O grampo

Grampearam Evo Morales dentro de um sindicato de cocaleros. É um dos dramas do golpe: as traições dentro da resistência.
O sujeito gravou a conversa de Morales com um líder sindical e passou o vídeo aos golpistas. Todos os jornais asseguram que a voz é de Morales.
Há na conversa uma clara tentativa de resistir, o que é legítimo a um golpeado. Bolsonaro disse aqui, logo depois de eleito, que iria mandar matar seus inimigos na ponta da praia.
Morales (se a autenticidade da gravação for confirmada) está apenas tentando dificultar a vida dos golpistas que matam índios.

#ÚLTIMO Gobierno de #Bolivia presenta un audio en el que se escucha presuntamente a Evo Morales organizar el cerco a ciudades desde su asilo en México

Publicado por EL DEBER em Quarta-feira, 20 de novembro de 2019

ELES ATIRAM NOS OLHOS

A direita criminosa vai aperfeiçoando suas crueldades. Os policiais chilenos ensinaram os bolivianos a atirarem com balas de borracha nos olhos dos manifestantes.

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Golpe sem reação, só no Brasil. Pelo que se lê nos jornais bolivianos (inclusive os da direita), os golpistas talvez não aguentem o tranco.

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Os pobres bolivianos vão enfrentar o mesmo drama dos brasileiros. Dos 700 médicos cubanos em atividade no país, mais de 200 já foram mandados embora.

Nós assistimos

O jornalismo boliviano mais confunde do que esclarece (o que não é novidade para os brasileiros). Alguns jornais noticiam que cocaleros e governo chegaram a uma trégua.
Outros informam que os manifestantes antigolpe deram hoje 48 horas para que a autoproclamada ditadora interina Jeanine Áñez deixe o governo.
P que importa é que o povo continua resistindo ao golpe. Nós, mais uma vez, ficamos assistindo.
Como assistimos ao que aconteceu na Argentina antes da eleição e ainda acontece no Equador, no Peru, na Venezuela (onde o povo evitou o golpe), no Chile, no Uruguai (onde vão às ruas para advertir que os militares não se atrevam de novo).

LICENÇA PARA MATAR

Começa daqui a pouco o que os moradores dos arredores de La Paz anunciam como o grande cerco pela derrubada da autoproclamada ditadora interina Jeanine Añez.
Gente de toda parte ocupará La Paz, para forçar um recuo dos soldados nas ruas, mas há o temor de uma tragédia.
Esta é a manchete de agora da versão online do jornal El Día:
“14 distritos de El Alto y 20 provincias resuelven cercar La Paz”.
Polícia e Forças Armadas, com a ajuda de milicianos da extrema direita de Camacho El Macho, já mataram nove cocaleros.
E a matança pode ser ampliada com o cerco à cidade. Porque os golpistas devem ter um Sergio Moro boliviano trabalhando muito depois do golpe que derrubou Evo Morales.
A partir de agora, qualquer integrante das Forças Armadas pode atirar para matar em manifestantes, em quaisquer circunstâncias. Assassinos serão anistiados.
Os golpistas deram, pelo decreto 4078, de Jeanine Añez, licença para que os soldados continuem matando sem piedade. Nenhum militar que atirar em militantes da democracia nas ruas irá enfrentar processo por assassinato.
Os assassinos bolivianos estão livres de qualquer punição. Pelo decreto, vale lá o que Sergio Moro quer fazer aqui: que atirem para matar em nome não só do medo e da violenta emoção, mas também da defesa da pátria.
Golpistas e milicianos têm afinidades ‘jurídicas’, em qualquer país e em quaisquer circunstâncias.

MATANÇA

Exército e polícia dispararam contra uma marcha de colonos bolivianos, mataram cinco e feriram mais de 20 hoje à tarde.
A coluna de manifestantes seguia de Sacaba para Cochabamba (foto), onde se juntaria a milhares de pessoas numa caminhada até La Paz.
É a repressão violenta do golpe à reação do povo, que não desiste de ir às ruas. Foram presas 200 pessoas na manifestação de hoje.
A matança que começou com o golpe pode fazer com que Evo Morales tente apressar sua volta ao país. É o que noticiam em La Paz. Como?
Poderemos saber nos próximos dias.

O GOLPE E OS GENERAIS TAREFEIROS

O economista espanhol Alfredo Serrano Mancilla, diretor do Centro Estratégico Latino-Americano de Geopolítica, repete em artigo no jornal Página 12 uma pergunta sem resposta desde o início do golpe: qual foi e qual será o real protagonismo dos militares na deposição de Evo Morales?

Mancilla observa que os generais não assumiram nenhuma liderança ou iniciativa golpista pública e explícita, quando os chamados cívicos (fascistas), liderados por Camacho El Macho, passam a demonstrar que são capazes de derrubar o presidente.

Mantêm-se indecisos e divididos, até a última hora, e emitem finalmente uma nota, em nome das Forças Armadas, que determina a renúncia de Morales, quando o golpe está então consumado. Haveria golpe sem aquela nota dos militares? Certamente não.

Outras perguntas se relacionam com o fato de que a autoproclamada presidente, Jeanine Áñez, trocou todo o alto comando logo que assumiu.

Por que não houve reação? Estava tudo combinado? Mas combinado com uma figura sem expressão?

Quais serão os próximos movimentos dos militares? É provável que assumam posição subalterna e obediente. E que apenas reafirmem a vocação das casernas nessas circunstâncias, com submissão à direita civil.

Talvez se confirme a suspeita de alguns historiadores. Não há mais na América Latina uma elite militar capaz de golpear e levar adiante um golpe.

Não falta vontade, mas falta preparo e sofisticação aos generais da atual geração. O serviço é encomendado pelos civis, com a ajuda dos americanos, e assumido e completado depois por esses mesmos civis, por mais medíocres que sejam.

Os militares teriam se conformado com a condição de serem apenas tarefeiros dos golpistas e dos déspotas que chegam ao poder pelo voto.

O DIABO SÓ OBSERVA

A tática que funcionou aqui foi exportada pelos Bolsonaros. É a imagem mais disseminada desde o golpe, com variações diversas, nas capas dos sites da direita. Luis Camacho com Dios arriba de todos.
Os jornais bolivianos já apostam que o golpista aplicará o golpe também em Carlos Mesa.
Camacho é El Macho, e Mesa é El Flojo. Os militares ficarão com o macho ou o frouxo e fraco?
O macho é o Bolsonaro deles, e o fraco é uma espécie de Temer, um jaburu boliviano.

A IMPRENSA E O GOLPE

Dos grandes jornais brasileiros, apenas a Folha enviou um profissional à Bolívia. Mas o texto que a Folha publica como sendo de Sylvia Colombo na sua página online é frio e burocrático como se ela estivesse em Buenos Aires.
O que fica claro é que a jornalista não deve ter chegado a La Paz (ou chegou há pouco), e a Folha requenta informações dos jornais bolivianos.
O relato de Sylvia não tem detalhes do que se passa na Bolívia, onde a população explodiu em fúria, marchando de El Alto (na região metropolitana) para La Paz.
O que a Folha faz, com textos requentados, é uma saída clássica do jornalismo apressado.
A enviada não está onde acontece a explosão de fúria do povo em defesa de Morales, mas a Folha quer dizer que ela já está lá.
É ruim, porque a jornalista fica mal, por parecer incapaz de captar e narrar o cenário devastado do país golpeado pela extrema direita.

A marcha

A marcha gigantesca saiu hoje à tarde de El Alto para La Paz para enfrentar os golpistas. A extrema direita enfiou a Bolívia numa aventura que pode levar a uma tragédia.
El Alto fica na região metropolitana de La Paz.

#LTahora #LaPaz Armados con palos y gritando “Ahora si. Guerra Civil”, personas que apoyan a Evo Morales marchan por calles de El Alto en La Paz

Publicado por Los Tiempos em Segunda-feira, 11 de novembro de 2019