Um homem distraído

Vi José Serra ontem, na TV do Senado, enquanto a Comissão dos Maus Tratos fazia uma pausa antes de ouvir Gaudêncio Fidélis.
Serra está bem prejudicado. Falou sobre gestão fiscal e deu tantas voltas, confuso e distraído. Às vezes, parecia que iria falar dos Brics, mas ele nem sabe o que são os Brics.
Serra quer disputar o governo de São Paulo. Mesmo assim, meio dispersivo, meio lento, pode vencer. Os paulistas adoram o metrô, a merenda, a farinata, a impunidade e a agilidade dos tucanos. Vá entender.
(E ninguém mais fala daqueles R$ 23 milhões que foram parar na Suíça. Serra é tão distraído que aquele deve ser um dinheiro perdido.)

Minuto a minuto

A nova política de preços da Petrobras para a gasolina, que anuncia aumentos todos os dias, chegará à perfeição quando os reajustes forem a cada minuto.
Quando começar o abastecimento do carro, o preço será um, e quando o tanque estiver cheio, o preço será outro. O posto fará uma média entre o preço inicial e o preço final na bomba.
Ao final do mês, os postos da Petrobras farão um sorteio. O vencedor receberá uma panela e um diploma de consumidor otário daquele mês, assinado pelo alegre Pedro Parente.

Tucanos e gênios

Chegou o dia da grande fraude da Black Friday. Vários jornais fizeram essa semana a mesma reportagem de todo ano mostrando como as lojas manipulam os preços e as promoções às vésperas da falsa liquidação.
Mas as pessoas saem a comprar qualquer coisa, porque são crédulas. Se alguém dissesse que a Lava-Jato está liquidando tucanos corruptos empalhados, que estão presos nas gaiolas de Curitiba, muita gente iria acreditar.
Acreditaria na liquidação porque acreditaria que há tucanos presos em Curitiba.
(Por falar em Lava-Jato, a Folha traz hoje mais uma entrevista constrangedora para as redações. É uma longa conversa de compadres com os procuradores Deltan Dallagnol e Carlos Fernando dos Santos Lima. Só para que os dois digam que são gênios da investigação e da comunicação. Tudo na maior camaradagem de assessoria de imprensa e sem perguntas incômodas. A entrevista prova que a Lava-Jato ajudou a depreciar o jornalismo.)

ADIÓS, LUCIANO HUCK

Dizem que Luciano Huck seria o candidato da Globo. Mas, falando sério, não há como Huck pretender estar num cargo que seria o maior incômodo para os Marinho. O que eles ganhariam com isso, Huck e os Marinho?

Primeiro, a Globo não precisa de um subalterno para mandar no país. A Globo sempre teve prepostos obedientes e subservientes (ficamos sabendo que até mesmo na Justiça de primeira instância).

Os Marinho desentenderam-se com o jaburu. Mas já está tudo acertado com os prováveis candidatos da direita que poderão disputar para valer a sucessão do Quadrilhão. O jaburu foi acidente de percurso para a Globo, que um dia, quem sabe, iremos decifrar.

Um Huck candidato iria expor a Globo a um julgamento para além das redes sociais. Os rolos com a máfia do futebol chegariam à campanha. Estariam em todas as TVs. Sairiam das bolhas.

Imaginem Lula (ou Ciro Gomes) triturando Huck num daqueles debates em pé, em que o moço certamente iria dizer que poderia transformar o Brasil num grande auditório. E Lula e Ciro batendo nas propinas da Fifa. E Huck dizendo que não tem nada com isso.

Vamos supor até que ele vencesse a eleição, depois de levar muitas bordoadas. E daí? Como governar sendo o presidente eleito pela Globo? Como enfrentar os rolos? Como conciliar interesses dos outros canais de TV?

A Globo viveria num inferno. Os Marinho não precisam de um empregado como dono do poder. Nunca precisaram disso. Luciano Huck, que já teria desistido da candidatura, deve ter sido chamado num canto e acalmado.

Huck não teria êxito como político, nem depois de sair da Globo. Chegaria ao governo, formaria sua patota, se transformaria numa figura decorativa, sob o mando de um Henrique Meirelles, mas não ganharia nada com isso. Nem ele nem a Globo.

Huck foi a pior invenção da direita até agora. Pior do que Bolsonaro. A direita tem Alckmin, e esse sim é perigoso.

A PROPINA DA GLOBO

Está protocolada no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) uma representação em que PT, PDT e PSOL acusam a rede Globo de ter ferido a concorrência no caso de propinas da Fifa.
Os partidos também acionaram a Procuradoria-Geral da República para que investigue o crime denunciado por um delator. E ainda pediram ao Ministério da Ciência e Tecnologia que casse a concessão da TV, porque a Globo, ao pagar por fora para obter licença de transmissão de jogos, feriu a Lei Geral de Telecomunicações.
O que vai dar disso tudo? Nada. Nem no Cade, nem no MP e muito menos no Ministério do jaburu. Talvez dê alguma coisa na Suíça ou nos Estados Unidos.
Só teria alguma consequência aqui se tivesse uma reforma em uma cozinha ou se achassem pedalinhos e barcos de alumínio. Não vai dar nada. Nunca dará nada. Nada, nada, nada. A não ser que um filho do Lula apareça na história como homem forte da Fifa.

O homem sem bateria

Não se vê mais ninguém sentado. Apresentadores de TV falam andando. Políticos passam mensagens caminhando. Reuniões de empresas são realizadas sem cadeiras. O mundo não senta, porque a moda é ter pressa.

Os políticos que andam tiveram um clássico na última eleição em Porto Alegre. O candidato a gestor, que depois iria virar o prefeito Despacito, não parava de andar na propaganda de TV.

O eleitor ficou impressionado. Este homem não senta porque é dinâmico, é ágil, é realizador.

As pessoas sentadas passam uma ideia antiga, associado aos líderes reflexivos do século 20. Estes estão fora de moda. Nada mais fora de moda do que aquela imagem do pensador.

Os homens do século 21, os gênios do mercado financeiro, do Estado mínimo, do Quadrilhão, do Trump, do Macron, do Macri não param.

Mas aí descobre-se que quase tudo é marketing e enrolação. Porto Alegre nunca teve um prefeito tão alheio às demandas mais elementares da cidade. Nunca Porto Alegre esteve tão imunda, tão esburacada, tão mal cuidada. Porto Alegre é uma cidade peluda, escabelada.

O sujeito que andava sem parar na propaganda eleitoral é hoje um homem estacionado que agride a população, por não corresponder a nada do que prometeu, agride adversários e ataca até aliados políticos.

Porto Alegre não sabia que o gestor era, na verdade, um velho deputado medíocre apenas com aparência de jovem. Tão medíocre que muitos não sabiam que ele era político.

Nada é mais antigo do que o gestor de Porto Alegre. A cidade nunca teve um prefeito tão lento, tão devagar e tão refratário a conversar e a ceder.

Porto Alegre foi engambelada pelo sujeito que andava sem parar porque, se parasse, teria que se submeter ao sofrimento de pensar em alguma coisa.

E, quando para e pensa, em Paris, ele tem a ideia de instalar carregadores de celular nas paradas de ônibus. Porto Alegre elegeu um prefeito sem bateria e sem carregador.

Mujica

Esta é a faixa que 40 integrantes da Confraria da Praça Nova, do Alegrete, levarão a Livramento nesta terça-feira, para o evento em que Pepe Mujica receberá o primeiro título de doutor honoris causa concedido pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa).
Esta turma e o meu amigo Tom Madalena, que estará lá em nome da Editora Diadorim, entregarão ao homenageado meu livro de crônicas Todos Querem Ser Mujica. No Alegrete, poucos não são Mujica.
Há coisas, como esta confraria que ocupou uma praça, que só existem no Alegrete.

Malas

É sobre malas a primeira declaração de impacto do novo diretor da Polícia Federal, Fernando Segóvia. Segundo ele, “uma única mala” talvez não dê o que ele chama de materialidade, para definir se há ou não um crime. Por isso uma mala não é suficiente para incriminar o jaburu.
Conclui-se que a Polícia Federal só lida com muitas malas. Tipo as malas do Geddel. Uma mala para o jaburu (carregada pela mula Rocha Loures) e uma mala para Aécio (levada pelo primo-mula Fred Pacheco) não são grande coisa, segundo o novo diretor da PF.
E nós aqui achando que uma mala é uma mala. Uma mala com R$ 500 mil, pelos novos critérios para definir crime, talvez não seja nem uma pochete. O que será que a turma de Curitiba tem a dizer dos conceitos do delegado sobre mala e malas?

Jocosos

Quando não tenho nada para pensar, como numa segunda-feira ensolarada, penso na frase de Sergio Moro sobre Aécio, ao explicar em recente entrevista à TV a famosa foto com o mineirinho. Esta é a frase:
“O senador é uma pessoa espirituosa e tem seus momentos jocosos”.
O que Aécio teria dito de jocoso para Sergio Moro? Sergio Moro tem tanto tempo de convivência com Aécio (e com que frequência?) para poder defini-lo com tanto carinho e tanta graça?
E às vezes, quando não tenho nada para pensar, em penso também em Tacla Duran. Este eu acho mais jocoso do que Aécio. Mas não sei se o juiz tem a mesma opinião.