APOIADORES EM FUGA

Conclusões interessantes a partir das análises de quem acompanhou de perto as manifestações de domingo, principalmente no Rio e em São Paulo.
A direita rachou, não só com a intensificação de ataques dos bolsonaristas a novos inimigos do reacionarismo e do governo, como Rodrigo Maia.
Parte dos apoiadores bacanas de Sergio Moro, da classe média branca e bem situada, agora se nega até a dizer que apoia Bolsonaro. Isso ficou bem evidente em São Paulo.
Mas a conclusão mais importante é esta: o fracasso das manifestações de hoje indica uma redução do apoio explícito a Bolsonaro e à extrema direita.
O apoio passa a ser constrangido. Os que ainda vão pra rua usam como argumento a defesa de Sergio Moro, da Lava-Jato e da reforma da previdência. A extrema direita pôs a correr parte da direita, inclusive a tucana sem pai nem mãe, que vinha apoiando Bolsonaro.
Tanto que o enfrentamento de parte dos bolsonaristas com o MBL explicita e torna público, agora nas ruas, um confronto que vinha sendo de bastidores. Os dois grupos agora se hostilizam descaradamente. Os bolsonaristas enfrentam o MBL porque consideram seus líderes traidores das causas da extrema direita (os ataques ao Supremo, por exemplo) e dos projetos do governo.
Essa extrema direita de raiz apareceu hoje com força principalmente em São Paulo, o que faz com que o MBL e outros grupos sejam quase moderados.
Outro dado: desapareceram para sempre os partidos na articulação da direita que vai pra rua (incluindo o PSL) e se fortalecem cada vez mais os grupos pretensamente à margem da política tradicional (Direita São Paulo, Nas Ruas, Vem Pra Rua).
A extrema direita vai dormir sabendo que parte da classe média que usou Bolsonaro para fazer o serviço sujo pode estar saltando fora. Essa classe média não é do PSL, não é Bolsonaro, não é nada do que existe aí e está apenas à espera de Doria Júnior ou Luciano Huck.
Tem direitista que, por mais que seja antiLula e antiPT, não aguenta esse tranco. Bolsonaro, seus filhos e ala mais enlouquecida do bolsonarismo estão colocando muita gente a correr.

O BOLSONARISTA FIEL

Bolsonaro está acabando com a estrutura de saúde pública, com a distribuição de remédios, com o Mais Médicos, com a universidade pública, com direitos sociais, com empregos e até com as expectativas dos empresários, por mais precárias que fossem.

Bolsonaro é um destruidor de conquistas históricas, de planos e de sonhos. Ele destrói até a reputação dos militares. Mas há um detalhe enfatizado nas pesquisas recentes, que mostram que sua aprovação cai sem parar.

Bolsonaro não perde o apoio da sua base, principalmente dos ricos (gente com diploma, dinheiro, carreira e uma boa dose de ódio de classe, homofobia e xenofobia que saíram do armário).

Uma pesquisa da CNI, há mais ou menos um mês, já havia mostrado isso. E a XP Investimentos e a startup Arquimedes, que analisa a política a partir do comportamento das redes sociais, reafirmaram essa fidelidade essa semana.

O eleitor fiel de Bolsonaro, aquele que assegura uma base de 18% a no máximo 20% do eleitorado, e que puxava sua candidatura até a facada, continua com o homem. É o eleitor macho, bem de vida, rico e da velha classe média, misturado a outras faixas minoritárias, inclusive da classe média baixa.

Os desencantados, que reduziram em um terço o apoio ao homem, desde janeiro, são os que podem ter votado nele, mas não são bolsonaristas de raiz. São os que a Arquimedes chama de neutros, que podem ir para qualquer lado. Muitos são jovens e pobres.

O que as pesquisas revelam é o sentimento geral: o bolsonarista assumido não recua, não se arrepende, não admite erros. Porque tudo o que Bolsonaro faz (destruição dos serviços públicos, reforma da previdência, depreciação da educação e da cultura e exaltação do machismo, da arma e do autoritarismo) é o que esse eleitor pede.

Então, quem olha para os lados na firma, na vizinhança, na família e nas amizades e não vê recuos de bolsonaristas não deve se surpreender. É isso mesmo. O bolsonarista não está frustrado, nem constrangido.

A maioria bem de vida, que é o eleitor clássico da base bolsonarista, acha que não perde quase nada com o desgoverno. E o eleitor de classe média baixa e/ou pobre que aderiu ao apelo da direita, que foi ludibriado em meio a frustrações crônicas e ignorâncias (sim, por não conseguir entender a própria realidade, por acreditar em mentiras e por seguir orientações moralistas ditas ‘religiosas’), esse levará um tempo até se dar conta do que está acontecendo.

Mas a perseverança do eleitor bolsonarista ortodoxo não significa que o bolsonarismo como projeto de fenômeno de massa vá sobreviver. O bolsonarismo talvez estacione nos 20% dos que o percebem como ideia, nem que seja apenas como contraponto ao PT.

O bolsonarismo será cada vez mais um nicho da extrema direita, e apenas isso, enquanto o governo se divide e naufraga e a maioria salta fora. É o que as pesquisas e a realidade estão dizendo.

Esculhambadores

Começa daqui a pouco, às 19h, a sessão especial da Assembleia gaúcha que vai conceder a medalha do Mérito Farroupilha ao deputado Jean Wyllys.

Tem gente que espera manifestações de grupos de uma certa direita, no entorno ou até dentro da Assembleia.

Eles andam inquietos desde o retumbante fracasso das manifestações de domingo no Parcão, quando nem o filho do Bolsonaro apareceu.

Sobra para essa direita bolsonarista tentar esculhambar com os eventos dos outros. Eles andam pedindo um colo.