O futebol bolsonarista

O caráter do Brasil bolsonarista se manifesta em todas as áreas. Essa dos 102 conselheiros do Vasco que se rebelaram pelo gesto de solidariedade do clube com o Flamengo, pela morte dos 10 atletas adolescentes, é mais uma manifestação de um país brutalizado sob a inspiração de Bolsonaro.
Essas figuras sinistras não aceitam que o Vasco tenha aplicado na camiseta do time, em jogo desta semana, o escudo do Flamengo. Porque usar o escudo de um adversário é desrespeitar os estatuto do clube.
A direção do Vasco homenageou muio mais os flamenguistas do que o rival. Mas vai tentar explicar isso a sujeitos que usam o futebol apenas como pretexto para odiar.
O sentido do gesto é óbvio: dizer que, em meio a um drama coletivo, o futebol é o que menos importa, que a rivalidade não vale nada numa hora dessas.
É um gesto grandioso de solidariedade. Mas a direita não é solidária nem em tragédias.

A funerária Mouro

Vladimir Safatle (artigo publicado hoje na Folha)

Ministro se volta contra os que atrapalham o paraíso distópico de condomínio fechado

Em meio a escândalos de corrupção, servilismo diplomático e descrições de brasileiros como canibais prestes a roubar os primeiros talheres de hotel que estiverem à mão, o desgoverno atual mostra ao menos um eixo claramente organizado de política social.

No primeiro mês, tivemos a flexibilização da posse de armas e a descoberta da proximidade incestuosa entre o clã Bolsonaro e grupos de milícias, além do pacote de medidas do sr. Moro para a segurança pública.

Esses três fatos têm mais relações do que se imagina. Eles são figuras de uma verdadeira necropolítica característica do Estado brasileiro que agora aparece de forma a mais descomplexada possível.

Pois se trata de fornecer as condições institucionais otimizadas para a definição da arte de governar como decisão de extermínio e eliminação. Nota-se agora o eixo efetivo da adesão do núcleo duro dos eleitores de Bolsonaro a seu governo.

Rapidamente caiu o pano do combate à corrupção sem que abalasse a fé de seus seguidores.

Da mesma forma, o discurso de um governo de técnicos competentes não resiste a uma passada de olhos nos currículos do primeiro e segundo escalão de sua gestão.

Um conjunto de pessoas completamente despreparadas, sem nenhuma qualificação técnica efetiva para gerir questões complexas de um país continental. Mas a adesão do núcleo duro não se move por uma razão elementar. O verdadeiro desejo desses grupos está ancorado em uma visão bélica da vida social. O que realmente os move é a possibilidade de aplicar uma política de guerra civil contra as classes que eles veem como ameaçadoras.

Assim, eles podem se indignar contra o crime, mas não passa sequer pela imaginação compreender a existência de milícias como o pior de todos os crimes, pois isso explicita a função do aparato estatal como máquina de medo, chantagem e extermínio.

Afinal, seus avôs aplaudiam a existência de esquadrões da morte e tortura. A promessa de que o Estado irá agora “abater” cidadãs e cidadãos envolvidos com o crime, como se estivéssemos a falar de gado, indica não um deslize de vocabulário, mas uma visão precisa do que significa para alguns “governo”.

Nesse sentido, o pacote do sr. Moro só se explica se o referido for, na verdade, um agente funerário disfarçado de ministro da Justiça. Pois ele equivale a uma condenação de morte, à institucionalização final do extermínio dessas classes que são, desde sempre, objeto da eliminação policial contínua.

Estamos a falar de um país onde a polícia mata, em média, 14 pessoas por dia, segundo dados do 12º Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Só no Rio de Janeiro, 23% dos assassinatos ocorridos no ano passado foram cometidos pela polícia.

Por outro lado, o Brasil hoje tem a terceira maior população de pessoas encarceradas do mundo, além de ser o único entre os seis países com mais presos que mantém um ritmo ininterrupto de aumento desde o começo dos anos 1980.

Mas o sr. Moro acredita que esse número é ainda pequeno, mesmo que não falte estudos demonstrando o caráter contraprodutivo de tal política, com o fortalecimento de organizações criminosas que atuam nos presídios.

O caráter falimentar dessa política não é algo difícil de enxergar. Mas nada disso fará diferença, pois não se trata efetivamente de combater as causas da insegurança social em um país no qual um presidente pode dizer a uma deputada que não a estupra porque ela não merece e vê seu processo ser suspenso.

A questão gira simplesmente em torno do uso do Estado como instrumento aberto de extermínio e amedrontamento de classes sociais vulneráveis. Em casos mais patológicos, trata-se simplesmente de retirar o sentimento de vingança social de qualquer amarra legal.

Assim, o aspecto circense de um presidente cujo gesto fundamental são os dedos simulando uma arma apontada se junta ao semblante duro de um ministro da Justiça que, depois de prender políticos desafetos, agora se volta contra as classes que atrapalham o paraíso distópico de condomínio fechado e muros eletrificados que alguns gostariam de impor ao país.

Professor de filosofia da USP, autor de “O Circuito dos Afetos: Corpos Políticos, Desamparo e o Fim do Indivíduo”.

 

Que se expliquem

A Folha mostra que o laranjal atinge quase todos os partidos, e não só o PSL, que usaram mulheres para pegar o dinheiro da cota do fundo partidário (as mulheres tinham direito a 30% do total dos fundos, que são dinheiro público).
São mais de 50 candidatas que receberam altas somas, segundo levantamento da Folha. O indício é a baixíssima votação (há candidatas com menos de 100 votos), principalmente do Pros, PRB, PR, PSD e MDB..
Algumas trabalharam para outros candidatos, mesmo recebendo muito dinheiro. Parece óbvio que apenas pegaram a verba para repassá-lo a alguém.
A reportagem mostra que o PT repassou parte do seu fundo ao Pros, aliado na campanha nacional, e que os recursos foram parar na conta de laranjas do Pros.
Que o PT explique, e logo, o que isso significa, mesmo que venha a alegar que não tinha controle sobre o uso de recursos distribuídos pelo Pros.

O HOMEM QUE VIROU SUCO

O que o ministro do Turismo tem que o ministro da Secretaria-Geral do Governo não tem? Marcelo Álvaro Antonio, o do Turismo, foi denunciado pela Folha como coordenador de um esquema que usava mulheres de Minas Gerais como candidatas laranjas, para pegar o fundo partidário, que é um dinheiro público. A suspeita é de que ele ficava com a dinheirama e depois dividia entre os parceiros.
O que Bolsonaro fez com Antonio? Nada. Antonio chegou a ser exonerado, para que assumisse formalmente uma cadeira de deputado federal pelo PSL.
Muitos pensaram que o homem havia caído por decreto assinado pelo ministro Sergio Moro, mas no dia seguinte o mesmo Moro assinou o decreto de readmissão.
Já o ex-presidente do PSL Gustavo Bebbiano, envolvido na coordenação da campanha de Bolsonaro e agora ministro da Secretaria-Geral, também usou mulheres laranjas e está sendo fritado pelo pai e pelos filhos Bolsonaros.
Bolsonaro mandou os garotos baterem com força em Bebbiano, até que ele pedisse a renúncia. Ainda não pediu, mas não vai aguentar.
Os Bolsonaros protegem o laranjal de Antonio e esculhambam com o laranjal de Bebbiano, com quem o pai se nega a conversar.
O jornalismo terá de esclarecer. Antonio tem algum poder que Bebbiano não tem, mesmo que o ministério do primeiro não seja quase nada perto do poderoso ministério do segundo?
Por que os Bolsonaros jogaram Bebbiano aos leões e protegem Antonio? Parece que Bebbiano bailou porque escondeu a grana das laranjas e enganou outros líderes do partido e os Bolsonaros.
Concluindo: desentenderam-se na hora de dividir as laranjas.

SERGIO MORO E A VISITA DA TAURUS

Esta pode ser a suspeita mais grave desde o início do governo. Às vésperas do decreto de ‘flexibilização’ da posse de armas, o ministro Sergio Moro teria recebido representantes da Taurus em seu gabinete.
É gravíssimo. A Taurus, todo mundo sabe, é a grande fabricante de armas do Brasil e da América Latina. Não havia empresa mais interessada no conteúdo armamentista do decreto do que a Taurus.
O PSol mandou perguntar se havia registro da entrada do presidente, Salesio Nuhs, e de um diretor da Taurus no gabinete de Moro.
A resposta, que está agora na Folha online, é ridícula: o ministro nega o acesso a esse tipo de informação e não diz nem sim nem não, em nome do ‘direito à privacidade’.
A lei de acesso à informação e o dever da transparência obrigam ocupantes de cargos públicos a revelarem suas agendas, até porque não estamos em guerra (ou Moro acha que estamos, ou que os altos interesses bélicos da Taurus merecem tratamento de confidencialidade?).
Moro ainda pensa que está em Curitiba, sob a proteção de uma vara especial, da imprensa e da direita que o considera seu ídolo. Não está.
O nada a declarar é típico do período da ditadura. Mas a tentativa de drible de Moro no pedido de informação do Psol já vale como resposta. Está respondido.
(O interessante é que o Palácio do Planalto admite, em resposta a outra consulta do Psol, que Salesio Nuhs esteve na Casa Civil, antes da edição do decreto, e conversou com o chefe de gabinete de Onyx Lorenzoni, Marco Rassier. A Casa Civil não sonega informações sonegadas por Sergio Moro. A Taurus, quando as empresas ainda podiam fazer doações a políticos, foi uma das financiadoras da campanha de Onyx. É tudo misturado. Há mais armas nisso tudo do que as arminhas de dedinhos dos filhos de Bolsonaro.)

ELES NÃO QUEREM NEGROS

Por que muitos locais de atendimento ao público em Porto Alegre (balcões, caixas, guichês, portarias etc) não têm negros?
Falo de lugares de empresas privadas. A sensação é de em alguns locais nunca há negros. Há lojas e restaurantes em que não se percebe a presença de negros.
Em outros lugares, ao contrário, nota-se na chegada a presença numericamente relevante de funcionários negros. Como percebi esses dias em um sushi do Bourbon Shopping Country. De cinco funcionários que vi, quatro eram negros.
Pensei nisso agora lendo uma notícia do jornal Extra Classe sobre outra forma tristemente (e criminosamente) consagrada de discriminação.
A Comercial Zaffari, de Passo Fundo, teve de ser obrigada pela Justiça, por interferência do Ministério Público, a preencher 5% das vagas com pessoas com deficiências.
É lei, mas a empresa não queria saber de pessoas com deficiências. E a Comercial Zaffari (que não é a mesma rede de supermercados de Porto Alegre) emprega 1.600 pessoas. Só vai contratar à força, para não ter que pagar multas…
Mas a minha pergunta lá do começo se mantém: por que algumas empresas gaúchas se negam a ter negros no atendimento ao público em pleno século 21?
Os racistas não precisam responder. Fiquem quietos.
(O link para a reportagem do Extra Classe está na área de comentários.)

A tentação chamada Mourão

Meu texto quinzenal no jornal Extra Classe. E se Mourão assumir o controle do governo, enquanto Bolsonaro se diverte com o Twitter?

(No link embaixo da foto)

Chico e o capitão do mato?

Do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, ontem no Roda Viva, ao ser provocado a falar sobre Chico Mendes:
“O fato é que é irrelevante. Que diferença faz quem é o Chico Mendes neste momento?”
Eles estão se achando. Esse aí, que parece um retrato de sinhozinho do século 19 (acho até que por imitação), é o Damares dos grileiros e desmatadores.
Ele gostaria de ser um sinhozinho, mas na verdade está a serviço deles como capitão do mato engravatado.
Os índios amigos de Chico Mendes já avisaram que estão à espera do sujeito e dos fazendeiros que ele incita a invadir reservas.

Unanimidade?

Um dia de surpresa. Direita e esquerda (e bem identificadas) lamentam a morte de Ricardo Boechat no Facebook. É quase inacreditável nesses tempos de raras convergências entre divergentes juramentados.
Como Boechat era um jornalista de opiniões políticas fortes, um dos lados pode estar equivocado.
É provável também que Boechat tenha conseguido a tão controversa imparcialidade no jornalismo, ao bater no cravo e na ferradura, ou quem sabe ele seja, depois de morto, a unanimidade que finalmente se apresenta para desmentir o que disse Nelson Rodrigues (ou para confirmar).

Quem quiser ver os comentários sobre esta nota que postei no facebook, pode entrar aqui:

https://www.facebook.com/profile.php?id=100012432570594

 

 

UM DESAFIO

Ninguém anteviu o fenômeno Bolsonaro com o formato que passou a assumir quando disparou nas pesquisas. Bolsonaro era basicamente um candidato dos ricos e da classe média antiPT, com um teto (aqueles 18% a 20%).

Mas esse candidato do macho, até então rejeitado pela maioria das mulheres, dos jovens e dos pobres, acabou alargando seu alcance e foi para o segundo turno com 46% dos votos.

Hoje meio mundo pretende explicar a ascensão de Bolsonaro com facilidade. Há textos e mais textos, alguns gigantescos, com o que seria a compreensão quase absoluta do que Bolsonaro significa para quem o elegeu.

Pois agora um lanço um desafio. Quem previu, lá no começo da campanha do segundo turno, e não só como chute, mas com um texto com alguma reflexão articulada, que o governo Bolsonaro ficaria sob o controle dos militares?

E não falo de textos que analisaram, depois da eleição, o começo da formação do governo, porque aí é barbada. Quero ver o que foi escrito lá no começo, quando Bolsonaro vai para o segundo turno com aquela força não prevista.

Quem anteviu ali que Bolsonaro seria um governante com autonomia questionada? Não me interessa saber (porque aí tem textos aos montes) que Bolsonaro contava com apoio de uma grande ala das Forças Armadas. E que os generais teriam influência no governo.

Não é disso que se trata. Quero um texto que tenha antecipado mais ou menos isso: Bolsonaro estará no governo, mas os militares, por ocupação física de espaços, em grande número, estarão no poder.

Alguém que tenha escrito que os militares teriam muito mais do que forte influência, mas sim o controle do governo.
Quem tiver um texto com essa fundamentação de perspectivas, que me mande o link. Mas tem que ser texto mesmo (ou um vídeo, um depoimento).

Não pode ser na base do ouviu dizer, como o Sergio Moro fez com o processo contra Lula. Quero provas.