BARBOSA

Adiós, Bolsonaro. Adiós, Marina. O candidato da vez agora é Joaquim Barbosa. Pelo menos até a semana que vem.
Se Barbosa deslanchar, será a vez de desconstruir Alckmin, para que ele não atrapalhe, na mesma faixa, a corrida do juiz do mensalão.
Depois de Aécio, Alckmin poderá ser comido pela Globo e pela direita. É só acionar o Ministério Público e o Judiciário.
(Agora, imaginem Barbosa, com aquela empáfia e aquele tom de quem recita Castro Alves, participando de um debate.)

Silêncios

Quem vai contar em detalhes como se criaram as falcatruas do grupo que geria os fundos envolvidos no projeto de ‘revitalização’ do Cais Mauá? Quem vai dizer qual era a relação da antiga administração do consórcio com a atual e porque uma passou o bastão para a outra? Passou mesmo?
Como ninguém desconfiava dos rolos, se havia até mesmo ostentação dos envolvidos com carros de luxo, festas e outros exibicionismos?
Onde estava o jornalismo da chamada grande imprensa enquanto o projeto era levado adiante, quando se sabe agora que eram fortes os indícios de fraude e lavagem de dinheiro?
Pela investigação da Polícia Federal, um esquema mafioso, com operações também fora do Estado, estava se adonando de uma área pública nobre (e histórica) de Porto Alegre, com fortes aliados, sem que os controles apontassem o que só agora se revela.
Silêncios, silêncios…
(Sempre lembrando que o Jornal Já e o site Sul21 sempre acompanharam de perto as controvérsias.)

O homem e suas encruzilhadas

A decisão do Jornal Nacional de transmitir resumos dos discursos dos ministros do Supremo, todas as noites, por qualquer motivo, parece ser um truque para que a população se convença de que não entende mesmo nada do latim que eles falam e das decisões que tomam.
Hoje, o ministro Edson Fachin reforçou uma sensação que passa desde que assumiu. Parece que vai rezar uma missa e depois usa a entonação e as pausas de um sermão.
O ministro não é nada do que esperavam dele, ou esperaram demais, ou Fachin é o homem que finalmente se revela diante das grandes encruzilhadas. E que encruzilhadas.

A espera

A grande imagem inspiradora da resistência. O bravo Leonardo Boff levando chá de banco da Polícia Federal, ao tentar e não conseguir visitar Lula em Curitiba.
Boff foi barrado na portaria, por ordem de uma juíza.
Estamos com Leonardo Boff e Adolfo Esquivel com Lula até o fim.
(Esta foto sensacional, que parece um quadro de Edward Hopper, foi feita pelo Eduardo Matysiak).

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OS PREDADORES DO CAIS

Os adoradores do empreendedorismo a todo custo devem estar abalados de novo, entre os quais muitos jornalistas. A Polícia Federal bateu agora nos investidores da ‘revitalização’ (a palavra é usada por eles) do Cais Mauá.
O projeto do cais está contaminado por fraudes e lavagem de dinheiro. O capitalismo brasileiro dos predadores de espaços públicos trai até os jornalistas fofos que formam sua claque.
E muita gente acha que tudo é feito ‘pelo bem da capital’. Porto Alegre há muito tempo não é mais uma cidade, é um negócio.
As máfias escolheram Porto Alegre.

O SUS E OS EGOÍSTAS

Volto a falar sobre a ameaça de ‘mudança’ no SUS. É mais do que ingênuo, é calhorda o argumento de quem acha que pessoas com planos de saúde não podem brigar pela melhoria do SUS, agora sob ameaça de extinção. É como dizer que os que têm carro não podem opinar sobre os dramas de quem anda de ônibus.
É um raciocínio individualista de quem pensa que nunca usou o SUS e não sabe do que se trata. É um argumento egoísta. É burro, é intelectualmente desonesto.
Defender o SUS é defender a saúde púbica na sua amplitude universal, para todos, sem distinções. Mas há quem queira acabar com o SUS, para que os planos de saúde se adonem de tudo e que assalariados, pobres e miseráveis vivam da benemerência das entidades mantenedoras das casas de caridade, como era antes da Constituição de 88.
Os que acham que nunca dependeram do SUS (cujas estruturas os planos de saúdem usam e abusam) não entendem o que se passa. Eu entendo. Me dediquei por anos a reportagens sobre o SUS, para descobrir que o Rio Grande do Sul é um dos Estados que mais maltratam a rede de saúde pública.
Eu tive do SUS, entre muitas outras coisas, a quimioterapia que um plano de saúde me negou.

OS NEGROS NO MARACANÃ

Foi linda e foi triste a imagem mostrada ontem com 50 mil pessoas no Maracanã. Nunca os cariocas viram tantos pobres e tantos negros desde a remodelação do estádio para a Copa de 2014.
Nunca o novo Maracanã viu tanta gente cantando. E por que isso é triste? Porque aquela é a imagem da discriminação dos pobres pelo futebol, uma imagem rara que dificilmente se repetirá.
O Maracanã teve sua torcida de volta, a velha torcida do maior estádio do mundo, a torcida do Canal 100, porque aquilo era um treino. Não era um jogo.
Um jogo não tem pobres e negros. O Flamengo abriu o treino (porque vai jogar com portões fechados hoje em Brasília) por um quilo de alimento. Só por isso o Maracanã estava cheio de povo.
As máfias do futebol conseguiram provar que os estádios sobrevivem sem povo. Pobre só entra no Maracanã quando pode levar comida para ver treino.
Se não fosse assim, se fosse em dia normal, o Maracanã estaria cheio de brancos, de gente da classe média e de ricos. É assim em todo o Brasil. É o que se vê nos jogos transmitidos pela TV. Só tem branco, com meia dúzia de negros.
Pobre não entra mais em estádio, não tem como pagar R$ 100 ou mais por um ingresso. Só entra quando tem treino e pode levar um quilo de feijão.
(Esta foto aí é de um vídeo do jornal O Globo)

Alckmin e Amônio

Um gaúcho fino, ex-secretário tucano da Justiça, pensador sofisticado do liberalismo, tão sofisticado que seus artigos são maravilhosamente barrocos, gongóricos e circulares, escreve o seguinte hoje na Folha:
“O PSDB age bem em não sustentar politicamente a posição de Aécio, e Alckmin dá um bom sinal dizendo simplesmente que a lei é para todos”.
Uau. O PSDB age bem em não segurar a alça da mala do Aécio? Alguém poderia ter pensado em segurar?
E a lei é para todos, segundo diz, simplesmente, o sábio Alckmin.
Bota sofisticação nisso. Não é qualquer um que cita Alckmin. o impune, como se citasse Amônio Sacas. Os pensadores tucanos são rococós.

A SEGUNDA OFENSA

Há ofensas que não merecem perdão. Eu jogaria no lixo o pedido de desculpas oportunista da desembargadora Marília Castro Neves à professora com Síndrome de Down, que ela ofendeu em comentário criminoso nas redes sociais.
Marília é a mesma que disse que Marielle Franco “estava engajada com bandidos”. E disse a respeito da professora Débora Seabra: “O que será que essa professora ensina e a quem?”
A togada que desqualificou a professora, a vereadora assassinada e também Jean Wyllys (que deveria ser fuzilado. Por ser gay?) está lá, ganhando seu auxílio-moradia.
E agora escreveu uma carta a Débora. Quase um mês depois dos ataques. UM MÊS. Ficou pensando este tempo todo para pedir desculpas e não sofrer processo interno da magistratura, que não daria em nada mesmo. E aproveita e pede desculpas a Marielle e a Jean Wyllys.
Eu jogaria a carta no lixo.
(Escrevo esse texto pensando nos muitos que já refletiram sobre pedidos de desculpas que não deveriam existir. O pedido de desculpas é muitas vezes mais ofensivo do que a própria ofensa, principalmente quando subestima a capacidade do ofendido de perceber que está sendo agredido pela segunda vez. Um pedido de desculpa como esse ofende a inteligência dos ofendidos e a memória de Marielle).
…..

Aqui está a íntegra da carta, para quem se dispuser a ler um texto quase infantil sobre as agressões.

“Prezada professora Débora,

Estou escrevendo para agradecer a carta que você me mandou e lhe dizer que suas palavras me fizeram refletir muito. Bem mais do que as centenas de ataques que recebi nas últimas semanas. Desculpe a demora na resposta, mas eu precisava desse tempo.

Tenho sofrido muito desde que fui atropelada pela divulgação de comentários meus, postados em grupos privados –restritos a colegas da magistratura. Mas alguém resolveu torná-los públicos. Alguns haviam sido postados há tanto tempo que eu nem me lembrava deles. A repercussão foi imensa.

Desde então, decidi me recolher. Chorei, fui abraçada e pensei muito.

E, de tudo que li e ouvi a meu próprio respeito, foi de você, de quem em um primeiro momento duvidei da capacidade de ensinar, que me veio a maior lição: a de que precisamos ser mais tolerantes e duvidar de pré-conceitos.

Minhas posições pessoais jamais interferiram nas minhas decisões, conhecidas por serem técnicas e, por isso mesmo, quase sempre acompanhadas unanimemente pelos meus colegas de turma julgadora.

Hoje, contudo, percebi que, mesmo quando meu corpo despe a toga, a mesma me acompanha aonde eu for.

As opiniões pessoais de um magistrado, uma vez divulgadas, sempre terão peso, pouco importando ao tribunal das redes sociais que tenham elas sido ditas em caráter público ou privado e que opinião não seja sentença.

Magistrados também erram e, quando o fazem, incumbe-lhes desculparem-se. Esta carta é justamente isso: um pedido de perdão.

Perdão, Débora, por ter julgado, há três anos atrás, ao ouvir de relance, no rádio do carro, uma notícia na Voz do Brasil, que uma professora portadora de Síndrome de Down seria incapaz de ensinar. Você me provou o contrário.

Aproveito o ensejo para também me desculpar à memória da vereadora Marielle Franco por ter reproduzido, sem checar a veracidade, informações que circulavam na internet. No afã de rebater insinuações, também sem provas, na rede social de um colega aposentado, de que os autores seriam policiais militares ou soldados do Exército, perdi a oportunidade de permanecer calada. Nesses tempos de fake news’temos que ser cuidadosos.

Estendo esta reflexão ao deputado Jean Wyllys. Sempre me oporei às suas ideias e às do PSOL, nada mudará isso, mas é evidente que não desejo mal a ninguém.

Obrigada, Débora, por ter me ensinado tanto.

Marilia de Castro Neves Vieira”