituição e Justiça do Senado. Pode não acontecer nada de especial. Logo depois, pega o avião e viaja para os Estados Unidos. Vai fazer o quê? Tratar de intercâmbios.

Eles parecem agir como se nada estivesse acontecendo, como fizeram todo tempo na Lava-Jato. Mas muitos dos que participaram do golpe de agosto de 2016 tinham a mesma empáfia. Tinham.

JORNALISMO

Vou reafirmar o que disse ontem, para que a nossa torcida pelo desfecho do escândalo Moro-Dallagnol não nos transforme em seres semelhantes aos que combatemos.
Não podemos repetir as mesmas falas simplificadoras e as mesmas atitudes desqualificadoras de quem ataca o Intercept e o jornalismo.
Então, o que reafirmo agora, como jornalista, é que considero a reportagem de Álvaro Pereira ontem no Fantástico correta e esclarecedora de muitos aspectos que pretensos entendidos em Telegram só ajudam a confundir.
Muitos esperavam, ingenuamente, que o Fantástico fosse acabar com Sergio Moro no domingo. Aí não dá.
A reportagem esclarece, por exemplo, um detalhe decisivo: Sergio Moro já se livrou de boa parte da bronca ao eliminar mensagens e avisar que não usa mais o Telegram.
Por que o ex-juiz fez isso? Porque, como explica um professor da USP, o Telegram armazena as mensagens, mas não preserva as que o próprio usuário elimina. Moro certamente foi orientado a se livrar de rastros no celular, preocupado com uma eventual perícia (e mesmo que a perícia venha a ser feita por gente da Polícia Federal que ele chefia).
Explica-se por isso mesmo a tática do juiz de passar a dizer que não reconhece a autenticidade das mensagens, depois de inicialmente admitir a veracidade das conversas e mais tarde cair em contradição ao dizer que cometeu “um descuido” ao enviar uma “recomendação” a Dallagnol na tentativa de incriminar Lula.
Então, não me convidem para fazer o que a direita vem fazendo. Quem quiser, que veja ou reveja a reportagem e critique, claro, suas tantas imperfeições. Mas não acredito que Álvaro Pereira tenha produzido qualquer conspiração contra o trabalho do Intercept ou contra o jornalismo. O link está logo abaixo.
(Lamento, como muitos lamentaram, que a Globo tenha dado a entender que havia entrevistado o russo criador do Telegram. O único Russo entrevistado até agora é Sergio Moro, que assim era chamado por seus procuradores na Lava-Jato.)

https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2019/06/16/conheca-a-vida-exotica-do-russo-criador-do-telegram-aplicativo-que-virou-assunto-nacional.ghtml?fbclid=IwAR17E6MTjdr3HAh_Rdd4G4Q3gWicRF6_CZmv3tWULp9wVyKv9R311QaJ9go

A AMPLIAÇÃO DAS MILÍCIAS

Está nos cantinhos dos sites. Nenhum jornal da grande imprensa teve o peito de dar em manchete a declaração de Bolsonaro ontem em Santa Maria, quando finalmente explicitou em discurso o objetivo do armamentismo bolsonarista:
“Nossa vida tem valor, mas tem algo com muito mais valoroso do que a nossa vida, que é a nossa liberdade. Além das Forças Armadas, defendo o armamento individual para o nosso povo, para que tentações não passem na cabeça de governantes para assumir o poder de forma absoluta. Temos exemplo na América Latina. Não queremos repeti-los. Confiando no povo, confiando nas Forças Armadas, esse mal cada vez mais se afasta de nós”.
(Vi ontem no Diário de Santa Maria os vídeos da visita de Bolsonaro. Havia uma certa euforia histérica nas ruas da cidade universitária. Tem alguma coisa na água e no ar de Santa Maria.)

LEVARAM O LEVY

A direita está experimentado o veneno da extrema direita que muitos direitistas ditos liberais ajudam a sustentar. Joaquim Levy foi mandado embora do BNDES.
Antes, o advogado Marcos Barbosa Pinto havia se demitido da direção de mercado de capitais do banco, porque Bolsonaro o considerava uma ameaça por ter trabalhado em governos do PT.
Os dois demitidos são amigos do mercado financeiro. Pinto foi sócio de Armínio Fraga na Gávea Investimentos, mas Bolsonaro temia seu esquerdismo.
Bolsonaro já vinha perseguindo generais. Agora persegue economistas do esquema que o elegeu.
Bem feito para a direita tucana que presta serviços ao governo controlado por uma família envolvida com milicianos.

MORO, A POLÍCIA E OS GATOS

Poucos têm a coragem de levantar publicamente a hipótese apresentada pelo jornalista Luis Nassif: o uso da polícia do governo para tentar amedrontar o Intercept e interromper o vazamento de informações da Lava-Jato.

E a polícia do governo é, fora outros arapongas que agem nas sombras, a Polícia Federal. Nassif levantou hoje a possibilidade de uso da PF para, num gesto extremo de Moro, apreender equipamentos e documentos do jornal e fazer prisões preventivas determinadas pela Justiça amiga dele.

Isso porque Moro já tentou associar os vazamentos à informação que ele deu (muito antes da VazaJato) a respeito da invasão do seu celular. Moro dá a entender que as duas coisas são parte da mesma ação.

E sendo parte da mesma ação, é preciso agir apara proteger as instituições. Não que o Intercept tenha devassado suas comunicações e a dos procuradores a ele subordinados. Mas ele pode dizer que o Intercept poderia ter em seus arquivos informações que levariam ao hacker ou ao grupo de hackers que Moro pensa existir.

Moro também já disse que, além dele e dos procuradores, parlamentares podem ter sido vítimas das ações. O que ele quer dizer é: estamos tentando proteger não só o Ministério Público e o Judiciário, mas também vocês, os congressistas e a democracia.

O ex-juiz tenta compartilhar preocupações, quando tudo o que se sabe até agora é que que ele e seus procuradores foram vasculhados (além de Rodrigo Janot, que deveria, pela lei, ser o chefe dos procuradores). Não há até agora políticos como vítimas.
Leiam o que Nassif escreve: “A ideia de que há um crime em andamento confere a Moro uma carta na manga: pode recorrer ao “estado de flagrante delito” para, mais cedo ou mais tarde, deflagrar ações que atinjam o Intercept. As diligências no âmbito de uma possível operação policial incluem medidas como busca e apreensão, prisão preventiva e condução coercitiva – tudo que está no menu da Lava Jato, como o Brasil inteiro bem sabe há alguns anos”.

Agora, outra informação que Nassif não aborda, mas que merece preocupação. A Lava-Jato era uma usina de arapongagem, com ações em todas as frentes, incluindo o mundo das comunicações, da internet, dos telefones.

Moro fez arapongagem fora da lei quando grampeou os telefones do escritório dos advogados de Lula, para antecipar-se às suas estratégias. Admitiu o grampo, mas disse que cometeu um erro, porque imaginava que os fones do escritório eram os da fundação mantida por Lula. Uma desculpa esfarrapada.

O ex-juiz poderia agora acionar esses arapongas para dar sustos? Mas sustos em quem? Em qualquer pessoa que ele considerar uma ameaça às instituições, como fez na Lava-Jato com o argumento da caçada a corruptos.

A polícia nazista perseguia com preferência os judeus que tinham gatos em casa. Porque Hitler odiava os gatos.

O AMEAÇADOR

“Não cabe ao Poder Judiciário ser guardião dos segredos sombrios dos nossos governantes.”
Juiz Sergio Moro, no dia 27 de novembro de 2017, em evento promovido pela revista Veja em São Paulo.

Pois agora são os segredos sombrios de Sergio Moro e dos procuradores que estão sendo denunciados, e não cabe a ninguém, muito menos ao Judiciário e tampouco ao Ministério Público, tentar proteger o ex-juiz e seus cúmplices.
Judiciário e MP não podem ser acobertadores dos delitos cometidos pelo ex-juiz e os procuradores que ele manobrava como bem entendia em Curitiba.
Mas o procurador aposentado (aos 55 anos) Carlos Fernando dos Santos Lima, que atuou na força-tarefa da Lava-Jato, emitiu uma nota em que ataca o Intercept e ameaça:
“Lembro, por fim que a liberdade de imprensa não cobre qualquer participação de jornalistas no crime de violação de sigilo de comunicações”.
Pela parte que me toca ao compartilhar o que o Intercept publica, digo apenas que não temo as ameaças do ex-procurador, que aparece nos diálogos como submisso às ordens de Sergio Moro.
O jornalismo não pode ser guardião dos crimes cometidos por homens que diziam agir em nome da lei e envolveram o Ministério Público na caçada de um juiz obcecado por um ex-presidente.
Alguém deve temer alguma coisa nesse momento. E não são os jornalistas que denunciaram o conluio.

Os homens atormentados da Lava-Jato

Sentimentos pessoais, particulares, quase íntimos são revelados por essa Parte 6 da #vazajato do Intercept, divulgada hoje com mais diálogos entre Sergio Moro e os procuradores.
As entrelinhas dos diálogos, as frases só aparentemente submersas naquelas articulações cerebrais, denunciam que aqueles homens eram e ainda devem ser encantados por Lula.
Instigados pelo juiz, que busca desesperadamente derrotar Lula, os procuradores submissos às suas ordens agem como crianças numa gincana escolar.
Mas com um sentimento que não conseguem esconder, uma admiração apertada no peito pela figura de Lula, o réu especial que eles teriam de subjugar a qualquer custo, não no processo, mas no esquema de propaganda que pretendiam montar com a ajuda da imprensa.
Os diálogos expõem essa tensão ofegante no ambiente da Lava-Jato. Muito mais do que delitos, os vazamentos acabam por expor homens tomados por um encantamento que os sufoca e oprime. É preciso agir rápido e ser mais esperto do que Lula.
Moro e os procuradores acabam por denunciar dentro deles uma aflição que os excita e os mobiliza. Essa agonia é detalhada em cada uma das conversas dessa Parte 6.
Eles precisam derrotar publicamente a inteligência, a astúcia e a força de Lula. Os homens da Lava-Jato foram atormentados pela sedução exercida por Lula e por isso eram consumidos por aquela pulsão que aparece nos diálogos e também por isso sofreram tanto.
O ex-juiz é o que mais sofre até hoje. O sofrimento de Sergio Moro é teatral, rodrigueano, é um dilacerado sofrimento de palco.

OS CONFLITOS DO EX-JUIZ

Tivemos hoje em Brasília uma situação bem Brasil da Lava-Jato. Sergio Moro encontrou-se com o presidente do Supremo. A imprensa noticiou que ele e Dias Toffoli trataram do vazamento de mensagens trocadas pelo então juiz com procuradores.

Tudo bem? Numa situação de normalidade, sim. O ministro da Justiça deve interagir com autoridades de todos os poderes, incluindo autoridades da mais alta Corte de Justiça.

Mas há um detalhe. Moro tem interesse no julgamento do dia 25 no Supremo, que pode colocar a Lava-Jato sob suspeição e determinar a soltura de Lula.

Moro coordenou a Lava-Jato numa vara especial de Curitiba. E condenou Lula por conta dessa tarefa especial.

E aí alguém pode perguntar: mas como separar o Sergio Moro ex-juiz que condenou Lula e teve sua comunicação devassada do atual ministro da Justiça, se ambos são o mesmo homem?

Agora não dá mais. Mas antes daria, se essa cena fosse tornada impossível. Seria simples, se no Brasil as coisas não fossem tão confusas e não houvesse tanta mistura de interesses e desejo de poder.

Seria simples se o juiz tivesse continuado como juiz ou se, depois de se decidir pelo afastamento da magistratura, optasse por fazer outra coisa na vida.

Mas Moro decidiu ser autoridade de um governo de extrema direita. Ele optou, mesmo em meio a reações contrárias do próprio Judiciário, ser ministro da Justlça do governo beneficiado pela prisão de Lula. E agora é acusado de ter condenado Lula injustamente.

O ex-juiz e o ministro são a mesmíssima pessoa. Não há como separar, por mais que ele e Dias Toffoli tenham tentado.

Se ele não estivesse nessa posição de ministro e ao mesmo tempo de parte interessada no julgamento do dia 25 (mesmo sendo ex-juiz), tudo estaria mais próximo do normal.

Mas com Sergio Moro nada nunca foi normal. Muito menos agora. Tudo é anormal, muito anormal.

A RESPOSTA AO CONDENADO

Bolsonaro desrespeitou a Justiça e publicou hoje uma nota com pedido de desculpa esfarrapado à deputada Maria do Rosário.

A Justiça condenou Bolsonaro por danos morais por conhecidas agressões verbais à Maria do Rosário em 2014, quando fez inclusive incitação ao estupro. Uma juíza determinou que ele publicasse uma nota de retratação. Não publicou nada.

Bolsonaro mandou que publicassem hoje um texto em que volta a atacar a deputada e que me nego a reproduzir aqui.

Recebi agora uma nota dos advogados de Maria do Rosário, em que eles e posicionam sobre o deboche de Bolsonaro, anunciando que irão recorrer mais uma vez à Justiça.

“Nota da Assessoria Jurídica da Deputada Maria do Rosário

Na tarde de hoje (13 de junho) foi publicada “Nota de retratação” de Jair Messias Bolsonaro – presidente da República – em decorrência de condenação judicial nos autos da ação de indenização por danos materiais e morais movida pela deputada Maria do Rosário (Processo 2014.01.1.197.596-2).

Após a primeira frase da nota em que consta a palavra “desculpas”, todos os demais trechos se dedicam, em contrariedade à determinação judicial, a tentar justificar a conduta do réu no ano de 2014. Ademais, a nota veicula informações inverídicas, como o fato de que a ofensa dirigida à parlamentar teria sido uma resposta a suposta ofensa proferida pela deputada.

O processo atestou a falsidade desse fato e comprovou que as ofensas disparadas por Jair Bolsonaro contra a deputada Maria do Rosário não guardavam qualquer relação com sua atividade legislativa, razão pela qual não se encontravam protegidas pela imunidade parlamentar.

Portanto, não é razoável que, no momento de dar efetivo cumprimento à decisão transitada em julgado, com reparação à pessoa ofendida, o réu se valha dessa oportunidade para renovar os debates sobre os fatos já superados ao longo do processo e subverter aquilo que foi reconhecido pela Justiça. Tampouco é razoável que o réu aproveite essa oportunidade para tentar, uma última vez, justificar sua injustificável e inaceitável conduta.

O processo judicial que resultou em sua condenação se debruçou cuidadosamente sobre os fatos e, diferente do que afirma a nota, entendeu que a conduta de Jair Bolsonaro no episódio, longe de ser justificável, foi ilícita, resultado em ofensa à honra e à dignidade da deputada.

A postura do réu na referida nota, ao tentar justificar conduta considerada ilícita pelo Poder Judiciário, não é compatível com a afirmação de defesa e respeito às mulheres brasileiras.

Diante do exposto, a assessoria jurídica da deputada entende que a “Nota de Retratação” tal como redigida não atende à determinação da Justiça. E por este motivo, essas questões serão levadas ao conhecimento da Exma. Magistrada responsável pelo cumprimento da decisão judicial.
Dr. Cezar Britto
Dra. Camila Gomes
Dra. Yasmin Yogo
Dr. Rodrigo Camargo”.